Entrevista com Leonel Pontes (Parte 3)

Nesta terceira e última parte da nossa entrevista com LEONEL PONTES, o antigo técnico leonino falou-nos de algumas ideias tácticas daquilo que se faz hoje em dia no futebol de formação em Portugal. O estado geral das camadas jovens em no nosso país e a sua comparação com aquilo que se faz no estrangeiro foram também tema de conversa, assim como mais alguns nomes de jogadores que pôde acompanhar nos seus vários anos a trabalhar em Alvalade/Alcochete.
Antes de falar do seu futuro, LEONEL PONTES também respondeu a algumas perguntas que os nossos leitores nos ajudaram a formular.
OS JOGADORES E OS SISTEMAS UTILIZADOS
Falou anteriormente que acompanhou a geração de 86 desde os iniciados até aos seniores. O que se passou exactamente no Campeonato de iniciados, em 2000/2001, na equipa do Moutinho e do Saleiro, uma equipa que se falava muito que iria ser campeã, mas o título não foi homologado esse ano...
Não me lembro, mas sei que houve um processo qualquer que acabou por não continuar. Não me recordo ao certo dessa fase.
Em relação ao 4x3x3 utilizado pelo Sporting na formação, na sua opinião, nesse sistema não há um nº10 e em vez disso existem dois “8” que vão alternando funções, um pouco como Gerrard e Lampard no modelo de jogo de Eriksson?
Nós antigamente assistíamos ao número 10, ao jogador com melhor qualidade técnica, capaz de desequilibrar no corredor central e noutras zonas do campo, que faz golos, que assiste e que de certa forma é um jogador que desequilibra, mas hoje em dia o número 10 está a mudar. Não está em extinção, ele vai existir sempre, mas vai existir com outro tipo de características. Vai ter de fazer isso mas vai ter de conseguir uma participação activa no processo defensivo, e antigamente falava-se no nº10 como o “vagabundo”, que só atacava e defender era para os outros. Hoje não, em cada zona do campo vai ter que ter uma actuação em conformidade.
É mais “10”, na minha perspectiva, quando se joga com dois médios defensivos e lhe dá um resguardo nas suas costas e é um jogador na frente deles capaz de participar mais nas zonas ofensivas que nas defensivas. Mas isso não significa que jogando só com um médio defensivo não se possa ter dois jogadores com estas características, ou seja, jogando em 4x3x3 com dois médios interiores, pode-se jogar com um médio defensivo e com um “8” e um “10”, em que ele é o jogador mais ofensivo, mais desequilibrador, e que provavelmente não tem tanta apetência, pelas suas características, de ser forte não só na transição defensiva como no processo defensivo.
Ao contrário, nós chamamos a um “8” um jogador que além de defender também ataca, não é tão criativo, mas que tem um valor enorme naquilo que é a organização global da equipa.
Ficou com a ideia de que o João Moutinho era mais “10” na formação do que é agora no futebol sénior?
Acho que o JOÃO MOUTINHO é um médio. Não é um “10” nem um “8”, é um médio, capaz de desempenhar várias funções, na minha perspectiva pode jogar a “10”, pode jogar a “8” e pode jogar a “6”. Ou seja, é um médio, é um dos melhores médios do Mundo, considerando que existem 20 ou 30 médio muito bons, e ele é um deles.
E o que é que destaca no João Moutinho, quais são as qualidades mais importantes dele? Nota-se desde muito cedo uma maturidade e maneira de encarar a profissão fora do vulgar, comparado com outros jogadores que são mais extrovertidos, eufóricos, ele sempre pareceu ser muito sereno. Que qualidades humanas realça no João Moutinho?
O João além de ser um excelente jogador, tem uma qualidade técnica fantástica, associada a uma capacidade de resistência para o jogo, é um jogador com uma capacidade física invejável, mesmo não sendo um jogador alto é um jogador que raramente se lesiona, tem uma saúde de ferro. É um jogador que qualquer treinador gosta de ter, porque é fácil, é um treinador dentro de campo, é um jogador que percebe o jogo e que enche o campo a defender, a atacar, nas transições e consegue estar em todo o lado pela dinâmica que dá ao jogo, pela maturidade que apresenta e já apresentava quando era mais novo.
Já tínhamos falado do Miguel Veloso e das relações com os pais, nestes caso como o Miguel que é filho de um grande nome do futebol. É mais difícil lidar com estes casos e também por os jogadores terem mais pressão em cima deles?
Não, no caso do Miguel acho que o pai tem sido correcto, e falo apenas até aos juniores. Naturalmente que muitas vezes os jovens atletas revêem-se nos pais, é natural, e que os pais lhes dêem bons conselhos melhor ainda. Como digo, se o pai deve fazer parte do processo formativo, melhor ainda um pai que teve uma experiência a alto nível, e se lhe puder dar bons conselhos e fazer ver a importância da atitude, do empenho, da frontalidade e do rigor com que se deve fazer as coisas, será uma mais valia para qualquer treinador. Portanto vejo sempre nessa perspectiva, mas acredito que possam haver realidades que sejam mais complicadas, em que os ideias do treinador não sejam de acordo com as dos pais, e tendo em conta a experiência que têm vêem coisas que não concordam, e que podem influenciar o atleta. Mas acho que há outra questão importante: o atleta também vai ganhando a sua própria identidade, e começa a ganhar uma coisa que é a visão e o entendimento do processo e ganhando personalidade e carácter também se vai desviar daquilo que são os bons e maus caminhos, os bons e maus conselhos.
Há atletas que o conseguem fazer, há outros que não, e portanto o Miguel tem seguido o seu caminho e de uma forma correcta.
E também falou que o bom jogador adapta-se a qualquer sistema. Mas neste caso não seria melhor haver um sistema que funcionasse tanto nos seniores como nas camadas jovens, não seria preferível haver um sistema adoptado pelo clube e que os jogadores e treinadores fossem contratados com base nesse sistema em vez de muitas vezes acontecer o inverso?
Eu não reconheço muitos clubes que trabalhem da mesma maneira na formação e joguem da mesma forma no futebol sénior. Não sei se existe assim uma relação tão rigorosa entre futebol de formação e futebol profissional. Conheço a realidade do Sporting, conheci a realidade do Manchester United, estive lá num estágio, e aquilo que me apercebi foi que como o próprio nome indica, o processo formativo é para formar jogadores profissionais de futebol, inseridos num contexto de alto nível. Sabemos que no futebol de alto nível há grande volatilidade e mudança de estrutura técnica ao longo do tempo e sabemos também que os jogadores quando saírem do Sporting, do Barcelona, do Real Madrid ou do Manchester United não vão jogar toda a vida nesse sistema, vão jogar um ano ou dois nesse clube, três ou quatro noutro clube e então com a livre abertura de jogadores, hoje em dia os jogadores param muito pouco tempo nos seus clubes, porque isso também convém a muita gente.
O ideal é que da estrutura principal, se entendermos que um determinado modelo, em que inclui o sistema de jogo, é o melhor para a formação do atleta, ou seja, é melhor para perceber como dentro desse sistema se pode adaptar a outros, independentemente daquilo que os seniores possam fazer, esse deve ser o caminho a seguir. Porque eu lembro-me que o Manchester jogava em 4x4x2 clássico, e tem um historial de 4x4x2 clássico, mas hoje em dia alteram-se os sistemas, joga em 4x3x3, joga às vezes em 4x4x1x1, já jogou em 4x2x3x1, pelas características dos jogadores. E eu assisti lá, que eles trabalham em 4x4x2 mas depois em função das características dos planteis, vão alternando os sistemas.
Curiosamente na altura tive lá em Manchester uma discussão saudável com um dos coordenadores da formação do Manchester, o Sr Jim Ryan, e ele dizia que tinha uma equipa de Sub-19 muito boa, que tinha três centrais muito bons, e que então ia jogar com três centrais, e preferia em vez de jogar com uma linha de quatro defesas, com dois centrais e dois laterais, vamos antes jogar com três centrais, porque eles precisam de passar por estas fases, porque o futuro vai ser este.
Eu não concordo que se tenha de adoptar um sistema no futebol de formação e no futebol profissional, isso não existe, nem devia existir na minha opinião, porque os jogadores mudam de sitio para sitio. Hoje há um extremo que joga a ponta-de-lança, a médio interior ou a “10”, e quanto mais preparado ele estiver, e é por isso que o modelo de jogo é uma coisa e o sistema é outra. Se dentro de um modelo de jogo de uma determinada estrutura contemplar o 4x3x3 muito bem, mas paralelamente a isso eles têm de ter outro tipo de experiências, principalmente numa fase um bocado mais avançada.
Perceber por exemplo que se têm quatro ou cinco centrais, quando chegarem aos juniores, eles saberem jogar numa linha de quatro ou numa estrutura de três, estamos a falar já não de um trabalho geral, mas sim especifico.
Se um ponta-de-lança em infantil ou iniciado joga sozinho na frente, nos juvenis ou juniores começar a jogar com dois, tem que saber estar em campo com outros. Se o extremo em 4x3x3, coloca-lo, quem sabe, num 4x3x1x2, em que as funções são já diferenciadas, que pode estar perto de um extremo mas tem outro tipo de comportamento e é importante saber que tipo de funções pode fazer, porque vai ser mais valorizado, vai ter mais capacidade de adaptação e vai ser mais difícil ele dizer 'eu não gosto de jogar neste sistema, gosto mais do outro', e isto é que é formação.

O FUTEBOL DE FORMAÇÃO EM PORTUGAL
Em termos gerais, faz-se boa formação em Portugal?
O aparecimento das Academias penso eu que pode vir a melhorar o processo formativo em Portugal. As Academias apareceram há cinco anos, mas em Inglaterra ou em França têm já 30 anos e têm um modelo estruturado, o que não significa que tenham melhores jogadores que nós, atenção.
Por exemplo em Inglaterra, qualquer clube que esteja na Primeira Liga, tem que apresentar um plano de desenvolvimento da formação, e tem que ter Academia. Ou seja, se em Portugal há dois ou três clubes que apostam na formação, que investem, e que têm esse plano estruturado, em Inglaterra são todos da Primeira e Segunda ligas que o têm. E têm mais possibilidade, quem sabe, de fazer um melhor trabalho e terem melhores jogadores. Ou seja, significa que em Portugal ainda não apostamos seriamente na formação, apostamos um bocadinho, mas o apostar a sério seria que os clubes inseridos nos campeonatos profissionais, todos eles tivessem escalões de formação, que houvesse um processo que esses clubes tivessem documentos de tudo o que é o processo formativo, modelos organizados, e que lhes fossem comprovados pela Federação e controlassem esse tipo de trabalho, porque a verdade é que os clubes têm a formação, mas como o processo é depois descontínuo dificilmente vão ter jogadores profissionais de qualidade.
Os miúdos depois não têm as melhores condições e eles vão para outros clubes, porque se os clubes de menor dimensão tivessem melhores condições, o meu filho se vivesse lá ficava lá, e não ia para outro sitio. Mas os clubes não têm as melhores condições, têm poucos recursos humanos, têm treinadores com pouca aptidão e pouca competência, não há dinheiro para lhes pagar, porque muitas vezes o dinheiro é canalizado para o futebol sénior, e somos obrigados a ir buscar jogadores de fora em vez de valorizar os que temos. E só não valorizamos mais porque não os preparamos devidamente.
Temos outra coisa que é uma grande vantagem: temos miúdos de grande qualidade, mas muitos deles perdem-se à custa deste processo descontínuo, portanto o melhor seria estruturas competentes um pouco mais acima, que apostassem forte. Porque apostar forte não é só ir buscar os melhores e fazer uma selecção e trabalhar essa selecção. Apostar forte é criar uma base, apostar na base é com 8, 9 ou 10 anos e estruturas bem montadas. Se fomos capazes de construir muitos estádios para o Euro 2004, também seríamos capazes de dotar os clubes de boas condições materiais, de bons recursos humanos, com formação, com processos controlados pelas entidades, e contínuo, e certamente que esse processo todo ao longo do tempo ia ter frutos e todos os clubes iam beneficiar disso, porque em vez de terem planteis de 23 ou 24 jogadores com três ou quatro portugueses, iam ter metade portugueses e metade contratações estrangeiras. Assim não, há planteis que têm três ou quatro, cinco ou seis portugueses e com a maior parte de estrangeiros, desvalorizando o produto nacional.
Já aqui falamos que o Sporting é visto como uma das melhores escolas a nível nacional e europeu. Sente que com o aparecimento do Caixa Futebol Campus e do Centro de Treinos e Formação Desportiva PortoGaia, a distância qualitativa entre o Sporting e os outros está a ficar mais curta?
É natural que a partir do momento em que os rivais começam a ter melhores condições e a prepararem-se devidamente, vai haver um maior equilíbrio, isso é natural. O que vai fazer a diferença é a qualidade do recrutamento e a qualidade do processo. Isso vai fazer a diferença no futuro. Primeiro a qualidade de recrutamento, termos a capacidade de trazer os melhores. Temos uma vantagem em relação aos nossos adversários, é que os jogadores têm uma maior esperança em fazer parte do futebol profissional, porque a aposta é maior, e isso também tem de ser um indicador importante. A outra questão é o recrutamento, os jogadores que aparecem a chegarem mais cedo e a qualidade do processo, até à fase terminal do processo formativo.
Sendo da Madeira, acompanha também o futebol da ilha?
Acompanho sim.
O Nacional e o Marítimo estão a ter boas prestações nos juniores...
Sim, o Nacional foi um clube que se modernizou, tal como o Marítimo, e também apostaram no recrutamento fora de portas para tornarem as equipas um pouco mais competitivas. Mas voltando um pouco atrás uns anos, a diferença era abismal. No meu tempo, em que jogava no União da Madeira, não fomos campeões da Madeira, na altura os campeões de Madeira, juniores e juvenis participavam no campeonato nacional, e as equipas quando vinham ao continente eram goleadas. Hoje não, o Marítimo e o Nacional apostaram forte, o próprio União já teve equipas na primeira nacional de juniores, e esse recrutamento com o aumento da qualidade de trabalho, melhorias das infraestruturas, porque sei que a maior parte dos clubes da Madeira têm o seu sintético, as suas boas instalações, a Associação Desportiva do Porto de Cruz tem um bom campo, boas condições, ou seja a maior parte dos sítios onde se joga futebol tem boas condições para essa prática.
Outra das vantagens foi haver muitos profissionais de desporto a trabalhar nesses clubes, porque o Governo Regional assim o exigiu. Em vez de estarem na escola têm um vínculo aos clubes, e portanto há recursos humanos qualificados para esse tipo de tarefas. Todo este processo, o grau evolutivo tem sido maior e começam a aparecer novos valores, jogadores com qualidade para jogar no campeonato nacional e chegar a outros níveis.
Falou também que havia três ou quatro jogadores nas equipas seniores contra muitos estrangeiros, mas isso hoje em dia também começa a acontecer no futebol de formação, principalmente nos três grandes. Isso também poderá afectar um pouco o produto português?
A partir do momento em que se abrem as portas à livre transferência de jogadores, e se o recrutamento em Portugal começa a estar tão competitivo, sabendo de antemão do que custa contratar um bom jogador com 21 ou 22 anos, ou um jogador já feito, a perspectiva dos clubes é investir fora de portas. Ou seja, se eu consigo contratar cinco ou seis jogadores de 14 anos ou 15, e um deles me garantir uma transferência ou uma presença na equipa sénior, o investimento está ganho, o investimento é menor do que se for feito num jogador já feito. E tem ainda uma vantagem, é que desses cinco ou seis jogadores que foram contratados com 15 ou 16 anos têm quatro ou cinco anos de aprendizagem no clube. Portanto isso foi o caminho que se seguiu, porque quem sabe se os clubes de menor dimensão em Portugal tivessem apoios, melhores condições, bons treinadores, tivessem um programa de desenvolvimento, controlado, quem sabe íamos ter mais valores para as grandes equipas, e portanto esse poderá ser o caminho, e foi o caminho de muitos clubes, contratar jogadores mais jovens, como faz o Arsenal, o Liverpool, o próprio Manchester, contratam jogadores com 15 anos sabendo que podem ser futuros craques da equipa principal e ser uma mais valia financeira.
Não acha que começam a haver talvez estrangeiros a mais nas equipas portuguesas?
Mas a verdade é que existem estrangeiros a mais porque o mercado fez com que houvesse essa possibilidade. Se o mercado permite que se possam contratar miúdos com 15 ou 16 anos extra-comunitários, ou mesmo no espaço comunitário, os clubes começam a abrir portas a essa possibilidade. Claro que reduz espaço ao futebol português, mas é por isso que é fundamental os clubes de segunda linha organizarem-se, ou haver exigências por parte das organizações, para que se desenvolva o futebol da melhor forma possível, essa é a melhor forma do jogador português ser valorizado e aparecerem novos valores. Porque se estamos à espera que o futebol português sobreviva à custa de cinco ou seis clubes que praticam a formação, vamos temos que ir naturalizar muitos jogadores no futuro.
E a questão de jogadores que podem ter as suas idades adulteradas, o que pensa que se podia fazer para combater esse tipo de situações?
Eu penso que os grandes clubes, e falo da experiência que vivi, têm isso altamente controlado, porque sabemos que isso é um engano. De que serve um jogador com idade de juvenil a jogar pelos iniciados, que faz a diferença naquela fase, depois é júnior e joga nos juvenis e faz a diferença, mas quando chegar aos seniores, são todos iguais e aí já não faz diferença, porque a força que ele tinha, a velocidade que ele tinha, os outros também a têm, portanto isso é um engano.
Dá para ganhar campeonatos de iniciados e juvenis? Dá, mas isso não dá para formar jogadores. É um jogador que à partida, e todos os casos que aconteceram e que nós sabemos, na maior parte dos casos todos eles desapareceram do mapa aos 21, 22 ou 23 anos, do panorama desportivo, portanto não é o caminho a seguir.
Mas não deveria ser um processo mais transparente? Não deveria haver uma entidade como a FPF ou outra que regulasse essa questão, fizesse exames médicos mais precisos...
Repare, se os clubes não são controlados por nenhuma entidade, porque nenhum clube é controlado, é natural que cada um faça aquilo que lhe apeteça dentro daquilo que são os seus valores.
O Sporting, do que eu sei, rege-se por valores e princípios e faz a avaliação periódica e sistemática não só dos que vêm mas também dos que lá estão, por isso não há jogadores que sejam mais velhos a jogar nos escalões mais baixos, há sim jogadores mais novos a jogar nos escalões acima, ao contrário isso não existe, e portanto se houvesse uma entidade reguladora, que controlasse o processo e soubesse do processo, provavelmente as coisas seriam mais transparentes.
Vou-lhe dar um exemplo, eu estive no Blackburn Rovers, e esses responsáveis, treinadores e coordenadores técnicos também estiveram cá em Portugal, e eles têm um documento que têm de apresentar à Federação, mostraram-me esse documento, que é um documento orientador do Blackburn, com valores, princípios, exercícios, conteúdos, o que se ensina e o que não se ensina. O que lhes falta muitas vezes é matéria prima, ter os jogadores jovens de qualidade, que Portugal tem. De resto têm tudo, instalações fantásticas, um processo muito bem orientado e controlado, a Federação controla, a Federação sabe o que se passa nos clubes, e isso é uma mais valia, têm tudo controlado e sabem perfeitamente o que está a acontecer.
Estou a falar do Blackburn, como falei do Manchester, como outros clubes. Acho que nós em Portugal conseguimos ter matéria prima de melhor qualidade, ou seja atletas com 10, 11 ou 12 anos de grande qualidade e disponibilidade técnica e coordenação motora, típico do futebol português.
E a questão dos atletas naturalizados nas selecções? Se nos escalões de formação os atletas chegam muito novos a Portugal, já a questão do Pepe, Deco e Liedson são bem mais polémicas. Acha que é um bom caminho a seguir?
Provavelmente não é o melhor, mas a verdade é que a partir do momento em que se abre o precedente, a partir do momento em que se abre uma excepção, a partir daí tudo é possível. E isto tem tudo a ver com a livre circulação de jogadores, e se a lei permite que um profissional que esteja noutro país, a partir de uma determinada idade possa naturalizar-se, ele é um cidadão com os mesmos direitos de outro qualquer. Portanto partindo desse pressuposto e abrindo uma excepção, tudo o que é bom jogador que possam ser naturalizados vão ter esse espaço.
Se o jogador português tiver mais qualidade, de certeza que esses não entram. O que temos de valorizar é trabalhar na base, de forma a termos cada vez mais, e temos matéria prima para isso, melhores jogadores vindos da formação, porque esses são os jogadores que um dia podem fazer parte da selecção. E isso vai também retirar espaço à entrada de jogadores estrangeiros, porque quem sabe se tivéssemos jogadores estrangeiros de qualidade para as mesmas posições, eles não entravam.
E em relação também aos outros países, e dos que conhece, a que nível está Portugal?
Daquilo que eu conheço, eu não tenho... A referência que temos de Portugal tem sempre a ver com as competições em que participamos a nível de selecção nacional. Penso que já tivemos períodos melhores, a Federação foi sujeita a uma remodelação, há coisa de dois anos, e portanto neste momento as equipas estão mais competitivas, já se batem quase de igual para igual com as grandes potências europeias.
Passámos por um interregno menos positivo nos últimos anos, mas penso que estamos a caminhar para ganhar alguma hegemonia no futebol europeu, mas isso leva o seu tempo, uma estrutura que está a trabalhar há dois anos, com a entrada do Hélio, do Rui Bento, do Oceano, do EMÍLIO PEIXE, novos profissionais, com ideias, com ambição e com um historial enorme nas selecções e no futebol nacional, e formação, portanto acredito que com o cimentar deste processo, os resultados podem vir a acontecer, e nós não estamos atrás das grandes potências europeias, acho que estamos equiparados, e somos um país tão pequeno e com tão poucos praticantes, comparando com Espanha, França, Itália, países que têm no processo formativo a sua base, têm as suas academias há 30 ou 40 anos, e por isso estamos menos avançados que eles, porque só temos isto agora e conseguimos fazer o que fazemos.
Numa perspectiva de modernização, se conseguirmos nos próximos anos fazer com que alguns clubes se modernizem, proporcionarem boas possibilidades de prática, captarem a noção de que o futebol seja um espectáculo e se passe essa ideia, porque cada vez mais os jovens jogadores têm mais solicitações, há mais desportos, muitos deles não querem estar sujeitos a esta pressão do futebol e que começa desde muito cedo, significa que tem de ser um produto atraente, para termos muitos atletas a praticar, e dessa quantidade vai haver qualidade.

AINDA ALGUNS TALENTOS LEONINOS
Que memórias tem do Silvestre Varela?
Era um jogador abnegado, forte fisicamente, um excelente miúdo, sério, amigo do amigo, bom elemento de equipa, essa é a ideia que tenho dele.
Não era um finalizador, era mais um jogador de assistir, rápido, potente, que agora está a expressar melhor as suas qualidades que no seu processo formativo.
Não era um jogador que eu previa que fosse de eleição, mas acreditávamos que podia fazer carreira.
Na sua opinião qual é a posição natural dele e acha que essa posição se alterou ao longo dos anos dele de sénior?
Eu penso que em função dos clubes onde jogou, acabou por ter outro tipo de tarefas e outro tipo de intervenção no jogo.
Começou a jogar a extremo, depois aqui no Estrela da Amadora jogou a ponta-de-lança, extremo, médio ofensivo, é um jogador mais multifacetado, mais experiente, de certa forma com maior capacidade de adaptação a novos sistemas.
E do Pedro Celestino, lembra-se dele?
Perfeitamente, o PEDRO CELESTINO, médio centro, que está agora no Belenenses. Foi um jogador que deu um salto qualitativo muito grande na fase em que trabalhou connosco. Na primeira fase de júnior era um jogador tímido, que tinha medo de meter o pé, jogador pouco agressivo, mas muito atento, que queria aprender, que veio de uma realidade diferente, do Amora para um clube grande.
Na segunda época de juniores assumiu o seu papel de outra forma, teve uma evolução significativa, treinou algumas vezes nos seniores, apresentou muita qualidade, é um jogador que amadureceu com o tempo, fruto das vicissitudes da vida, também passou por algumas dificuldades, e vai fazer carreira a este nível, porque é um jogador com qualidade, bom jogador de equipa, tem bom carácter, portanto de certeza que vai fazer boa carreira.
Que ideia tinha do Bruno Filipe? Jogador que nos juniores tinha muito talento, mas parecia à vezes faltar-lhe “cabecinha”...
Acho que ao Bruno Filipe faltava-lhe a objectividade do jogo. Foi um jogador que para a posição que ocupava era um extremo de grande qualidade, não foi um extremo regular ao longo do seu processo formativo, houve anos em que jogou bem e anos em que jogou menos bem e acabou por não ter a pontinha de sorte no momento certo, naquela fase de júnior.
O Bruno tinha qualidade de drible, de velocidade em drible, de cruzamento, muito boa, não era um finalizador, mas acabou por ao longo do tempo mostrar que era um jogador muito irregular no seu comportamento, era um jovem muito bem educado, com bom coração, bom carácter, mas depois está a passar um bocadinho aquilo que foi a sua irregularidade e o trabalho de equipa que não se conseguiu fazer com ele pela sua forma de estar no futebol.
O Bruno Filipe era um jogador que tentava resolver sozinho muitas das situações, era muito pouco objectivo no jogo e naturalmente está a pagar essa factura.
Falando no André Marques, desde que o conhece ele sempre jogou a lateral-esquerdo? Pensa que ele é um jogador que podia jogar como central? O facto de não ser um lateral muito rápido, acha que não o favorece jogar num futebol sem largura, sem extremos?
O ANDRÉ MARQUES tem todas as características de um lateral de alto nível. Quando me lembro do Paolo Maldini que fez muitos anos a lateral-esquerdo e acaba a carreira a central, vejo o André Marques com características idênticas. Tem um bom pé esquerdo, é forte no jogo aéreo, bem posicionado, não é lento, pode ser mais rápido mas não é um jogador lento, dá profundidade q.b. ao seu corredor e pelas qualidades que tem acho que é um jogador que ainda não exponenciou todas as suas capacidades, mas tem muito potencial, quem sabe é um jogador que se vai revelar um bocado mais tarde ou nesta fase, vamos ver, não me quero adiantar muito também.
Do Paulo Renato, o senhor teve-o nos juniores, quando foi para a equipa sénior creio que não jogou um minuto sequer...
O Paulo Renato esteve muitos anos na formação do Sporting, voltando atrás sempre foi um excelente profissional, líder das suas equipas, muitas vezes capitão. Jogou em várias posições, jogou a central, médio defensivo, jogou a médio, e quando teve um trajecto fora e um bom comportamento mas nos seniores não teve o espaço que gostaria, fruto de muitas circunstâncias, algumas lesões, alguma incapacidade de adaptação e portanto acabou por ser um jogador que teve de sair. É um grande profissional, um miúdo sério e oxalá que tenha toda a sorte do Mundo na sua nova etapa.
Quando regressou para o Sporting, era com a ideia de ele vir jogar como central? No Real Massamá ele jogava a médio centro...
Sim, mas ele veio para o Sporting porque nós o conhecíamos e reconhecíamos competência, portanto é só o que posso acrescentar.

PERGUNTAS DOS NOSSOS LEITORES
Temos algumas perguntas feitas pelos nossos leitores. O seu futuro passa por continuar junto do Mister Paulo Bento, pretende vingar sozinho, voltar à formação, tem alguns projectos já delineados?
Como disse no início da entrevista, eu não me pauto muitas vezes por aquilo que vai ser o futuro. Gosto de viver o dia-a-dia e neste momento aquilo que me revela o futuro ainda não sei. Mas para já faço parte da equipa técnica do Paulo Bento.
Que tipo de modelo de jogo entende que potenciaria as características dos jogadores formados no Sporting e não seria sensato "fazer" o Real Sport Clube usar o mesmo estilo de jogo de modo a potenciar mais os jogadores do Sporting que estão lá emprestados?
O clube forma jogadores individualmente, apesar de ter as suas equipas. E não vai deixar de formar extremos mesmo que nos seniores não se jogue com extremos.
O clube vai formar jogadores que no sentido que apresentarem qualidades, porque muitas vezes os sistemas nos seniores são feitos de acordo com as características dos jogadores. Um grupo tem este tipo de características, o treinador vai buscar jogadores para esse sistema, ou os jogadores já lá estão, ou vai tentar moldar aquilo que é a sua imagem de treinador, a imagem que o treinador entende.
Acho que em relação ao Massamá, os jogadores que para lá foram são os jogadores em que se acredita serem mais valias daqui a uns tempos, naturalmente que o treinador deverá saber que esses jogadores têm capacidade para se adaptarem a qualquer sistema, portanto se assim for penso que o respectivo treinador deve actuar em conformidade, digo eu.
Neste momento estou fora da realidade, por isso não sei como as coisas estão a funcionar.
Tem opinião sobre os dois jogadores que foram chamados para treinar em Alcochete, o Wilson Eduardo e o William Owusu?
São dois jogadores com um potencial enorme para poderem fazer carreira a alto nível.
Nesta aventura de quatro anos nos seniores do Sporting, qual é o desgaste que lhe provocou?
Qualquer actividade que mexa com emoções e com trabalho, provoca um desgaste enorme, temos de estar preparados para isso. Quem não estiver preparado tem de saltar para outra actividade, porque realmente é desgastante, tens muita competição, três ou quatro competições, cada jogo é uma história e um peso emocional enorme, porque a diferença está entre o perder e o ganhar, e portanto isso implica também que o nosso estado de humor se modifique com aquilo que é a nossa actividade profissional.
O desgaste é grande, a exposição é grande, e é preciso ter perfil e bagagem para poder estar confrontado com este tipo de actividade.
Podia clarificar um rumor em que se falava da possibilidade de se alterar o modelo de jogo dos escalões de formação para um 4x1x2x1x2 de maneira a jogarem no mesmo modelo de jogo da equipa sénior?
Não conheço essa realidade.
Se pudesse voltar atrás, há alguma coisa que tinha feito de diferente nestes quase 15 anos no Sporting?
Não, não me arrependo de nada daquilo que fiz. É mais fácil depois de passar pelas coisas dizer que faria de forma diferente, porque há decisões que nós tomamos que muitas vezes não são de acordo ou o resultado dessa decisão acaba por ser negativo, mas quando se toma a decisão em consciência, desde que não seja com valores e princípios associados a essa decisão, não me arrependo de nada.
Esta pergunta de um leitor nosso é algo estranha. Se viu o Atlético de Madrid Vs FC Porto e como pode explicar que uma equipa com tantos e bons valores como o Atlético de Madrid possa jogar de forma tão descoordenada?
Muitas vezes os bons jogadores não fazem uma boa equipa...
Como foi orientar a equipa em Vila do Conde?
Foi um sentido de missão, uma experiência, mas com um sentido de missão.
Vê-se a trabalhar no FC Porto ou no Benfica?
Neste momento sou um profissional, e um profissional tem de estar preparado para trabalhar em qualquer sítio, sem esconder que sou sócio e simpatizante do Sporting.
Sente que poderá regressar ao Sporting um dia no futuro...
Nunca se sabe, há sempre uma porta aberta para eventuais compromissos.
Teve uma progressão dos escalões de formação para os seniores, sente algumas saudades do trabalho nos escalões de formação, com menos pressão e com menos exposição pública?
Deixa saudades sim, porque ainda se vive um bocado a pureza do futebol, vive-se aquilo que é a essência, sem jogos por trás, sem truques, sem esquemas montados.
A nível de condições de trabalho e infraestruturas, material de auxilio de treino, havia alguma coisa que sentia que lhe faltava no Sporting?
Nós para quem anda numa área do futebol, não nos podemos sujeitar só ao que temos. Temos de estar sempre a inovar, a pensar que podemos ter melhor. Mas dentro daquilo que foi as realidades a cada ano que vivi, nunca me faltou nada, ou seja o básico esteve lá sempre. Às vezes com condições menos positivas, piores condições, mas claro que com a chegada da Academia as condições eram extraordinárias, não nos faltava nada.
Quais são os jogadores do Sporting que levaria ao Campeonato do Mundo de 2010?
Vários, mas corria o risco de dizer alguns e ficarem outros decepcionados (risos).
Pela sua experiência na formação, acha positivo que existam poucos jogos com elevado índice de competitividade?
Gostava muito era que todos os jogos tivessem um índice de competitividade elevado. Isso é que eu gostava.
O que entende que deveria ser feito melhor na formação em Portugal, reformular os quadros competitivos, fazer um campeonato nacional com uma única zona nos juniores...
Em relação ao futebol de formação em Portugal era preciso fazer uma análise profunda, daquilo que são as características da competição, as características dos jogadores que vêm da formação e de certa forma depois traçar um plano de reestruturação como fizeram muitos países, como por exemplo a França.
A França num plano de dez anos conseguiu por a equipa campeã do Mundo, num plano de reestruturação profundo, do ponto de vista desportivo, mas não só futebolístico mas a vários níveis, e se calhar era isso que poderia ser feito. Ou seja, uma reestruturação desde a base até ao topo, no sentido de dotar os clubes, jogadores, das melhores condições para chegar ao alto nível.
De vez em quando são chamados juniores para os treinos dos seniores. Estes miúdos são chamados porque naquele treino pontualmente falta um jogador para determinada posição ou têm um critério por exemplo de prémio por um bom desempenho na escola ou algo semelhante?
Para o futebol profissional, não estamos ali para formar engenheiros e doutores. Pode servir as duas coisas, para premiar, também por faltar uma posição para um determinado tipo de treino, para observar os jogadores, há várias formas e vários motivos que levam juniores a poderem treinar nos seniores. Isso é mais que evidente, muitas vezes nos períodos de selecção, em que vão muitos jogadores para a selecção, o grupo fica reduzido e aproveitamos para observar e completar o grupo, em vez de termos estruturas mais reduzidas, temos estruturas mais globais.
Há momentos em que precisamos de outro jogador, que a formação tem e de acordo com as características que são necessárias, e que com as posições necessárias, muitas vezes serve como prémio, não podemos era valorizar um jogador que se porte mal e vá para os seniores treinar.
O que aconteceu com o Luís Páez, perdeu qualidades, não evoluiu, foi por causa da lesão que teve no segundo ano de júnior?
Como lhe disse no início, há um conjunto de factores desde a falta de oportunidades, quebra de rendimento, lesão, os contextos e decisões em determinados momentos que fazem com que um certo jogador não dê o salto qualitativo que se esperava, apesar de ter muito potencial.
O que nos pode dizer do Mister Luís Martins?
Boas memórias, é um excelente profissional, sério e que fez um bom trabalho no Sporting.
E o Mister João Couto?
Não trabalhei com ele, é uma pessoa mais divertida, mais expansivo, terra-a-terra, também tenho boas memórias dele.
O Mister Nuno Naré chegou a trabalhar com ele?
Não, ele esteve sempre nos escalões acima do meu e depois saiu, nunca trabalhei efectivamente com ele.
Na sua opinião basta haver um campeonato nacional de iniciados, juvenis e juniores, ou podia haver um de infantis também?
Acho que o nacional de infantis é exagerado, porque dá-se um grau de competitividade exagerado a miúdos de 12, 13 anos. Acho é que os jogadores de maior capacidade e de maior índice de maturação deviam jogar nos escalões mais acima, porque isso é uma forma de potenciar o jogador. Um iniciado que de maturação seja mais evoluído e que faça a diferença nos iniciados, esse jogador já devia estar nos juvenis, e por aí fora.
Se houver um jogador juvenil que tenha qualidade e maturidade para jogar nos juniores, é preferível estar ali pela qualidade que tem do que estar a jogar um outro jogador em quem já não depositamos expectativas nenhumas. É a mesma coisa que chamar um jogador de 17 anos para a equipa sénior. Chamamos para a equipa profissional sénior, porque ele já reúne um conjunto de condições para poder corresponder, como foi o RICARDO QUARESMA, o CRISTIANO RONALDO, e outros.
Obviamente que formar a ganhar é melhor do que simplesmente formar. Mas na sua opinião, nos escalões mais jovens, como nas Escolas e Infantis acha que os treinadores incutem pouca agressividade competitiva?
Não, é a exigência de vitória, todos os miúdos que participam num jogo devem tentar ganhar o jogo, porque essa é o sentido lúdico do jogo, é tentar ganhar, não se pode é fomentar o espírito de ganhar a todo o custo ou ter que ganhar. Esse é que é o problema muitas vezes da competição, lutar para ganhar e enquadrar muito bem os atletas do que é que é ganhar e do que é perder, o que é o desporto.
O problema é que por vezes por fora cria-se uma competitividade muito forte, principalmente nos atletas muito jovens. É fundamental que ele aprenda a lutar para ganhar e não apenas participar por participar, porque o futuro vai ser sempre no sentido de rendimento, mas naquela fase de 8, 9 ou 10 anos o miúdo tem que jogar, divertir-se, mas jogar para ganhar.
Se ganhar ganhou, se perder perdeu, mas lutar para ganhar é importante, porque ninguém joga para perder ou empatar, e isso por vezes é incutido nos jovens ao longo do tempo.
Presumo que o senhor quando treinou os mais jovens nunca lhes disse que "se perderem não há problema"?
Não é se perder não há problema. O mais importante é que independentemente do escalão, jogamos para ganhar, sem lhes dar peso a essa realidade. Jogamos para ganhar, naturalmente que é importante que se divirtam, que nós podemos direccionar a nossa intervenção de duas formas que é a intervenção daquilo que é as tarefas e a intervenção do resultado, e para os miúdos deve ser sempre para as tarefas, no sentido de poderem melhorar individualmente, melhorar como equipa e melhorar para ganhar. E essa nossa intervenção tem de ser para as tarefas, tarefas que cada um deve fazer e não para o resultado final. Temos de ganhar, não, temos de jogar para ganhar, com as tarefas que cada um deve fazer para a equipa chegar ao resultado.
Existindo lacunas em Portugal em algumas posições, como as de laterais-esquerdos e avançados-centro, daquilo que conhece no que podem os clubes grandes investir para inverter esta situação?
A única forma de poder fazê-lo é recrutar jogadores com essas características e trabalha-los, dando desde muito cedo as tarefas e competências para a função que se deseja desenvolver.
Que memórias é que tem do Hugo Viana?
Boas, muito boas. O HUGO VIANA foi um jogador que esteve até aos 13 anos, depois saiu e voltou aos 16, teve até aos 18 e fez uma grande transferência para o Newcastle. Daquilo que eu conheço dele, era um jogador com um pé esquerdo fabuloso, com grande talento e por isso foi um jogador que foi fazer carreira para o estrangeiro, mas que daquilo que o conhecia como profissional sempre teve uma boa atitude e um bom carácter.
Quando foi chamado para a equipa principal pelo Mister Boloni, estava na equipa “B”. Ele jogava regularmente na equipa B?
Ele jogava regularmente nessa equipa.
Quando treinava o Ronaldo nos Juvenis, tinha ideia que ele poderia chegar a este nível a que joga hoje em dia?
Chegar a melhor jogador do Mundo não, mas que chegaria a alto nível sim, tinha essa expectativa sim, como tive de outros também.
Na evolução do Ronaldo enquanto jogador, o que o surpreende mais no Ronaldo?
Eu acho que o que ainda me surpreende é a capacidade que ele ainda tem de desequilibrar sozinho, porque eu achava que ele só ia desequilibrar tanto assim na formação, e que no futebol sénior ele já não ia desequilibrar tanto, mas a verdade é que ele consegue ainda desequilibrar sozinho. Numa modalidade colectiva, da forma e o peso que ele tem numa equipa é muito grande.
Vê algumas desvantagem em realizar um treino no Alentejo, em vez de o fazer nos Alpes Suíços, na medida em que em altitude pode criar mais glóbulos vermelhos no sangue?
Acho que os estágios, apesar de nunca ter passado por uma situação idêntica, e nunca me ter debruçado a fundo sobre essa questão, se o estágio em altitude permite ganhar maior capacidade para superar os 90 minutos de jogo, acho aconselháveis. Mas os estágios devem ser feitos de acordo com a realidade da competição, e se a realidade da competição exigir um estágio em altitude assim deve ser feito, ou seja, se a competição for realizada numa zona em altitude, o estágio deve ser feito, se o estágio for feito em altitude para depois a competição ser ao nível do mar, acho que não tem sentido nenhum, porque perde-se especificidade no esforço que está a ser feito.

O CURSO DE TREINADOR E O FUTURO
Quando fez o nível 4 de treinador, terminou o curso com mais 0,5 que o Paulo Bento na nota final. No bom sentido costumavam brincar com isso?
Não, porque as notas têm peso quando são negativas, quando são positivas e numa actividade que desenvolvemos, que foi esse curso de treinadores, aquilo foi uma coisa que não é a realidade, o estudo teórico do jogo, os exercício de treino, a metodologia do treino. Talvez por estar mais identificado, por estar a mexer no treino durante muitos anos, dá-me outro tipo de traquejo, de à vontade para poder mexer nas coisas e provavelmente isso foi a vantagem que eu tive, de resto não se pode avaliar um treinador pela nota que teve no curso.
Recentemente li numa entrevista que não lhe passava pela cabeça ser treinador principal, quando ainda trabalhava com Paulo Bento. Hoje em dia já se vê mais nessa função?
Como lhe digo, a experiência se tiver que acontecer vai acontecer, mas não é algo que me preocupe neste momento, não é uma obsessão, não é um sonho a curto prazo, pode ser e pode não ser, mas não me vejo neste momento a tomar uma decisão a esse nível. Vejo sim desenvolver um bom trabalho onde estiver inserido, ser um bom profissional, evoluir enquanto profissional, ganhar outras apetências e experiências num mundo do futebol profissional e o futuro logo se vê.
Entrevista realizada no dia 10 de Dezembro de 2009 na Sala Madragoa do Hotel Tivoli Oriente.
Texto: Nuno Valente e André Carreira de Figueiredo.
Imagem: Academia de Talentos.
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Comentários
oooooooooooppppppsssssss
oooooooooooppppppsssssss
este treinador ainda tem
este treinador ainda tem muito que aprender por essa europa fora, isto se quiser ser util ao seu país de alguma forma.
Grande Leonel tudo bom para
Grande Leonel tudo bom para ti e que 2010 te proporcione muitas coisas boas, entre elas, conseguires ter umas boas noite de sono. Grande abraço. Serginho
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