Entrevista com Luís Martins (Parte 3)

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Seg., 29.06.2009

A terceira e última parte da entrevista com Luís Martins é dedicada ao Sporting Clube de Braga. O técnico revelou como se deu a sua entrada no clube, fez um balanço dos vários escalões de formação da temporada que agora termina, falou da política de contratações e dos problemas com que os bracarenses se deparam. As opiniões sobre o futuro e sobre alguns jogadores como Januário Jesus ou o guarda-redes Cristiano não foram esquecidas.



A ENTRADA NO BRAGA E OS OBJECTIVOS TRAÇADOS

"A principal tarefa que tenho no Braga é organizar os departamentos."

"As pessoas apostaram no meu know-how sobre a formação, e sobre o futebol em geral tentando recorrer a uma pessoa exterior ao clube e mais experiente."

Como surgiu o convite para ir para Braga?

O convite surgiu de uma forma surpreendente pela altura e também pelo contexto. Duas pessoas endereçaram-me esse convite, o presidente do Braga, António Salvador e o Carlos Freitas. Este último deu mesmo o rosto ao convite. O convite aconteceu também pela necessidade que o Braga tinha, de sustentar o seu desenvolvimento na formação. Não quer dizer que o Braga vá copiar os modelos de ninguém, mas foi-me pedido que num prazo de dois três anos conseguisse sustentar o Braga num dos pilares, que é a formação do clube.

Quais os principais objectivos que lhe pediram?

A grande premissa foi que a médio prazo o clube venha a dar passos para ter instalações desportivas que sustentem o departamento de formação, mas também o plantel sénior. Como é do conhecimento comum o Braga não tem instalações próprias, vive da boa relação que tem com a câmara municipal e que nos tem ajudado muito nesse aspecto. Quando assinei o contrato foi-me dito que daqui a dois/três anos o Braga vai ter um centro de treino, e o objectivo é dar passos na formação, para que quando nos mudarmos para lá não haja dificuldades, e o processo de formação possa continuar. As pessoas apostaram no meu know-how sobre a formação, e sobre o futebol em geral tentando recorrer a uma pessoa exterior ao clube e mais experiente.

A maioria dos clubes tem um coordenador da formação que é o seu cargo actualmente. Quais as suas principais tarefas?

A principal tarefa que tenho no Braga é organizar os departamentos. Outra função é fazer o "coaching" dos treinadores. Tenho também uma pessoa que me ajuda, que é o meu adjunto, o João Cardoso. De acordo com uma lógica, sem mitos. A formação para mim é algo diferente do que é para a maioria dos treinadores e pessoas. Tento conseguir juntar os conhecimentos dos treinadores, a história do clube, os meios disponíveis, desenvolver os talentos que temos dentro do Braga, e felizmente temos alguns, bem como inovar, usando novas metodologias, mais viradas para o treino individual.



ANÁLISE DA ÉPOCA DA FORMAÇÂO DO BRAGA

"Em relação à equipa de Iniciados A, a época foi muito proveitosa..."

"Nos Juvenis A o resultado desportivo ficou muito aquém do que era esperado, e consideramos que a equipa valia muito mais."

"E quando em Dezembro o guarda-redes da equipa, o Cristiano foi integrado nos seniores, o principal objectivo foi conseguido. Isso foi mais importante do que conquistar qualquer título."

Faça-nos um balanço das equipas de Iniciados A, Juvenis A e Juniores A.

Em relação à equipa de Iniciados A, a época foi muito proveitosa, não tanto por aquilo que as pessoas costumam valorizar, que é os resultados, mas devido à evolução dos jogadores. Tentamos retirar aquilo que é o esforço financeiro e investimento da avaliação que fazemos nas equipas, porque achamos que não é esse o caminho mais apropriado do futebol de formação. A tentativa foi concentrarmo-nos na evolução dos jogadores, em simultâneo com as equipas. Se tivermos dois jogadores talentosos e eles crescerem, já ficamos satisfeitos. Desse modo os Iniciados A à partida iam ter dificuldades no apuramento para fase seguinte, e confirmou-se. Até Dezembro os resultados não estavam a ser famosos, mas detectamos outros pontos positivos. Não quero dizer com isto que os resultados não são importantes, quero é mencionar que existem outros vectores de análise. Notamos que havia alguns jogadores interessantes para o futuro e desse modo demos passos importantes nesse sentido. Propusemos contratos de formação a alguns jogadores num período de seis anos, e asseguramos os seus serviços. Assim ficamos comprometidos com eles e com as suas famílias nesse período. Este passo também evita que em cada defeso andemos a ponderar quem fica ou não no plantel e a tentar segurar os jogadores. Estes jogadores, que depois alcançaram a segunda fase, vieram a saber logo a meio da época que o Braga contava com eles.

Nos Juvenis A o resultado desportivo ficou muito aquém do que era esperado, e consideramos que a equipa valia muito mais. Sabemos as razões porque é que isso aconteceu, mas também posso dizer que os jogadores evoluíram e essa equipa foi contemplada em termos de metodologia de treino inovadora. Foram os primeiros a ter a possibilidade de usufruírem do treino individual. Queríamos um melhor desempenho a nível de resultados, mas sabemos que a evolução destes jogadores Sub-17, vai continuar nos Sub-19 e nesse aspecto, a avaliação é positiva.

E em relação aos juniores?

Nós temos estruturado o plano de formação do jogador em quatro etapas. A primeira quando ainda jogam futebol de 7, nas Escolas e Infantis. Uma outra etapa que são os escalões de Iniciados que é caracterizada pelo aperfeiçoamento, depois os Sub-17 onde há uma especialização, e os juniores que surgem como uma etapa pautada pelo rendimento. É aqui que vemos se a bolsa de jogadores tem valor e estaleca para estar ao mais alto nível. E quando em Dezembro o guarda-redes da equipa, o Cristiano foi integrado nos seniores, o principal objectivo foi conseguido. Isso foi mais importante do que conquistar qualquer título. Também acrescento que pelo que tenho visto nos últimos anos, o plantel de juniores era um dos mais fortes, e tinha condições para estar na "final four". Isso não aconteceu por um detalhe, por um ponto, um golo, mas não ficámos tão desgostosos como as pessoas pensam. E para além do guarda-redes Cristiano, há mais dois ou três jogadores que têm condições para integrar o plantel sénior a curto prazo, talvez já na próxima época. Mas isso vai ter de ser decidido pelo "manager", pelo mister de acordo com as escolhas do futebol profissional.

O facto da equipa de juniores ter começado mal a época, tem que ver com o facto de muitos jogadores serem novos no plantel?

Sim. No futebol de formação isso acaba por ter um peso muito grande. Há dois factores que contribuíram para um menor rendimento. O primeiro foi os jogos em casa, e a pressão e ansiedade que advêm daí, o que é sinal que temos de jogar mais vezes no nosso Estádio, porque se os jogadores não conseguirem conviver com isso também não podem chegar ao futebol profissional, onde costumam estar 10.000 pessoas no Estádio Axa. E depois há esse facto que referiu. Foi uma época de mudança, apostamos no jogador português que conhecíamos e com valor, quer de regiões próximas de Braga, quer de outras mais afastadas. Contratamos jogadores como o Wanderson e o Peterson que se revelaram mais valias, mas tínhamos também outros que constituíram boas opções. Jogadores novos, porque a nossa estratégia, era ter muitos jogadores de primeiro ano. Até Dezembro isso notou-se um pouco, na formação é um dado adquirido que na primeira metade da época, os jogadores mais jovens têm um grande desnível relativamente aos outros. A partir daí melhoraram, e aproximam-se dos outros, acabando bem a época.

Há pouco referiu que alguns jogadores dos Iniciados A tinham já um contrato de seis anos com o clube. Pode revelar-nos os nomes?

Não há um grande interesse do Braga em revelar isso, porque há jogadores que vão lá ficar sem esse vinculo e não é por isso que vão ser menos bem tratados que os outros. Agora, achamos que o Braga tinha de dar um passo nesse nível. Esse é o escalão onde o clube costuma perder mais jogadores para os seus opositores casos do Benfica, Porto e Sporting. Normalmente é isso que acontece. Nós tentámos dizer às famílias que estar em Braga também é bom, as condições estão a mudar, os treinadores estão a ficar mais evoluídos porque têm mais experiência e formação individual, e a filosofia do clube é apostar mais nos jogadores da formação. Não só porque somos obrigados legalmente, mas também porque é uma aposta para o futuro. Este núcleo duro da equipa de Iniciados que não vale a pena individualizar dá sinais que o Braga aposta localmente.

Quais os jogadores do plantel júnior que têm mais hipótese de fazer essa transição? Há pouco tempo os meios de comunicação social falaram nos dois laterais, o Alex e o Dani...

Mas não é verdade tudo o que vem os jornais (risos), sem qualquer desrespeito pela vossa actividade. Mas nada está decidido nesse sentido, está a decorrer um processo de alguma reorganização que tem que ver com o treinador. Ainda não se sabe se o Jorge Jesus vai continuar na próxima época ou se vem um treinador novo, e o mister vai ter de dar a sua opinião porque é ele que forma o plantel. Mas tenho a convicção, que mais um ou dois jogadores, vão ter essa possibilidade. Não posso revelar nomes, estou envolvido no processo juntamente com o manager Carlos Freitas, o mister dos juniores e estamos a estudar quais as melhores possibilidades para os jogadores. E garanto que o Braga não ficava a perder caso incluísse mais jogadores no plantel sénior.

Considera que as dispensas de Juvenis A dos três grandes constituíram a "sorte grande" para o Braga. Isto porque foram buscar o Toumani, o André Anjo, o André Campos, Fábio Ferreira e o Januário Jesus. Realisticamente falando, todos eles podiam ter ficado nos planteis dos grandes, mas as suas dispensas foram uma mais valia para o Braga?

Sorte porque acreditamos nas capacidades desses jogadores e fizemos um trabalho de casa atempado. A sorte foi apenas de estarem livres, poderem ser convidados e terem-se integrado bem. Essas contratações enquadram-se na política de ter jogadores sub 18, que assimilem as dinâmicas e processos e com a continuação do treinador, no próximo ano vão estar mais próximo do valor que idealizamos.

O Januário Jesus pertencia à geração de 91 que fez correr muita tinta no Sporting. Conquistaram vários títulos, de Infantis, Iniciados e alguns deles até de Juvenis. O Januário era um dos jogadores mais talentosos, mas diz-se que foi dispensado devido à sua imaturidade e comportamentos menos apropriados. Pode-nos dizer como decorreu a sua evolução não só em termos técnicos, mas também nos aspectos psicológicos?

Vou puxar o filme um pouco atrás. Já conhecia o Januário do tempo em que estava no Sporting. E tanto o clube de Alvalade que prescindiu dos seus serviços, como o Braga que o adquiriu, reconhecem nele grandes capacidades. Agora também digo que o contexto de vida do Januário, num local como a Academia não é o melhor. Proporciona-se certas liberdades, mas também se retiram estilos e hábitos de vida a que ele estava habituado no Algarve. E na formação que fiz recentemente em Inglaterra, tive oportunidade de conhecer as Academias, e nenhuma se localiza como a do Sporting, ou seja, afastada dos centros urbanos e desenraizada. Mesmo as instalações mais utilizadas, já têm vários locais próximos que são essenciais para jovens como o Januário. Nunca reconheci nele um indivíduo perturbador, mas sim um jovem inadaptado. E o Braga proporcionou-lhe essa adaptação. Começou a viver sozinho, nós demos o apoio necessário, mas errou quando teve que errar e acertou muitas vezes quando devia. Por tudo isto penso que é uma pessoa muito mais feliz.

O facto de ter sido convocado para a equipa sénior no jogo contra o Belenenses foi um justo prémio?

Ele foi convocado três vezes, em duas ocasiões foi para a bancada, e no Restelo foi para o banco.



O BRAGA NO MERCADO DE TRANSFERÊNCIAS

"Por outro lado também não foi aquilo que se disse na maior parte dos jornais. A vinda dele (Evandro Brandão) foi uma coisa tão normal e natural que se eu contasse nem iam acreditar."

"O Braga pondera a oportunidade de poder melhorar o seu quadro de jogadores independentemente do seu clube. Não temos preconceitos em relação a isso."

A política de ir buscar jogadores ao Porto, Sporting e Benfica vai continuar este ano?

É um mito com o qual me debati e vou puxar os galões para o continuar a fazer. As pessoas tinham a ideia de que um jogador que não servisse para o Benfica, Porto ou Sporting também não servia para o Braga. Eu defendo outra ideia. O clube pode ponderar se o jogador que vem dos três grandes serve, tal e qual como esses clubes ponderam se elementos do Braga podem entrar na sua estrutura. Portanto apenas adaptamos a lógica de avaliação, há alguns que não nos interessam, mas outros quando estão livres podem interessar.

O que é que pode adiantar relativamente à próxima época a esse nível?

A ideia é a estabilidade dos planteis, contudo sabemos que é normal entrarem e saírem jogadores. A saída de jogadores tem que ver com o facto de acharmos que a expectativa e a possibilidade de alcançarem o futebol profissional já terminou. Logo que temos essa ideia, tentamos ponderar de acordo com os interesses da equipa, e se esses não ficarem afectados, os jogadores identificados vão sair. Contudo nunca se pode ter a certeza, no futebol de formação apenas se podem ter convicções, e quando se acha que o jogador não vai chegar à equipa sénior é melhor sair do plantel. Não é necessário perdermos tempo com o jogador, nem ele connosco.

A contratação do Evandro Brandão vem aumentar a ambição do Braga em conquistar um título?

Essa contratação tem que ver com duas coisas. A primeira é a avaliação de jogadores externos ao clube. Já conhecíamos o jogador há algum tempo, consideramos que a sua avaliação era positiva, de acordo com a realidade da equipa de juniores, com aquilo que diagnosticamos que vá acontecer com o Evandro Brandão e com os outros jogadores da sua posição, determinamos que era benéfico para as duas partes vir para o Minho. Por outro lado também não foi aquilo que se disse na maior parte dos jornais. A vinda dele foi uma coisa tão normal e natural que se eu contasse nem iam acreditar.

E pode contar a história dessa transferência?

Foi uma situação que se afigurou perfeitamente legal. O Manchester falou connosco, regularmente temos conversas com grandes clubes europeus. Os "red devils" perguntaram-nos se estávamos interessados no jogador, porque ia acabar contrato com o Manchester. Ponderámos e avaliamos a situação, falamos com o Evandro, e dissemos-lhe que poderia ser benéfico voltar para Portugal. Ele concordou, teve sempre uma atitude muito correcta connosco, viu, perguntou, esteve a treinar em Braga nos últimos dias da época, para se ambientar e conhecer o clube. As respostas foram positivas e chegámos à conclusão que se encaixava na nossa filosofia. Sem despesismos, sem desvios orçamentais como os jornais referiram. O Evandro não foi comprado, não tinha vínculo com o Manchester, mas tem agora com o Braga. O alarido que se fez teve que ver com o clube de onde veio. Considero que tinha condições para lá continuar, mas vai continuar a sua carreira num bom clube que é o Braga.

É justo dizer que o Braga vai estar atento à lista de dispensas dos Juvenis do Benfica, Porto e Sporting?

O Braga pondera a oportunidade de poder melhorar o seu quadro de jogadores independentemente do seu clube. Não temos preconceitos em relação a isso. O que importa é fazer a avaliação das nossas capacidades, ver quais são as nossas dificuldades, e a partir daí adquirir os jogadores necessários. Não só desses clubes que referiu, mas também do estrangeiro, contudo a nossa principal aposta é a formação do jogador local.

No ano passado o Braga foi buscar jogadores aos grandes. Houve mais algum jogador que o Braga quisesse e não tenha conseguido, o Filipe Paiva por exemplo.

Não. Houve uma lista de jogadores desses clubes e de outros que o Braga considerou. Agora não vamos trazer ninguém que não se enquadre nos nossos objectivos. Se no futuro existirem jogadores que nos interessem, vamos ponderar trazê-los para Braga.

Januário Jesus - Sporting Clube de Braga

PROJECTOS PARA O BRAGA

"Não queremos ser um clube pequeno afirmando-se como grande, mas queremos ser grandes dentro das nossas possibilidades."

"...o João Couto é um dos melhores treinadores da formação em Portugal e da Europa. Por cá estar é que não lhe dão o devido valor."

Os objectivos do Braga também passam pela conquista de um título nacional a médio prazo na formação?

Todos os clubes têm a ideia que os títulos servem para referenciar a quantidade e qualidade do trabalho que se está a fazer. E o Braga também tem essa ambição. Contudo, sabemos que o caminho que nos separa desse objectivo é largo, duro, e um pouco distante. Isto porque ainda há condições que nós não temos, também já temos alguns procedimentos necessários, e agora é uma questão de persistência, determinação, trabalho árduo e alguma sorte também.

Os treinadores da formação do Braga são para manter?

Vai haver algumas reestruturações. É público que o José Barroso, o técnico dos juvenis não vai continuar no cargo. Vamos ponderar a melhor solução internamente, há pessoas com qualidade e temos de ter em conta as nossas limitações financeiras. Não queremos ser um clube pequeno afirmando-se como grande, mas queremos ser grandes dentro das nossas possibilidades.

Que projectos gostaria de ver implementados na formação do Braga?

Há muita coisa a fazer. No "scouting" é preciso rentabilizar, organizar, racionalizar e usar os meios que já temos. Falta-nos um pouco mais de experiência, do saber acumulado, de perceber melhor as avaliações que são feitas no departamento de modo a que se possa tirar ainda mais rendimento. Falta-nos também passar para a Academia. Quando cheguei a Braga defini três etapas fundamentais, os recursos humanos, os materiais e o programa. Nos recursos humanos pouco nos vai faltando, falta apenas algumas reestruturações a nível do treino individual. O programa já está definido e também implementado. Fica a faltar os recursos materiais, as instalações. Nestes últimos anos, é justo dizer, o Braga também evoluiu, não tem que ver comigo, mas por exemplo as equipas treinam de uma outra forma. Na próxima época vamos melhorar os espaços, os locais, as condições, o número de treinadores, no sentido de aumentar o treino individual e poderem evoluir de modo a podermos ter um lote de jogadores que figure entre os melhore nacionais.

Estivemos a falar da contratação de jogadores aos três grandes. E staff? Seria possível por exemplo ver o mister João Couto em Braga?

Eu gostava. Eu estou numa posição onde tenho de tomar medidas e decisões. Quando se pensa em contratar algum técnico, pensa-se sempre nos melhores. E o João Couto é um dos melhores treinadores da formação em Portugal e da Europa. Por cá estar em Portugal é que não lhe dão o devido valor. Mas ele é muito meu amigo e não lhe vou fazer essa maldade (risos).

O Braga não tem muita tradição em trazer jogadores das camadas jovens da formação para o plantel sénior. Já houve casos pontuais como o Stélvio Cruz ou o Orlando Sá, mas não é uma regra geral. Acha que essa ideia pode mudar?

Não é bem verdade o que acabou de dizer. Se olharmos para o passado recente vemos muitos jogadores oriundos da formação no plantel formação. Dou-lhe alguns exemplos. O Ricardo Rocha, o Eduardo, o Hugo, o Artur Jorge, o Quim. Mas também é verdade que queremos importar ainda mais jogadores da formação para o plantel principal. E isso depende essencialmente da política do clube. Quando cheguei ao Minho, um dos principais aspectos para que alertei, foi para o facto de identificarmos os jogadores elite da formação. E eles existem. E só não vão passar para os seniores se a política do clube não for condizente, no entanto e felizmente, a filosofia e ideias do nosso manager vão ao encontro disso.

Sporting Clube de Braga - Juniores

A REALIDADE DO CLUBE MINHOTO

"A primeira pergunta que me fizeram quando cheguei a Braga era se todos os escalões passavam a ter o mesmo sistema de jogo. Eu disse que não, penso que quantos mais sistemas forem usados melhor."

"Estivemos presentes em alguns torneios internacionais de Sub-17 e Sub-19 durante este ano. E conseguimos proporcionar as condições, para observar jogadores de uma forma regular nas nossas instalações."

Como é feita a captação de um clube como o Braga?

Considero que tem um departamento de "scouting" muito eficaz pelo que fez este ano, embora tenha pouca gente e poucos recursos. É liderado pelo Paulo Meneses que de uma forma discreta, eficiente, tranquila e bem sistematizada conseguiu trazer informações muito importantes. Avaliou bem os nossos jogadores, e depois percebeu os que estão fora mas que se enquadram e tem capacidade para integrar a estrutura. Isso só é possível com um conhecimento profundo do nosso plantel e da bitola dos nossos jogadores.

Em Portugal e Espanha não há muito a tendência de projectos a longo prazo. Mas em equipas como o Ajax, as equipas da formação alinham sempre em 4-3-3 e os seniores também adoptam esse modelo. Acha que em Portugal as equipas deviam manter os mesmos sistemas durante 4/5 anos para que se produzissem jogadores para os seniores? Isso tem sido uma questão muito levantada porque por vezes produzem-se extremos que depois não encaixam no plantel sénior. No Braga há uma sinergia nesse aspecto?

Concordo com muito do que disse. A primeira pergunta que me fizeram quando cheguei a Braga era se todos os escalões passavam a ter o mesmo sistema de jogos. Eu disse que não, penso que quantos mais sistemas forem usados melhor. O que contribui também para a evolução é a quantidade de princípios que se consegue incutir nos jogadores nos vários contextos. Para um júnior é importante perceber algumas premissas do Braga. Se está a perder em casa, é necessário alargar o seu jogo, criar situações em catadupa de finalização ou se está a ganhar fora tem de congelar mais a bola. A tendência em Portugal é elaborar projectos idealistas, e estabelecer normas que só os treinadores percebem. Posso dizer que no Braga as metodologias têm sido facilmente transmitidas, quer a nível táctico, quer físico. Uma das vantagens que o Braga tem é a avaliação física que faz de cada jogador, de forma a identificar os seus pontos positivos e negativos para que possa melhorar. Na próxima época vamos dar passos mais intensos nesse sentido, para identificar individualmente alguma lacuna física, psicológica, táctica, etc. No Braga temos tentado fazer perceber aos jovens a realidade do futebol profissional, e dar-lhes conselhos e alertas de forma a poderem integrar-se da melhor forma no futuro.

O facto do Braga não ter conseguido ir à fase final em Juniores, mas ter conseguido "exportar" alguns jogadores para os seniores foi uma grande conquista?

Foi um dos grandes feitos desta época. O Cristiano foi promovido ao plantel sénior, fizemos dois torneios internacionais durante a época, tivemos jogadores chamados aos trabalhos da selecção nacional de Sub-18 e Sub-19, que é um espaço importante de evolução e aperfeiçoamento e alguns elementos foram regularmente treinar com o plantel principal. Isso deixa-nos muitos satisfeitos.

Penso que é uma situação que antecede a sua vinda para Braga, mas o Bragança reclama os direitos de formação do jogador Pizzi. Está a par dessa situação?

A legislação é bastante clara nesse sentido, mas por vezes há desencontros. Mas há autoridades competentes para resolver esses assuntos, por isso o Bragança se tem direitos deve reclamar, e o Braga se tem deveres, tem de cumpri-los.

O Mister disse que o Braga faz observações regulares de jogadores. Como é que isso é feito? Os jogadores vêm ao Minho ou já existe arcaboiço financeiro para ter um bom departamento de "scouting"?

Não temos tanto poder financeiro mas já fazemos algum "scouting" internacional. Estivemos presentes em alguns torneios internacionais de Sub-17 e Sub-19 durante este ano. E conseguimos proporcionar as condições, para observar jogadores de uma forma regular nas nossas instalações.

Onde foram essas provas?

Estivemos no Chile no sul-americano de Sub-17, na Argentina, no Gana, mas não posso revelar muito mais, porque temos uma agenda carregada.

Estiveram na Copa São Paulo?

Não. Por opção não estivemos lá, mas tivemos informações.

É obvio que o Braga tem de lutar com Benfica, Sporting e Porto na contratação de novos talentos. Mas é justo afirmar que o Vitória de Guimarães é o principal rival na detecção de talentos naquela zona?

É verdade. Até porque o Braga tem um handicap em relação ao Guimarães que são as condições de trabalho. Mas nós queremos melhorar, proporcionar uma satisfação aos jogadores e uma grande vontade em vir para Braga. Contudo, o Guimarães têm um grande prestígio a nível nacional, foi, porventura o primeiro clube a apostar na formação, porque construiu infra-estruturas para suportar os seus departamentos há muito tempo. Na minha opinião devia e podia tirar mais rendimento desse facto. No entanto é a política deles, nós temos a nossa e queremos dar passos maiores para tirarmos vantagem em relação ao nosso rival geográfico.

O mister falou há pouco de um guarda-redes do Braga, o Cristiano. De onde veio?

Veio do Penalva do Castelo. Foi referenciado na II divisão, sendo júnior de primeiro ano, e apesar de não ter nenhum trajecto nas selecções, demonstrava uma grande qualidade. É justo dizer que o Braga tem lançado uma série de guarda-redes para o panorama nacional nos últimos anos. Penso que o Cristiano será mais um que vai atingir a ribalta se assim lhe forem dadas as oportunidades devidas.

O Cristiano é júnior e foi contratado com o objectivo de chegar à equipa principal. Mas a verdade, é que por vezes os "grandes" quando contratam alguém no escalão de júnior é mais para colmatar alguma lacuna existente na equipa. Normalmente esses jogadores perdem-se rapidamente. Pondera o Braga contratar algum jogador para essas circunstâncias?

Não. Vou tentar transmitir a mensagem e filosofia que temos no Braga. No início da época contratámos dois guarda-redes. O Fábio Pereira que veio do Benfica e o Cristiano. Ao longo dos anos tentamos ter sempre elementos, que sustentem a formação do clube nesse posto específico. E é importante referir, que há pessoas importantes nesse processo e que nunca vêm à baila, como o Jorge Vital. Ele dá-nos sempre informações muito precisas sobre o futuro das balizas. O Cristiano veio contrariar o mito de que não se pode contratar jogadores juniores de segundo ano. A verdade e sucesso da nossa aposta confirmou-se em Dezembro. O Pawel Kieszek foi para o Setúbal, e em vez de irmos buscar outros reforços que estavam referenciados, promovemos o Cristiano à equipa sénior. Assim passou a treinar com eles, se fosse chamado sabíamos que tinha condições, e ao mesmo tempo tinha também um espaço de competição na equipa júnior. A experiência foi tão boa, que há pouco tempo acabou por ser chamado à selecção portuguesa e entrou no lote dos três melhores guarda-redes nacionais. Há alguns meses atrás toda esta realidade estava fechada para ele.

O Braga tem uma equipa satélite que é o Ribeirão?

Não é uma equipa satélite, fizemos um protocolo de cooperação com esse clube que por sinal nem correu muito bem.

Mas é para continuar?

Sim, vamos tentar fazer algumas reestruturações e possibilitar que haja um espaço para os jogadores que não se consigam afirmar no Braga.

Quem era o treinador do Ribeirão?

No princípio da época era o António Caldas que era um ex-técnico do Braga, mas depois acabou por sair devido a algumas divergências com a direcção. E o projecto acabou por não correr muito bem. Existiram muitas mexidas na estrutura, os objectivos do Ribeirão tinham de ser cumpridos e por isso não houve muito espaço para afirmação de atletas do Braga.

Na geração de 89 do Braga, há alguns jogadores que estavam emprestados ao Ribeirão, como por exemplo o Rui Lopes. Algum tem hipótese de integrar os quadros do plantel principal, ou vão ser novamente emprestados.

Eu não estou em condições de lhe dizer as medidas que vão ser tomadas. O Braga atravessa um período de reestruturação, ainda não se sabe quem vai ser o treinador. E por isso ainda não posso adiantar nada. Há ideias e projectos, mas nada foi decidido.

No caso do Januário Jesus o Braga falou com o Sporting directamente, ou só com o jogador depois de este já ter liberdade para planear o seu futuro. O que quero saber é se neste momento existem boas relações com os grandes e se as portas se mantêm abertas para mais transacções?

Temos relações normais entre clubes que disputam a mesma competição e tem, objectivos na formação. As relações são normais, não há quaisquer tipos de entraves.

Mas será mais difícil o Braga deixar sair jogadores para os três grandes, porque quer segurar mais os seus talentos?

Sim. Os jogadores também já gostam e querem ficar em Braga. Isso é importante. Não faz sentido estar a mudar famílias e jovens para outras cidades, se eles se sentem bem no Minho.

Se o Luís Martins estivesse no Braga há três anos atrás, o Nélson Oliveira tinha saído para o Benfica?

Há formas legais de fazer sair o jogador, não temos a ideia de que somos mais espertos que os outros e que podemos contornar a legislação. Mas queremos passar a ideia de que por vezes não é benéfico sair de perto das famílias, e ir para outro lugar onde há certo tipo de vicissitudes que não se enquadram na formação do jogador.

Fala-se muito de que o Braga vai ter uma Academia, um centro de treino. Pode-nos dizer qual é o ponto de situação relativamente a esse assunto?

A instalação física ainda está no papel. O presidente comprometeu-se com os sócios, com os seguidores da SAD, a dar passos seguros na construção de uma estrutura que apoiasse o futebol de formação e o plantel sénior. Nesta altura há algumas limitações, eu conheço-as. Estamos num período de crise mundial, não há tanta capacidade de investimento por parte das pessoas e das instituições. O projecto está agora parado, encontra-se numa fase de reestruturação quanto ao local. Contudo, a filosofia está bem definida, há um documento que orienta e delineia as linhas que se devem seguir até essa instalação estar pronta.



Entrevista realizada no dia 13 de Junho de 2009 no Hotel Tivoli Oriente.
Texto: Miguel Belo.
Imagens: Academia de Talentos.

Comentários

Onde anda este homem?

Sera que em Portugal andam a gozar connosco? este é de longe o melhor treinador de futebol de formação deste Pais!

Excelente entrevista!

Grande passado!

Grande futuro!

Eu fui treinado por ele nos iniciados do Belem e nunca mais tive direito a aprender nada!

Gostaria muito de ter o

Gostaria muito de ter o contacto do Professor Luis Martins.
Acho que posso ter algo que o possa ajudar nos aspectos organizativos.
C Queiroz

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