Entrevista com Leonel Pontes (Parte 1)
O nosso entrevistado desta semana é LEONEL PONTES, técnico de apenas 37 anos e que conta já no seu currículo com uma passagem de mais de 13 temporadas pelas camadas jovens do Sporting Clube de Portugal. Foi na Madeira que cresceu, mas mudou-se para Lisboa para estudar, e depois de uma curta carreira como jogador abraçou a carreira técnica, sendo treinador da equipa da Faculdade de Motricidade Humana antes de rumar a Alvalade.
Pelas suas mãos passaram talentos como RICARDO QUARESMA, RUI PATRÍCIO, DANIEL CARRIÇO, MIGUEL VELOSO, JOÃO MOUTINHO ou NANI, além de ser um daqueles que mais de perto conviveu com CRISTIANO RONALDO quando este chegou ao Sporting. Nesta primeira parte da entrevista, Leonel Pontes revelou à Academia de Talentos como começou a sua carreira no futebol e fala dos 13 anos que passou nos leões, além de alguns destes jogadores com quem conviveu.
O INÍCIO COMO FUTEBOLISTA AINDA NA MADEIRA
Quando começou a sua ligação ao futebol?
A minha ligação ao futebol começou muito cedo. Comecei com dez anos a jogar futebol no clube da terra. Sou da Madeira e havia um clube que era a Associação Desportiva do Porto da Cruz, onde comecei com essa idade, nas escolinhas e infantis. Depois joguei na Associação Desportiva de Machico nos campeonatos distritais, um dos clubes da AF Madeira. Voltei ao Porto da Cruz para jogar nos juvenis, e no segundo ano fui para o União da Madeira, tive um contrato onde subi um pouco de escalão e de qualidade e fiz três anos lá, muitos bons três anos, já com uma estrutura um pouco mais profissionalizada e competitiva. Depois desses três anos fui emprestado no primeiro ano de sénior a um clube da I Divisão distrital da Madeira, e na altura fiz a pré-temporada com os seniores da União, para a eventualidade de ficar no plantel, e foi nessa altura que houve a possibilidade de eu vir para Lisboa e aí acabei por vir para Lisboa para poder estudar no curso de Educação Física e seguir uma área ligada ao futebol e se pudesse continuar a jogar.
Aqui em Portugal continental joguei no Oeiras, Carcavelos, tive ainda uma temporada no Atlético Clube de Portugal, e na altura lesionei-me no joelho. Jogava nessa altura na selecção universitária, da FMH (Faculdade de Motricidade Humana), que tinha algum peso no mundo universitário. Mas quando me lesionei, foi um bocado complicado e convidaram-me para ser seleccionador da universidade e foi onde começou o mundo do treino por assim dizer.
Quando começou essa carreira no futebol como eram as condições de trabalho?
O que eu posso adiantar da minha realidade como percurso de atleta, foram sempre clubes com grandes dificuldades. Desde os clubes que tinham melhores condições, o Machico era na altura uma equipa com tradição nos campeonatos regionais da Madeira, tanto que nesse ano fomos campeões nacionais de iniciados, ganhámos ao Marítimo, Nacional e União, os mais representativos. O Porto da Cruz não tinha grande representação, era um clube de certa forma de aldeia por assim dizer. O União da Madeira era um clube que já apostava mais, fazia recrutamento, escolhia os melhores jogadores, de certa forma tentava ombrear com Marítimo e Nacional e tinha alguns campos espalhados pela cidade que motivava alguns problemas logísticos, tínhamos de nos deslocar para diversos sítios. Mas depois os outros clubes por onde passei foram clubes com as condições mínimas, um balneário sem condições, os pelados, por exemplo o Atlético já tinha relvado, mas estamos a falar de 1992 ou 93 e são as condições que já existem agora, têm apenas mais um campo sintético. Mas os clubes têm evoluído nesse sentido, modernizaram-se em termos de infraestruturas e a nível humano, mas na altura as condições não eram as melhores certamente.
A MUDANÇA PARA LISBOA, A FMH E O SPORTING
Como apareceu então depois o Sporting?
Foi engraçado, porque às vezes a vida dá-nos momentos felizes, principalmente porque não pensamos muito mais à frente. Sempre vivi um pouco o momento, nunca pensei a minha carreira dois ou três anos à frente, nunca imaginei que a qualquer momento o Sporting podia convidar-me. Mas a verdade é que a partir do momento em que assumi a liderança da selecção da Faculdade, isso obrigou-me a estar mais envolvido naquilo que são as questões do treino e orientava uma equipa, sendo uma equipa de alunos, a maioria que jogava futebol, tinha essa parte de orientação. Paralelamente a isso tive no 4º ano a cadeira de Metodologia do Futebol, onde o Professor era o Jorge Castelo, e no primeiro ano tive um Professor que era o Rui Claudino, que na altura era o professor que colaborava com o Carlos Queiroz na observação de jogos e base de dados e na altura o Queiroz numa reformulação do departamento de futebol jovem do Sporting precisava de dois estagiários a exemplo do que se passa agora, mas quem sabe em moldes diferentes.
O Prof. Rui Claudino ficou com a ideia, que precisava desses estagiários, falou com o Jorge Castelo e tendo em conta o meu envolvimento no futebol e o meu interesse na área da Metodologia do Treino, acharam que eu tinha o perfil para ser estagiário do Sporting e iniciar um processo de treino com os infantis. Ao mesmo tempo eu estava nos infantis na altura com o falecido Osvaldo Silva e responsável pelo lar de jogadores, que na altura havia na Nave do Estádio José de Alvalade.
Falou que não pensava muito no futuro e vivia mais no momento, mas já nessa altura pensou quando veio para jogar para Lisboa ser treinador talvez uns anos mais tarde?
Eu pensava ser treinador, mas não de uma forma obsessiva. Muitas vezes temos essa obsessão de ter alguma coisa e vivemos em função disso. Eu pensava era em viver o dia a dia do meu trabalho, mas quando o fazia tentava fazer de uma forma correcta, e quem sabe se não são esses valores que depois nos levam a ter oportunidades a outro nível. E eu lembro-me que quando assumi a selecção da Faculdade, porque fui indicado pelos meus colegas, aquilo é uma sucessão e eu depois quando saí também tive de o fazer, em função do perfil dos meus colegas dizer “no próximo ano vou embora mas tu ficas com o comando da equipa”.
Muitos dos treinadores que estão na I Liga e II Liga passaram também por este processo, uns de uma forma e outros de outra. Mas nunca pensava que podia ser um treinador de uma equipa grande por exemplo e de ter feito este trajecto até aqui. Pensava que havia uma distância entre o que é o Mundo do futebol profissional, uma I Liga, Taça UEFA e aquele mundo mais baixo de futebol distrital e académico. Mas a verdade é que as coisas vão evoluindo e a civilização vai evoluindo num determinado sentido e acabei por ter uma oportunidade que foi ingressar muito cedo num clube como o Sporting.
E desses colegas que tinha, há algum que hoje também esteja ligado ao futebol profissional?
O que me deixou a equipa ainda agora me estava a telefonar, o Daniel Quintal, que hoje é o treinador do União da Madeira. Sei que o JOSÉ MOURINHO também treinou a equipa da FMH no passado e outros que por aí andam. Sei que o Daniel esteve, o Mourinho também, o Nelo Vingada e o Queiroz julgo que também fizeram parte dessa equipa e muitos outros que estiveram num projecto universitário.
E desde o momento em que entrou no Sporting, e já la vão 14 anos, e até ali à época 2004/2005, onde também começou a ficar mais conhecido do público em geral, fazendo um resumo desses anos anteriores quais foram as funções e responsabilidades que teve dentro do Sporting?
A minha entrada no Sporting deu-se em 1995/96, e ao longo destes dez anos, até 2004 sensivelmente, o Sporting sofreu grandes remodelações, quer a nível de futebol profissional, quer ao nível da formação. Ou seja, de dois em dois anos, de três em três, às vezes mesmo de ano a ano, havia mudanças estruturais.
Às vezes a entrada de pessoas e saída de treinadores e dirigentes obrigou que quem lá estivesse se fosse readaptando a esse processo e o nosso percurso acaba por não ser muito linear, estamos sempre sujeitos às mudanças, às novas directrizes de mudança de directoria na presidência, nos responsáveis pela formação, etc.
Eu quando entrei tinha uma equipa de infantis, trabalhava com o Sr. Osvaldo Silva e trabalhava com a equipa dele, que era o responsável máximo dos infantis, eu ficava com a equipa “B” e ele com a “A”. Quando eu podia acompanhava-o na equipa “A”, mas tinha maior responsabilidade, além de ajudar no treino, orientava essa equipa de infantis de primeiro ano, os Sub-12. Paralelamente a isso eu e o meu colega, Paulo Cardoso, que entrámos na mesma altura, éramos responsáveis pelo lar de jogadores. Tínhamos a responsabilidade dos jogadores entre os 13/14 anos e os 18/19 anos que era entre os iniciados e juniores. E isso era um cargo de grande responsabilidade.
Entretanto nesse ano estive nos infantis, depois trabalhei dois anos nos iniciados, num com o Paulo Leitão e noutro fui o treinador principal, e foi no terceiro ano que houve nova reformulação no Sporting. Criou-se a SAD, que era a partir de Juvenis e para baixo era o Sporting Clube de Portugal. Naturalmente houve uma cisão em termos de investimento e intervenção e eu nessa fase, também por entrarem novas pessoas, com outro tipo de carisma e experiência e eu voltei aos infantis. Ou seja subi um bocado até aos iniciados, não por vontade própria mas por circunstâncias, fui convidado para trabalhar nesse escalão e achei que era uma boa oportunidade, era uma nova experiência.
Depois voltei aos infantis, houve essa reformulação, mas depois no quarto ano em que lá estive houve uma nova viragem, com a vinda do Leonel Velez, um chileno que fez parte de uma remodelação no Sporting, em que o Mirko Jozic é que o trouxe, ou seja nova reformulação. Subi para os iniciados, acabou-se com as equipas “B”, só havia uma equipa e tentou-se de acordo com os ideais do coordenador, que teríamos que reduzir o número de jogadores, reduzir o grupo para ter mais qualidade e menos quantidade, e essa foi uma decisão muito controversa na altura.
Entretanto passam dois anos e houve nova reformulação e passei para os juvenis, também com novas pessoas que entraram e que precisavam de alguém de dentro da casa, e eram pessoas mais experientes que eu, que apesar de estar ali já há quatro ou cinco anos estava ainda a ganhar algum traquejo, e naturalmente que fui passando por todo este processo de reformulação mas ao mesmo tempo fui ganhando alguma experiência naquilo que é a formação do jovem jogador de futebol.
E dessas reformulações todas que falou qual foi aquela que acha que foi mais positiva e outra mais negativa?
Após esse período naturalmente que quando estou nos juvenis, penso que em 2001/2002, estive dois anos nos juvenis com os Sub-17 e Sub-16, na altura o responsável era o LUÍS MARTINS, ele orientava a equipa “A” e eu a “B”. E foram dois anos importantes porque encontrei um conjunto de atletas que conheci em anos anteriores e que acompanhei em todo o trajecto. E ainda voltando à pergunta anterior, depois desses dois anos convidaram-me para trabalhar na equipa “B”, tendo em conta o meu perfil e foram dois anos de uma experiência forte e significativa para mim, e depois disso voltei aos juniores, em 2004/2005, quando o Paulo [Bento] ia iniciar uma carreira e acharam que eu era a pessoa indicada para trabalhar com ele, tendo em conta a experiência que tinha no futebol de formação e tendo em conta os conhecimentos adquiridos.
Em relação aos momentos bons e maus desses dez anos, na altura um momento profundamente negativo, e que toda a gente de bom senso conseguiu traduzir essa ideia, era a redução dos grupos de jovens. Apesar do Sporting não ter as melhores condições, porque trabalhávamos em condições muito difíceis, , para ver os infantis, juvenis, iniciados e os próprios juniores, mas até aos juvenis as equipas não trabalhavam em Alvalade, trabalhávamos em pelados: o Campo dos Sacrifícios, na Musgueira, o Campo da Encarnação, um pelado onde treinavam 40 atletas num campo muito pequeno, na Ameixoeira, em Odivelas, ou seja as equipas de grande número, por exemplo os infantis que tinham 30 ou 40 atletas, juvenis e iniciados com 40 atletas, que eram duas equipas, não era fácil em termos logísticos, ir para Alvalade, equipar lá, ir para a camioneta, andar 30 ou 45 minutos até ao campo, com o treino a acabar quase às 21 horas, voltar ao estádio, tirar o equipamento, tomar banho e ir para casa.
Os miúdos tinham um ritmo de vida muito grande em função da dificuldade logística que o Sporting tinha, mas foi positivo. Criaram-se equipas competitivas, formaram-se jogadores mesmo dentro dessas condições adversas. Mas o menos positivo dessa fase foi a redução do número de jogadores nessa fase e ter de dispensar jogadores que estávamos à espera que crescessem como atletas e eventualmente terem outro tipo de trajecto, e esse foi o ponto negativo. As sucessivas mudanças e a falta de um projecto consistente, porque não ajudavam ao que é o trabalho ao longo prazo, porque era um trabalho sem continuidade.
Um dos aspectos positivos naturalmente foi a criação da Academia, esse foi o aspecto mais significativo e que naturalmente mesmo com os seus problemas porque cada contexto tem as suas vantagens e desvantagens, mas a construção da Academia foi um passo gigante no que é a modernização do futebol, a modernização do futebol de formação e a criação de pressupostos para que o atleta chegue ao Sporting com 13, 14 anos e termos a ideia que ele aos 18/19 tenha sucesso no futebol profissional.
Apesar de todas essas reformulações, como justifica que o Sporting seja visto há muitos anos como a melhor escola de formação em Portugal?
Uma das grandes vantagens é que o Sporting ao longo dos tempos teve o mérito de recrutar grandes jogadores, de grande talento.
Teve o mérito de criar grandes expectativas nos jovens que lá entraram, desde a criação do futebol de formação, que é antes dos anos 70. E teve o mérito de ter pessoas de grande responsabilidade e que foram defensores daquilo que são os valores do Sporting e defensores da qualidade e tiveram capacidade ao longo dos tempos de abranger a sua observação não junto só do centro, nos arredores de Lisboa, mas ao exterior, tentando captar as atenções dos jovens e ter essa capacidade de trazer os melhores.
Se tivermos essa capacidade antes dos nossos concorrentes directos de trazer os melhores, vamos ter a possibilidade ou um caminho mais aberto para que os jovens que são realmente mais talentosos possam vir a singrar no futebol profissional. E o Sporting teve essa etapa, que foi recrutar os melhores. Numa segunda etapa conseguiu de certa forma montar uma estrutura mesmo com alguma dinâmica de direcções, com um sentido de responsabilidade na construção de valores e princípios para o mundo futuro e para o futebol e para o futuro dos jovens. Princípios de solidariedade, de espírito de equipa, de espírito de sacrifício e porque as condições que tínhamos também obrigavam a grande intervenção a esse nível e obrigavam a trabalhar no pelado e com materiais que não são os mais adequados ao que estamos habituados hoje, com menos recursos, menos bolas. E essas dificuldades também fizeram crescer determinados aspectos para o futebol de formação: espírito de sacrifício, capacidade de superar momentos adversos, o sacrifício de ir para o treino, fazer uma viagem de quase uma hora e entre o trânsito, treinar, voltar e foi todo esse espaço que o Sporting proporcionou aos atletas que fez com que hoje o Sporting seja uma escola de referência na formação de jovens atletas.
Quando surgiu essa oportunidade de ir para os juniores com o Paulo Bento e alguma vez hesitou em dar esse passo?
Não, porque na altura lembro-me perfeitamente que nós fizemos dois anos com a equipa “B”, um projecto que acabou por não ter seguimento e acabou por se extinguir no final de quatro ou cinco épocas e por isso para mim ia ser uma nova etapa, num sentido: eu sempre olhei as coisas de uma forma “deixa-me aproveitar mais uma experiência que vou adquirir", e o Paulo era um jogador que eu conhecia, porque tinha estado na equipa “B”, não tinha um conhecimento profundo dele, conhecia apenas como atleta e já tinha tido uma ou duas conversas com ele, mas sentia que podia ser um bom momento para beber um pouco do que era futebol profissional de alto nível.
O Paulo trazia na sua mentalidade e na sua cabeça ideias próprias do que é futebol de alta competição. E isso para mim foi mais uma etapa, fazer equipa com o Paulo, mostrar-lhe o que eram os pressupostos do que é a formação, ajuda-lo no que fosse necessário, mas ao mesmo tempo também retirar dividendos da experiência que ele teve no futebol de alto nível e que eu não tive a felicidade de passar, porque acho que essa é uma aprendizagem única, e ele passou-a, com os jogos de selecção, competições europeias, campeonatos consecutivos, com sucesso, com insucesso também naturalmente mas todas essas experiências eu ia bebe-las todos os dias e para mim essa foi uma experiência gratificante. E isso haveria de culminar com um ano fantástico em que fomos campeões nacionais após 9 anos de espera.
Fomos campeões em 1995/96 e fomos depois em 2004/2005, foram nove anos. Lembro-me quando fomos campeões de juniores em 95/96, porque acompanhei também essa equipa, estava nos infantis mas acompanhava e fomos campeões no Estádio da Luz e depois fomos ao Boavista já campeões e festejámos lá na Luz. Era a equipa do Nuno Santos, do Patacas, do Carlos Fernandes, do falecido Toni Kakinga, orientada pelo Mister Carlos Pereira.
Nessa época em que conquistaram esse campeonato de juniores, em 2004/2005, quais foram para si os momentos mais marcantes?
Nós tivemos vários momentos marcantes. Um dos mais significativos foi um jogo nas Antas, que estivemos a perder 1-0 e a cinco ou seis minutos do fim conseguimos empatar. E esse jogo era determinante para nós, porque se perdêssemos o jogo estávamos fora da corrida e fizemos um grande jogo. O segundo momento foi o último jogo, com o Benfica. Estivemos a perder e ganhámos por 4-1, se não me engano, em Odivelas. E esse foi um jogo marcante porque acho que foi o culminar de uma época, conseguir que uma época de regularidade positiva, conseguimos nesse jogo potenciar tudo o que foi trabalhado, todas as capacidades dos atletas reuniram-se ali naquele jogo.
A nível mental, porque estivemos a perder e demos resposta, tivemos jogadores lesionados, num ambiente de certa forma adverso porque o estádio estava cheio e a pressão era enorme para os nossos jogadores, e nós no meio de um conjunto de adversidades, um penalty logo a abrir, estarmos a perder, ambiente adverso, e eles terem dado uma resposta elevadíssima do ponto de vista mental e técnico-táctico. Foi o culminar de uma época.
Tivemos também um momento engraçado com o Nani, por exemplo. Num jogo em Campo Maior estávamos a sentir que as coisas não estavam a correr bem porque era um jogo com um dos últimos classificados e estavam a facilitar um bocado, e tivemos que fazer uma chamada de atenção logo no inicio ao Nani e fizemos um jogo brilhante onde fizemos oito ou nove golos. Podemos olhar para esse jogo e pensar que foi uma goleada fácil, mas era um jogo que ganhávamos por dois ou três se a atitude fosse má, mas a atitude foi tão boa em função de um conjunto de comportamentos que estavam a ser identificados que a nossa intervenção foi significativa e que eles em 80 ou 90 minutos de jogo tivessem uma postura fantástica independentemente de qual era o adversário, e essa era a nossa luta.
Em campeonatos desiguais nem sempre é fácil manter uma concentração elevada, mas estes são pequenos episódios que se passaram nesse ano e que tiveram peso na construção de uma equipa que culminou na conquista de um titulo depois de nove anos.
Falando dessa equipa nos juniores, o Paulo Bento nos seniores é mais identificado com o 4x4x2 losango, ainda que ele tenha dito recentemente que utilizou um 4x4x2 clássico e pontualmente utilizou outros sistemas. Mas nos juniores, nesse ano de 2004/2005 qual era o sistema mais usado nessa equipa?
Nos juniores, aliás nos projectos de formação, o mais utilizado é o 4x3x3, mas também sabemos que a partir dos juvenis e juniores, é importante que os jogadores comecem a ter rotinas, porque o futuro do jogador de futebol não vai ser naquele sistema.
O futuro vai ser no sistema em que eles tiverem e que o treinador entender ser o melhor para o plantel. É importante que nesse período final do processo formativo, os atletas saibam interpretar os vários sistemas de jogo, não só saber o que o adversário apresenta em determinado sistema, mas também saber-se posicionar noutro sistema.
Se o 4x3x3 é o sistema do ponto de vista de equilíbrio mais homogéneo, porque os jogadores ocupam de uma forma equilibrada todas as zonas do campo e permite de certa forma ter um conjunto de rotinas ofensivas e defensivas que se aplicam a outros sistemas, a verdade é que é diferente jogar num 4x3x3 ou num 4x4x2 losango, num 4x2x4 clássico ou num 3x5x2.
É fundamental que no período final formativo que eles tenham vários sistemas, e nós não jogámos só em 4x3x3, também jogámos em 4x4x2 losango porque tínhamos jogadores com esse tipo de características, para poder implementar esse tipo de sistema e não fugir do nosso modelo de jogo e daquilo que eram os valores e princípios orientadores do Sporting.
Para além do losango e do 4x3x3 que outros sistemas usaram? Lembro-me de ver um 4x4x2 em 4-4-1-1 com o Yannick Djaló a jogar solto um pouco atrás do Carlos Saleiro?
Sim, as alterações de sistema muitas vezes são feitas ao longo do jogo. Podemos ter jogado em 4x4x1x1 por exemplo, em função daquilo que eram as características do jogo no momento e entendemos que deveria ser mudado. Não me recordo ao certo, mas sei que chegámos a jogar com três centrais em que era preciso mudar o cariz do jogo, sei que jogámos em losango, sei que colocámos a equipa em 4x2x3x1 com os médios mais defensivos nos momentos de competição em que obriga o treinador a fazer alterações em função do resultado, da proximidade do final do jogo e portanto essas pequenas oscilações de sistema fazem parte da orientação de um jogo e muitas vezes acredito que haja treinadores que fazem alterações de sistema sem o terem trabalhado porque esse sistema e esse novo posicionamento de jogadores vai permitir uma outra estratégia, mais defensiva ou ofensiva, e às vezes nem se obriga nem há um momento para o trabalhar. Uma coisa é utiliza-lo pontualmente no treino, outra coisa é trabalha-lo exaustivamente para que as rotinas dos jogadores estejam bem definidas.

ALGUNS DOS TALENTOS QUE AJUDOU A “MOLDAR”
Qual foi o seu acompanhamento com o Miguel Veloso antes deste ano nos juniores, já tinha trabalhado com ele antes?
O Miguel trabalhei nos juvenis, fiz também relatórios da prestação dele no CAC portanto conheço o Miguel desde os iniciados. Estive a observa-lo, como central na altura, num torneio do Cartaxo, em que estava o Sporting, Bilbau, Benfica e CAC e eu observei e fiz na altura um relatório sobre ele. Depois trabalhei nos juvenis, nos juniores, e sempre foi um acompanhamento próximo, sério, nunca foram dadas grandes intimidades, mas do ponto de vista profissional temos uma relação correcta que sempre se pautou pela educação.
Ele teve os seus momentos como qualquer jovem e por mais que a gente diga que os atletas são todos bem comportados não sempre o são, porque é normal, nós nunca o fomos, com 15/16 anos também tivemos os nossos comportamentos e os treinadores têm que intervir. E os nossos atletas também sempre assim foram.
O Miguel teve os seus momentos menos felizes, outros fantásticos e portanto o nosso papel é ajudar na melhor orientação e isso acontece em todos. Claro que há uns que têm um determinado tipo de comportamento no seu perfil, há outros mais homogéneos, com uma linha de comportamento sempre igual, mas a maior parte não tem e a relação com o Miguel sempre foi boa, sempre foi séria e de algum modo positiva, foram muitos anos com ele e a vê-lo crescer.
Já agora clarifique-nos essa história. Ele sempre esteve um ano no CAC, foram apenas alguns meses, ou passou directamente do Benfica para o Sporting?
Penso que ele esteve um ano no CAC, quando era iniciado de 1º ano. Não sei se foi o ano em que houve três anos de iniciado, mas sei que esteve no primeiro ano lá, por isso já jogou como iniciado de segundo ano no Sporting.
E desde que o conheceu até esse ano nos juniores, quais foram as posições que ele ocupou? Ele era central de raiz no início?
O Miguel foi observado na altura como sendo central. E provavelmente por não ser muito rápido, por bater bem a bola, por pontapear bem a bola, por ter noção do jogo e do espaço e de ter a capacidade de transportar o jogo de trás para a frente, e nos iniciados há uma grande dificuldade muitas vezes nas equipa secundárias de terem tanta força. E ele era um jogador fisicamente bem constituído para a altura, tinha uma boa qualidade técnica e naturalmente que alguém o colocou a central. Mas ao longo do tempo foi evoluindo, amadureceu enquanto jogador, melhorou o seu posicionamento e naturalmente que acabou por jogar a médio centro connosco, a defesa esquerdo, são funções que ele tem capacidade para cumprir, porque acima de tudo ele percebe o jogo e tem um pé esquerdo que lhe dá uma qualidade enorme.
E nesse ano de juniores no contexto do 4x3x3 recordo-me que ele fez pelo menos três posições, defesa-central, médio defensivo e médio interior esquerdo (com Zezinando Correia mais atrás)...
É possível. A defesa esquerdo não deve ter jogado porque nós tínhamos outras opções para o lugar, como o André Marques, mas sei que ele jogou a defesa central e a meio-campo. E é possível que tenha feito essa posição de médio interior esquerdo. Por isso como lhe disse, às vezes mais vale um bom jogador fora da sua posição do que um mau jogador dentro da posição. Por isso por vezes o que acontece é que pelas características do próprio jogo ele tenha que ser solicitado a jogar noutras posições e isso para mim não é um defeito mas sim uma virtude.
E ele parece vir a subir no terreno. Quando foi para o Olivais e Moscavide era médio interior esquerdo e parece ter qualidade técnica a mais para jogar meramente como defesa, o Mister Carvalhal tem-no por vezes colocado quase a extremo esquerdo. Mas ele parece mais um potencial nº 10, com a qualidade de passe, proficiência técnica e visão de jogo que tem...
Não consigo vê-lo como um médio de ataque. Não é um jogador de movimentos de ruptura, não é um jogador que saiba jogar ou habituado a jogar de costas para a baliza, com movimentos de rotação com a bola, acho que é um jogador para estar de frente para o jogo e no corredor central, porque tem uma excelente capacidade de passe e de visão de jogo, sabe jogar curto e longo, tem passe de golo e um sentido posicional muito grande, portanto se estas características são as características de um médio centro, então ele é um médio centro. Mas isso não significa que ele não possa fazer carreira noutras posições.
O Miguel Veloso praticava muito os livres ou isto é um dom natural? A propósito, eu vi o Mister Leonel bater livres num treino aberto em Alvalade e o Sr tem um remate canhoto de meter medo ao Roberto Carlos...
(risos) Deixe-me dizer que acho que o jogador ter apetência para executar livres tem a ver com a técnica, começa com isso. Os jogadores são escolhidos muito cedo, é a técnica que faz os treinadores ver um jogador a bater bem a bola, a pegar bem na bola e naturalmente que o escolhe para os livres. Por isso começam a executar os livres muito cedo, porque nem todos nos infantis e iniciados têm força e técnica para executar, e as dimensões do campo são iguais, então começam muito cedo.
Naturalmente que eles se começam muito cedo repetem muitas vezes e ao longo do tempo são solicitados para treinar essa técnica. Isto significa que primeiro é uma questão técnica, depois uma questão de treino. Portanto parte da técnica, ele realmente tem uma aptidão natural para rematar, para cortar a bola, para bater três dedos, são formas de batimento, e a partir daí se ao longo do processo ele continuar a treinar naturalmente que vai melhorar essa competência e ser um bom marcador de livres, como o Ronaldo, o João Moutinho, são todos jogadores que ao longo dos tempos bateram livres.
Quando começou a ligação do Nani ao Sporting? Já ouvi algumas estórias de que ele era do Sporting mas como era muito franzino esteve emprestado ao Real Massamá durante anos mas também já ouvi dizer que ele esteve muito tempo parado por ser extra-comunitário e só chegou ao Sporting nos juniores...
O NANI veio para o Sporting no primeiro ano de juniores. Esteve no Massamá e realmente era um jogador franzino, mas tecnicista, e que marcava a diferença na sua equipa e acabamos só por o contratar no primeiro ano de juniores, esse foi o trajecto. Ele nunca esteve nos escalões mais baixos do Sporting.
Mas porque razão a prospecção do Sporting não deu por ele antes dos Sub-18?
É provável que sejam cada vez mais raros este tipo de casos, mas vão acontecer sempre. Porque muitas vezes os jogadores apresentam determinadas características que são necessárias para a alta competição, mas paralelamente a isso apresentam outras que não dão garantias. Se ele com 14 ou 15 anos já era observado isso significa que tinha qualidades que fazia com que já estivesse na nossa base de dados, mas no entanto podia ter algumas características que não nos davam a credibilidade necessária para dizer “vamos busca-lo”.
O Sporting acabou por recruta-lo como júnior de primeiro ano mas penso que antes já tinha havido tentativa de o recrutar mais cedo. Acredito que haja casos, embora cada vez mais o recrutamento começa mais cedo, e naturalmente hoje contrata-se muitos poucos jogadores para os juniores, e há dez, quinze anos contratava-se sete ou oito jogadores todos os anos e eram bons jogadores nos clubes onde estavam e sem terem um processo formativo de sete ou oito anos tinham muitos vícios, difíceis de alterar e corrigir e depois a porta do profissionalismo estava logo ali. Acabavam de chegar de um clube mais pequeno para o Sporting e dois anos depois estavam logo na porta do profissionalismo e era difícil. É por isso que hoje o recrutamento é feito muito mais cedo, começa já nos 8, 9, 10 anos e com 13, 14 já há dinheiros envolvidos e depois com 15, 16 já há empresários pelo meio e a dificuldade de recrutar é maior e os clubes tornam-se cada vez mais competitivos, o que é uma desvantagem de certa forma ter um atleta de grande qualidade técnica a aparecer só nos juniores, é preferível contrata-lo mais cedo.
Certamente não se deve recordar desta história mas quando ele estava no Massamá, eles estavam no distrital ou nacional?
Nacional, foi um clube que sempre teve boas equipas e penso que estava no nacional mas não tenho a certeza. Eu lembro-me de jogar contra o Nani nos infantis.
E como era ele nessa altura?
Era muito franzino, mas a técnica já lá estava. Acho que ele apurou um conjunto de condições físicas e tácticas, mas era muito franzino e frágil e ao longo do tempo cresceu e evoluiu. E o facto de jogar num clube onde era ele que decidia, permitiu-lhe fazer muito mais coisas. Jogar num clube onde ele é igual aos outros é diferente de jogar num clube onde ele é o melhor, e ali ele era o melhor. E por isso ao longo do tempo ele foi evoluindo porque resolveu muita coisa sozinho.
Lembro-me perfeitamente nos infantis de ele já ser um miúdo que tinha habilidade para jogar, e não foi recrutado na altura por diversas circunstâncias e não me recordo se fiz ou não relatório sobre ele, mas a verdade é que acabou por vir só nos juniores e está a ter uma carreira fantástica.
Nessa altura, quando chegou ao Sporting, qual era a posição dele? Tem uma opinião de qual é a posição natural dele, já que fez já diferentes posições no Sporting, Manchester e selecção?
Eu acho que o Nani na altura jogava a médio ala direito ou esquerdo. No entanto na função das características que foram evidenciadas, na minha opinião o Nani seria um grande médio interior. Porque ele tem uma grande capacidade física, é rápido, é de uma grande entrega ao jogo, e é um jogador que tem uma grande qualidade técnica e é forte no duelo. Por isso estas características podem fazer dele um dos melhores médios do Mundo. Mas isso não significa que ele não possa jogar nos lados, pela capacidade de drible, velocidade e capacidade de meter a bola na área e também pela possibilidade de chegar a zonas de finalização.
Na minha opinião é um médio, mas um médio de ataque e que participa nas duas fases do jogo de forma muito igual. Quando perde a bola é um jogador que reage e defende e quando ganha o esférico tem capacidade para progredir no terreno, com a velocidade, resistência, e quando em processo defensivo é muito agressivo no duelo. Tem um bom jogo aéreo e na minha opinião pode ser mais completo como médio interior, mas isso não significa, como referi à bocado que não possa jogar nos alas. Ele é daqueles jogadores que joga com os dois pés quase da mesma forma.
Há pouco falámos do 4x3x3 como sistema que tem a ocupação mais racional dos espaços e pode tornar os jogadores tácticamente mais maleáveis para o futuro. O Yannick Djaló na formação jogava mais como extremo esquerdo ou direito ou alternativamente como avançado-centro "vagabundo" atrás do "9". Será prejudicial para ele jogar no losango? Obviamente que o sistema tem de ser gerido em virtude das características dos jogadores e não de um só elemento, mas com o Paulo Bento nos seniores o Djaló jogou algumas vezes como organizador de jogo ou como referência no ataque...
Obviamente que eu não quero comentar as opções do futebol profissional. Mas no entanto posso dar a minha opinião. Qualquer bom jogador, e isto é uma perspectiva muito pessoal, qualquer bom jogador adapta-se a qualquer sistema, e podem ter rendimentos elevados em qualquer sistema.
Há jogadores que pelo seu perfil encaixam melhor num sistema do que noutro, mas a maior parte deles tem a capacidade de se adaptar, porque são jogadores completos, são jogadores feitos. Agora isso não significa que eles não possam render mais noutra posição.
Em relação ao Yannick, a primeira vez que ele jogou num jogo não-oficial, o primeiro que fez, foi contra o Benfica, na equipa de juvenis. Estávamos a perder 1-0 e esse jogo foi no campo do Vilafranquense, num torneio. E lembro-me perfeitamente, o nosso central teve um erro, não me recordo do nome, um central vindo de Coimbra... Emanuel, era o nome dele. Teve um erro e o Benfica fez o 1-0. E nós na segunda parte, o Yannick estava no banco e entrou para médio de ataque, ou seja quisemos dar mais velocidade ao jogo e ele entrou para essa zona, e a verdade é que desequilibrou o jogo e ganhámos 2-1. Significa que pelas características que tem pode cumprir determinadas tarefas no campo: é rápido, é um jogador explosivo, que pode jogar pelos lados, se o treinador assim o entender, porque ele desequilibra.
O Yannick é um jogador se calhar mais de contra-ataque do que de ataque posicional porque precisa de espaço para potenciar as suas capacidades, mas isso não significa que ele não possa jogar a segundo ponta-de-lança em momentos do jogo. Porque a velocidade que tem ocupa rapidamente espaços vazios, procura o espaço para fazer a ruptura e é um jogador que desequilibra num movimento de 1x1 numa zona fundamental do campo que é a zona central. Ou seja, do meio-campo para a frente, é um jogador que pode ser aproveitado em função das circunstâncias e do entendimento do jogo pelo treinador.
Pelas características que tem ele pode jogar a extremo, ponta-de-lança ou médio de ataque. Na minha opinião, acho que ele é um jogador que poderíamos tirar um bocado mais de proveito das suas características como extremo, ou como segundo ponta-de-lança, sendo um mais fixo e ele um pouco mais dinâmico e à procura dos espaços. Mas isto também parte das características das equipas onde ele poderá actuar, porque é diferente jogar numa equipa que jogue em contra-ataque do que numa equipa de ataque posicional e que precisa de construir jogo. Mas que é fundamental em qualquer equipa, isso é.
Nestes últimos 15-18 meses em que a equipa técnica teve o Daniel Carriço à sua disposição. Alguma vez ponderaram coloca-lo noutra posição que não a de defesa central? Digo isto porque o Miguel Veloso foi puxado para frente e hoje em dia existe essa tendência, essa "escola de pensamento" de adiantarem no terreno centrais de baixa estatura mas com boa qualidade técnica, qualidade de passe, e que saibam sair a jogar e ser uteis numa primeira fase de construção de jogo.
Como eu disse, não vou recorrer daquilo que é o futebol profissional, vou dizer sim aquilo que são as características do Daniel. Acho que é muito vantajoso para um defesa central poder jogar a médio centro, porque vai ganhar apetência para aquilo que são as qualidades técnicas, a velocidade de execução, jogar sob pressão, ganhar duelos, posicionar-se, etc. Ou seja, defesa central e médio centro são posições que em campo são diferentes mas que se podem complementar, porque jogam no corredor central, e falamos de um médio mais defensivo, e considerando que a primeira fase de construção é feita pelos centrais, uma segunda fase é feita pelo médio defensivo e ele pode fazer essa função.
Obviamente que é um jogador que é um defesa, não podemos dizer que é um médio, mas pelas qualidades que tem de liderança, de duelos e pela qualidade técnica que tem mesmo sob pressão, pode ser usado nessa posição em função de algumas circunstâncias momentâneas: quando o treinador quer ganhar alguma agressividade naquela zona, ou se tem dois centrais muito bons e altos e quer um jogador mais à frente, portanto pode-se adaptar àquela posição, mas na minha opinião o Daniel é central, apesar de não ter muita altura, fazem-se grandes centrais sem terem 1,90metros para cima.
Quando o Mister estava nos juniores, e o José Peseiro nos seniores, que espécie de "cumplicidade" é que havia entre estas duas equipas técnicas? Havia reuniões pontuais para falar dos novos talentos?
Sempre houve, a partir do momento em que fomos para a Academia a relação entre o futebol profissional e de formação sempre foi muito próxima e aberta, portanto o futebol profissional sempre soube quem eram os atletas jovens com potencial e a formação sabia das necessidades do futebol profissional. Essa relação sempre existiu, de uma forma simples, quase informal, que fazia parte do nosso dia-a-dia.
Quando a Academia foi inaugurada, em Maio ou Junho de 2002, podia-nos falar um bocado sobre qual foi a importância do presidente José Eduardo Bettencourt na criação da Academia? Fala-se que havia uma "Bíblia" elaborada por ele e por Miguel Ribeiro Telles sobre qual era o propósito da Academia...
Em relação a isso não me recordo de certa forma. Acho que as pessoas que estavam na altura, o Dr. Bettencourt, o Dr Miguel Ribeiro Telles, na altura era o Dias da Cunha o presidente, foram pessoas importantes na construção de uma estrutura daquelas e de certa forma tiveram um peso enorme para a sua concepção.
Não me consigo posicionar no sentido de perceber a importância de um ou outro, porque também são áreas que eu próprio me desligo. O meu trabalho é no campo e essa área de que falou é algo onde eu não me envolvo e não percebo até que ponto as pessoas têm um determinado tipo de papel. Agora que foi fundamental a construção da Academia e que foi um passo importante para a modernidade, isso não tenho dúvidas.
Que memórias é que tem do "Bóia Verde"? Manhãs geladas de domingo, ir buscar os miúdos...
O Bóia Verde era onde nós nos concentrávamos para ir para a Academia, e mesmo antes era o sitio onde parava a camioneta para recolher os atletas, e também os roupeiros, porque era ali que eles iam beber o café da manhã, eu próprio tomei ali alguns pequenos-almoços. E curiosamente havia lá uma pessoa que trabalhava no Bóia Verde e hoje trabalha no Sporting como roupeiro. Por isso houve sempre ali alguma cumplicidade, alguns treinadores que diziam que ali era o seu escritório (risos) porque passavam ali muitas horas naquela zona. E os miúdos, a maior parte deles que transitou e não iniciou na Academia, tem a referência do Bóia Verde como ponto de encontro, às vezes de manhã, às vezes de madrugada, era ali que o pessoal se encontrava.
Ao longo destes anos que esteve no Sporting já teve oportunidades de ver três tipos de modelos de integração para transitar juniores para seniores. Já houve a equipa B, agora há o protocolo com o Real Massamá mas também já tiveram um clube satélite que era o Lourinhanense. Quais foram os aspectos positivos e negativos de cada um destes modelos?
Acho que ao longo destes anos, houve várias tentativas de potenciar o jogador que sai da formação, porque é uma fase muito sensível em que se podem ganhar jogadores e se podem também perder jogadores.
Penso que todas são possíveis e viáveis, porque há três formas que podem ser construídas. Uma delas é ter a equipa “B”, inserida dentro da estrutura, a que existiu no Sporting. Outra forma é ter um clube satélite, onde se reúne um conjunto de jogadores da formação, juntamente com outros, acompanhados de uma estrutura profissional e do Sporting, de forma a que a mensagem seja uniforme. E há uma terceira forma, que vários clubes utilizam, que é emprestar os jogadores para um nível competitivo mais elevado, de forma a que possam evoluir mais rapidamente e possam mostrar as suas qualidades para que um dia possam regressar.
Essas três formas de abordagem ao período pós-formação são todas viáveis, desde que se preencha um conjunto de pressupostos: primeiro que a atenção dada a estas três formas seja grande, ou seja o nível de profissionalismo e o nível de exigência que se tenha e o nível de controlo seja elevado, de certeza que vamos ter mais dividendos.
Na minha perspectiva, dentro daquilo que fui observando, a vantagem de ter uma equipa B é que se pode ter um complemento muito próximo da equipa principal em que a partida de jogadores, de subidas e descidas, possa ser feita de uma forma quase fluída, ou seja, se a equipa principal precisa de jogadores para treinar, vai à equipa de reservas, como havia antigamente.
Há jogadores que precisam de jogar e ganhar ritmo, os jogadores vão para a equipa de reservas, porque é uma realidade que existe em muitos campeonatos da Europa, por exemplo em Inglaterra, onde há um campeonato de reservas. Nessas reservas jogam juniores, seniores, e até juvenis com maturidade para jogar a esse nível. Em Portugal, a estrutura organizacional dos clubes e a estrutura portuguesa não está preparada para ter equipas de reservas, é mais um investimento muito grande, é mais uma equipa para alimentar, são muitos jogadores, mas podia ser um espaço em que o recrutamento tinha um papel importante, poder trazer jogadores mais cedo para jogar a um nível mais competitivo, podia ser um espaço de afirmação de jogadores mais novos, que em vez de jogar nos juvenis por exemplo e que se ganha por seis, sete ou oito a zero, tinha de lutar para ganhar nesse escalão e naturalmente que em termos de desvantagens é um investimento muito grande que tem de ser feito (NDR: 800.000 euros por ano em 2002/03) e é quem sabe por erro da estrutura, haver jogadores que queimem etapas, os jogadores precisam por vezes de fazer golos, ganhar muitas vezes e nas equipas B correm o risco de não ter muito sucesso, e para alguns pode ter esse efeito de queimar etapas, e portanto elas existem.
A outro nível, tendo um clube satélite, é ter controle dos jogadores já fora da casa mãe. Acabou o conforto e vão ter que ir à luta, mas ainda um pouco aconchegados, porque a estrutura ainda é a do Sporting, e essa pode ser uma ajuda pois eles sentem que estão a ser observados e que a qualquer momento podem ir treinar a Alvalade, como está a acontecer agora e sentirem que podem ter ali um espaço de afirmação.
Numa terceira situação, com o empréstimo isso já tem a ver com a maturidade dos jogadores. Se um jogador é emprestado para um clube onde só há gente madura, ele vai ter de lutar sozinho, um miúdo de 18, 19 ou 20 anos, e penso que aí é a estrutura mental que vai definir. Se for forte mentalmente mais cedo ou mais tarde ele vem ao de cima, se não o for o caminho é perderem-se no tempo. Porque muitas vezes os treinadores dessas equipas não são do Sporting, muitas vezes optam por jogadores mais experientes ou até mesmo por contratações do estrangeiro do que pelo jovem jogador, e se forem fortes mentalmente esses jogadores lutam pelo lugar e vão conseguir dar a volta. Se não tiverem essa capacidade para lutar contra esses momentos adversos, onde não jogam quando foram habituados durante 10 anos a serem titulares e a darem goleadas e chega-se a uma fase onde esta questão fica muito mais complicada, em virtude de haver ou não uma força mental associada.
Se forem fortes conseguem dar essa resposta, se não o forem e não ultrapassarem as adversidades, irem para um clube com piores condições, com maus campos, com maus árbitros, com maus treinadores, com maus jogadores, ter que superar ordenados em atraso, chegar ao fim de semana e não jogar várias vezes, ter de superar métodos de trabalho que não são daquilo que eles viveram no passado e se forem fracos mentalmente vão ter muitas dificuldades em vingar no futebol. Muitos deles, só mais tarde, aos 26, 27 anos quando amadurecem verdadeiramente acabam por ter hipótese ao alto nível.
Entrevista realizada no dia 10 de Dezembro de 2009 na Sala Madragoa do Hotel Tivoli Oriente.
Texto: Nuno Valente e André Carreira de Figueiredo.
Imagem: Academia de Talentos.
Iniciar sessão
Copyright © 2009 - 2010 Academia de Talentos - Todos os direitos reservados










Comentários
desejo voltar a ve-lo muito
desejo voltar a ve-lo muito em breve ,ja tinha saudades de noticias deste snhr. as maiores felecidades
treinador fraco e sem moral
treinador fraco e sem moral nenhuma, era um elemento mau para o futebol fe formação e que mudava tudo para fisica, assim me recordo dele. era um preparador fisico que se recusava a fazer a sua tarefa, entrou para o sporting para ser explicador e fruto do seu feitio galgou ate ondde pode. antonio silva
Deve estar a falar sobre a
Deve estar a falar sobre a pessoa errada, se existe um forte candidato a treinador para despontar em Portugal é o Leonel, galgou todos os escalões no sporting sim, mas pela sua competência. Assim que pegar numa equipa seja ela da 2a ou 3a Divisão vai voltar a galgar patamares outra vez até à Super Liga quem sabe mais que isso.
Força Leonel os teus amigos estão contigo. R.M.
amigo RM ,está visto que
amigo RM ,está visto que nunca trabalhaste com esse senhor
jogador
sim, o leonel pontes deve
sim, o leonel pontes deve ser mais qualificado do que muitos treinadores da vitalis ou da primeira liga.. pelo menos nao está tão ultrapassado como alguns, nos metodos de treino e jogo.
Amigo Leonel, está no
Amigo Leonel, está no momento de treinares uma equipa tua, tens competência e mesmo que não pudesses começar na super liga por falta de oportunidade arranjas sempre uma Liga Vitalis ou mesmo uma 2a/3a Nacional. Tens competência e com engenho e um pouquinho de sorte chegas à super liga num instante outra vez. É uma pena se estes dirigentes nacionais desperdiçarem o sumo que já bebes-te aquilo que já aprendes-te a teinar no topo.
podia era meter os olhos num
podia era meter os olhos num jogador do anadia fc, de seu nome diogo andre. tem apenas 20 anos e é muito talentoso.
E esqueci-me de dizer que o
E esqueci-me de dizer que o meu filho joga com os dois pés.
Mas isto agora é alguma
Mas isto agora é alguma página de anuncios ? Para se virem para aqui vender, num artigo sobre um treinador ???
é verdade, ele esteve a
é verdade, ele esteve a experiencia no paços e é um grande jogador. tambem esteve a ser sondado pelo beira mar, academica e naval.. nao sei como nao foi jogar para um desses.. agora continua no anadia.. talvez ainda fosse muito novo para a liga sagres.
Devia era ter um futebol
Devia era ter um futebol muito "avançado" que os colegas não entendiam. Aparece aqui cada maluco !!!
acho que o leonel pontes é
acho que o leonel pontes é um grande treinador de formação. é uma pena nao estar a trabalhar neste momento.
Submeter um novo comentário