Entrevista
Entrevista com André Carvalhas
André Carvalhas é uma das grandes promessas do futebol português e do Benfica e sonha conquistar o seu espaço na equipa principal. Começou muito novo no Corroios e foi lá que nos falou da sua formação, da tristeza pelo não apuramento para a fase final do Campeonato da Europa e pela não conquista do título nacional de juniores. Chamado pela primeira vez aos seniores do Benfica no jogo da Taça UEFA, o médio parte para a pré-época com a esperança de conquistar a confiança do novo treinador.
Academia de Talentos: André, como correu esta época?
André Carvalhas: Em parte correu bem e foi positiva apesar de não termos sido campeões. A minha geração de 89 já anda a perseguir um título nos últimos três anos, que por detalhes ou pormenores nos anda a fugir. Não sei se é falta de sorte, mas há qualquer coisa que não está a bater certo (risos). Nos juvenis não fomos campeões por um golo, o ano passado fizemos uma grande época apesar de a base da equipa ser toda de primeiro ano, e este ano tínhamos uma equipa que se falava que poderia ser campeã mas não correspondemos às expectativas e ficámos em segundo lugar para infelicidade nossa.
ADT: E a nível individual como correu?
A.C.: Correu bem, apesar de não ser um ponta de lança, sou mais um extremo ou avançado, ou médio ofensivo... o que lhe quiserem chamar. Consegui fazer alguns golos, vinte neste caso e acho que para um jogador da minha posição foi uma meta de golos considerável. Na selecção fui chamado na maioria das vezes ou quase sempre, consegui fazer golos, apesar de não termos passado a fase de qualificação. Mas penso que foi uma época bastante boa, fui chamado aos seniores primeiro com o Mister Camacho e depois com o Mister Chalana.
ADT: Sentes que esta foi a época do "salto" para os seniores do Benfica?
A.C.: Sinto e tenho a ideia que sim, se durante este ano sendo júnior fui chamado e consegui ser o único júnior a treinar com a equipa sénior em alguns momentos, acho que com tudo o que fiz esta época e com tudo o que consegui alcançar, creio que é meio caminho andado para ter sucesso nos seniores, agora vamos a ver porque só a pré-época nos vai dizer.
ADT: Vais fazer a pré-época?
A.C.: Primeiro preciso de assinar e depois logo se vê (risos).
ADT: Achas que há espaço para ti no Benfica?
A.C.: Ainda ontem um jornalista da TSF me perguntava se a saída do Rodriguez abre uma vaga. É claro que sim, se entretanto não for preenchida por outro. Mas vou trabalhar ao máximo e espero conquistar o meu lugar e o meu espaço.
ADT: É o teu grande objectivo para a próxima época?
A.C.: Sim, é sem dúvida, permanecer nas selecções e conquistar o meu espaço no Benfica.
ADT: Conta-nos como é que começaste a jogar futebol?
A.C.: Comecei com 7 anos aqui no Corroios e com essa idade ainda não se pode jogar à bola, só a partir dos 8 é que se pode ser inscrito e jogar oficialmente. Ainda me lembro que foi o meu pai que veio treinar o Corroios quando fiz 8 anos e comecei a jogar, estive aqui até aos 10 anos, se não estou enganado. Depois o meu pai foi para o Cova da Piedade e eu fui atrás dele. No Cova da Piedade fiz a última época de escolas e a primeira de infantil, fiz duas grandes épocas e daí fui para o Benfica.
ADT: Sempre foste um jogador de características ofensivas?
A.C.: No Corroios jogava a central (risos), depois quando fui para o Cova da Piedade comecei a jogar a médio centro, em que não atacava nem defendia (risos), mas já na altura marcava alguns golos. Depois no Benfica comecei a ponta de lança e depois passei a extremo.
ADT: Como se deu a tua transferência para o Benfica?
A.C.: Já não me recordo quem me veio buscar, sei que estive lá um ano a treinar com a equipa à experiência e só depois decidiram ficar comigo.
ADT: Qual foi o treinador que mais te marcou?
A.C.: Foi o Bruno Lage. Tem uma maneira de pensar e agir com os jogadores que é diferente dos outros todos. É um treinador que marca pela personalidade, pela maneira como trata os jogadores, é um treinador diferente.
ADT: Qual foi o momento em que sentiste maiores dificuldades de adaptação?
A.C.: Na passagem do Cova da Piedade para o Benfica, porque aqui na margem sul jogávamos futebol sete e no Benfica passei a jogar futebol 11. Foi uma passagem difícil e complicada mas adaptei-me rápido.
ADT: A criação do Centro de Estágio no Seixal foi importante?
A.C.: Sim, apesar de apenas ter sido há dois anos, talvez se fosse mais cedo, eu poderia ter crescido mais (risos). Antes de irmos para o Seixal andávamos com a casa às costas, nuns campos que até metiam dó, agora aquilo tem boas condições para formar grandes jogadores.
ADT: Desde que chegaste ao Benfica nunca mais saíste de lá?
A.C.: Sim, desde que fui para lá nunca mais saí, vai fazer nove anos.
ADT: Que títulos conquistaste pelo Benfica?
A.C.: Não me façam essa pergunta, porque eu ainda não conquistei nada (risos).
ADT: Como foi a tua primeira chamada aos seniores?
A.C.: Foi uma grande alegria e não estava nada à espera. Estava na selecção porque fomos fazer um amigável a Ceuta contra a Espanha, e antes do jogo deram-me a notícia que tinha de me apresentar nos seniores no jogo contra o Getafe em casa. Lembro-me que nesse dia andava todo morto, porque tínhamos feito uma viagem de uma hora e tal de barco de Ceuta para Espanha, depois mais uma viagem de 5 horas de autocarro e depois fui-me apresentar, nem a casa fui. Foi uma sensação espectacular, ainda para mais, disseram-me antes do jogo da selecção e eu já nem pensei no jogo, foi uma boa experiência.
ADT: Quem te deu a notícia?
A.C.: O Benfica ligou para a selecção e foi o Mister Agostinho Oliveira que me disse.
ADT: Sentiste-te apoiado pelos teus novos colegas?
A.C.: Sim, eles apoiaram-me sempre, claro que há sempre uns mais divertidos que outros e os brasileiros são sempre mais extrovertidos. Foi fantástico estar com os craques que antes ia ver ao estádio e eu até "tremia" para que ganhassem. Agora mesmo sendo no banco, estava ali ao lado deles e foi um orgulho enorme.
ADT: Como foi entrar no Estádio da Luz com a equipa principal?
A.C.: Foi aquele arrepiozinho na barriga, que se tem nos jogos grandes, mesmo sendo nos juniores, e entrar com os seniores foi sensacional. Acabou por ser um "vai-não-vai", que tinha que ir para o banco porque jogar não queria porque tinha medo (risos). Foi espectacular, foi uma experiência única.
ADT: Qual foi o jogo que mais te marcou?
A.C.: Esta é uma pergunta para pensar durante três horas. Penso que foi nesta última época quando ganhámos 4-2 ao Sporting, em que marquei dois golos.
ADT: Estavas à espera de marcar tantos golos?
A.C.: Sinceramente estava, a primeira meta a atingir era ser campeão, o que acabei por não conseguir, mas a segunda era marcar muitos golos, até porque eu sou daqueles jogadores que quando não marca durante algum tempo fica triste e chateado.
ADT: Este foi um novo recorde para ti?
A.C.: Sim, foi, ao longo dos anos tinha marcado sempre 15 golos, até pareciam fotocópias e este ano consegui chegar aos 20.
ADT: Para além da falta de sorte que já apontaste, o que achas que faltou para serem campeões?
A.C.: Algum espírito de equipa talvez, espírito que tínhamos o ano passado e não tivemos este ano. Faltou aquele espírito também incutido pelo treinador do ano passado, que era uma das formas que ele tinha de lidar com os jogadores. A época passada valíamos pelo espírito de equipa, porque não éramos uma equipa fantástica mas valíamos acima de tudo pelo colectivo e foi o que nos faltou este ano.
ADT: Tu és muitas vezes comparado ao Simão e ao Micolli. Porque achas que isso acontece?
A.C.: Não sei, talvez pela posição que ocupo no campo e pela fisionomia. Uma vez houve um jornal que me comparou com o Aimar, mas sinceramente, só se for pelo cabelo (risos). Pela posição que ocupo no campo e pela maneira de jogar identifico-me com os dois.

ADT: Tu consegues jogar em todas as posições do ataque, certo? Mas qual é aquela em que te sentes mais confortável?
A.C.: Sim. Penso que é a jogar a avançado móvel, jogando com dois avançados e eu sendo o mais móvel.
ADT: Tu jogas tanto na esquerda como na direita, afinal de contas, és esquerdino ou destro?
A.C.: Sou ambidestro, mas prefiro jogar na esquerda.
ADT: Qual é o esquema táctico que melhor se adapta às tuas características?
A.C.: Talvez o 4-4-2 losango, que era como jogávamos o ano passado, em que eu jogava como médio atacante ou avançado móvel.
ADT: Como defines o teu futebol?
A.C.: É um futebol criativo, imprevisível, técnico e rápido.
ADT: Quais são os teus pontos fortes?
A.C.: A velocidade, o drible, a facilidade de remate com os dois pés e a capacidade de em curtos espaços conseguir resolver problemas.
ADT: Durante esta época muitos foram os que se referiram à equipa de juniores do Benfica através do teu nome. Como é que encaraste isso?
A.C.: Senti uma grande responsabilidade. As pessoas diziam isso mas acho que não é verdade, não é um jogador que faz uma equipa mas sim uma equipa que faz os jogadores. O Bruno Lage disse-nos uma vez que um jogador só atinge objectivos individuais se a equipa à qual ele pertence atingir objectivos colectivos. Não é um jogador que chega e resolve o jogo, tem de haver sempre um grupo por trás.
ADT: Durante a formação qual foi o teu jogador de referência?
A.C.: Como já o disse algumas vezes, o jogador de referência foi o Rui Costa, mas o meu ídolo sempre foi o Simão Sabrosa, sem dúvida, até porque me identifico em algumas coisas com ele.
ADT: Como foi vestir pela primeira vez a camisola do Benfica na equipa principal?
A.C.: Foi diferente, é uma sensação que não dá para explicar. Nos juniores olhamos para trás e vemos sempre os mesmos números, no meu caso era o 7 e por cima diz sempre "Sicasal" (risos). E nos seniores estar escrito "Carvalhas" é uma coisa espectacular. A minha camisola está guardada em casa com todo o carinho.
ADT: Como foi trabalhar com Camacho e depois com Chalana?
A.C.: Com o Camacho falei pouco, mas com o Chalana gostei muito de trabalhar. Ele sabe lidar com os juniores, sabe tirar a pressão e sabe falar com eles, em algumas partes limou-me arestas nos treinos e deu-me algumas dicas. Falava muito comigo. Sabe lidar muito bem com os juniores que sobem.
ADT: Sentiste muita diferença quando regressaste aos juniores?
A.C.: Estava mais confiante, ganhei algumas coisas com a pequena subida ao plantel principal. O futebol não é muito diferente mas o ritmo competitivo e a velocidade de execução são muito maiores, e treinando com eles habituamo-nos a esse futebol. As coisas tinham de sair mais rápido, tinha de pensar mais depressa.
ADT: Quando é que sentiste que podias ser jogador de futebol?
A.C.: Acho que foi agora nos juniores quando as pessoas começaram a falar mais de mim e falavam comigo, e aí comecei a interiorizar de que era capaz e percebi definitivamente que era aquilo que eu queria. Agora está quase e vou tentar atingir a meta que tracei desde juvenil A, que é ser profissional do Benfica.
ADT: A determinada altura isto deixa de ser uma brincadeira e passa a ser a sério?
A.C.: Sim, houve alguns momentos quando era mais novo em que levava isto na brincadeira, íamos para os estágios e não dormíamos a horas, o que é normal naquela idade. Só que a partir de uma certa altura crescemos como jogadores e como pessoas e começamos a ver aquilo que realmente queremos, e depois temos de levar isto mais a sério.
ADT: Em que escalões já jogaste na selecção?
A.C.: Sub-16, sub-17, sub-18 e sub-19.
ADT: Como foi a tua primeira experiência na selecção?
A.C.: Foi um pouco atípica contra a França. Lembro-me que tinha estado doente a semana toda e só fiquei bom quando faltava um ou dois dias para o último jogo. Joguei a primeira parte, mas acabei por sair ao intervalo porque não aguentava mais.
ADT: A nível de selecção quais são os teus objectivos?
A.C.: Chegar o mais alto possível, ou seja chegar à selecção A, e é para isso que trabalho. Penso que até agora consegui ano após ano conquistar algum estatuto na selecção, coisa que não tinha ao início, e agora quero conquistar cada vez mais.
ADT: Como é que analisas a tua geração de 89?
A.C.: Acho que é uma geração muito forte, quando fomos a Espanha jogar um amigável, o técnico espanhol disse que foi a melhor selecção que apanhou nos últimos dez anos, e isso demonstra que temos grande qualidade e demonstra também que aquela não passagem à fase final foi por causa daquele pormenor que faltou e que está aqui atravessado.
ADT: Foi o momento mais triste da tua carreira?
A.C.: Não sei qual deles foi o mais triste, não ter sido campeão ou a não passagem à fase final do campeonato da Europa. Todos sabíamos que estar lá era uma montra muito grande para qualquer um de nós. Ficámos na angústia de termos equipa para passar e fazermos um bom campeonato e no final não conseguirmos.
ADT: Qual é a liga que mais te fascina?
A.C.: A espanhola, porque é a que mais se identifica com o meu futebol.
ADT: E o clube?
A.C.: Barcelona ou Manchester.
ADT: Gostavas de um dia ir jogar para o estrangeiro?
A.C.: Sinceramente não sei, porque é uma mudança muito radical. Ainda sou muito novo mas se houver uma boa proposta, claro que será algo a ser pensado, mas aí temos que ter muitos factores em conta.
ADT: Qual foi o defesa que mais dificuldades te criou?
A.C.: Talvez o Miguel Vítor porque era difícil de passar por ele, mas felizmente nunca joguei contra ele porque éramos sempre da mesma equipa.
ADT: Sentes que o teu pai foi muito importante na tua carreira?
A.C.: Se alguma coisa tenho agora e se alguma coisa eu conquistei, posso agradecer-lhe muito a ele, pois sempre teve toda a disponibilidade para mim e sempre me levou a todo o lado, ele é que me acompanhava e continua a acompanhar e se alguma coisa ganhei devo-o a ele.
ADT: Na possibilidade de seres emprestado para a próxima temporada, como é que encaravas a situação?
A.C.: Seria uma nova experiência, porque eu nunca fui emprestado, e caso aconteça vou com a meta e com o objectivo de voltar e de não ficar no esquecimento.
ADT: Nos últimos tempos tens sido muito falado nos media e entre os adeptos existe uma expectativa elevada devido ao facto de seres uma grande promessa do futebol português. Como encaras a situação?
A.C.: É sempre bom saber que as pessoas, a imprensa e os adeptos gostam de mim e gostam daquilo que eu faço dentro de campo, e ser considerado uma jovem promessa é bom e denota que as pessoas gostam de mim, fico lisonjeado.
ADT: Alguma vez pensaste que podias chegar até aqui?
A.C.: Nunca pensei que isto podia chegar a este ponto. Pensei que as pessoas me iriam conhecer por jogar no Benfica mas nunca pensei que as coisas fossem chegar a este ponto e acho que até é exagerado (risos).
ADT: Foi importante o teu pai ter sido treinador e jogador para te ajudar a ultrapassar esta "fama"?
A.C.: Sim, é importante porque ele também foi jogador e sabe o que isto é, e dá-me conselhos em casa para eu não me deslumbrar, para eu não me contentar com pouco e para eu querer sempre mais, e é para isso que eu trabalho todos os dias. Isto que tenho agora é uma "fatia do bolo", mas o que eu quero é o bolo todo (risos).
ADT: Qual foi o momento alto da tua carreira até agora?
A.C.: A chamada aos seniores na taça UEFA.
ADT: Falou-se muito da tua renovação pelo Benfica e na possibilidade de rumares a outro clube. Houve realmente propostas para a tua aquisição?
A.C.: Houve alguns clubes interessados mas não vou adiantar muito sobre isso.
ADT: Para além do futebol continuas a estudar?
A.C.: Estou matriculado este ano mas foi complicado conciliar os estudos com o futebol e com o decorrer da época tornou-se mesmo impossível. Mas estou no 12º ano. No final nem tive coragem de ir ver as notas (risos)... é melhor nem falar disso (risos).
ADT: E depois do futebol o que gostarias de seguir?
A.C.: Gostava de ficar ligado ao desporto mas ainda não sei bem em que área.
ADT: Que conselhos deixas aos jovens que começam agora a dar os seus primeiros toques no esférico?
A.C.: Que não desistam ao primeiro obstáculo, que não se deixem abater perante as primeiras adversidades. Ainda são muito jovens e ainda vão a tempo de conquistar muita coisa, desde que o façam a sério e não a brincar.

Fila de baixo, 1º a contar da esquerda.
B.I. do jogador:
Nome: André Filipe Silva Carvalhas.
Idade: 19 Anos.
Peso: 65kg.
Altura: 1,68 cm.
Data de Nascimento: 1989-03-07 (19 anos).
Posição: Avançado.
Clube: Benfica.
Entrevista realizada no dia 25 de Junho de 2008 no Campo António Marques Pequeno em Corroios.
Texto: Ricardo Nascimento.
Imagens: Academia de Talentos.
Dia 02.10.2008, às 11:08, roma disse...
e o paizinho como treinador, loool grande carvalhas, um abraço deste teu amigo Paulo Fonseca
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