Nii Lamptey, a Estrela Cadente

Nii Lamptey, a Estrela Cadente
Esta é uma daquelas histórias que as mães de aspirantes a astros do futebol internacional deviam contar aos seus filhos, não tanto num contexto lúdico, mas antes numa atitude pedagógica. A mãe de Freddy Adu e de Rabiu Ibrahim provavelmente não contariam esta história aos seus filhos para estes comerem a sopa, apenas porque com as dificuldades que os mesmos devem ter passado nos primeiros tempos de vida, a fome devia ser muita. A história de Adu tem o mítico contexto do "American Dream".
Nascido no Gana, com apenas 8 anos rumou com a sua familia para os Estados Unidos da América, tendo sido reconhecido o seu talento num país onde o futebol é desporto de mulher. Cedo os media encarregaram-se de exacerbar as suas capacidades, fazendo a displicente comparação com o Rei Pelé. Com este ónus, curiosamente o tempo foi passando e nenhum colosso europeu apostou em Adu. Apesar de nunca ter dado o salto para os grandes palcos europeus, deu um rumo evolutivo interessante na sua carreira , quando recentemente foi contratado pelo Benfica.
Quanto a Rabiu Ibrahim, este é o "One million euro baby" de Alvalade - ora não tivesse sido esse o preço do passe - e são grandes as expectativas sobre este jovem jogador nigeriano que o Sporting conseguiu contratar, antecipando-se a monstros do futebol europeu como Real Madrid, Liverpool, Arsenal e Manchester United.
Infelizmente os agentes desportivos tendem a primar pela curta memória, esquecendo exemplos falhados do passado. Neste contexto, e entre as várias histórias de "flops" no futebol mundial, há uma em especial que assombra a carreira de possíveis estrelas, jovens como Adu e Rabiu. Essa história é a de Nii Lamptey, uma autêntica estrela cadente.
Nascido em Accra, no Gana, a 10 de Dezembro de 1974, Nii Lamptey teve uma infância bem próxima daquilo que se pode considerar como o inferno na terra. Maltratado e abusado por ambos os pais, pobre e faminto, o jovem ganês encontrou refugio no futebol onde cedo se começou a destacar pelo seu talento inato.
Esse destaque evidenciou-se em primeiro lugar, quando decorria o mundial de Sub-16 na Escócia. Com apenas 14 anos, Lamptey era já considerado um prodígio entre os seus pares. Atentos a todos estes desenvolvimentos estavam os responsáveis do Anderlecht. Apesar de várias tentativas, o governo Ganês impediu por diversas ocasiões a saída do jovem jogador, facto que atrasou a sua chegada à Europa. Mas a sua determinação de em rumar ao encontro da nova e melhor vida que o sonho europeu lhe prometia, aliada à perseverança do Anderlecht e do seu treinador da altura, o holandês Aad de Mos, fez com que após várias negociações com o governo, Lamptey assinasse aos 15 anos contrato com o clube belga.
Com duas temporadas em grande estilo no campeonato belga, onde cedo ganhou espaço na equipa e se tornou dos jogadores mais importantes, à terceira temporada Lamptey transferiu-se para o PSV Eindhoven, conseguindo o mesmo impacto junto da critica e dos fãs que havia conseguido no Anderlecht. Com 19 anos e depois de todas as atribulações da sua infância, Lamptey havia se tornado um profissional de futebol venerado pelos adeptos da sua equipa, temido pelos adversários e cobiçado pelos colossos da Europa. O menino pobre e faminto de Accra, tinha conseguido o seu lugar na terra prometida do futebol internacional, tornando-se famoso, rico, mas principalmente feliz.
Mesmo a nível internacionalizações pela selecção do Gana, tudo corria de feição a Lamptey. No Mundial de Sub-17 em 1991, foi eleito o melhor jogador da competição superando a concorrência de jogadores como Verón e Del Piero. Essa distinção, valeu-lhe ainda a condecoração e reconhecimento no seu continente natal, tendo sido considerado o 5º melhor jogador africano do ano.
Seguiram-se os Jogos Olímpicos de 1992 em Barcelona, onde o Gana conseguiu alcançar a medalha de Bronze e Lamptey se havia tornado a referência da sua equipa. Em 1993, fez parte da espectacular formação que no Mundial de Sub-20 na Austrália, venceu Portugal por 2-0 (marcando inclusivamente à selecção lusa) e atingiu a final da competição perdendo-a para o "Galático Brasil" da altura. Apesar da amarga derrota, Lamptey continua a dar nas vistas.
Os anos iam passando, as excelentes exibições se sucedendo, a presença determinante nos grandes palcos do futebol mundial - principalmente a nível de selecções - se acumulando, e o prodígio africano andava na boca do mundo como o novo Pelé. O New York Times chegou a considerá-lo como "The Boy Who Would Be Soccer's King". O próprio Rei Pelé, referiu que este seria o seu natural sucessor.
Porém, o Verão de 1994 marcou o inicio da ruína do sonho de Nii Lamptey. Transferindo-se do PSV - onde era uma das estrelas da equipa - para o Aston Villa, um clube de meia tabela da Premier League, essa mudança nunca chegou a ser muito bem compreendida, visto o PSV ser um clube bem mais importante que o Villa.
Começavam aqui a surgir os primeiros indícios relativamente ao possível envolvimento de Lamptey com empresários interesseiros que se aproveitavam da sua ingenuidade. Rumando ao competitivo campeonato inglês, a sua adaptação ao futebol praticado foi bastante difícil e nunca realmente atingida com sucesso. O seu impacto em Inglaterra foi miserável ao ponto de em 1996 Lamptey estar na segunda linha da equipa do Coventry City.
Falhada a experiência em terras de sua majestade, o "buzz" criado em torno das capacidades de Lamptey sofrera um rude golpe, principalmente por este não ter conseguido aguentar a pressão de se afirmar naquele que é considerado por muitos como o melhor campeonato do mundo.
Seguiu-se uma curta passagem por Itália, no Veneza, antecedendo a viajem para a América do Sul, onde Lamptey jogou pelo modesto Santa Fé da Argentina. Aqui, Lamptey viveu a sua primeira tragédia de nível pessoal, com a morte do seu filho recém-nascido Diego. Este tremendo abalo emocional, fez com que este deixasse de jogar futebol durante uns tempos. Depois de recuperar emocionalmente, do Santa Fé rumou para o Ankaragucu da Turquia, passando depois pelo Leiria na temporada de 98-99. Afastado definitivamente dos grandes palcos do Futebol internacional e da selecção do Gana, Lamptey tornou-se um Globetrotter de segunda linha do futebol europeu, não se conseguindo impor em nenhum lado.
A passagem pelo Greuther Fürth da segunda liga alemã, foi mais um episódio negativo na história de Lamptey. Aqui, segundo palavras do próprio, foi extremamente infeliz, nunca se conseguiu verdadeiramente adaptar à cultura e modo de vida alemão, e foi vitima de racismo por parte dos seus colegas de equipa que o ignoravam e se recusavam a partilhar o mesmo quarto de hotel com ele durante os estágios. Para piorar uma situação já de si insustentável e lamentável, Lamptey perdeu mais uma criança, a sua filha Lisa que faleceu pouco tempo depois de ter nascido.
Em 2001 o casal Lamptey rumou para a Ásia, onde Nii jogou pelo modesto Shandong Luneng da China. Provavelmente a equipa mais fraca e com menor nome internacional onde alinhou, mas curiosamente foi aqui que conseguiu recuperar alguma felicidade como futebolista.
Seguiu-se uma passagem pela Arábia Saudita no Al Nassr, passagem essa que antecedeu o seu regresso ao futebol africano, mais especificamente à sua terra mãe alinhando pelo Asante Kotoko. Hoje em dia, com 32 anos de idade, Nii Lamptey joga pelo Jomo Cosmos da África do Sul, clube que representa desde 2007.
São vários os motivos sobre os quais podemos especular, relativamente ao declínio de Lamptey. Más opções e gestão de carreira, ligação com agentes desportivos interesseiros, ou simplesmente muito azar. Nunca saberemos ao certo, provavelmente uma conjugação de todos os factores.
Para Nii Lamptey, confrontado várias vezes com esta reflexão por parte dos jornalistas, não há dúvidas: Este diz ter sido alvo de magia negra e feitiçaria por parte de bruxos que perseguem futebolistas africanos que desonram os costumes das suas tribos, que renunciam à sua religião - no caso de Lamptey o Islamismo - que abandonam o seu país e os seus.
Uma verdade é que apesar de tudo, Lamptey não se sente como um falhado e prefere ver-se como um resistente que passou por muito durante toda a sua vida. Actualmente, além de alinhar pelo Jomo Cosmos, fundou uma escola com o seu nome, iniciativa essa que pretende proporcionar às crianças em dificuldade social uma vida melhor, a vida que ele não teve. Como um pai que perdeu dois filhos, Lamptey quer fazer feliz as outras crianças, contribuindo de forma activa e positiva na sociedade.
Texto: Ivo Alves/Academia de Talentos.
Imagem: Andreas Rentz/Bongarts/Getty Images.