Entrevista com Luís Martins (Parte 2)

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Ter, 23.06.2009

A segunda parte da entrevista a Luís Martins é inteiramente dedicada à sua passagem de vários anos pelo Sporting. O técnico analisou a sua estadia nos juvenis, onde conquistou o título de campeão nacional, a sua passagem pela equipa sénior onde recordou momentos históricos da história recente do Sporting, e ainda o regresso à formação, desta vez para comandar os juniores, com mais um título nacional à mistura. Houve ainda tempo para várias opiniões sobre os muitos craques que lhe passaram pelas "mãos" e claro, mais umas histórias bem curiosas sobre CR9 ou CR10!?



A ENTRADA PARA O SPORTING E AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES

"Foi de facto um projecto pioneiro, mas hoje digo de outra forma, porque o Guimarães foi o primeiro emblema a ter uma Academia e pouca gente se lembra disso."

Como se deu a sua entrada no Sporting?

Penso que teve que ver com a campanha que fiz no Belenenses, depois no Coruchense e mais tarde no Odivelas, em que estive quase para subir à II Divisão B. Esses feitos abriram-me um espaço, e houve pessoas, nomeadamente o professor Alexandre Paiva, que se lembraram que eu podia ter uma palavra a dizer na formação do Sporting. O coordenador Jean Paul endereçou-me o convite posteriormente e eu aceitei.

Foi um dos primeiros treinadores a estar na Academia, que impressão teve quando lá chegou. Afinal de contas era um projecto pioneiro em Portugal.

Foi de facto um projecto pioneiro, mas hoje digo de outra forma, porque o Vitória de Guimarães foi o primeiro emblema a ter uma Academia e pouca gente se lembra disso. O Sporting teve o mérito de fazer um projecto inovador ao nível do local e da sua filosofia. Hoje, sou uma pessoa que viaja muito pela Europa e conheço outras realidades a esse nível. Naquela altura tudo era novo porque não se conhecia muito bem o que se fazia lá fora. Em Inglaterra as Academias existem há mais de dez anos, na Holanda também, em França os centros de treino já estão implementados há vinte anos e até em Espanha os clubes da I Liga têm instalações muito boas e com melhores condições do que as que existem em Portugal.

Quando entrou para o Sporting, que dificuldades encontrou?

Quando lá cheguei o Sporting trabalhava a formação desta forma: os juniores estavam nas instalações do Sporting da Torre, os juvenis na Associação da Encarnação, e os Iniciados na Musgueira. Como se pode constatar, a formação não era muito importante para o clube e para a política desportiva. Tudo mudou com a construção da Academia e com o investimento financeiro no futebol de formação.

DE NOVO CRISTIANO RONALDO

"Em termos técnico e tácticos era um indivíduo com grande capacidade de drible, aceleração, choque e espírito de sacrifício, mas ainda não tinha a finalização tão apurada como hoje."

"Se sentia que tinha um aspecto que podia melhorar, ele fazia-o da melhor maneira possível que era: trabalhar."

"Nessa altura, deu uma grande lição. Mostrou a sua personalidade, o seu carácter, manteve o seu sotaque e colocou todas as pessoas no Sporting a falar madeirense."

Que características tinha o Cristiano Ronaldo na altura em que o treinou?

Em termos técnicos e tácticos era um indivíduo com grande capacidade de drible, aceleração, choque e espírito de sacrifício, mas ainda não tinha a finalização tão apurada como hoje. E o desenvolvimento desse aspecto teve que ver com o seu espírito de sacrifício. Se sentia que tinha um aspecto em que podia melhorar, ele fazia-o da melhor maneira possível que era: trabalhar. Quem não acredita na sorte ou nos milagres só tem essa hipótese. E penso que essa capacidade trabalhadora distingue-o de todos os outros jogadores do Mundo. É um indivíduo que sabia que a sua ambição e o seu trabalho o levariam longe.

E em termos psicológicos?

Era e é muito forte. Vou contar-lhe duas passagens onde dá para ver a sua personalidade e carácter. Quando entrei no Sporting ele tinha acabado de fazer uma cirurgia ao coração, e não pôde jogar durante três meses. Quando voltou ele estava ansioso para ver se as suas potencialidades e qualidades se mantinham intactas. Ele sempre disse que queria ser jogador profissional, nunca houve nenhum dia em que duvidasse disso. Nessa altura falávamos sempre em ser "the best" e não era nenhuma analogia com o George Best, era mesmo ser o melhor do Mundo. Ele sempre teve a ambição e persistência para ultrapassar as adversidades, e conseguiu. O que fosse preciso fazer para chegar ao nível a que está, ele fazia. Outro episódio tem que ver com os comportamentos desviantes. O Cristiano Ronaldo vinha de um contexto sociológico diferente, da Madeira, onde tinha comportamentos e uma cultura diferentes. Mesmo a sua forma de se relacionar com as outras pessoas na escola era difícil e turbulenta. Era complicado para ele, porque não compreendia a forma como a cultura citadina se expressa, e os outros aproveitaram o seu sotaque madeirense para o arreliar e gozar. Nessa altura, ele deu uma grande lição. Mostrou a sua personalidade, o seu carácter, manteve o seu sotaque e colocou todas as pessoas no Sporting a falar madeirense.

No tempo que o orientou, qual foi o maior ensinamento que lhe transmitiu?

É complicado dizer, porque o Cristiano Ronaldo não é fruto do meu trabalho no Sporting. Dei uma pequena ajuda no processo. Penso que lhe aportei conceitos de treino mais desenvolvidos, tinha que ser assim. Em cada escalão da formação há conceitos que têm de ser incutidos, e eu penso que foi isso que dei ao Ronaldo. Em termos técnicos e tácticos dei-lhe mais alguns ensinamentos, que têm que ver com o processo defensivo e o momento em que se perde a posse da bola. No Manchester é um jogador muito evoluído nesse aspecto, se joga a médio ajuda o seu lateral, se joga a ponta de lança vem ajudar o meio campo. É muito mais solidário nesse aspecto. Outra coisa que lhe ensinei foi o rigor e a disciplina. Com 14/15 anos tinha de ser mais adulto, mas rigoroso com aquilo que eram os comportamentos da equipa.

Nessa altura ele já decidia muitos jogos?

Sim, foi decisivo em muitos jogos da formação do Sporting. Não me posso esquecer que tinha outros jogadores de alto nível como o Paulo Sérgio ou o Edgar Marcelino. Estamos a falar de jogadores que não chegaram tão alto, mas que partiram claramente à frente dele. Na minha primeira equipa de Juvenis a referência era o Edgar Marcelino e não tanto o Cristiano Ronaldo. Depois na mesma idade do actual melhor jogador do Mundo, tínhamos o Fábio Ferreira que fazia os golos que o Cristiano criava. Mas o contexto em que cresceu também foi favorável para a sua tremenda evolução.

Ainda falando do Ronaldo, há um episódio célebre que envolveu o mister Luís Martins. Consta que o Mister não o deixou ir à Madeira porque ele atirou um iogurte para o chão em protesto. É verdade?

Essa história já evoluiu muito e qualquer dia o iogurte já está transformado em feijoada (risos). Não vou contar o episódio porque nem tem muita relevância. O que aconteceu é que eu decidi que tinha o poder e o dever de dizer ao Cristiano que havia coisas que não se podiam e não se podem fazer na vida. A equipa técnica, e estou a falar do mister João Couto, do mister Hilário e de mim, decidiu que devíamos mostrar perante o Ronaldo, a equipa, e todo o departamento que havia coisas que contemporizávamos porque estávamos a lidar com jovens, e havia outras que compreendíamos, mas que não aceitávamos. Nessa altura houve muitas pessoas, inclusive alguns directores que ficaram contra nós, mas hoje o Cristiano Ronaldo já reconheceu que foi uma boa medida, não porque o tenha privado de jogar, mas porque percebeu a mensagem que queríamos passar. Não só a ele, mas a toda a equipa. A nossa intenção foi sempre preservar o jogador. Tenho de frisar que contei com duas aliadas importantes, a mãe do Cristiano e a irmã. Quando cheguei à Madeira sem ele, falaram connosco, compreenderam e partilharam da dor, porque para nós também não foi fácil deixar de fora o melhor jogador da equipa.

O processo do Cristiano Ronaldo foi peculiar porque passou de juvenil para sénior...

O Cristiano andou sempre um ano à frente e em sub 18 atingiu o patamar de sénior. As pessoas não têm noção, mas ele acaba por ser contratado pelo Manchester quando ainda era júnior de segundo ano. Hoje é a transferência mais cara de sempre do futebol, mas já na altura foi a contratação mais dispendiosa do mundo no futebol de formação.

Quem decidiu que ele iria passar dos juvenis para os seniores?

Fazíamos avaliações trimestrais que retratavam as capacidades que ele vinha adquirindo e em que nível estava. Todos esses testes terminavam numa avaliação final que era traduzida numa letra. Era assim no meu tempo. No caso do Ronaldo essa letra dizia que estávamos a falar de um jogador de alto nível de rendimento e também de alta prestação.

Havia o risco ou o medo de ele se perder?

Risco há sempre. Penso que actualmente até o Manuel Pellegrini (novo técnico do Real Madrid) vai ter esse medo. Como aliás teve o Sir Alex Ferguson, um técnico quase imune a pressões e víamos a forma como ele tratava o jogador. Esse medo está sempre inerente, ainda mais quando o sucesso da equipa pode depender do talento dele. Mas existiram alguns episódios na sua formação que assustaram. Quando foi operado, e a inadaptação dele a Lisboa. Contudo, existiu um traço que o fez sempre correr para a frente e para cima, que foi a sua abnegação e ambição de ser um futebolista profissional. Isso foi fundamental.

O PERÍODO NO COMANDO DOS JUVENIS

"Posso acrescentar que nos quatro anos que estive nos juvenis, em dois fomos campeões, e nos restantes fomos sempre o melhor ataque."

"Nesse sentido o ano de 2003/2004 foi fabuloso. Tinha um conjunto espectacular, jogadores como o Adrien Silva, Daniel Carriço, Fábio Paim, Rui Patrício, que eram e são muito talentosos."

"Contudo, penso que a época em que aprendi mais, a que me ensinou mais ao nível da formação, e a que me fez pensar mais, foi aquela em que o Cristiano Ronaldo esteve envolvido. Eu tomei uma decisão, que foi a de não utilizá-lo na fase final do campeonato..."

Esteve quatro anos nos Juvenis, qual é que foi a sua melhor época e qual foi a mais complicada?

Temos a tendência em escolher o melhor quando somos campeões. Nesse sentido o ano de 2003/2004 foi fabuloso. Tinha um conjunto espectacular, jogadores como o Adrien Silva, Daniel Carriço, Fábio Paim, Rui Patrício, que eram e são muito talentosos. Alguns vieram a comprovar isso e estão ao mais alto nível, outros ainda não, mas têm as capacidades intactas. Contudo, penso que a época em que aprendi mais, a que me ensinou mais ao nível da formação, e a que me fez pensar mais, foi aquela em que o Cristiano Ronaldo esteve envolvido. Eu tomei uma decisão, que foi a de não utilizá-lo na fase final do campeonato, por duas razões. Primeiro para o Cristiano Ronaldo ir de férias mais cedo e estar com a cabeça livre, para na época seguinte (2002/03) se apresentar a 100% nos seniores, e também para possibilitar a outros jogadores de grande nível uma oportunidade de jogarem mais e evoluírem. Acabámos por ficar em segundo lugar, mas conseguimos formar vários jogadores como o José Semedo, Pedro Araújo, Silvestre Varela, João Pimenta, e só estou a falar destes porque jogavam mais ou menos na posição do Ronaldo. Caso ele tivesse ficado já estaria com a cabeça noutro lugar, e por isso estes jogadores que acabei de referir não iriam ter tantas hipóteses de jogar. E nesse caso demos um sinal importante que os resultados desportivos não eram o mais importante.

Essa decisão foi contestada na altura?

Houve quem contestasse, o treinador é sempre exposto nesse tipo de situações, mas eu é que tinha de decidir, e hoje passados dez anos o Cristiano Ronaldo vale 94 milhões de Euros e por isso a decisão foi acertada (risos).

Mas naquela altura depois do campeonato terminar ficou arrependido do que tinha feito?

Não. Primeiro porque iríamos ter jogadores a subir para os juniores muito melhor preparados e iríamos ter um jogador com 17 anos a fazer a entrada no futebol sénior. E isso foi uma decisão pensada, estruturada, amadurecida e revelou-se bem sucedida.

Como é que ele reagiu nessa altura?

O Cristiano é uma pessoa muito ambiciosa. Ainda hoje ele é considerado o melhor do Mundo, e frequentemente, ouvimo-lo dizer que quer ganhar mais, que quer mais. Nessa altura também, ele queria jogar a fase final, mas entendeu que havia vantagens e desvantagens. Nunca tive qualquer tipo de problema com ele. Ao contrário do que as pessoas pensam, ele não era egoísta, muito fechado ou reservado. Sempre teve a ideia de que podia ser o que é hoje, mas mostrou-se também solidário em relação a todas as decisões dos treinadores e sempre as acatou.

Podia-nos falar da equipa de Juvenis que tinha um tridente atacante formado pelo Edgar Marcelino, Cristiano Ronaldo e Paulo Sérgio?

Tinha mesmo muita qualidade. Nessa altura também se falava da capacidade ou incapacidade do Ronaldo jogar a ponta de lança. Começou-se a colocar essa questão. Ele não era um indivíduo que fosse uma referência na área, mas penso que até isso ele hoje em dia já consegue fazer, se olharmos para o jogo que ele efectuou no Dragão para a Liga dos Campeões. Inclusive até colocou o Berbatov a jogar fora da sua posição e até no banco. Ambos gostam de criar, de organizar e de finalizar. Por isso jogam na zona central, mais perto da baliza.

Em relação a esses três jogadores e a essa equipa de juvenis, tudo teve que ver com o modelo e sistema de jogo. Foi preciso montar uma estratégia que servisse os interesses da equipa e que aproveitasse a imensa qualidade desses jovens. Nunca determinámos posições fixas no ataque, eles sabiam que se um estava no centro, os outros corredores tinham de estar preenchidos. Havia constantes permutas.

Essa equipa marcou muitos golos?

Sim. Posso acrescentar que nos quatro anos que estive nos juvenis, em dois fomos campeões, e nos restantes fomos sempre o melhor ataque.



A EXPERIÊNCIA NO PLANTEL PRINCIPAL: O SONHO DE GANHAR TUDO E O PESADELO DE NÃO GANHAR NADA.

"Recordo um jogo em Alvalade com o Newcastle, em que estávamos a perder 1-0 e virámos para 4-1, naquela que foi a melhor exibição do Sporting nessa época, na minha opinião."

"O José Peseiro que era o principal mentor da equipa, definiu várias premissas que queria ver implementadas no modelo de jogo. E ao fazer a avaliação dos jogadores, não havia outra alternativa que não fosse a equipa balancear-se para a frente."

"Não estou a dizer que errou de propósito, nem que foi uma decisão maldosa ou de má fé, mas penso que foi infeliz. Acabámos por perder o título e isso condicionou a final da Taça UEFA."

"Essencialmente falharam os resultados desportivos, mas conquistaram-se muitas coisas que as pessoas teimaram em não valorizar. Havia defeitos, mas se tivéssemos ganho eles existiam na mesma, e a equipa técnica e jogadores tinham noção que o seu processo de jogo tinha algumas falhas."

"O José Peseiro deu também oportunidades a jogadores como o André Marques, ao Paulo Sérgio e conseguiu tirar proveito de outros como o Pedro Barbosa, Rochemback, Hugo Viana ou Rodrigo Tello que foram essenciais..."

"Onde estão esses detractores quando ele formou uma equipa alternativa em Braga e venceu de uma forma categórica por 3-0 com um hat-trick do Pinilla?"

Depois de quatro anos no Sporting, foi convidado a ser um dos adjuntos do mister José Peseiro na equipa principal. Como recebeu esse convite?

Já conhecia o José Peseiro há muitos anos. E essa relação de amizade continua ainda hoje, mas também de colegas que falam de uma coisa comum que é o futebol. Fui colega dele na licenciatura que fiz no ISEF na opção de futebol. Houve poucas pessoas que optaram por esse rumo: de seguir a carreira de treinador e não de professor de educação física. Tínhamos uma cadeira junta que se chamava metodologias do treino, leccionada pelo professor Carlos Queiroz, e daí nasceu uma grande empatia e uma cumplicidade em muitos assuntos. Essa amizade foi-se desenvolvendo, porque depois fui treinar o Coruchense, ele é natural dessa localidade, depois quando saiu do comando técnico do Real Madrid convidou-me para ser seu adjunto no Sporting e foi com muito prazer e orgulho que aceitei.

Essa época foi marcante para o Sporting. Esteve perto de ganhar o Campeonato, a Taça UEFA e depois acabou por não erguer qualquer troféu. O que falhou?

Essencialmente falharam os resultados desportivos, mas conquistaram-se muitas coisas que as pessoas teimaram em não valorizar. Havia defeitos, mas se tivéssemos ganho eles existiam na mesma, e a equipa técnica e jogadores tinham noção que o seu processo de jogo tinha algumas falhas. Mas principalmente foram questões de pormenor ao nível de resultados. Podíamos ter ganho a Taça de Portugal e perdemos em penaltis na Luz, podíamos ter vencido o Campeonato e sofremos um golo no último minuto, podíamos ter erguido a Taça UEFA, estivemos inclusivamente a ganhar mas acabámos por perder. De uma forma superficial a história conta-se assim, mas houve muita coisa positiva e que é de salutar.

Quer dar alguns exemplos?

Ganharam-se jogadores, o João Moutinho, o Nani também começou a aparecer nessa altura. É de acrescentar que o José Peseiro chamou estes cinco jogadores para fazer a pré época com os seniores em 2004: Carlos Saleiro, Miguel Veloso, Yannick Djaló, Mário Felgueiras e João Moutinho. Todos eles estavam preparados para ser opção no futebol profissional, e alguns ainda jogaram nessa temporada. O José Peseiro deu também oportunidade a jogadores como o André Marques, o Paulo Sérgio e conseguiu tirar proveito de outros como o Pedro Barbosa, Rochemback, Hugo Viana ou Rodrigo Tello que foram essenciais, na excelente campanha que o Sporting fez em termos europeus. Em termos nacionais só não foi brilhante, porque não fomos campeões.

Que factores é que contribuíram para que o João Moutinho se impusesse e outros jogadores não o conseguissem fazer tão rapidamente?

Cada jogador tem o seu "timing" certo. De uma certa forma depende dele, daquilo que consegue fazer, superar e desenvolver. Mas por outro lado o contexto também é muito importante e determina muita coisa. Eu falo muitas vezes nisto com o Carlos Freitas em Braga. O grande aparecimento do João Moutinho teve que ver com a venda do Tinga em Dezembro, ao Internacional de Porto Alegre. Houve uma necessidade de repor os jogadores no plantel, e a avaliação do Moutinho estava feita há muito tempo, então apostámos mais nele.

Fala-se muito que o Sporting queria ir buscar o Jorginho ao Vitória de Setúbal em Dezembro, mas essa transferência não se concretizou. Foi também isso que abriu as portas para o João Moutinho?

O Jorginho era um nome apontado para reforçar o ataque do Sporting, contudo os dois jogadores tinham características diferentes e por isso não eram incompatíveis. A saída do Tinga é que abriu uma brecha no meio campo para a entrada do João Moutinho. O então jogador do Setúbal era extra-numerário em relação a isso, e apesar da sua contratação ser equacionada, não se concretizou.

Nessa época o Sporting tinha um modelo de jogo bastante ofensivo, mas acabava também por sofrer muitos golos. Nessa altura dizia-se que o Sporting queria jogar à Arsenal mas que não tinha jogadores adequados para isso. Por exemplo o Beto, o Rui Jorge, o Rogério eram jogadores que atacavam muito mas depois talvez não existisse velocidade para fazer a recuperação. Tem alguma opinião sobre isso?

Sim. Eu gosto de um modelo de jogo que tenha várias alternativas. Ainda bem que fala em modelo de jogo e não em sistema de jogo. O José Peseiro que era o principal mentor da equipa, definiu várias premissas que queria ver implementadas no modelo de jogo. E ao fazer a avaliação dos jogadores, não havia outra alternativa que não fosse a equipa balancear-se para a frente. Um conjunto ofensivo, que gerisse bem a bola, que explorasse os corredores e que criasse situações de finalização. Não havia como habituar a equipa a fazer contenção, a defender-se, porque as características dos jogadores não correspondiam a isso. E então havia que potenciar as virtudes que existiam na equipa. Claro que quando sofríamos golos, havia sempre a tendência de questionar, porque não se defendia mais, mas penso que o grande mérito do treinador era estabelecer um equilíbrio com as condições que tinha no plantel. E o José Peseiro fez isso muito bem.

Nessa época houve algum jogo que o tenha marcado especialmente?

Claro, existiram muitos jogos marcantes e inesquecíveis. Recordo um jogo em Alvalade com o Newcastle, em que estávamos a perder 1-0 e virámos para 4-1, naquela que foi a melhor exibição do Sporting nessa época, na minha opinião. Fizemos outros grandes jogos, quando perdemos na Luz para a Taça de Portugal em penaltis, em Roterdão, em Alkmaar, e em Newcastle no jogo da primeira-mão. E essas partidas originam que hoje se recorde essa equipa como muito ofensiva e balanceada no ataque, mas não havia outra alternativa nessa altura.

No boxe costuma-se dizer que a forma como encaixam os diferentes estilos dita um pouco o resultado. Nessa época o Sporting encaixava muito bem com equipas holandesas e inglesas. Há alguma explicação para isso, ou foi obra do acaso?

Há explicações. A melhor e mais adequada é que o momento defensivo dessas equipas não é muito rápido, forte e calculista. Posso dizer que na pré-época jogámos contra conjuntos italianos, o Chievo, mais tarde a Udinese ou a Sampdória e tivemos graves dificuldades. Eram emblemas que defendiam mais atrás, mais organizadamente e criavam mais dificuldades. Mas considero que isso é um dos desafios mais aliciantes do treinador, perante as adversidades, ver qual a melhor estratégia a adoptar quer defensivamente, quer ofensivamente. Posso acrescentar que os equilíbrios defensivos eram feitos, porque tínhamos dois ou três jogadores nucleares. O Rogério era fundamental nesse aspecto, o Enakarhire que apareceu em Portugal e deixou a ideia que um defesa central era capaz de resolver todos os problemas e o Hugo Viana que era um gestor nato da posse de bola.

Na final da Taça UEFA falou-se muito do facto do Enakarhire jogar a titular e vir de algum tempo de paragem e o Rogério jogar a médio defensivo quando a maior parte do tempo desempenhava as funções de lateral. Concorda com estas críticas?

Eu vou-lhe responder da seguinte forma. Atenção, estou a defender o José Peseiro, porque sou amigo dele e reconheço-lhe muitas capacidades. Como é óbvio também errou, e também teve opções mais arriscadas que foram bem sucedidas e outras que não tiveram tanto sucesso. Onde estão esses detractores quando ele formou uma equipa alternativa em Braga e venceu de uma forma categórica por 3-0 com um hat-trick do Pinilla? São vicissitudes normais, e as opções só se podem confirmar depois dos jogos. Nos primeiros trinta minutos marcámos um golo, fomos convincentes, dominadores em relação ao CSKA, mas depois nem tudo correu pelo melhor.

O azar também esteve presente. O Sporting atira uma bola ao poste que podia dar o 2-2, e no seguimento da jogada os russos matam definitivamente o jogo...

Sim, é a margem de sorte ou azar que existe no futebol. Mas também digo que o estado de espírito da equipa também foi muito afectado pela decisão do Paulo Paraty no sábado antes da final, no jogo realizado no Estádio da Luz. Não estou a dizer que errou de propósito, nem que foi uma decisão maldosa ou de má fé, mas penso que foi infeliz. Acabámos por perder o título e isso condicionou a final da Taça UEFA.

Portanto, considera que o Luisão cometeu falta sobre o Ricardo nesse lance?

Também lhe digo que o Ricardo se fosse hoje faria melhor, porque ia desconfiar mais de que o Luisão poderia estar ali. Mas como ele decidiu, o árbitro também decidiu e o José Peseiro também. São decisões que são necessárias tomar, eu sou solidário com todas, embora ache que o Paulo Paraty tenha errado.

Como estava o ambiente na equipa leonina antes da final da Taça UEFA?

Essa final foi vivida com muita paixão porque teve que ver com uma caminhada que começou em Viena. Logo aí, começou-se a falar na final de Alvalade, ainda faltavam muitos meses. A caminhada foi longa, todas as adversidades e vicissitudes foram superadas, tornando realidade, um objectivo que era virtual.

E os momentos que se viveram depois da vitória em Alkmaar e da passagem à final com aquele golo no último minuto do Miguel Garcia?

Registo uma felicidade extrema, a viajem até Lisboa foi um momento histórico. Mas registo também a notícia que recebemos da doença do Jorge Perestrelo, que acabou por morrer nesse dia e que provocou em todos um sentimento contraditório de tristeza.

 

O REGRESSO À FORMAÇÃO... E A SAÍDA DE ALVALADE

"Não foi bem por opção minha., mas não era uma hipótese que me desagradava. E para falar nisso teria de falar em coisas de que não quero falar sobre o Sporting."

"Estou-me a lembrar da forma convincente como a equipa foi apurada precocemente para a fase final e depois terminou com seis pontos de avanço sobre o Boavista na fase final."

"Foi o resultado de uma união de grupo muito grande, mas também de grandes talentos individuais."

"Quando saí do Sporting comprometi-me a não revelar as razões e não vou quebrar a minha palavra."

Porque é que optou por regressar aos juniores, depois de terminar o seu ciclo nos seniores?

Não foi bem por opção minha., mas não era uma hipótese que me desagradava. E para falar nisso teria de falar em coisas que não quero sobre o Sporting. Contudo, isso proporcionou-me trabalhar com grandes jogadores, com os quais conquistei o título nacional de juniores. Vou só levantar um pouco do véu, na época seguinte senti que não estava a ser valorizado pela forma como me apresentaram a renovação do contrato.

Como é que encontrou a equipa de juniores que o Paulo Bento tinha orientado?

Foi uma situação complicada, porque tinha oito jogadores a recuperar de operações a hérnias inguinais. Não estou a dizer ou a desvalorizar o trabalho do Paulo. Penso que o trabalho de força tinha mudado e houve um certo desequilíbrio. Alguns não se deram bem como o André Nogueira, Daniel Carriço, Paulo Renato. Tomei conta da equipa de juniores em Outubro, e foi uma época difícil a esse nível. Acabámos por ser campeões, tenho ideia de que não perdemos nenhum jogo esse ano (ndr: houve pelo menos uma derrota com o Estrela da Amadora em Março de 2006), na fase final não perdemos de certeza. Foi uma temporada muito positiva para a equipa e para os jogadores. O Diogo Tavares fez uma época fantástica, marcou 25 golos e foi pena o Sporting não ter podido ficar com ele. Hoje está em Itália, mas considero que era um jogador que podia vir em contra ciclo com os pontas de lança que existem em Portugal. Estou-me a lembrar da forma convincente como a equipa foi apurada precocemente para a fase final e depois terminou com seis pontos de avanço sobre o Boavista na fase final.

Essa era uma equipa que já usava muitos jogadores de primeiro ano?

Essa foi uma estratégia que procurei sempre implementar nas minhas equipas. Quando vejo que alguns jogadores de segundo ano não têm condições para chegar ao plantel sénior, tento promover os de primeiro ano. E isso teve algum sucesso.

Considera que essa equipa de juniores era fantástica?

Sim, desenvolveram partidas muito boas, com pressão, sem pressão, a perder ou a ganhar. Foi o resultado de uma união de grupo muito grande, mas também de grandes talentos individuais. Sem esse valor individual não era possível esse trajecto.

Na época seguinte saiu a meio da época. Mas até aí a equipa tinha apenas um empate na primeira jornada e treze vitórias consecutivas.

É verdade. Levávamos treze vitórias seguidas e catorze pontos de vantagem sobre o segundo classificado (Benfica). E hoje até posso revelar o pacto que fiz com os jogadores: nada fazia prever que eu viesse a sair do Sporting em Dezembro. Então ainda no mês de Setembro e com um pouco de arrogância à mistura, combinei com os jogadores que se no Natal tivéssemos doze pontos de avanço sobre o segundo, eles tinham quinze dias de férias. E conseguiram mesmo.

Apesar dessa vantagem, a equipa acabou por não ser campeã. Acha que a sua saída também prejudicou o conjunto?

Eu tentei sempre defender os interesses da equipa, do clube e os meus, como é óbvio. Tive o cuidado de sair numa altura em que o campeonato parou três semanas, e já levávamos uma vantagem considerável na tabela. E como é sabido, as épocas na formação decidem-se em Maio. Penso que não interferiu, até porque eu vi a equipa a jogar na fase final e estava muito bem.

Porque é que saiu do Sporting?

Não vou revelar isso. Quando saí do Sporting comprometi-me a não revelar as razões e não vou quebrar a minha palavra.



OPINIÕES SOBRE VÁRIOS JOGADORES COM QUEM TRABALHOU NO SPORTING

"Digo isto não por milagre, mas porque desde muito cedo lhe reconheci capacidades para ser um grande defesa central (Daniel Carriço) , um líder e para jogar ao mais alto nível."

"Essa foi a primeira vez que se internacionalizou a Academia e não se tirou grandes vantagens disso. Agora quem lá está que tire as devidas ilações."

"Mas o que eu sinto é que ainda não houve um contexto em que sentisse total confiança nas suas (Pereirinha) capacidades, alguém que lhe suporte o erro."

"Eu queria desmistificar uma coisa nesta entrevista. Quando falo de jogadores é apenas no ponto de vista de treinador, de pessoa que queria que melhorassem e nunca como "pai" deles."

"...houve a necessidade de ir buscar um extremo e um médio com capacidade de passe longo, para os seniores. O Ricardo Quaresma e o Hugo Viana eram os melhores que tínhamos e foram integrados, sem qualquer tipo de receios."

"acharam que a verba que o Real pedia era exorbitante, para um jogador (Nani) que só ia estar mais dois anos na formação. Era considerado um jogador de risco."

No caso do Edgar Marcelino, falava-se que podia chegar muito alto na sua carreira mas acabou por se perder um pouco. Porquê?

Não sei se ele se perdeu, porque o trajecto de cada jogador é único. O Cristiano é um exemplo, mas temos outros trajectos que demonstram que é possível chegar ao mais alto nível algum tempo depois, como o caso do Silvestre Varela. Pensou-se que estava numa curva descendente, mas agora vai para o Porto e é um jogador que acho que tem imenso talento. Às vezes o problema é encontrar um contexto certo e adequado ao desenvolvimento das capacidades. Eu vi o Edgar jogar há poucos dias no Chipre, as capacidades estão lá, mas o contexto não é o mais apropriado para o seu desenvolvimento. Depois há sempre episódios paralelos à formação do jogador que também têm um grande peso. A formação do homem, a família, as lesões, aconselhamento extra que recebem dos seus empresários, representantes que vai determinar as escolhas e destinos de cada um. No caso do Edgar as opções não foram as mais felizes.

Na equipa de 88 com a qual teve oportunidade de trabalhar havia grandes talentos. O Daniel Carriço, o Rui Patrício, e o Bruno Pereirinha já chegaram ao plantel sénior. O Tiago Pinto e o João Gonçalves talvez também poderão lá chegar mais tarde ou mais cedo. Mas havia um jogador com grande entrega e raça que jogava no meio campo, que não atingiu ainda a dimensão que se esperava. Falo do André Pires. Sabemos que não gosta de individualizar, mas tem alguma opinião sobre ele?

Nessa altura tínhamos quatro bons médios. O João Gonçalves, o João Martins, o Yannick Pupo e o André Pires. O que se passa é que os jogadores têm percursos próprios, e as oportunidades dadas a uns e a outros não são as mesmas. O André Pires era e é um grande jogador, com boa capacidade de finalização, aparecia muito bem na área para rematar com êxito. É muito educado, sociável, sensível e tem todas as capacidades técnicas e sociais para ter sucesso. O contexto desportivo negou-lhe melhores oportunidades, mas penso que é uma questão de persistência e sorte.

Se naquela altura lhe dissessem que daí a três anos iria estar na segunda divisão, acreditava ou tinha expectativas melhores para ele?

Tinha expectativas mais altas, até porque tinha grandes qualidades e tinha sempre uma utilização regular em todos os escalões. Estou-me a lembrar de outro jogador como o André Nogueira que também está a ter algumas dificuldades de se impor, fruto de algumas lesões. E havia outros como o Ricardo Nogueira, um grande ponta de lança, e o Fábio Paim que tem um talento incrível. Apesar de nem todos partirem do mesmo ponto, é o contexto que determina a evolução de cada jogador e o patamar que atinge.

Surpreende-o a afirmação e ascensão do Daniel Carriço?

Não. Digo isto não por milagre, mas porque desde muito cedo lhe reconheci capacidades para ser um grande defesa central, um líder e para jogar ao mais alto nível. Espero que as desenvolva porque tem mesmo muito potencial.

O que mais destaca nele?

Tem uma boa qualidade técnica individual, porque tem uma boa relação com a bola. Mas o factor mais importante é que em contexto favorável, ou em situações menos boas vai sempre à procura do que é melhor para ele, e essencialmente para a equipa.

Relativamente aos estrangeiros que teve oportunidade de treinar no Sporting, o Alison Almeida e o Yannick Pupo, eram jogadores particularmente interessantes?

Em termos curriculares o Yannick vinha de conquistar o campeonato de clubes de Sub-17, enquanto que o Alison não tinha tanto prestigio. O que se passou foi que o Sporting tinha as suas regras rígidas, e a avaliação precoce que se fez desses jogadores foi negativa e não houve a mesma compreensão para os erros deles. Não quer dizer que fossem chegar ao plantel principal até porque há uma questão importante. Essa foi a primeira vez que se internacionalizou a Academia e não se tirou grandes vantagens disso. Agora quem lá está que tire as devidas ilações.

Quem foi o treinador do Fábio Paim nos juvenis?

Fui eu.

Então vamos tentar tirar uma história a limpo. Reza a história que o mister colocou o Fábio Paim no banco para ele perceber que na equipa havia mais jogadores com valor. O Sporting estava a perder 1-0, ele entrou, marcou o golo do empate, e nos festejos foi ao banco de suplentes "esfregar" isso na cara do treinador e usar uma linguagem menos própria... Isto é verdade?

Não me lembro disso, e nunca houve qualquer atrito entre mim e o Paim (risos)...

O João Couto quando lhe fiz a mesma pergunta ele disse que esse incidente também não foi com ele...

Ainda há pouco tempo eu e o Paim estivemos a jantar em Braga, a relação é óptima. Normalmente os treinadores utilizam desafios, estímulos com o objectivo de motivar o jogador. O Paim era uma pessoa que eu desafiava muitas vezes, e com resultados, porque ele tinha muito valor. Agora também tenho de dizer que a disciplina foi uma regra que sempre me orientou, não costumo ser condescendente com certo tipo de comportamentos, nem compactuar com eles, mas com o Fábio Paim nunca houve problemas. Tive algumas situações menos boas com outros jogadores, mas é normal no treinador. Nesse caso específico, não me lembro, mas se aconteceu deve ter sido um dos desafios que lhe fiz e depois ele veio compartilhar com o técnico.

Porque é que o Pereirinha ainda não conseguiu mostrar toda a qualidade que tinha nos juniores? Terá a ver com a posição em que joga, e já agora, qual é o seu lugar de origem?

Ele é muito versátil. Até pode fazer a posição de lateral direito, embora seja onde rende menos, na minha opinião. O Pereirinha é um excelente extremo direito, mas o Sporting não joga com extremos. E é um caso onde o sistema de jogo não enquadra bem nas suas características.

Também pode ter que ver com alguns factores psicológicos? Falta de Auto-Confiança?

Pode. Mas o que eu sinto é que ainda não houve um contexto em que ele sentisse total confiança nas suas capacidades, alguém que lhe suporte o erro. Ainda não houve ninguém que lhe dissesse que apesar de errar, vai continuar a ser primeira opção. E isso é importante.

Encontrou o Paulo Sérgio no Portimonense, mas também o orientou no Sporting.

Sim, no escalão de juvenis. Ele marcou muitos golos, estando o Cristiano Ronaldo e o Edgar Marcelino na equipa. Era um tridente de ataque fantástico, trocavam muito de posição, mas o Paulo Sérgio era o mais finalizador.

O mister chegou a trabalhar com o Hugo Viana e Ricardo Quaresma?

Sim, quando era adjunto do João Couto nos juniores, trabalhei com eles. Jogavam nos juniores e na equipa B.

Foram duas pérolas que o Sporting produziu e que saíram para grandes clubes. Podia-nos falar um pouco sobre eles. O mister Bolöni no seu livro diz que o Hugo Viana andava "perdido" na equipa B, e que foi lá descobri-lo...

Eu queria desmistificar uma coisa nesta entrevista. Quando falo de jogadores é apenas no ponto de vista de treinador, de pessoa que queria que melhorassem e nunca como "pai" deles. Não gosto particularmente de ver alguém dizer, que o seu trabalho foi o mais importante na carreira do jogador. Há sempre uma série de estímulos e que tornam impossível averiguar isso, a não ser através do jogador. Quem lançou este ou aquele, também é uma falsa questão. Lançou para onde? Tenho também outra premissa que já constatei muitas vezes, ao apostar-se num jogador estamos a tapar o caminho a outros. Há treinadores que em virtude das suas opções retiram a hipótese de uma grande carreira a outros. E eu tenho a consciência disso. Para construir alguns talentos, impedi e privei outros de chegarem mais longe e se calhar até tinham o mesmo valor.

E esses dois jogadores são fruto de um tempo específico. A altura em que se fez a transição de Alvalade para a Academia. Não são fruto da Academia. Resultaram de um contexto em que o Bolöni é o treinador e que consegue ser campeão. A equipa tinha Jardel, João Pinto, Paulo Bento, Rui Bento. E numa altura da época, o plantel vê-se privado de alguns jogadores importantes. É preciso recorrer a dois jovens que estavam a ter um desempenho brilhante nos juniores e um percurso menos bom na formação B, onde não eram opção. Ambos tinham grande valor, e que era reconhecido por quem os deixava de fora da equipa B. Agora, no trajecto da formação é preciso haver certo tipo de decisões que são importantes na formação do jogador. Então, retomando o que estava dizer, houve a necessidade de ir buscar um extremo e um médio com capacidade de passe longo, para os seniores. O Ricardo Quaresma e o Hugo Viana eram os melhores que tínhamos e foram integrados, sem qualquer tipo de receios. A equipa era muito experiente, e essa aposta possibilitou que atrás desses viessem outros, reactivando uma tradição que o Sporting tinha de apostar nos talentos da formação.

Podia-nos dizer como é que era o Quaresma nessa altura. Sabemos que ele era irreverente mas talvez naquele tempo existisse mais paciência para certo tipo de comportamentos.

Era muito irreverente e isso tinha aspectos positivos e negativos. Dentro do campo funcionava bem, vi o Quaresma jogar a alto nível na formação do Sporting, inclusive deu um campeonato de juvenis, numa altura que ainda não estava no Sporting. Numa equipa que tinha o Carlos Martins, o Beto II, o Ricardo Santamaria, o Hugo Valdir, o Carlos Marques. Voltando ao Quaresma, a irreverência funcionava para o melhor e para o pior. Isto não quer dizer que não tenha uma faceta racional e ponderada. Agora o futebol profissional trouxe-lhe alguns dissabores e as pessoas começaram a fazer uma análise defensiva. Ele também teve muito o estigma da questão étnica, e sobre ele também foram exercidas certas pressões. Dou-me muito bem com ele, mas considero que a sua personalidade foi afectada por alguns desses factores que mencionei.

E em relação ao Hugo Viana? Reza a história que o Sporting, foi a Barcelos observar um outro jogador, ele não quis vir treinar a Lisboa, mas o Hugo veio e acabou por ficar.

Não conheço essa história. Sei que o Hugo Viana também jogava no Gil Vicente. Na formação do Sporting teve os olhos postos nele desde muito cedo. E daí surgiu muita cobiça. Não só pelo que fez no Sporting, mas também na selecção nacional. Lembro-me que a selecção foi campeã da Europa de Sub-16 em Israel e ele era uma das principais figuras. Uma selecção onde estavam também o João Paiva ou o José Moreira do Benfica. Tinha e tem muitas capacidades e muito talento. Ainda há pouco tempo observei um jogo dele e confirmei isso.

E quanto ao João Paiva? Era um jogador que marcava muitos golos e depois muito se falou se ia ficar no plantel do Sporting à imagem do Diogo Tavares. Acabou por ir para o Marítimo, e depois para o Chipre.

No futebol de formação do Sporting foi o melhor marcador em todas as equipas por onde passou. O trajecto nos seniores que fez até agora está abaixo das suas capacidades. Penso que algumas decisões também não tiveram o retorno que se esperava, o caso do Marítimo e o Chipre. É um jogador finalizador. Mas sofreu um pouco com o facto da equipa sénior ter ido buscar grandes goleadores ao estrangeiro. Acosta, Jardel ou Liedson são alguns exemplos.

Falou há pouco de um guarda-redes que foi formado no Ponte Frielas, Alberto Pimparel, mais conhecido por Beto II. Vai jogar no Porto na próxima época. Já previa que ele chegasse tão alto, quando trabalhou com ele na formação do Sporting?

O Beto tem um trajecto "sui generis". No Sporting, cruzei-me com ele nos dois anos de juniores e num ano na equipa B. Toda a gente lhe reconhecia grandes qualidades, à semelhança do Nuno Santos e do Paulo Alemão que está agora no Santa Clara. Fez um percurso pela equipa B, pela II divisão e agora pela I até chegar à selecção principal. Tem todo o mérito, é fruto do seu trabalho e desejo-lhe as maiores felicidades.

Foi o mister que adaptou o Marco Lança a defesa central?

Também. Nunca fechei as portas a que ele jogasse nas duas posições. Uma das minhas premissas era dar aos jogadores mais oportunidades de experimentarem várias posições. O Miguel Veloso foi muitas vezes utilizado por mim a médio centro defensivo, o Paulo Bento chegou a dizer que só contava com ele como central, e hoje ninguém põe em questão que é médio centro. Isto só foi possível porque na sua formação conheceu vários lugares. Para além desses dois, também jogou como defesa esquerdo. Isto é uma mais valia. Deve-se usar e abusar do posicionamento táctico de forma a evoluírem mais.

O Miguel Veloso é mesmo canhoto ou é um esquerdino convertido como o pai dele (António Veloso) já afirmou numa entrevista?

Sim, é mesmo canhoto.

O Nani chegou ao Sporting na fase final de juniores com o Paulo Bento?

Não. Tinha terminado mais uma época ao serviço dos juvenis. E no fim da temporada estava a trabalhar com o Rui Palhares e o João Couto na observação de jogadores. Há sempre treinos para reavaliar jogadores, e o Nani estava no treino. Na altura jogava no Real Massamá. E foi nessas circunstâncias, que se decidiu que no próximo ano o Nani tinha de vir para o Sporting. Quem deu o parecer técnico foi o João Couto e o Rui Palhares. Estávamos na passagem para a época 2004/2005.

Mas o Nani já era jogador do Sporting há algum tempo?

Não. Ele pertencia ao Real Massamá.

Mas havia essa ideia, de que ele já era do Sporting desde os iniciados, só que não podia jogar devido a problemas de documentação, relacionado com o número de estrangeiros. À imagem do que aconteceu com o Djaló.

Sim, o Djaló esteve um ano sem poder jogar. Eu era o treinador. Estreou-se na época seguinte num jogo contra o Braga. Os bracarenses tinham uma excelente equipa, Bruno Gama, João Pedro, José Pedro, João Dias.

O Djaló é ponta de lança, um extremo esquerdo ou um jogador para jogar mais atrás dos avançados? Ele na formação jogava como ala esquerda no 4-3-3 ou como 2º avançado atrás do Saleiro num 4-4-1-1...

Eu penso que ele pode desempenhar essas funções. Pode ser um extremo esquerdo ou direito ou jogar numa zona mais central. Adapta-se bem dois sistemas tácticos. 4-4-2 e 4-3-3.

Mas voltando ao Nani, ele veio para o Sporting ainda sem um acordo contratual. Na equipa de juniores orientada pelo João Couto, só começou a jogar depois de muita negociação, muito relatório técnico, e quando o Sporting chegou a acordo com o Real, o que só aconteceu em Dezembro. Isto aconteceu, porque o Sporting achou que a verba que o Real pedia era exorbitante, para um jogador que só ia estar mais dois anos na formação. Era considerado um jogador de risco.

Não pode dizer quanto ele custou?

Não sei precisar. Andou na ordem dos 10.000 euros. Lembro-me apenas, que era considerado um valor muito grande para um júnior de primeiro ano.

Numa das suas equipas de Juvenis, a dupla de centrais era composta pelo Daniel Carriço e pelo Simão Coutinho. O primeiro atingiu a dimensão que se esperava. O Simão era muito bom jogador, tinha qualidades acima da média mas acabou por ser dispensado. Pode revelar-nos porque é que isso aconteceu?

O Simão Coutinho é uma excelente pessoa, e hoje é um homem muito bem formado. Na altura equacionou-se a hipótese de se prescindir dos seus serviços, porque residia na Academia e as avaliações que se faziam, diziam que não ia ser um defesa central de alto nível. São as tais decisões que se têm de tomar, que são difíceis. Eu vou ser sincero, não foi uma decisão que teve a minha concordância, mas tive de ser solidário com os que tinham mais poder que eu. O Simão saiu, porque se considerou que havia outros jogadores com mais potencial.

Foi difícil adaptar o João Martins a número 6?

Não. Penso que ele não é um número 6 típico. Mas tem essa capacidade, penso que a breve prazo vai ter uma margem de progressão invulgar, que o vai aproximar a outros níveis de rendimento. Tem também a qualidade de poder jogar mais avançado no terreno e fazer uso do seu potente remate.

CONSIDERAÇÕES SOBRE OUTROS ASSUNTOS LEONINOS

"Trabalhámos vários jogadores durante vários anos, e o facto de vários elementos entrarem no plantel principal, deu uma motivação interior a toda a gente para trabalhar ainda mais. Depois havia vários jogadores que estavam vocacionados para ganhar títulos."

"O mister João Couto como todos sabem é um excelente treinador de futebol de formação e de futebol em geral."

"O caso do Nani é emblemático, saiu para o Manchester sem ter mostrado as suas principais qualidades, porque os seniores jogavam em 4-4-2 e na sua formação alinhou sempre em 4-3-3."

"No conjunto de clubes que existem no Mundo, não risquei o Sporting das minhas possibilidades."

O Sporting conquistou os títulos de Iniciados, Juvenis e Juniores em 2005/2006. Quais os factores que possibilitaram esse sucesso?

Na minha opinião foi o corolário de quatro anos de trabalho das equipas técnicas, dos jogadores e da administração, em fomentar a política de incluir cada vez mais jogadores da formação no futebol profissional. Isso possibilitou que todos os jogadores quisessem vir para o Sporting. Trabalhámos vários jogadores durante vários anos, e o facto de vários elementos entrarem no plantel principal, deu uma motivação interior a toda a gente para trabalhar ainda mais. Depois havia vários jogadores que estavam vocacionados para ganhar títulos. Eu continuo a defender que só interessa conquistar campeonatos quando isso está premeditado. Nesse ano treinava os juniores, e foi definido que só interessava ser campeão da forma que nós tínhamos pensado. E foi isso que aconteceu e é esse o realce que quero dar.

Houve uma época em que acumulou as tarefas de treinador principal dos juvenis com a de treinador adjunto dos juniores. Foi difícil fazer essa articulação?

É uma época que recordo com grande carinho porque trabalhei com duas pessoas fantásticas, o mister João Couto e o mister Hilário. Em termos pessoais foi penosa e muito dura porque trabalhei muito. Estamos a falar de 14 treinos semanais e dois jogos em cada fim-de-semana, durante dez meses. Para não falar das tarefas de planeamento e avaliação. Tudo isso contribuiu para que o futebol fosse um espinho difícil na minha vida e não tanto um prazer. E quando assim é, as coisas não têm o rendimento que devem ter.

Fale-nos um pouco do mister João Couto e do mister Hilário.

São dois grandes amigos. O mister João Couto já o conhecia de outras andanças, enquanto que o mister Hilário só o conhecia superficialmente. Tive o prazer de privar com ele durante quatro anos antes de se reformar, e para além do amigo, foi uma pessoa que sempre nos aconselhou, deu boas ideias, fazendo uso da sua sapiência e experiência. Em simultâneo mostrou sempre uma atitude de querer aprender mais.

O mister João Couto como todos sabem é um excelente treinador de futebol de formação e de futebol em geral (tenho dificuldade em distinguir as duas áreas) Está a fazer um grande trabalho no Benfica, é uma pessoa interessada em saber novas estratégias, novas metodologias na formação de jogadores. E como pessoa, é fantástica.

Quem é que está envolvido na decisão de um jogador não fazer o segundo ano de júnior e ser emprestado a uma equipa sénior? Como aconteceu com o Pereirinha, por exemplo.

É o director da Academia, o coordenador da formação e o treinador.

Essa decisão teve que ver com que factores?

Tem que ver com o contexto do jogador e com o que prevemos para ele três anos depois. Temos de fazer uma análise para o futuro e ver quais os estímulos que são necessários para que desenvolva os seus talentos.

O Sporting sempre produziu vários extremos de qualidade, Paulo Futre, Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Simão Sabrosa, Ricardo Quaresma, mas agora começam a aparecer mais médios centro, Moutinho, Veloso, Adrien e outros prestes a despontar. Porque acontece isto? É uma questão geracional, ou as colheitas de extremos não têm sido as melhores?

Jogadores de alto nível em Portugal são raros. Nos últimos anos têm aparecido alguns mas é invulgar. No caso do Sporting, e esta é uma das minhas ideias, há uma indefinição que tem de ser resolvida internamente. Se tem jogadores de nível em várias posições, não é relevante se se joga em 4-4-2 ou 4-3-3. Mas o facto da equipa profissional jogar em 4-4-2, e a formação em 4-3-3 faz com que os jogadores não tenham outras experiências até aos seniores. O caso do Nani é emblemático, saiu para o Manchester sem ter mostrado as suas principais qualidades, porque os seniores jogavam em 4-4-2 e na sua formação alinhou sempre em 4-3-3.

As suas equipas eram consideradas as que melhor futebol praticavam na Academia. E talvez por isso os adeptos leoninos nutrem um grande carinho por si. Concorda com isso?

No futebol de formação também é importante apresentar qualidade de jogo. Se treinamos de uma certa forma, e depois no jogo permitimos tudo, menos o que treinamos, com certeza que não vamos formar, potenciar jogadores e melhorar a equipa. É preciso ser coerente com o modelo de jogo. E sempre procurei que em jogo se aplicasse o treino, e daí vinha a qualidade. E eu gostava de ter equipas que praticavam bom futebol e que marcavam muitos golos.

Pondera algum dia regressar ao Sporting?

No conjunto de clubes que existem no Mundo, não risquei o Sporting das minhas possibilidades.

Mas para a formação ou para outros projectos?

Sou um treinador aberto a muitos projectos e realidades. Pondero inclusive a hipótese de trabalhar no estrangeiro. No dia a dia tento sempre evoluir, aprender mais, e avaliar as experiências que tenho, porque isso é importante no meu desenvolvimento.



Entrevista realizada no dia 13 de Junho de 2009 no Hotel Tivoli Oriente.
Texto: Miguel Belo.
Imagens: Academia de Talentos.

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