Entrevista com Arsène Wenger

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Qui, 31.12.2009

É interessante falarmos de políticas, qual é a sua política, em que acredita?

Politicamente, sou a favor da eficiência. Economicamente primeiro. Até à década de 1980, o mundo foi dividido em dois blocos, as pessoas ou eram comunistas ou capitalistas. O modelo comunista não funciona economicamente, todos pudemos constatá-lo, mas o modelo capitalista no mundo moderno, também parece ser insustentável. Não se podem ignorar os interesses individuais, mas acredito que o mundo evolui lentamente. Os últimos 30 anos trouxeram uma quantidade mínima de dinheiro para todo mundo no oeste, o próximo passo, politicamente, deveria ser um montante máximo de dinheiro ganho por todos.

Isso teria, então, que ser aplicado a nível mundial, porque se um país tinha um salário máximo, haveria imensa gente a querer sair e ir para um país onde não existissem tais restrições.

Exactamente. Mas se você olhar para o mundo e para o que está a acontecer, o maior problema é a necessidade de um governo mundial. Não há outra saída. Acontecerá, talvez daqui a 50 anos, mas isso vai acontecer. Caso contrário, você apenas transfere o problema de um país para o outro. Já não se dá o caso de uma pessoa estar isolada como um empregado, desinteressada daquilo que se passe nos outros países. Hoje em dia, toda a gente está relacionada.

Isso é lógico, a inter-dependência requer uma autoridade unificadora para se certificar que as regras estão a ser aplicadas e cumpridas.

Sim, todos nós vivemos agora como se isso não fosse acontecer, mas em 50 anos a Europa será quatro por cento da população do mundo. Você acha mesmo que se pode deixar a Inglaterra isolada? A França isolada? Isso é impossível!

Aplicado ao futebol, porém, o que está a sugerir é que deve haver regras globais, que sejam consistentes. Por exemplo, poderíamos ter uma definição de um salário máximo no futebol.

De momento, não me parece. De todo! Mas as pessoas continuam a aceitar que 50 pessoas no mundo possuam 40 por cento da riqueza. Isso é humanamente legítimo? Você pode aceitar isto, sabendo que dois milhões de pessoas têm dois dólares por dia para viver? Eu não acredito que se continue a tolerar isto por muito mais tempo.

Então, como é que consegue conjugar essas crenças que são bastante igualitárias, socialistas mesmo, com o seu trabalho no futebol, que é completamente uma profissão de desigualdades, que muitos pensam ser a síntese perfeita do que há de errado no sistema capitalista?

Eu também acho que vivemos num mundo competitivo, e eu adoro competição. As pessoas que são competitivas devem ser recompensadas. Mas o dinheiro que estou a falar não tem nada a ver com os jogadores de futebol. Jogadores de futebol são assalariados em pequena escala em comparação com essas pessoas. Não são um problema mundial. Os melhores jogadores de futebol do mundo, ganham muito pouco dinheiro quando comparados com pessoas que realmente ganham muito dinheiro.

O que eu quero dizer é que temos visto os primeiros sinais na América, durante a crise económica, de pessoas que se revoltam contra os bónus. Barack Obama disse mesmo que não é aceitável continuar-se a pagar uma quantia tão grande de dinheiro. É o primeiro sinal. Mesmo nos Estados Unidos, um país puramente capitalista, não é aceite. Foi a primeira vez que eu ouvi um presidente dos Estados Unidos dizer algo deste género. Serão precisos dez, vinte anos, mas o senso comum acabará por reinar. Num mundo competitivo nem todos podem acompanhar o ritmo, há pessoas que ficam de fora. Agora compreendemos que é nossa obrigação tomar conta dessas pessoas. Não podemos deixá-los morrer na rua, as pessoas não vão aceitar isso. E isso é certo, também.

Está a articular aquilo a que Tony Blair chamaria a terceira via. Competição, um eficiente sistema económico que gera riqueza e em que as pessoas que são muito, muito ricas, abdiquem de alguma da sua riqueza como uma rede de segurança para as pessoas que estão no fundo.

Talvez a riqueza seja limitada, sim. Mas você tem que recompensar as pessoas que fazem progredir o mundo, aqueles que inventam as vacinas, que inventam aviões, porque são pessoas que trabalham dia e noite, não se deitam na cama à espera do dia seguinte. Pessoas que trabalham de forma a tornar o mundo melhor devem ser recompensadas. No entanto, estas não são as pessoas mais ricas.

Então como racionaliza essa filosofia, tendo em conta o dinheiro no seu desporto? Não se trata apenas dos salários dos jogadores, mas os custos de propriedade dos clubes, das transferências?

Admito que o que eu digo está em contradição com o nosso mundo de futebol, porque o dinheiro parece que tem crescido mais e mais desde que tenho estado nesta profissão. Compare o salário médio de há dez anos atrás com o de hoje e vê que subiu. Mas nós vivemos num mundo competitivo e é por isso que eu digo que um pouco do que acontece agora é o "doping financeiro". No Arsenal, vivemos com o dinheiro que produzimos.

Outros clubes têm rendas artificiais, dos proprietários. Não vivem com o dinheiro do futebol. Temos bilheteiras, merchandising, patrocínios, o dinheiro da televisão, mas nada além disso. A minha luta é para que se viva dentro dos recursos que produzimos e para que se pague aos jogadores de acordo com o nosso verdadeiro potencial, considerando o tamanho do clube. Isso, para mim, é normal.

Mas têm, ainda assim, dívidas enormes.

Temos grandes dívidas, porque construímos o estádio.

Sim, mas uma dívida é uma dívida, de acordo com Michel Platini [presidente da UEFA]. Ele não faz distinção entre uma dívida contraída para financiar a política de transferências de uma dívida que surja com a construção de um estádio.

Bem, isso é um erro. São coisas completamente diferentes. Quando o estádio estiver pago pelo clube, será maior do que antes, com maior capital activo por causa disso. Platini fala, mas ele não sabe que em Londres se pagam milhares de euros por coisas que em França se conseguem por um euro.

Porque tudo é nacionalizado ou municipalizado.

Exactamente.

Então, quando olha para o Chelsea ou para o Manchester City, como se sente?

Eu não sou invejoso.

Irritado? Quando as pessoas não fazem a distinção, que num clube como o seu têm que trabalhar com as restrições económicas, e dizem que não são bem sucedidos?

O que é difícil para mim não é que esses clubes tenham mais dinheiro. Tentamos ir por um caminho diferente, o que, para mim, é respeitável. Resumidamente, estes são os princípios. Eu pensei: "Estamos a construir um estádio, por isso vou apostar em jovens jogadores para que não me veja exposto no mercado de transferências sem dinheiro para competir com os outros". Construí uma equipa, e fomos compensados ao criar um estilo de jogo, criando uma cultura no clube, porque os meninos que vêm com 16 ou 17 anos, quando saem têm um suplemento, de amor ao clube, porque foram educados em conjunto.

As pessoas que se conhecem na universidade, dos 16 aos 20, são, muitas vezes, as relações que perduram na vida. Isso, penso eu, dar-nos-á uma força que outros clubes não têm. E, até agora, temos estado perto do sucesso. Não no ano passado, porque nunca estivemos na corrida para o campeonato, mas antes e, certamente, em 2006, quando chegámos à final da Champions League. A equipa parece-me estar a crescer, mas, de momento, eles não recebem crédito pelo que produzem, e como qualquer equipa que não ganhou nada, ainda há muitas dúvidas sobre se eles podem ganhar.

Como responde, no entanto, às críticas de muitos, inclusivamente de adeptos do Arsenal, de que você tem uma crença tão forte nesta filosofia que agora está preso a ela?

Sim, mas quando nos submetemos a esta filosofia, caímos numa armadilha. Quando CESC FABREGAS tinha 18, 19 anos, pu-lo a jogar em 4-4-2, com Patrick Vieira e vi que não funcionava. Então, tive que decidir sobre se devia deixar o Patrick ir, porque Gilberto Silva e Vieira funcionavam bem, Fabregas e Silva também, mas não podia jogar com Fabregas e Vieira. Mas Fabregas tinha 19 e se não tem jogado, eu sabia que ele haveria de se querer ir embora, o que significava que isso iria destruir tudo, todo o trabalho que tinha colocado neste jogador.

Agora temos uma situação semelhante com JACK WILSHERE. Tem 17 anos e não podemos pedir-lhe para jogar cada jogo e mesmo assim querer ganhar o campeonato, vai jogar alguns jogos, talvez. Mas no próximo ano, estará pronto para jogar o tempo todo, vai querer jogar o tempo todo e se tivéssemos comprado um jogador para a sua posição, acabaria por querer sair. É por isso que ou se tem uma política de compra de jogadores confirmados, de top, os melhores jogadores de 23 anos ou mais, ou se faz como nós. A equipa que temos agora vai chegar lá acima. Aos 22 ou 23 anos, considero que uma equipa é madura o suficiente. É por isso que este é um ano importante para o nosso clube, estou consciente disso. Sei que as pessoas não têm mais paciência.

Acha que esta equipa consegue atingir o topo este ano?

Sim.

E o que é para si o topo?

Vencer o campeonato. É uma afirmação audaciosa, eu sei. Mas o que mais posso definir como o topo? Se eu disser outra coisa vão aparecer pessoas a dizer que eu não quero ganhar o campeonato.

Parece pensar que há perigos na compra de jogadores, porém, isso perturba a dinâmica social do clube; mas suponha que alguém disse que tinha que fazer isso? Suponha que seria demitido se não gastasse 100 milhões de euros este Verão: será que, no final, o Arsenal estaria melhor para a próxima temporada?

Posso gastá-lo num jogador, como o Real Madrid, ou num número?

A decisão é sua.

Ok, eu não sou contra isso. Se têm dinheiro e encontrar um jogador que faça o clube ganhar e possa fazer a diferença, não importa o quanto caro ele seja. Mas não há muitos jogadores no mundo que façam uma diferença real.

Foi por isso que rejeitou o Real Madrid? Quando o contactaram devem ter lhe dito o que ia acontecer. Poderia ter sido encarregue de gerir todo este projecto, com Cristiano Ronaldo e Kaká. Porque não aceitou?

Eu quero acabar o meu trabalho aqui. Eu construí esta equipa, eu quero ganhar com esta equipa e sinto que se a deixasse, estaria, de algum modo, a trair as minhas próprias crenças. É tão simples como isso. Não tem nada a ver com o que o Real Madrid fez. Foi tudo sobre o Arsenal. Tenho um projecto aqui que eu comecei há três ou quatro anos atrás e eu quero chegar ao final do mesmo. Não podia deixar esta equipa, nesta fase do seu desenvolvimento.

Será que não significa tanto para você, então, ser bem sucedido da forma que Real Madrid espera ser esta temporada, apenas por gastar mais dinheiro sobre os melhores jogadores?

Eu acredito no trabalho, nas ligações entre os jogadores, acho que o que faz o futebol grande é o facto de ser um desporto de equipa. Você pode ganhar de várias maneiras, sendo mais uma equipa, ou por ter melhores jogadores individuais. É a ética da equipa que me interessa, sempre. Eu não sou um grande fã de ténis, dos grandes torneios, mas gosto da Davis Cup, porque aí podemos ver espírito de equipa. Eu gosto de golfe quando é a Ryder Cup. É estranho, eu sei.

Parece haver uma tensão entre o homem que se define pela competição, mas que não quer vencer a todo custo, porque recusou o Real Madrid para ficar no Arsenal.

Se tivesse ido Real Madrid amanhã passaria a gastar a todo custo, mas o que eu acho mais importante é olhar para o que se tem no clube e analisar como se pode ser bem sucedido. O Arsenal será mais bem sucedido através da construção do novo estádio, mas não é fácil construir um novo estádio e permanecer onde se está. Olhe para todos os clubes que construíram estádios novos e onde estão agora: Derby County, Leicester City, Coventry City, Southampton. Todos eles desceram.

É também difícil permanecer onde está, aspirando a vencer, mantendo sempre um compromisso de futebol muito atraente?

Sim, mas se eu lhe perguntar qual é a melhor equipa do mundo, você diria que é o Brasil. E eles jogam um bom futebol? Sim. Qual o clube ganhou tudo no ano passado? O Barcelona. Bom futebol. Não sou contra ser-se pragmático, porque é pragmático fazer um bom passe, e não um mau. Se eu tiver a bola, o que devo fazer com ela? Pode alguém argumentar que uma má solução como um chuto para a frente é pragmático simplesmente porque, de vez em quando, resulta?

Descreve o futebol como arte, então? Você vê uma qualidade estética quando o observa, não apenas a funcionalidade e eficiência? É isso que o move?

Eu acredito que a meta de qualquer coisa na vida deve ser a de fazê-lo tão bem que ela se torna uma arte. Quando lemos alguns livros que são fantásticos, o escritor toca-nos em alguma coisa que sabemos que sozinhos não teríamos experimentado. Faz-nos descobrir algo interessante na nossa vida. Se cada um viver como um animal, qual é o sentido da vida? O que torna a vida diária interessante é que tentamos transformá-la em algo que está próximo à arte. E o futebol é assim. Quando eu assisto aos jogos do Barcelona, é arte.

Então, como você reage, subjectivamente, ao futebol? Vê imensos jogos, responde apenas intelectualmente?

Eu descubro coisas que posso usar, que possa transferir para os meus jogadores durante um jogo, mas outras vezes vejo e gosto de um jogo como se desfrutasse de música. Sento-me, e às vezes vou me concentrar apenas durante 20 minutos, mas durante aquele tempo, eu realmente analiso tudo, cada pequena coisa. Quando o jogador tem a bola, o que poderia ele ter feito, o que pode o colega fazer? Outras vezes vejo os jogos e converso com a minha mulher, como um homem normal, cujo trabalho não é o futebol. Há momentos nos jogos em que realmente penso "eu posso usar isto, eu posso desenvolver isto na minha equipa".

Fala do futebol como arte, e claramente tem um significado cultural para si, mas uma grande parte dos centros de vida franceses são em torno da comida e do vinho, e o seu pai era dono de um restaurante, mas isso é algo a que se negou toda a sua vida. É um caso de comprometimento ou sofrimento para com a sua arte de eleição?

Eu sinto que uma pessoa pode praticar durante toda a semana e depois destruir a qualidade do jogo, simplesmente porque os jogadores não comem bem ou porque bebem demais. Isso é estúpido. Trabalha-se durante seis dias a fundo e depois destrói-se tudo o que se preparou. Quero ter ao meu lado tudo aquilo que me torne mais competitivo. Como gestor, tenho que viver como um jogador. Os tempos em que os jogadores podiam sair para a bebida, para as noitadas, sem concentração naquilo que se faz, acabaram.

Está próximo dos sessenta. Isso é muito tempo para se viver como um jogador. Sempre se disse que no desporto as pessoas fazem sacrifícios que são toleráveis, porque só duram até fazerem 35 anos. Parece que vai passar a sua vida toda a fazer compromissos desses.

Sim, mas para toda a paixão há um grande preço a pagar. Digo isto aos jogadores. Quando se tem fome, é apenas o estômago a dizer que eles estão com fome, é apenas uma parte do seu corpo. Quando se está com fome de sucesso, é a pessoa no seu todo, que sempre quis o sucesso. Não é apenas uma parte do corpo que quer vencer na tarde de sábado, há algo na estrutura da personalidade que diz que este é vital para mim e que vale a pena organizar a minha vida em função desse desejo, desse objectivo, desse jogo. Este é o núcleo da vida. Eu faço um monte de coisas que não gosto de fazer. Eu preferiria ser capaz de sair e desfrutar a minha vida, mas acho que amanhã estaria mentalmente morto, esquecido das coisas ou não seria competitivo.

Alguma vez já chegou ao ponto de se questionar se o futebol é assim tão importante que justifique o emprego e dedicação de uma vida inteira?

É claro.

E como responde a isso?

Eu decidi que a coisa mais importante na vida é ter uma meta e correr até ela. Tudo o resto é ainda mais stressante. É pior não ter nenhum alvo. Algures, dentro de todos nós, há o desejo de sentir que somos úteis, que temos algumas qualidades e que podemos demonstrá-las.

E o seu desejo de fazer seria maior do que o da maioria.

Não tenho certeza. O seu “eu” poderia estar a apontar para uma área diferente. Acredito que o desporto de alto nível é uma grande lição. Todos os Sábados há um exame e, se falhares, toda a gente vai dizer que és um idiota. Não estou a julgar, a dizer se é certo ou errado, é apenas a maneira como isto funciona. Quando se perde um jogo, pergunta-se porquê, e podemos decidir que a maneira como preparámos a equipa não foi boa o suficiente. Assim vamos preparar novamente, a partir de segunda-feira, guiados pelo facto de não querermos desapontar as pessoas novamente. Uma pessoa acaba por se tornar rigorosa nos preparativos e foi assim que me tornei a pessoa que sou hoje. Eu sei que pareço um robot.

Será “robot” uma descrição justa?

Sim, na medida em que a minha vida está orientada para a robótica: mas todos os que tenham metas, são assim.

Você tem de ser bem sucedido para justificar esse nível de empenho, então?

Sim.

Portanto, se houve uma situação em que pensou que poderia deixar de ser competitivo como treinador do Arsenal, isso afectou-o directamente no coração?

Nesse caso, teria que responder à questão de saber se eu sou bom o suficiente, ou se é a política que tenho realizado que não é suficiente e se a resposta for sim, então alguma coisa teria que acontecer.

Mas se sua felicidade está muito ligada ao sucesso e fracasso, e se sente que a vida é sobre ter uma meta e alcançá-la, não sendo capaz de atingir essas metas em grande escala, isso iria afectar a sua auto-estima e identidade?

Se quiser ser bem sucedido na vida é porque o que você faz tem significado para você. A escrita, o jornalismo tem significado para você ou você não faria nada. Você quer convencer as pessoas que tem qualidade para o fazer.

Assim sendo, quem é que você está tentando convencer como treinador do Arsenal?

Quando se é gestor do Arsenal, se se perde um jogo, vamos para casa e sentimo-nos completamente doentes. Então pensa, também, em todas as famílias em casa, cujo fim-de-semana morreu ali por nossa causa. Então, sente o peso, a responsabilidade também. Às vezes é bom ignorá-lo, tornando-me um pouco egoísta, porque se pensar demasiado nisso, corro o risco de ficar louco.

Então, olhe para o lado positivo: todas as famílias da equipa para a qual perdeu, estão realmente felizes.

Quando eu estava no Nancy como jovem treinador, o pai de Michel Platini era director do clube. Tínhamos uma equipa muito pobre e ganhávamos um em cada três jogos fora. Um dia ele disse-me: "Sabes o que realmente não aguento mais? Ver o outro banco aos saltos, para cima e para baixo."

Foi assim que se sentiu com Alan Pardew [ex-West Ham United, que colidiu na beira do campo com Wenger, depois de comemorar um golo da sua equipa frente ao Arsenal em Upton Park]?

Sim, pensei sobre o pai de Platini depois disso. Uma das coisas que descobri no Japão veio por assistir a lutas de sumo. No final, nunca se pode dizer quem ganhou a luta, ou quem a perdeu, pois não se deve mostrar a sua emoção, uma vez que isso poderia constranger o perdedor. É inacreditável! É por isso que tento ensinar à minha equipa o que é a cortesia. Só aqui na Inglaterra é que toda a gente põe a língua para fora quando ganha.


Acho que isso explica as contradições que às vezes as pessoas podem perceber em si quando está junto ao campo. Toda a gente o vê como uma pessoa muito cerebral, controlada, e a seguir, a câmara destaca-o e podemos ver que perdeu completamente o controlo.

Claro que isso me acontece, mas em diferentes períodos do ano. Às vezes sinto mais stress ou haverá momentos em que tenho menos resistência ao nervosismo.

Você não pode ser, por natureza, uma pessoa insegura. Uma das coisas que fez neste verão, foi vender dois dos seus jogadores, Emmanuel Adebayor e Kolo Toure, ao Manchester City, uma equipa que é um desafio sério para o seu lugar entre os quatro primeiros, o que me parece ser a acção de um homem muito confiante. Talvez demais.

A verdade, mas há que tirar conclusões e será que se pode parar o Manchester City de criar uma grande equipa? Não creio, porque se nós não vendêssemos o Adebayor, eles teriam comprado o Samuel Eto'o ou qualquer outro, porque têm os recursos, eles têm tanto dinheiro. A minha única questão era saber se nos poderíamos dar ao luxo de vender Adebayor, para onde ele foi é o menos importante.

Descreveu-se como uma pessoa emocional ao responder ao stress. Para além do futebol, é emocional, vê filmes e sente-os?

Não sou extrovertido. Não gosto de mostrar as minhas emoções. No meu trabalho, aprendi muito cedo a dominar as emoções. Posso causar muitos danos se expressar os meus sentimentos à equipe. Depois de um jogo, podem surgir danos irreparáveis se entrar no balneário ou for para a imprensa dizer coisas demasiado negativas. Aprendi a dominar emoções quando estive no Japão. Lá, há pessoas que chegam ao ponto de fazer coisas como um homem que perdeu a esposa de manhã, e à tarde foi trabalhar e nem falou sobre isso. Eles não querem perturbar os outros com os seus problemas.

Mais isso nem sempre é saudável, pois não?

É criminoso para essa pessoa. Sempre que há trauma no mundo, os psicólogos incentivam as pessoas a falar sobre isso, porque é importante que se trate a pessoa. Tenho certeza que pago um preço, por vezes, por guardar tudo para mim.

Como se manifesta?

Não sei o que faz a minha saúde. Sei, isso sim, que paga um preço dentro da minha cabeça, com certeza.

Está a incluir os casos em que minoriza um incidente ou diz que não viu algo mau a acontecer com um seu jogador, quando todos sabemos que viu?

Sim, porque pensamos, "Porque fez ele isto?", mas sabemos que não podemos explicar. Mas, uma vez que tenho esta reputação que me permite dizer que não vi o que aconteceu, mesmo que realmente não veja, ninguém acredita em mim. Mas, outras vezes, eu vi, e se disse que não vi foi para proteger o jogador, por não conseguir encontrar qualquer explicação racional para poder defendê-lo.

É muito disciplinado, você trabalha muito duro, mantém suas emoções sob controle. Como descreveria o seu relacionamento com os jogadores: é paternalista ou meramente profissional?

Compreensivo. Profissional. É também um trabalho em que é preciso ter uma visão optimista da natureza humana ou tornamo-nos paranóicos. Temos sempre que pensar que o jogador quer fazer bem. Eu conheci alguns treinadores muito talentosos, que não suportavam não estar no controlo do que as outras pessoas faziam ou diziam. E é um trabalho onde não se pode ser suspeito. Um treinador está lá para ajudar, então, eu acho que deve ser optimista em relação à natureza humana, deve pensar que, se contribuir da forma correcta, os jogadores vão reagir.

Acha que esse era o problema de José Mourinho [ex-treinador do Chelsea], o facto de suspeitar de toda a gente?

Não o conheço suficientemente bem, portanto não posso julgá-lo, mas foi certamente desconfiado de mim.

E Sir Alex Ferguson [treinador do Manchester United]?

Agora temos um relacionamento respeitoso, mas não foi sempre esse o caso. Tornou-se muito melhor desde que deixámos de competir com o Manchester United, no nível superior.

Vocês tornam-se bons amigos dos outros ‘managers’?

Não. E não tem nada a ver com a qualidade da pessoa. Naquele dia, é você ou eles, daí haver sempre desconfiança. Não se pode ser totalmente aberto acerca dos jogadores, por exemplo. Imagine que você é o manager do Everton e eu vou jogar contra vocês no Sábado. Eu ligo-lhe uma semana antes e estamos a falar. Eu não posso dizer, "este jogador está a tirar-me do sério", porque, nesse caso, você vai saber antes de jogo que eu tenho um problema com um dos meus jogadores. Há treinadores que eu respeito, e respeito o que eles fazem, mas não posso ser totalmente amigável e abrir-me.

É por isso que não se encontra para uma bebida após os jogos?

Na maioria das vezes, sim. O que se pode dizer se ganhou? E se perdeu, tudo o quer fazer, é chegar a casa e preparar o jogo seguinte.

E as pessoas com quem trabalha, não tem de haver uma distância e outro tipo de barreiras com eles, também?

Existe uma distância, porque eu sou o chefe, mas tem que haver confiança ou não daria para trabalhar.

Como se relaciona com os jogadores agora? Tem 59 anos, é de uma geração diferente, vivem em estilos de vida diferentes. Quando era um jovem jogador, em Estrasburgo, por exemplo, veio a Cambridge e tirou um curso de Inglês de Verão, em vez de ir de férias. Era diferente dos seus colegas, mais estudioso, já naquele tempo. O que tem em comum com o balneário?

Eu vim a Inglaterra porque, até então, não me imaginava a viver a minha vida toda apenas em França. Queria ter uma vida internacional e pensei que teria de saber falar Inglês. Tive uma bi-educação em termos de países: Alemanha e França. Era francês, mas com uma grande influência da Alemanha, até no modo de ver futebol, sinto isso. Nasci logo após a guerra, fui educado para odiar a Alemanha, mas isso avivou a minha curiosidade, porque quando atravessei a fronteira, vi que o povo alemão não era diferente, eles só queriam ser felizes também, e eu pensei que era completamente estúpido odiá-los. Então, foi isso que me fez querer viver em todo o mundo.

Mas, desde a mais tenra idade que parece ter tido uma visão do mundo muito diferente, tendo em conta o estereotipo do jogador de futebol.

Fui de férias para a Hungria um mês, também, porque queria entender como funcionava o sistema comunista. Viajei por todo o lado. Voltei para casa convencido de que nunca iria funcionar.

Acha que tem algum jogador no balneário que pensaria assim, agora?

O denominador comum nas equipas de sucesso é que os jogadores são inteligentes. Isso não significa, necessariamente, que sejam educados. Podem analisar um problema e encontrar uma solução. O denominador comum numa pessoa de alto nível de rendimento é que pode avaliar objectivamente o seu desempenho. Se falar com um jogador depois de um jogo e lhe pedir para avaliar seu desempenho, se ele analisar bem, você sabe que ele é o tipo de jogador que vai a conduzir para casa e a pensar "eu fiz isto errado, fiz aquilo bem". A sua avaliação será correcta e, da próxima vez, ele corrigirá. Este jogador tem uma oportunidade. Aquele que jogador que tem um jogo de altos e baixos e diz que acha que foi fantástico, é o jogador com quem temos que nos preocupar. E isto é verdade muito para lá do futebol.

Considerando este processo constante de avaliação, quando é que desliga, quando é que se sente afastado do mundo do futebol - ou isso não existe para si? Será que o futebol domina todos os seus tempos?

Sim. Quando se está à 30 anos neste trabalho, tem que se ser, de alguma maneira, louco, porque não se pode dizer que não houve um impacto psicológico. Uma pessoa vive-o, pensa-o, não há como escapar.

Portanto, há loucura na sua obsessão?

Sim.

Isso é verdade para quem é verdadeiramente excepcional no desporto?

Sim. Trabalhei com Dennis Bergkamp durante 10 anos e nunca vi um homem tão obcecado com cada pequena coisa do foro técnico. Era inacreditável, dentro e fora do campo! Thierry Henry, a mesma coisa. Eu podia ligar-lhe para casa, às 10 da noite, e ele estava em casa. Aos 23 anos de idade. E conversar com Thierry sobre futebol: não dá para vencê-lo!

Faz sempre isso? O telefonema às 10 horas, como um teste?

Na maioria das vezes, não, porque não se pode controlar as pessoas em Londres - e além disso, tenho que ser optimista.

Em algum ponto desejava ser livre desta obsessão? Sente que é uma doença? Não desejava que a sua filha ou a sua mulher parassem de lhe pedir que relaxasse um pouco…

Olhe, Sir Bobby Robson acabou de morrer. Viu a última vez que ele assistiu a um jogo? Era apenas um jogo de caridade, mas ainda havia aquele brilho nos olhos de quando estava num jogo de futebol. Ele poderia ter-se sentado em casa, mas preferiu ir para lá. Ele tinha dois, três dias para viver e foi ali que quis estar. Contudo, o que teria ele feito em casa, ter-se-ia sentado a pensar sobre a morte, cheio de medo? A maneira de fugir disso era ir para a sua paixão.

Tem medo da vida depois do futebol?

É claro.

O que acontecerá às suas paixões, impulsos e desejos quando deixar de estar no topo como manager?

Não posso estar no topo para sempre, porque é preciso força física, alguma força bestial para fazer este trabalho. Você precisa de lutar e vencer. Isso perde-se lentamente ao longo da vida, mas compensa com a experiência: antecipa os problemas, entende mais, é-se mais compreensivo com os jogadores, mas eu ainda acho que vou estar no futebol, talvez como presidente ou outro trabalho do género.

Não acha que há algo mais que gostaria de descobrir?

Arte seria interessante para mim, acho eu.

Quais são os pintores que mais gosta?

De momento, estou mais virado para a abstracção.

Vai a galerias?

Vou porque tenho um amigo meu que é presidente das galerias de arte, em Nice, e quando tenho tempo, vou lá. Portanto, ainda não estou para isso, mas poderia ser interessante.

Já foi a Tate Modern?

Sim, mas antes de vir para Londres como treinador. Não, desde esse momento.

E sobre filmes? Que tipo de filmes gosta?

Vi muitos, principalmente da década de 1970, Fellini, Fassbinder, esse período. O último que realmente gostei foi “The Deer Hunter”. É um clássico! Nos últimos dez anos, não tenho visto muitos filmes.

Então o que vê quando chega a casa?

Futebol. Política. Debates sobre a sociedade. Depois posso desligar quando quero, não tenho que seguir uma série. Os debates políticos em torno das eleições norte-americanas foram fantásticos, tal como em França. Para mim, foi como um Arsenal contra o Manchester United.

Isso é algo que poderia ser, um conselheiro político. Podia ir para a política.

Eu podia ter ido para a política, sim. Há paralelos. O valor da experiência reflecte-se em poder dominar melhor a sua natureza e, na televisão, o político que perde o debate é aquele que fica nervoso. A partir do momento que alguém se torna agressivo, já perdeu. É uma regra básica.

Isso será, provavelmente, verdade também no desporto.

Sim. Isso é o se diz que acerca de Kevin Keegan no Newcastle United, que perdeu o campeonato porque ficou agressivo com Ferguson. Não é verdade, eles perderam o campeonato porque não tinham defesa, mas isso é o que as pessoas pensam. Naquela noite, as pessoas entenderam a mensagem.

 


Quem é o melhor político em debates que já viu?

Nicolas Sarkozy [presidente da França] é bom. Obama tem muito carisma, mas não tem muita prática na política. É um homem que pode mudar o mundo, mas não tem 20 anos de política por trás dele, para não cometer erros. Sarkozy tem 54 anos e se ler os discursos que fez quando tinha 24, percebe que há uma diferença enorme.

Ficou acordado a noite toda para assistir às eleições americanas?

Sim. Tenho amigos meus nos Estados Unidos. Mal Obama foi eleito, chegaram-lhes logo mensagens de texto a agradecer pela ajuda. Foi uma campanha muito bem organizada.

Anteriormente, teceu comparações com os políticos, quando falou sobre a necessidade de dominar as suas emoções, dominando o medo, os nervos. Parece-me essencial que faça isso.

Se pensar sobre a sua educação, vê que é sobre o medo. É o medo de não ser bem sucedido, de decepcionar as pessoas, de se decepcionar a si próprio. As conferências de imprensa são todas sobre o medo. "O que acontecerá se perder? O que acontecerá se não ganhar? Por que não compra jogadores?" É tudo guiado pelo medo.

Então como é que ultrapassa isso, quando as coisas não lhe estão a correr bem e, de facto, faz essas questões a si próprio?

Esse é o grande problema. Quando se permite que se infiltre no cérebro tão profundamente, numa base diária, então acabaremos por nos deixar guiar por este medo, sem perceber, e isso vai arrastá-lo para baixo. Uma vez nesse estado, é muito diferente dizer à sua equipa, "meus amigos, eu acredito que vocês são bons". A vida está cheia de exemplos da influência de convicções, de mentalidade. Você sai de manhã e vê um sinal de boa sorte ou má sorte, e isso afecta o seu humor o resto do dia.

É assim que o efeito placebo funciona, você toma uma pílula que não faz nada, mas acredita que seja útil e funciona. Mas quem é que o levanta quando está em baixo, para quem é que se vira quando tem um problema?

Há sempre alguém, mas eu não estou a falar sobre as dificuldades reais que existem. Eu digo que nós desperdiçamos uma grande parte da nossa vida estando em baixo sem perceber isso, e sem razão. É algo que é realmente importante, porque o tempo na vida é limitado, ninguém sabe quanto tempo vai estar aqui e é estúpido estar a passar esse tempo na mó de baixo. Se estivermos conscientes disso, então não é difícil levantarmo-nos. E, sendo eu um gestor de futebol, que é um trabalho em que todos querem empurrar-nos para baixo, a auto-consciência é ainda mais importante.

Isso afecta-o, a negatividade?

Eu sou um ser humano normal, com deficiências. Este trabalho pode ser como areia movediça quando se perde e é difícil ser-se sempre positivo quando se está a perder jogos.

Para manter esta atitude, então, diz, às vezes, publicamente, coisas que dificilmente aprova na sua mente?

Muitas vezes.

Lembro-me de, há um par de anos atrás, ter dito que ia vencer o campeonato, quando estava seis pontos atrás em Abril, e prestes a jogar em casa do Manchester United, tendo já perdido 4-0 com eles na Taça de Inglaterra. Ficámos todos a pensar: "ele não pode realmente acreditar naquilo".

Concordo, o julgamento objectivo, vindo do exterior, era mais realista, na altura. Por outro lado, não há grandes conquistas atingidas sem a crença de alguém louco.

Sim, tem havido experiências em que o optimismo irracional se tem revelado um bom premonitor de resultados para as pessoas. Há um certo grau dele que pode ser útil…

As maiores coisas na vida têm sido alcançadas por pessoas que, no início, teríamos considerado loucas. E, no entanto, se não tinham tido essas ideias malucas, o mundo teria sido mais estúpido.

Uma questão final sobre futebol. Parece ter havido uma mudança na posição do tabuleiro. Pararam de lhe perguntar e de pedir declarações acerca da quantidade de dinheiro que tem disponível para gastar. Pediu para que o fizessem?

Acho que eles perceberam que isso me colocou sob tremenda pressão, e que não foi útil. Para ser justo, entendo que estejam sob pressão ao pedir essas declarações, também. Mas temos um modelo económico que é facilmente explicável. Agora, que vendemos jogadores, há dinheiro disponível para comprar.

Então, acha que o Arsenal pode atingir os seus objectivos com a estrutura financeira actual, sem convidar pessoas como Alisher Usmanov?

Sim, temos um modelo económico que é viável desde se permaneça no topo. Em seis ou sete anos, será muito fácil financeiramente, mas não faz parte do meu trabalho estar envolvido nisso. Uma empresa trabalha melhor quando todos fazem o trabalho que são pagos para fazer.

Então, nesse caso, não está a pressionar a administração a aceitar dinheiro vindo do exterior?

Eu concordei com uma estrutura para o clube, há quatro ou cinco anos atrás. Acreditava que podia funcionar e estamos, agora, no período em que vamos ver se estava certo ou não. É por isso que esta época é tão interessante!



Texto: Redacção Academia de Talentos.
Fonte: Daily Mail.
Data: 14 de Agosto de 2009.

Comentários

Este sim é um grande

Este sim é um grande treinador e um grande formador de homens e jogadores

Boa noite, Excelente

Boa noite,




Excelente entrevista/conversa, com um grande homem/treinador!




p.s.: aqui fica o url da entrevista original:


http://www.dailymail.co.uk/sport/football/article-1206377/ARSENE-WENGER-...






Cumprimentos,


RuiCosta

grande homen

grande homen

grande treinador

grande treinador

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