Entrevista com Luís Martins (Parte 1)

Luís Martins é dos mais aclamados técnicos da formação em Portugal. Tornou-se conhecido depois da sua passagem pelo Sporting, onde conquistou vários títulos na formação e foi adjunto de José Peseiro, no plantel sénior, durante uma época e meia. Viveu de perto as emoções da Final da Taça UEFA, o célebre lance de Luisão com Ricardo na penúltima jornada da Liga, e aquele mítico jogo para a Taça de Portugal na Luz que só foi decidido nas grandes penalidades.
Depois de uma passagem pelo Portimonense, muito se especulou sobre o seu futuro e sobre a possibilidade de rumar ao outro lado da segunda circular. Gorada essa hipótese, abraçou um novo projecto no Sporting Clube de Braga, onde é o coordenador de todo o futebol de formação. Para além de tudo conta com estágios no Real Madrid e cursos na Federação Inglesa.
A Academia de Talentos durante 4 horas falou com Luís Martins com o rio Tejo como pano de fundo. Uma interessante conversa que vai ser publicada em três partes divididas pelas próximas semanas. Hoje apresentamos a primeira parte relativamente a diversos factos da sua carreira e opiniões sobre o futebol de formação e até sobre Cristiano Ronaldo. Na próxima semana a ênfase será sobre a sua passagem pelo Sporting, e por fim uma abordagem ao trabalho no Minho, ao serviço do Braga.
O DEFESO
"Mas é verdade que houve algumas conversas com pessoas directa e indirectamente ligadas ao Benfica."
No defeso falou-se muito que o mister Luís Martins podia ingressar na formação do Benfica. Isso teve algum fundo de verdade?
Antes do Braga existiram alguns contactos exploratórios, mas isso não atingiu um grande significado porque não foi formalizado nenhum convite, não foi dado nenhum passo para que eu possa dizer que fui convidado para ir para a Luz. Mas é verdade que houve algumas conversas com pessoas directa e indirectamente ligadas ao Benfica.
Gostaria que essa hipótese se tivesse concretizado?
Não me quero pronunciar sobre isso.
O NASCIMENTO DO FUTEBOL E OS INÍCIOS DA CARREIRA COMO TÉCNICO.
"Na primeira época no Coruchense todas as competições onde estivemos envolvidos ganhámos."
Sabemos que na sua infância praticou inúmeros desportos. Porque é que optou pelo futebol?
Essencialmente pela paixão. Todos os que estamos nisto quer sejam jogadores, treinadores, árbitros, jornalistas, é porque partem da premissa que adoram o futebol. E esse é o meu caso. Eu gosto muito de futebol, aprendi muito na vida por causa deste desporto e cada vez mais faço as coisas com maior paixão.
Chegou a jogar futebol federado?
Sim. Comecei no Sporting, nessa altura os escalões de escolas e infantis não eram federados, e depois fiz um trajecto de quem não tinha muito jeito para a prática da modalidade. Passei pelo Odivelas e depois quando entrei para o ISEF, ponderei deixar a minha carreira futebolística, porque não ia ter um grande desenvolvimento futuro e dediquei-me ao futsal.
Como decidiu enveredar pela carreira de treinador?
No Odivelas fui convidado a exercer a minha primeira tarefa como treinador adjunto dos juvenis. Já lá vão 22 anos. E como a tarefa me encantou e cativou, foi por aí que decidi dar rumo à minha vida.
E depois como se deu a continuação da profissão?
Acabei por ter alguma sorte, por alcançar bons resultados desportivos e por trabalhar com jogadores de grande qualidade. No Odivelas consegui perceber que com outros meios e recursos podemos ter influência na formação. Estou-me a lembrar de nomes como o Luís Alves, o Alexandre ou o Paulo Vida, que não dizem nada à maioria do público, mas que foram bons jogadores da II divisão e acabaram por chegar à primeira. O passo a seguir foi a formação do Belenenses. Aí trabalhei com jogadores de melhor qualidade. Não estou a dizer que formei bons jogadores, mas o facto de treinar jovens progressivamente melhores, também potenciou a minha evolução como técnico. Nessa altura trabalhei com o Neca, o Pedro Alves (guarda-redes do Setúbal), o Ricardo Aires, o Malá, o Rui Duarte (capitão do Olhanense), e todos eles desenvolveram o meu gosto pela formação de jogadores. E mesmo quando passei para o Coruchense, tentei levar alguns jogadores jovens que tinha orientado no Odivelas e Belenenses, bem como outros do Benfica e do Sporting. Esta amálgama de jovens com outros mais experientes, acabou por originar um clube sustentado e que acabou por subir à terceira divisão. Essa perspectiva de bons resultados desportivos sempre me orientou, e a chegada ao Sporting foi um momento muito importante da minha carreira, porque trabalhei com alguns dos melhores jogadores do mundo actualmente. Curiosamente numas condições que eram as piores do mundo e que se transformaram numas das melhores da Europa.
Ao serviço do Coruchense conseguiu a primeira subida de divisão, e ganhou alguns títulos distritais?
O Belenenses já me tinha dado alguns títulos distritais ao nível da formação, mas na primeira época no Coruchense todas as competições onde estivemos envolvidos ganhámos. Ainda há quinze dias estive a falar com o capitão dessa equipa, e recordámos esses momentos, foi uma temporada espectacular para mim e para a equipa.
Disse que treinou o Neca, também o Rui Duarte, já previa que chegassem a um alto patamar no futebol?
Sim. Quando vemos um jovem jogador com muito potencial, dá para ter a percepção se vai ter sucesso ou não. Pode perder-se por um ou outro motivo mas, desde muito jovem que se consegue fazer uma previsão. E não é preciso ser um técnico muito experiente para fazer a análise de um jogador, os jornalistas fazem bem essa previsão. Depois é necessário desenvolver o talento ao longo do tempo, e os casos de jogadores excepcionais são poucos. Cristianos Ronaldos aparecem muito poucos.
AS OPINIÕES SOBRE O SENHOR 94 MILHÕES
"Claro que tivemos os momentos de litígio, onde tive de expressar a minha frontalidade. Mas também tivemos momentos de grande afeição até fora do campo, e é uma relação que perdura nos dias de hoje."
"Não estou a dizer que sou mais esperto que os outros ou mais perspicaz, mas vi nele a capacidade para ser um dos melhores jogadores do Mundo, possivelmente até o melhor."
"Estamos a falar de um miúdo que tivemos de castigar por estar a fazer musculação no dia antes do jogo, num jovem que achava que havia sempre mais complementos que se podiam fazer e que ele adoptava."
"Ele faz parte das minhas referências afectivas, gosto de ver os meus amigos bem e felizes, e sei que neste momento ele está com esse estado de espírito."
Sabemos que treinou o Cristiano Ronaldo, ele já tinha aquele potencial todo que tem hoje?
Eu não trabalhei mais do que três épocas com ele. Mas já no Nacional da Madeira, as pessoas diziam que ele tinha qualidades acima da média. Ao longo do tempo foi desenvolvendo todo o potencial que tinha. O que o Cristiano é hoje, penso que não tem nada que ver com o que ele era quando saiu do Sporting. Às vezes pensa-se que os treinadores são também pais, mas eu não concordo. Actualmente desenvolveu muito as suas capacidades, é um jogador muito construído, muito maduro, muito consciente do que é o futebol de alto nível. Quando saiu do Sporting era necessário que ele desse esse passo, e o Manchester foi um clube muito importante nesse sentido.
Como era a sua relação com ele?
Tínhamos uma boa relação. Claro que tivemos os momentos de litígio, onde tive de expressar a minha frontalidade. Mas também tivemos momentos de grande afeição até fora do campo, e é uma relação que perdura nos dias de hoje.
Surpreende-o a sua evolução tendo em conta que o conheceu numa fase prematura?
Não, sinceramente não. E na altura que o conheci expressei a minha opinião. Não estou a dizer que sou mais esperto que os outros ou mais perspicaz, mas vi nele a capacidade para ser um dos melhores jogadores do mundo, possivelmente até o melhor. Cada dia que passava conseguia fazer coisas melhores, e cada defeito que lhe era apontado, ele conseguia melhorar. E isso fez-me pensar que em termos técnico, tácticos e psicológicos estava na presença de um jogador de alto nível, com todas as condições para chegar lá. Na altura poucos disseram isso, mas hoje aparecerem muitos "pais", mas eu também compreendo isso (risos).
É uma pergunta que é essencial fazer. Concorda com a ida do Ronaldo para Madrid?
Concordo, porque é um dos sonhos do Cristiano. Ele faz parte das minhas referências afectivas, gosto de ver os meus amigos bem e felizes, e sei que neste momento ele está com esse estado de espírito.
Mas não acha que a sua evolução podia se processar melhor em Manchester? A transferência para a capital espanhola não é arriscada?
É importante que se defina que estamos a falar da evolução do melhor jogador do Mundo. Já não há muito para dizer. Percebe-se que ele queira passar de um grande clube como é o Manchester para um campeonato mais evoluído e mais competitivo como é o espanhol.
De onde vem essa obsessão pelo Real Madrid? Já vinha dos tempos de Mijatovic e Suker?
Nas memórias sei que o Real Madrid foi sempre um clube que seguiu o Cristiano Ronaldo e eu vou-lhe dar um exemplo concreto disso. O clube espanhol sempre fez saber ao Ronaldo que era um jogador bem-vindo. Eu era treinador dos juvenis do Sporting, participámos num torneio em Bragança, no mesmo ano em que eu tinha estagiado no Real Madrid. Essa altura foi quando o Cristiano Ronaldo dava os primeiros passos em Manchester. E recordo-me que nessa prova no norte do país, estava lá um treinador brasileiro de seu nome Francisco Filho, e que trabalhava para os "red devils". Estava eu, esse tal treinador e o mister Luís Dias a conversar sobre o Ronaldo, sobre as suas qualidades, porque o mister Francisco iria voltar a Inglaterra e iria ser importante na adaptação do madeirense. Nesse tal torneio estiveram presentes vários clubes importantes como o Valência por exemplo. Em Março desse ano quando eu estava a estagiar em Madrid e porque sabiam que eu tinha sido técnico do Ronaldo pediram para fazer um retrato dele e das suas qualidades. Foi então que soube que já o andavam a observar há algum tempo. Inclusive tinham vídeos dele e de outro jogador, de seu nome, Fábio Paim. Isto permite constatar que o acompanhamento já vem de algum tempo e se efectua ao longo de muitos anos.
Qual é a posição natural do Cristiano Ronaldo? Anteriormente parecia ser o melhor extremo direito do mundo, hoje parece mais ser um... avançado?
É um avançado, um atacante. Tanto joga no corredor lateral e vem para o meio para aparecer em zonas de finalização, como serve os colegas na área, ou então vem buscar jogo mais atrás e ajuda no momento defensivo. É um jogador mais consciente nesse sentido e com maior capacidade de finalização.
Isso também tem que ver com o seu desenvolvimento muscular que se deu em Inglaterra?
Deixe-me dizer-lhe que quando passámos para a Academia fizemos alguns testes físicos e musculares e o Cristiano era de longe o que tinha os melhores valores. Estamos a falar de um miúdo que tivemos de castigar por ele estar a fazer musculação no dia antes do jogo, num jovem que achava que havia sempre mais complementos que se podiam fazer e que ele adoptava. Estou a falar de trabalho abdominal, de força, da alimentação, ele era muito auto independente nesses aspectos.
ALGUNS ENSINAMENTOS E ESCLARECIMENTOS DO PROFESSOR LUÍS MARTINS
"Um modelo de jogo é o conjunto global das características da equipa. O sistema de jogo é uma dessas características"
Há muita confusão no mundo do desporto rei por parte dos adeptos no que diz respeito ao uso de certos termos como modelo de jogo, sistema de jogo, esquema táctico, etc. Na qualidade de professor pode dar-nos uma ideia correcta desses conceitos?
Um modelo de jogo é o conjunto global das características da equipa. O sistema de jogo é somente uma dessas características Quando se diz que uma equipa alinha em 4-4-2 estamos a falar de sistema de jogo. Quando se escreve que um conjunto joga em 4-4-2, recupera defensivamente de uma determinada forma, ou tem uma maneira específica de se organizar nas bolas paradas, quer ofensivas quer defensivas, referimo-nos ao modelo. O modelo de jogo refere-se aos equilíbrios da equipa, dos jogadores que formam o 4-4-2. Mas há um certo desconhecimento. Vou-lhe dar um exemplo, quando se dizia que o Sporting de José Peseiro jogava em 4-4-2, e que o Douala era um médio/extremo que transformava o sistema em 4-3-3, raramente as pessoas viram isso.
Falando um pouco de sistemas de jogos e características de jogadores. Se eu for ao Brasil encontro laterais muito ofensivos e pontas de lança com qualidade, guarda-redes encontro-os na Alemanha, se quiser bons defesas centrais vou até Itália, ou se preferir extremos com grande capacidade técnica, procuro em Portugal. A isto não é alheio do facto do sistema mais utilizado ser o 4-3-3 e por isso produzir-se muitos extremos e médios centro mais do que avançados centro, o que por consequência origina falta de pontas de lança. Acha que o sistema é que faz os jogadores, ou é preciso jogar neste sistema sempre devido às caracteristicas naturais do futebolista português?
Eu tenho uma opinião divergente. A formação do jogador faz-se naquilo que ele sabe do jogo e pela qualidade de opções que consegue aplicar no campo. Não é relevante se o Sporting tem preferência pelo 4-3-3 ou o Braga pelo 4-4-2. Vou-lhe dar um exemplo, a equipa de Iniciados do Braga jogou em 4-3-3 e em 3-5-2 durante esta época. Isso foi extremamente rico e benéfico para os jogadores, porque não é a mesma coisa jogar com quatro defesa ou apenas com três. Deste modo, os jogadores com 14/15 anos já percebem as variações de sistema, e estão muito mais bem orientados e preparados para se movimentarem em várias situações. A formação do jogador não é só desenvolver-lhe as capacidades inatas, mas sim dar-lhes um conjunto de instrumentos e ferramentas que podem usar em várias circunstâncias e com vários treinadores.
Em Portugal há a tendência para quando aparece um lateral com boa técnica e boa capacidade ofensiva, puxa-lo para a frente no terreno, para extremo. Talvez por isso haja um défice de laterais esquerdos, e um excesso de extremos?
Eu acho que há alguns mitos na formação em Portugal que não são provados pela prática e muitas vezes fala-se de forma leviana sem uma análise pura, dura e científica. Há o mito de que é melhor ter um lateral que ataca, do que um extremo que não defenda, isto não existe. O que é preciso é avaliar as capacidades de cada jogador, prever o que ele pode ser daqui a dez anos se possível, e potenciar instrumentos para que ele possa atingir essa previsão. Ver se é melhor o jogador passar por várias posições ou fixar-se numa. Na minha opinião, os jovens devem passar por vários lugares, e depois à medida que o tempo passa devem-se fixar, individualizar e especializar numa determinada posição para que ele possa evoluir. Em suma, é preciso analisar cada indivíduo e analisar o que ele pode dar a médio prazo.
A INTERNACIONALIZAÇÃO DA FORMAÇÃO
"Os clubes têm de olhar para isto de uma forma normal, não radicalizar e ter só estrangeiros mas também não fechar as portas a isso."
"É impossível saber com certeza se os papéis (com a idade do jogador) mentem ou dizem a verdade."
Quando estava no seu ante-penúltimo ano no Sporting foi contratado um jogador chamado Allison Almeida, que depois até foi bi-campeão nacional com o João Couto e consigo. Esta aquisição representou o começo de uma internacionalização da Academia de Alcochete e do futebol de formação em Portugal, que tem continuado até aos dias de hoje. Considera que isto é um ciclo, e que vai terminar, ou é uma aposta para se manter, resultado das liberdades de circulação de jogadores que hoje existem e do sucesso destas apostas estrangeiras?
Em todos os processos de mudança tem de haver um equilíbrio. Atento ao que se passava lá fora, o Sporting teve de dar passos nesse sentido, depois veio também o Yannick Pupo. O que há a considerar neste caso, e que é um factor importante é que a adaptação de um jogador estrangeiro jovem acarreta muito mais riscos do que nos seniores. É necessário ver o seu talento, analisar se ao contratarmos não o estamos a prejudicar e se temos condições e contexto para proporcionar a sua evolução. Este ano no Braga estivemos todo o ano a observar jogadores estrangeiros, mesmo sabendo que não os podemos inscrever. É uma forma de estarmos atentos ao que se passa lá fora. E nesse âmbito conseguimos identificar dois jogadores. Recorde-se que no ano passado a equipa júnior tinha sete jogadores estrangeiros, este ano tinha três. O brasileiro Wanderson, o haitiano Peterson e o Toumany, que ainda tem mais um ano de formação pela frente. Os clubes têm de olhar para isto de uma forma normal, não radicalizar e ter só estrangeiros mas também não podem fechar as portas a isso.
O mercado africano está cada vez a emergir mais. A procura de jogadores senegaleses e guineenses tem aumentado. Porque é que isto acontece? Quando a selecção nacional A da Guiné não é muito forte comparada com a portuguesa, como é que os jogadores da formação são superiores aos portugueses?
Há outros países interessantes em África. O problema é que não têm os meios, as infra-estruturas e as condições necessárias, que existem na Europa. O talento está lá. As dificuldades têm que ver com a adaptação e integração desses jogadores quando vêm para a Europa. Mas isso não deve ser limitativo nem restringir as contratações. Há bons jogadores em África, eu também estou cada vez mais atento a esse tipo de realidade e é preciso olhá-la com mais cuidado e rigor.
Essa emergência do mercado africano também traz à baila a discussão das idades dos jogadores. De uma vez por todas, há algum procedimento científico que permita saber com exactidão a idade dos jovens? Fala-se muito do teste do pulso, mas conheço o caso de um atleta caucasiano Sub-14 do Benfica que lhe fizeram o teste ao pulso e este indicou que ele tinha apenas 8 anos de idade porque em termos de ossatura estava sub-desenvolvido, enquanto noutro caso deu a um jogador africano mais 6 meses do que tinha no BI. Tudo isto parece muito pouco convincente.
Esse teste é fiável, mas mesmo quando tem um grau de certeza elevado, também tem uma margem de erro. É impossível saber com certeza se os papéis mentem ou dizem a verdade. Há dificuldades a esse nível. Também posso dizer, que todos os jogadores que têm uma idade desajustada com aquilo que está no papel, nunca têm sucesso no futebol profissional.
Mas estes jogadores na formação, podem ajudar as equipam a conquistar títulos...
É um engano e não são os títulos que eu quero.
FÁBIO PAIM
"Vou-lhe dizer uma coisa, não era pior que o Cristiano Ronaldo."
"É um miúdo sensível, com alguma dose de racionalismo, mas ao longo dos anos foi habituado a ter tudo fácil e esse não foi bom um bom percurso para ele."
Os jogadores mais tecnicistas têm tendência para serem mais "vaidosos", para não querer participar no processo defensivo. Vejamos o caso do Paim, um jogador dotado de uma grande capacidade técnica e de um grande talento, que se falava que já tinha contratos desde muito novo, carros, apartamentos, etc. e hoje já está no terceiro ano de sénior e não se consegue impor. Tudo isso não contribuiu para um certo deslumbramento?
Os jogadores que eu gosto são aqueles que eu sou incapaz de prever o que vão fazer. Jogadores que arriscam, com alto grau de criatividade, virtuosismo, penso que vão dar uma resposta e dão outra. Têm um talento natural, inato. O Fábio Paim é um caso desses. O que o distingue do Ronaldo, é que não tem a tal resistência mental que é precisa nestes casos, não a desenvolveu. Agora as dificuldades que tem tido na sua vida também podem ser um estímulo para por em prática todo o seu talento, porque eu sei que existe e acredito que ainda vai aparecer. Outro factor importante tem que ver com o acesso fácil a certas coisas que falou e que podem tornar-se virtuais, pois podem desaparecer de um momento para o outro.
Como é que era o Fábio Paim no escalão de Juvenis?
Vou-lhe dizer uma coisa, não era pior que o Cristiano Ronaldo. Estou a falar no aspecto futebolístico. Nos outros aspectos era diferente. Cada caso é um caso, e não nos admiremos, se daqui a uns dois anos falarmos do Fábio Paim num contexto e numa situação muito diferente da que está agora, para melhor.
O facto de actualmente já estar com as costas encostadas à parede pode ajudá-lo a melhorar?
Sim. E até faço aqui um desafio. Um dia destes fazia bem ao Fábio Paim ter uma conversa com o Cristiano Ronaldo.
Em juvenis era considerado uma grande promessa e atingiu um nível de excelência, mas nos juniores talvez já não fosse tão evidente...
Em juniores quando fomos campeões lesionou-se na fase final da época. Mas aquela altura até à lesão foi fantástica.
Ficava a ideia de que quando queria era um jogador decisivo...
Tenho de dizer uma coisa, embora não queira desresponsabilizar o Fábio Paim pelo que lhe está a acontecer. As pessoas iludiram-no muito cedo e fizeram-no ter comportamentos que não são característicos dele. É um miúdo sensível, com alguma dose de racionalismo, mas ao longo dos anos foi habituado a ter tudo fácil e esse não foi bom um bom percurso para ele.
O facto de andar sempre de clube para clube originou alguma instabilidade. Esteve no Trofense, Olivais e Moscavide, Paços de Ferreira, um clube russo, o Chelsea, etc.
Nesta altura tudo isso são factores perturbadores. Mas também considero que todas estas coisas devem fazer com que o Fábio reflicta mais sobre as suas decisões futuras.
MUDANÇAS NO FUTEBOL DE FORMAÇÂO
"As coisas novas que existem já não se compadecem com aquilo que se faz em Portugal, e isso foi um passo atrás que demos nos últimos dez anos."
"A mudança dos quadros competitivos é uma coisa que está pensada desde quando o professor Carlos Queiroz esteve na federação portuguesa de futebol pela primeira vez. Agora voltou a entrar mas ainda nada foi feito nesse sentido. Penso que isso é um aspecto essencial."
Fala-se muito de jogadores que podiam atingir certo potencial mas depois isso não se confirma por vários factores. As condições psicológicas têm uma grande importância. O Sporting tem vários psicólogos para acompanhar os seus jogadores, e isso traz algumas vantagens. Acha que em Portugal ainda há coisas a melhorar no acompanhamento psicológico dos jogadores? Há vários jovens que estão longe da família e do seu habitat natural.
Penso que os psicólogos são importantes, assim como os técnicos ligados à ciência do comportamento humano. O desenvolvimento do jovem jogador não pode ser dissociado da sua evolução psicológica e social. No curso que fiz recentemente em Inglaterra confirmei exactamente isso. O professor Carlos Queiroz quando saiu de lá, disse que a formação era uma desgraça. E actualmente percebem o que ele queria dizer. Em Portugal quando ouvimos uma crítica achamos que é má fé, que é para destruir. E há muita evolução que tem de ser feita. É preciso adoptar e aportar novos procedimentos, novas metodologias, novos recursos. As coisas novas que existem já não se compadecem com aquilo que se faz em Portugal, e isso foi um passo atrás que demos nos últimos dez anos.
Imaginemos que o mister Luís Martins era todo poderoso e podia mudar tudo o que estivesse mal. Diga-nos algumas coisas que gostaria de ver implementadas na formação, ao nível de mudanças organizacionais, estruturais etc?
A mudança dos quadros competitivos é uma coisa que está pensada desde quando o professor Carlos Queiroz esteve na federação portuguesa de futebol pela primeira vez. Agora voltou a entrar mas ainda nada foi feito nesse sentido. Penso que isso é um aspecto essencial. Depois há outro problema, muitos clubes dizem que apostam na formação mas dão poucos recursos financeiros, humanos e físicos. Felizmente estou num clube que cada vez mais fornece meios para a formação e para os treinadores responsáveis. Posso dizer-lhe que pela primeira na história bracarense, fizemos duas acções de formação internas para os treinadores do clube. Assim todos ficam a saber as ideias que temos, muitas vezes os técnicos dão os treinos sem saber o que se pretende. Em Braga isso já acontece de uma forma orientada, organizada e direccionada para um fim. Outra mudança necessária tem que ver com as pessoas que acompanham os jogadores fora do campo. A formação do jogador faz-se com o motorista, com o roupeiro, com a empregada do bar. Até elaborámos um vídeo em Braga com isso. O desenvolvimento faz-se em casa, faz-se nas deslocações para os estágios, para os jogos, e pode-se fazer em todo o lado, desde que consigamos aumentar a intensidade da mensagem para os nossos jogadores. Em Portugal ainda não se vê melhorar a intensidade da mensagem que tem de ser difundida dentro dos clubes.
Como treinador e agora como coordenador tem de lidar com os pais dos jogadores. Há dificuldades nesse sentido, alguma coisa devia ser feita para melhorar essa relação?
Em primeiro lugar, eu não deixei de ser treinador. A minha função também tem muito de treinador e ponho-me sempre do lado dos treinadores. Eu não tenho dificuldade nenhuma em lidar com os pais, desde que exista bom senso. Digo sempre a verdade, sou sempre frontal. Tenho dificuldades em lidar com os pais que não entendem que quando estamos a fazer uma avaliação do filho não estamos a dizer mal de ninguém. Apenas estamos a criticar o jogador.
O CURSO EM INGLATERRA E O ESTÁGIO EM ESPANHA
"Também constatei que Portugal já não é um país referência para eles nesse sentido."
"Eu acho que os Pavones eram bons jogadores na altura, mas não correspondiam às exigências do clube, e os galácticos precisavam de outros Pavones com mais intensidade do que aqueles que lá estavam."
No curso que fez em Inglaterra o que nos pode adiantar ao nível do treino. Há a ideia de que se dá mais ênfase às componentes físicas, mas na altura em que entrevistámos o Evandro Brandão e Rui Fonte, ele revelou-nos que era precisamente ao contrário. O foco era mais na componente técnica.
Também notei isso. A grande preocupação neste momento das Academias é criar jogadores talentosos e virtuosos. E estou a falar de 20 Academias, de todas a equipas da Premiership e ainda há outras da II divisão e mais espalhadas pelo país. Estamos a falar de um processo que começou há dez anos, e que sofreu algumas modificações ao longo do tempo. O que eu sinto, é que estão muito preocupados em copiar o que de melhor se faz nos outros países. Também constatei que Portugal já não é um país referência para eles nesse sentido. Países como a Argentina, Espanha, Itália surgem como exemplos a seguir ao nível de associações, clubes, federações.
Que inovações trouxe de Inglaterra para cá?
A primeira coisa que gosto de salientar é que a formação não é só para os jogadores, é também para os treinadores. Posso revelar que foi a melhor formação que já fiz e a que me deu mais conhecimento. E já tirei o curso, o mestrado e realizei vários cursos de treinador em Portugal e na Europa. Isto quer dizer que a minha formação como treinador vai sempre continuar. Com vinte anos de profissão aprendi novos métodos e conhecimentos que não são milagrosos, mas que alteram e fazem equacionar os conceitos que temos enquanto treinadores.
Com que treinadores contactou em Inglaterra?
Falámos com os directores das academias do Chelsea, Manchester United, Arsenal e outros como o Everton que me deu muito boas indicações. É muito evoluída e até 2013 tem um rumo a seguir. Foi das informações que mais me tocou. Éramos 45 pessoas a fazer a formação, como se sabe, eles têm algum estigma em relação aos técnicos nacionais. Havia quatro estrangeiros: dois escoceses, um búlgaro e um português. Eram treinadores que estavam lá com o objectivo de aperfeiçoar conteúdos.
Como surgiu a hipótese de estagiar no Real Madrid?
Fazia parte da metodologia do Sporting. Os treinadores tinham a hipótese de constatar, avaliar e conhecer metodologias diferentes, trazendo novas experiências. Neste último curso que fiz em Inglaterra também vou ter de fazer um relatório para a federação inglesa onde explicarei uma vantagem e desvantagem, um ponto forte e outro fraco, etc. Nessa altura, o Sporting proporcionava esses estágios e eu escolhi o Real Madrid. O professor Carlos Queiroz sempre foi uma das minhas referências, e ele orientava os madrilenos nesse período. Depois falava-se muito da divisão que havia entre os galácticos e os Pavones e achei que era o sítio ideal para aperfeiçoar os meus conhecimentos. Nessa altura também contou muito o facto do Real Madrid ter sido eleito o melhor clube da Europa em formação.
Com conhecimento de causa porque esteve lá, como era essa divisão entre "Zidanes e Pavones"?
É muito difícil para um treinador gerir uma situação daquelas, porque a mensagem foi sendo difundida e as diferenças acentuaram-se ainda mais. Eu acho que os Pavones eram bons jogadores na altura, mas não correspondiam às exigências do clube, e os galácticos precisavam de outros Pavones com mais intensidade do que aqueles que lá estavam. E penso que a difusão dessa mensagem também foi um dos factores que contribuíram para o mau final de época do Real Madrid.
Que tipo de feedback teve desses jogadores?
Foi na altura de Zidane, Figo, Casillas, Ronaldo, Beckham. A ideia que tive foi que o treino era complicado de conciliar com o merchandising, e com o negócio que o futebol hoje se encontra. E esse facto era perturbador. No entanto aperfeiçoei a ideia de que as grandes estrelas do futebol Mundial são pessoas humildes, simples, educadas e que querem ter sucesso.
A HIPÓTESE DE TRABALHAR NO ESTRANGEIRO E A VIAGEM ATÉ AO ALGARVE
"Encontrei condições difíceis em Portimão. O clube não tinha campo para treinar nem jogar, as condições eram pouco condizentes com o futebol profissional."
"É um facto que eu queria alguns jogadores do Sporting como o Daniel Carriço, David Caiado ou João Martins. Não sei porque não vieram, não voltei a falar com as pessoas sobre isso..."
Na altura que ainda estava no Sporting falou-se que podia ingressar na formação de outros clubes estrangeiros. Isso foi verdade?
Houve algumas abordagens mas, não existiram convites. Fiz alguns estágios fora de Portugal que me deram contactos e a possibilidade de ponderar trabalhar fora de país. E nos dias de hoje ainda equaciono essa hipótese.
Que clubes eram esses?
Os contactos não foram bem sucedidos, por isso prefiro não revelar (risos).
Foi contratado pelo Portimonense para salvar a equipa da descida de divisão. O que encontrou quando chegou ao Algarve?
Encontrei condições difíceis em Portimão. O clube não tinha campo para treinar nem jogar, as condições eram pouco condizentes com o futebol profissional. Contudo, encontrei bons jogadores. Para mudar algumas coisas, criei algumas animosidades e conflitos. Mas o balanço que faço desse período é o seguinte: o clube não podia descer de divisão e isso não aconteceu, ganhámos ainda a Taça do Algarve, o que já não acontecia há algum tempo, o espaço de treino melhorou e ainda perdura até aos dias de hoje, e conseguimos criar a ideia de que uma equipa jovem como a que construímos na segunda época, podia conseguir consolidar a posição do clube na II Liga.
No defeso da primeira época para a segunda falou-se que vários jogadores podiam ir de Alvalade para Portimão a título de empréstimo. Isso acabou por não acontecer. Teve que ver com a sua saída do Sporting, com algum tipo de ressentimento?
Eu não sei porque é que isso não aconteceu. É um facto que eu queria alguns jogadores do Sporting como o Daniel Carriço, David Caiado ou João Martins. Não sei porque não vieram, não voltei a falar com as pessoas sobre isso, aliás, os dirigentes do Portimonense é que tinham essa tarefa. Apesar de tudo isso conseguimos fazer um plantel que conseguiu defender os interesses do Portimonense, e ainda alcançamos bons resultados como vitórias na Taça da Liga frente à Naval e ao Belenenses. Ao fim de seis jornadas na Liga Vitalis, tínhamos duas derrotas e quatro empates, embora a equipa fosse muito jovem, tinham entrado 16 novos jogadores e isso leva o seu tempo a carburar. Isso foi considerado um mau desempenho do treinador, e quando assim é o treinador sai.
Não foi o mister que quis sair?
Não, fui convidado a sair. O presidente disse-me que não acreditava no trajecto e que previa muitas dificuldades no futuro e então não me restou outra solução.
Como classifica essa primeira experiência como treinador principal na Liga Vitalis?
Olhe, dentro daquilo que eu considero que é importante para a minha formação enquanto treinador, foi mais um passo. Muitas pessoas disseram que não foi uma experiência bem sucedida, eu não concordo. Fui bem sucedido como pessoa e como profissional. Os resultados foram aqueles que lhe disse há pouco, que acho que não podiam ser melhores até ao momento. Construí um plantel com jogadores como o Miguel Ângelo, o Nuno André Coelho, o Emídio Rafael que no final dessa época saíram para a primeira Liga. Chamei jogadores talentosos, com vontade e na tentativa de os lançar e fazer evoluir. Portanto tenho que advogar para mim esse mérito.
O PRAZER DOS TÍTULOS
"Eu teimo em dizer que no Coruchense senti um prazer enorme. Ganhei tudo o que havia para ganhar e tinha apenas 30 anos."
De todos os títulos que conquistou qual foi aquele que lhe deu mais prazer?
Eu teimo em dizer que no Coruchense senti um prazer enorme. Ganhei tudo o que havia para ganhar e tinha apenas 30 anos. Mas o ceptro que me deu mais prazer foi o campeonato nacional de juniores.
E porquê?
A equipa foi convincente e consistente. Transpareciam as ideias que estavam definidas e comungadas por todos. O trajecto não foi fácil para os jogadores e para mim, mas foi coroado com um título nacional.
OPINIÕES
"Nestes últimos anos, e não estou a falar de um presidente, de um treinador ou de um dirigente, penso que falta um rumo, uma ideia, um modelo de jogador."
"Lá (na Holanda) há o hábito das pessoas responsáveis serem muito frontais e verdadeiras com os jogadores, não há problemas em dizer que um jogador é a primeira escolha e o outro é a segunda. Em Portugal vejo várias dificuldades em implementar essa mentalidade."
Como pessoa que viaja pelo Mundo e que conhece muitas realidades diferentes, quais são as diferenças filosóficas entre a escola holandesa, francesa, argentina e portuguesa?
São escolas diferentes. As coisas na Europa mudaram um pouco relativamente àquilo que são os paradigmas da formação. A escola holandesa está perfeitamente estudada e conhecida mas nem por isso perde o seu valor. Lá há o hábito das pessoas responsáveis serem muito frontais e verdadeiras com os jogadores, não há problemas em dizer que um jogador é a primeira escolha e o outro é a segunda. Em Portugal vejo várias dificuldades em implementar essa mentalidade. Na Holanda há também o hábito da persistência, da continuidade de projectos. Em Portugal isso não existe, normalmente a filosofia muda-se jogo a jogo, um treinador é bom, mas amanha já é mau. As coisas não podem ser assim, na formação não se pode retirar um conceito importante que é o tempo. Não é um dia, nem um mês, mas sim anos.
Por outro lado a França é um contexto que não conheço tão bem como desejava. Lá a federação é que dirige os centros de treino dos clubes, define o que se deve fazer, quantos treinadores se deve ter, as metodologias a implementar. Isso era impensável em Portugal. Tal como também é impossível termos a criatividade da escola brasileira. E no Brasil já existem muitas equipas técnicas especializadas e muito inovadoras.
Também tive acesso à escola argentina e ainda há um grande desfasamento de meios. É um país com grande turbulência económica e financeira e vale tudo para exportar jogadores para a Europa. Penso que o rigor da formação ainda não está ao nível do que se faz na Europa.
A nível de selecções Portugal já não conquista um grande título internacional desde 2003 em Viseu. O que acha que tem faltado?
Eu sou uma pessoa que confia nos projectos a médio prazo. Nestes últimos anos, e não estou a falar de um presidente, de um treinador ou de um dirigente, penso que falta um rumo, uma ideia, um modelo de jogador. Fez-se muitos esforços, mas nenhum foi congregado, com uma ideia fixa e uma política. E assim fica difícil porque nos últimos anos a federação funciona como vários clubes.
Já treinou equipas seniores e equipas da formação. O que é que lhe dá mais prazer e quais as grandes diferenças que encontra?
Eu gosto de treinar futebol, seja ele qual for. Até já trabalhei em escolas de futebol privadas, como a do Humberto Coelho, que também me deu muito prazer de aprofundar as minhas capacidades mais como educador. Não sei responder a essa questão, gosto muito de futebol, de ver os resultados do meu trabalho a longo prazo e estou disponível para qualquer tipo de projecto.
O Paulo Futre apareceu na década de 80, o Figo em 90, o Ronaldo depois do ano 2000, será que vai ser preciso mais dez anos para aparecer outro craque, com o chamado talento de rua? Ou agora a ideia passa mais por "fabricar" jogadores mais fiáveis e mecânicos como o Moutinho?
Em Braga quero potenciar o desenvolvimento do jogador talentoso, e olhar para ele sem desprezar os outros que estão à volta e que formam a equipa. Queremos potenciar todas as condições para formar e desenvolver um grande talento. Não é um trabalho fácil de fazer porque tende a fazer-se uma avaliação das equipas. E penso que esse não é o trilho mais correcto. Declaradamente, definitivamente, o objectivo tem que ser o jogador, e em Portugal apareceram muitos jogadores talentosos, até noutras posições, basta ver as melhores equipas do Mundo. Já jogaram portugueses em todo o lado. Não é preciso serem extremos com muita fantasia, se olharmos por exemplo para o Ricardo Carvalho vemos isso. É considerado um dos melhores defesas centrais do planeta. Mas temos outro, eu advogo a ideia de que um Daniel Carriço é já hoje um dos melhores centrais da Europa.
O Nuno André Coelho foi seu jogador no Portimonense. O Porto tem sempre o hábito de quando os jogadores não se encaixam no plantel sénior, encaixá-los noutras equipas. Foi assim que surgiu o Tonel, o Ricardo Carvalho e agora acontece o mesmo com este defesa central que fez uma época fabulosa no Estrela da Amadora. Que opinião tem dele?
É um indivíduo que precisava desta dimensão. Jogou no Porto nas camadas jovens, depois esteve no Standard de Liège onde efectuou muitos jogos, passou pelo Portimonense e agora confirmou todo o seu potencial na Reboleira. Tem todas as condições para ser um grande central a nível europeu, se lhe for dada a oportunidade e isso serve para mostrar que a formação dos jogadores se faz de várias maneiras. Não é só com a integração imediata dos juniores para os seniores. Há outras formas. Isso só acontece porque o Porto tem outros recursos que por exemplo o Sporting não tem. O Sporting não tem tanto poder financeiro para investir em novos jogadores, enquanto que o Porto, fruto dos títulos e das vendas que faz, tem o poder de ter muito mais paciência com os seus jogadores.
O sistema preferido do mister é o 4-3-3?
Não, já passei por vários sistemas. No Sporting fazia uso de vários sistemas de jogo e de várias variantes. Como disse, penso que é importante para a evolução dos jogadores passarem por várias hipóteses tácticas.
Há pouco disse que o Cristiano ia para a Espanha e que a liga é mais competitiva, é o seu campeonato de eleição?
Eu gosto muito do campeonato inglês, gosto muito da forma como encaram o jogo, da cultura que existe em redor do futebol dentro e fora do campo. Posso adiantar que há duas semanas assisti ao jogo entre o Arsenal e Liverpool em Sub-18 no Estádio Emirates e estavam nada mais, nada menos do que 30000 pessoas a assistir. Era a primeira-mão da final da FA Cup. Os bilhetes custavam 10 libras, o jogo tinha transmissão televisiva e havia uma quantidade incrível de adeptos. Esses miúdos desde muito cedo já têm uma grande noção da realidade. E isso determina a minha paixão pelo futebol inglês. Mas reconheço que o campeonato espanhol tem outros atributos e outra competitividade.
Tem algum treinador que admire particularmente?
Eu admiro muitos treinadores, alguns são conhecidos do grande público, mas outros não. A minha grande referência enquanto formação é o professor Carlos Queiroz. Mas gostei também do período em que trabalhei com José Peseiro, onde aprendi muito. Evolui bastante e adquiri muitos conhecimentos. Na Argentina destaco um treinador em especial, o Carlos Bianchi porque organizava as equipas e trabalhava de uma forma muito metódica. Estive também em Villareal algum tempo e percebi que o Manuel Pellegrini é um treinador de grande nível.
Portanto não o surpreende a sua contratação do Real Madrid?
Não me surpreende nada. A forma como ele e a sua administração fizeram o Villareal crescer de uma forma sustentada, e lançaram o emblema na alta-roda da Europa é bem elucidativa. Recorde-se que a cidade não tem mais do que 40000 habitantes. Só um grande trabalho e um grande método é que podia possibilitar este crescimento exponencial. E penso que o crescimento do clube vai continuar mesmo sem o mister Pellegrini.
Trabalhou muito tempo com José Peseiro. Há pouco tempo falámos com a seleccionadora nacional Mónica Jorge que também teve uma ligação com ele, e disse que ao contrário do que se diz, ele tem uma personalidade forte e vincada. Concorda?
É verdade. Explorou-se muito a vulnerabilidade e os casos de indisciplina que aconteceram no Sporting nessa época. Eles aconteceram de facto, mas também surgiram noutros clubes. De uma forma malévola, tentou-se denegrir a sua imagem, dizendo que o José Peseiro não tinha mão no plantel, nem havia rumo no balneário. E como vivi as coisas por dentro não concordo nada com isso.
A EXPERIÊNCIA COMO JORNALISTA E OS PROJECTOS PARA O FUTURO
"Quero dedicar-me muito ao Braga que me está a proporcionar uma tarefa que nunca tinha exercido e que me está a enriquecer muito como treinador."
Depois de treinar o Portimonense iniciou a sua carreira como comentador, quer na rádio, quer na televisão. Como caracteriza essa experiência?
Foi um período que me ajudou a conhecer jogadores, equipas e contextos diferentes. Faço comentários de rádio e na Sporttv e isso deu-me uma nova dimensão social do futebol. Nunca pensei ver partidas da Copa América, do campeonato holandês ou da Taça de Inglaterra. Foi assim que vi jogar pela primeira o Aaron Ramsey no Cardiff. Assim inteirei-me de outra parte do futebol, percebi como o jornalismo se faz, como se vive as incidências de um jogo do lado de fora.
E quais os seus projectos para o futuro?
Não sou uma pessoa que equacione muitas coisas a médio prazo. Quero dedicar-me muito ao Braga que me está a proporcionar uma tarefa que nunca tinha exercido e que me está a enriquecer muito como treinador. E é um projecto que nunca tinha pensado abraçar que é o de coordenador de um departamento de formação.
MISTER LUÍS MARTINS TEM SETE VIDAS
"Eu podia ter morrido em dois dias consecutivos e fiquei vivo. O que quero mais (risos)?"
Conte-nos a história em que a sua vida esteve em risco durante dois dias seguidos.
Eu podia ter morrido em dois dias consecutivos e fiquei vivo. O que quero mais (risos)? O estágio que fiz em Madrid foi na altura em que se deram os atentados de Madrid. Do dia 10 para o dia 11 na estação de Atocha. Coincidência fortuita, eu estava alojado num hotel perto da estação de San Martin que é a seguir a Atocha. Isso também me deu a possibilidade de ver as manifestações do povo espanhol aos atentados. As manifestações em toda a cidade de Madrid e o sofrimento que também se transferiu para o futebol. Os jogos não foram adiados. E isso possibilitou-me assistir de perto ao sofrimento das pessoas nos hospitais, nos estádios, no metro e percebi de perto um fenómeno social preocupante que é o terrorismo.
Já no dia anterior a sua vida tinha estado em risco?
Sim, eu gosto de ver jogos de alto nível e de vez em quando faço umas incursões pela Europa. No dia 10 jogavam Real Madrid e Bayern de Munique para os quartos de final da Champions. E no dia 9 o Porto foi a Manchester para a mesma competição. Fui a Inglaterra assistir ao vivo à partida e fiquei no meio dos adeptos do Porto. No fim do jogo os ingleses não gostaram do resultado (o Porto empatou 1-1 e passou às meias finais) e passei por momentos complicados quando os ingleses perceberam que eu era um dos portugueses. Foi uma espécie de premonição para o que ia acontecer no dia seguinte em Madrid. Mas felizmente tudo correu bem, e quem não morre nessas situações nunca mais morre.
Entrevista realizada no dia 13 de Junho de 2009 no Hotel Tivoli Oriente.
Texto: Miguel Belo.
Imagens: Academia de Talentos.
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Comentários
Boa tarde. Parabéns por
Boa tarde.
Parabéns por mais uma excelente entrevista, aguardo ansiosamente pelas restantes duas partes.
Quero aproveitar para um enviar um abraço ao professor Luís Martins que foi meu professor de Educação Física e que é uma pessoa que admiro muito ao nível da formação em Portugal.
Cumprimentos, Jorge Sepúlveda.
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