Academia de Talentos de Abidjan

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Seg., 29.06.2009

Academia de Talentos de Abidjan

Já aqui falei neste espaço sobre algumas academias de formação de jovens jogadores europeias focando-me essencialmente na de Clarefointaine.

Pois bem, agora para terminar esta parte vou "falar" sobre uma das maiores senão a maior "fábrica" de talentos Africana. A Academia de Abidjan.

Abidjan é a capital administrativa da Costa do Marfim e uma das cidades com maior índice de contaminação, criminalidade e pobreza em toda a África. A maioria da sua população é constituída por jovens desempregados que vagueiam pelas ruas nas mãos de máfias organizadas. Neste contexto, o futebol parecia uma excelente saída para escapar desta ratoeira que se torna a existência de jovens africanos aprisionados nas grandes cidades. Foi neste cenário que apareceu o treinador e ex-jogador francês Jean-Marc Guillou. Depois de comprar alguns terrenos na periferia da cidade e em colaboração com o clube local Asec l'Abijian funda em 1994 a primeira academia de futebol de Abidjan.

Nesse ano, mais de seis mil crianças foram prestar provas de acesso. A cola, Kalashnikov e gangs organizados foram abandonados por alguns dias para tentar realizar o sonho de uma vida. Desde então e até hoje, a Academia de Abidjan cresceu até se tornar a referência do futebol de uma das maiores potências em África como é a Costa do Marfim. Jean-Marc Guillou continua como director da academia, mas converteu-se em mais do que um simples técnico. Os miúdos de todos os cantos da Costa do Marfim olham para Jean-Marc como uma forma de tentar escapar das garras cruéis da miséria. A Academia, torna-se uma "ponte dourada" que conduz à Europa evitando a outra opção.

Esta incrível fábrica de talentos já foi capaz de extrair varias pérolas em apenas quinze anos. Kolo Touré (Arsenal), Aruna Dindane (RC Lens), Romaric (Sevilla), Emmanuel Eboué (Arsenal), Didier Zokora (Tottenham), Yaya Touré (FC Barcelona) são oriundos de Abidjan.

A Academia também oferece uma educação mais completa para os jovens marfinenses. A Academia ensina línguas, economia e oferece apoio psicológico para uma adaptação às condições enfrentadas pelos jovens na sua aterragem na Europa.

Mas um facto começou a dar uma outra dimensão a este projecto pouco transparente, que no início era apenas altruísta. Em Junho de 2001, o clube belga do Beveren estava à beira da falência com uma dívida de mais de dois milhões de euros. Então com a ajuda de Jean-Marc Guillou, este ofereceu um milhão e meio de euros, acrescido de quatro jogadores da sua academia em troca de se tornar General Manager do clube. Nesse instante, o pequeno clube belga torna-se uma rampa de lançamento dos talentos emergentes da Academia de Abidjan, um trampolim para sair de África, em condições pouco claras. Na temporada 2002-03, o onze base do Beveren era composto por dez jogadores oriundos da Costa do Marfim. A imprensa belga monta cerco ao que considera um perigo para a sua selecção nacional. No entanto Guillou encontra um aliado inesperado para o seu projecto, um dos maiores formadores de talentos de seu nome Arsène Wenger. Em 2005, Kolo Touré e Emmanuel Eboué ingressam nas fileiras dos "Gunners".

A academia de talentos de Abidjan mantém o seu objectivo inicial de obra social dedicada a formar e a tirar da miséria os jovens marfinenses. Todavia vai seguindo uma deriva cada vez mais mercantilista, desde que Guillou assumiu o poder do Beveren. Interesses de agentes, autorizações de residência e trabalho, e revenda a grandes clubes desvirtuam um projecto cada vez mais transformado em um negócio. Os jogadores surgiram da Academia fruto de um intenso trabalho, como no caso de Eboué e Touré. Ao mesmo tempo, a academia beneficia da reputação dos seus talentos e Guillou engorda cada vez mais os seus bolsos.

Texto: Nélson Neves (Treinador de Futebol).

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