Entrevista
Entrevista com André Santos
Começou a jogar como ponta de lança, mas foi como médio centro que se notabilizou ao ponto de se tornar o capitão da equipa de juniores do Sporting, que este ano se sagrou Campeã Nacional.
Sempre bem disposto, André Santos falou à Academia de Talentos sobre a sua formação, do tempo passado na Academia de Alcochete, da selecção, da sua vida fora do futebol e do futuro que passa pelo Grupo Desportivo de Fátima.
E tudo começou na Lourinhã...
Academia de Talentos (ADT) - Onde começaste a tua carreira futebolística?
André Santos (A.S.) - Comecei a jogar no Lourinhanense.
ADT: Como é que tudo começou?
AS: Eu tinha oito anos e fui fazer um treino no início da época, eles gostaram de mim e fui admitido. Nessa altura só havia uma equipa de escolas que era composta por jogadores de primeiro e segundo ano. Eu comecei a jogar como ponta de lança.
ADT: Quem foi o teu primeiro treinador?
A.S. - Foi o mister Luís Becas. Eu estive no Lourinhanense nos dois anos de escolas e foi sempre ele o meu treinador.
ADT: Que recordações tens desse teu mister?
A.S.: Gostei muito de ser treinado por ele, era uma pessoa muito bem disposta e foi um bom treinador.
ADT: Quais os momentos que guardas com maior carinho dessa altura?
AS: No primeiro ano de escolas eu jogava a ponta de lança, fui o melhor marcador da equipa e só no segundo ano é que passei a jogar como médio. Lembro-me que no primeiro ano, conseguimos ser apurados para a última fase do Campeonato e defrontámos o Benfica e o Sporting. Acabámos por ficar em terceiro lugar, mas foi uma época bastante boa.
ADT: No Lourinhanense, no futebol de 7, jogavam em que sistema?
AS: Em 3-2-1, e eu era o ponta de lança.
De Leão ao Peito...
ADT: Como se deu a tua transferência para o Sporting?
AS: Nesses anos na Lourinhã jogámos várias vezes contra o Sporting e eu fui sendo observado. Depois houve um torneio na Encarnação onde voltámos a defrontá-los. Acabámos por ganhar e eles continuaram as observações. No final do segundo ano de escola, convidaram-me para ir lá treinar à experiência, fui e acabei por ficar.
ADT: Tiveste outras propostas?
AS: Eu penso que também tive um convite do Benfica, mas eu interessei-me logo pelo Sporting.
ADT: Quem foi a pessoa do Sporting que falou contigo aquando da tua transferência do Lourinhanense?
AS: Não foi comigo que falaram, foi com o meu pai. Penso que foi o Sr. Mário Lino. Nessa altura o Lourinhanense era o clube satélite do Sporting, e a equipa sénior tinha lá muitos jogadores oriundos de Alvalade como eram os casos do Caneira, Nuno Assis, Santamaria e Alhandra por exemplo. Estavam sempre muitos responsáveis leoninos a ver os jogos tanto dos seniores como das camadas jovens e foi aí que o Sr. Mário Lino falou com o meu pai.
ADT: O que foi que ele disse ao teu pai?
AS: Disse-lhe que tinha gostado muito de me ver jogar e queria que eu fosse ao Sporting treinar à experiência para ser observado.
ADT: E depois quem falou contigo para ficares lá?
AS: Na altura foi também o Sr. Mário Lino. Eu fui lá treinar com a equipa de escolas do Sporting, penso que na altura o treinador era o mister Luís Dias.
ADT: Chegaste a ir fazer torneios com a equipa, ainda quando estavas à experiência?
AS: Não. Eu fui lá no fim da época, no segundo ano de escolas e depois comecei no ano seguinte quando já era Infantil. Agora é que há estes torneios onde costumam aparecer as caras novas. Antes não havia tanto esse hábito, porque actualmente há mais equipas, mais torneios e muito mais jogadores.
ADT: Os Misters costumam promover a rotatividade nos escalões de escolas e infantis, no teu primeiro ano como Infantil B, sentiste dificuldade para agarrar a titularidade?
AS: No primeiro ano de infantil fiz muitos jogos, aliás, completei mesmo os jogos quase todos. Foi bastante bom.
ADT: E como decorreu a tua adaptação a essa nova realidade?
AS: Foi um pouco difícil, porque tinha de ir de táxi de Torres Vedras até Alvalade e no ano seguinte até Pina Manique. Era complicado, não podia ir aos treinos todos, tinha de faltar a alguns e depois quando ia chegava sempre muito tarde a casa.
ADT: E conseguias conciliar a escola com os treinos? Nunca faltavas?
AS: Só ia a dois treinos por semana e num desses dias tinha de faltar às aulas.
ADT: Foi difícil para ti?
AS: No início foi, mas depois comecei a adaptar-me e os professores também foram bastante compreensivos e ajudaram-me.
ADT: O que foi mais difícil para ti no Sporting?
AS: Quando cheguei aos iniciados eu fui viver para a Academia, e separar-me da minha família foi complicado. Depois encontrei outras dificuldades, nomeadamente aquando da transição para outro escalão, de iniciado para juvenil e de juvenil para júnior.
ADT: Quem foi o teu primeiro treinador no Sporting?
AS: Foi o mister Luís Dias, depois tive o Mister Nuno Naré. Nos iniciados foi o Paulo Cardoso no primeiro ano e o Luís Gonçalves no segundo. Nos juvenis foi o Luís Dias e depois o João Couto. No escalão de júnior tive o mister Luís Martins e no decorrer da época entrou o mister José Lima.
ADT: Qual foi o que te marcou mais?
AS: Foi o mister Luís Dias.
ADT: Porquê?
AS: Porque foi com ele que passei mais tempo e evolui mais, apesar de este ano também achar que tenha evoluído bastante com o Mister Lima.
ADT: Este ano tinhas um papel muito importante na equipa leonina, já era assim nos juvenis?
AS: Não foi sempre assim. No entanto, nos juvenis já jogava muito regularmente, completei a maior parte dos jogos, tal como este ano. A diferença é que este ano era o sub-capitão, mas com a ida do Adrien para os seniores fiquei com a braçadeira.
ADT: Houve algum momento no teu processo de formação em que te sentisses mais desmoralizado?
AS: Às vezes estava um pouco mais em baixo por não jogar com tanta regularidade, o que é normal, porque queremos sempre jogar mais.
ADT: Como é que um jogador tão jovem lida com esses momentos quando é menos utilizado?
AS: É complicado, mas o importante é trabalhar sempre e nunca desistir para podermos alcançar os nossos objectivos.
ADT: No Sporting jogaste em que posições?
AS: Com o mister Luís Dias joguei como médio, mas no decorrer dos jogos havia sempre substituições e a minha posição alterava-se. Cheguei inclusive a jogar como defesa central.
ADT: No sistema de 4-3-3 jogavas em que posição?
AS: Já fiz um pouco de tudo. Nos juvenis, com o mister Luís Dias joguei a trinco, depois no segundo ano o mister João Couto colocou o Diogo Amado como médio defensivo e avancei mais no terreno. Jogava com o Adrien, como médio ofensivo.
ADT: Mas no Sporting em 4-3-3 jogavam com dois médios mais ofensivos? É um 8 e um 10 ou são dois 8 e que vão alternando as despesas ofensivas?
AS: Não sei se se pode falar em dois médios ofensivos. Há três médios, em que um tem a função de não subir tanto e fazer as compensações aos colegas, e depois os outros dois apoiam mais o ataque, mas também ajudam a defender. Não são médios ofensivos que nunca descem como é característico do típico número 10.
ADT: Nos Iniciados e Juvenis jogavas mais em que sitio do meio campo?
AS: Mais como médio ofensivo.
ADT: Fala um pouco da tua equipa que foi campeã de juvenis com o João Couto e onde estavam o Amado, o Bruno Matias, o Vivaldo, o Adrien, por exemplo. Não jogavam sempre em 4-3-3?
AS: Chegámos a jogar em 4-4-2. Em campos com dimensões mais reduzidas o mister optava por esse sistema, lembro-me de partidas em Camarate e no Cartaxo. 4-4-2 com um losango no meio campo, quando estávamos no processo ofensivo o jogador que estava no vértice superior, ia para ponta de lança, e os dois homens da frente abriam para dar maior largura ao jogo. Quando tínhamos de defender o médio ofensivo fechava mais no meio para auxiliar os outros jogadores do meio campo.
ADT: E quem jogava como número dez nessa altura?
AS: Já não me recordo muito bem, pois o mister promovia uma grande rotação entre os jogadores.
ADT: Foste campeão de Iniciados e depois disso o Adrien, o Fábio Ferreira e o Ricardo Fernandes foram para o Chelsea, e só o Adrien é que regressou. Que memórias tens desses 2 jogadores?
AS: O Fábio Ferreira era muito rápido, e o Ricardo Fernandes tinha muita força, era baixinho, mas era muito forte.
ADT: Eram elementos muito importantes na equipa nessa altura?
AS: Sim, eram jogadores muito polivalentes, desempenhavam várias posições e ajudaram-nos muito na conquista do título.
ADT: Para além dos treinadores, quem foram as pessoas que foram importantes para ti no Sporting ao longo do teu processo de formação?
AS: Eu dava-me bem com toda a gente e ainda dou. Desde os professores da escola, aos responsáveis pela Academia que ficam lá de noite, o Sr. Arlindo, o Sr. Vítor que já faleceu. Eram todos amigos, falávamos, ajudavam-nos a distrair. Também os delegados como o Sr. Atanásio, que brincava muito comigo e os enfermeiros, o Alex e o Carlos. Enfim, todas as pessoas eram muito amigas e bem dispostas e cada um à sua maneira foi importante para mim.

A selecção...
ADT: Que escalões da selecção já representaste?
AS: Na selecção distrital de Lisboa fui sempre convocado nos vários escalões, quanto à selecção nacional apenas fui chamado no ano passado, nos sub-18. Este ano também já representei os sub-19.
ADT: Como se deu essa tua chamada à selecção?
AS: Foi no torneio que se realizou cá em Lisboa. Estavam lá treinadores da selecção, o Carlos Dinis, o Paulo Sousa, o Agostinho Oliveira e eles viram os jogos todos. Depois houve uma chamada à selecção que incluía os jogadores que eles tinham observado nesse torneio e outros que já eram presenças habituais. Fez-se vários treinos e iam sempre saindo vários jogadores, até que saiu a convocatória para um jogo particular com a Suíça. Eu não fui convocado, mas depois o Miguel Rosa lesionou-se e eu fui chamado para colmatar a ausência dele. Acabei por ir para o banco, mas no decorrer do jogo entrei e tive a felicidade de marcar um golo e a partir dai tenho sido sempre chamado.
ADT: Não podias pedir melhor estreia?
AS: Não, foi mesmo muito bom, o azar de uns é a sorte de outros como se costuma dizer, e eu tive a felicidade de ser chamado e correu tudo bem.
ADT: Quantas internacionalizações e golos já tens pela selecção?
AS: Tenho três golos, e 14 ou 15 internacionalizações, já não me recordo exactamente quantas são.
ADT: Os golos foram todos de meia distância?
AS: Sim, contra a Suíça foi, no Torneio Internacional de Lisboa também e o último foi na Irlanda. Estava a jogar a defesa direito, subi, passaram-me a bola, chutei, bateu num adversário e traiu o guarda-redes.
ADT: Tens jogado a lateral direito na selecção?
AS: No ano passado com o mister António Violante jogava sempre como médio, mas esta época, o mister Agostinho Oliveira experimentou-me na Irlanda a lateral direito. Fizemos lá dois jogos, no segundo fui utilizado nessa posição e correu bem.
ADT: Como te sentes no lado direito da defesa?
AS: É uma posição diferente mas adaptei-me bem.
ADT: Não te sentes melhor no centro do terreno, pois és um jogador criativo e culto tacticamente e um lateral tem de ser mais veloz e explosivo?
AS: Eu também não sou um jogador lento. Mesmo o mister Agostinho Oliveira dizia que eu era rápido e que podia fazer bem essa posição.
ADT: Já te sentes confortável nessa posição?
AS: No princípio não me sentia muito à vontade, mas depois fui-me habituando e penso que agora também posso jogar aí.
ADT: Achas que é um lugar que podes desempenhar no futuro?
AS: Não pensei nisso, mas é útil para um jogador saber jogar em várias posições.
ADT: Tu estás a jogar a lateral direito na selecção, no Sporting jogavas como médio centro, e o que achas que o Fátima tem em mente para ti?
AS: Penso que é para jogar a médio
ADT: Estiveste presente naquele jogo da selecção em que Portugal falhou o apuramento para o Campeonato da Europa, podes dizer-nos o que falhou?
AS: O árbitro fez uma péssima actuação, para além de ter realizado uma má arbitragem, ainda gozava connosco. Foi mesmo muito mau.
ADT: E como perspectivas o teu futuro na selecção?
AS: Espero voltar a ser chamado, agora para representar a selecção nos sub-20.
Principais Características...
ADT: Na tua opinião qual é a tua posição natural? És um 8 ou um 10?
AS: Gosto mais de jogar como 8 ou 10, porque não gosto de estar muito preso à posição, prefiro ter mais liberdade. Mas se me pedirem para jogar como 6, também cumpro. Por exemplo, este ano estivemos num torneio na Suíça e o mister José Lima pediu-me para desempenhar as funções de médio de cobertura, e eu fixei-me mais e não subi tanto. Adapto-me bem a qualquer posição.
ADT: Como te descreves enquanto jogador?
AS: As pessoas que estão de fora é que podem ver melhor (risos).
ADT: Mas quais é que achas que são os teus aspectos mais fortes?
AS: Eu tenho um bom pontapé de meia distância, marquei 15 golos esta temporada e quase todos dessa forma.
ADT: Para além do remate de meia distância, que outros aspectos destacas em ti?
AS: Acho que me posiciono bem no campo, sou bom tacticamente e sou um jogador seguro no passe, pois não perco muitas bolas, nem falho muitos passes.
ADT: Quais são os pontos que ainda tens de melhorar para seres um jogador ainda mais completo?
AS: Tenho de melhorar o remate de pé esquerdo, para marcar golos com os dois pés (risos), e também o jogo de cabeça, principalmente no aspecto defensivo. Penso que também ao nível da marcação defensiva, nomeadamente nas bolas paradas tenho de trabalhar mais.
ADT: Quem acompanha a formação do Sporting tece-te muitos elogios, não só como jogador mas também devido à tua mentalidade vencedora e competitiva. Concordas com essa apreciação?
AS: Sim, acho que sim, porque dou sempre o máximo nos treinos e nos jogos.
O Futuro...
ADT: Fala-nos agora um pouco sobre o teu futuro, estavas à espera da tua ida para Fátima?
AS: Já estava preparado para ser emprestado mas não sabia que era para lá. No primeiro ano de sénior é muito bom jogar com regularidade para se poder evoluir, isso é o mais importante.
ADT: Estavas à espera de poder fazer a pré-época com a equipa principal do Sporting?
AS: Nós temos sempre o pensamento que pode ser possível, alguns conseguiram e eu tinha essa esperança. E durante a época, por vezes alguns juniores são chamados para ir lá treinar com os seniores, é normal pensarmos nisso.
ADT: Havia outros clubes interessados em ti antes de seres emprestado para o Fátima?
AS: Havia, sei que haviam outras hipóteses aqui na zona de Lisboa mas não chegaram a revelar-me os nomes desses clubes.
ADT: Vais viver para Fátima?
AS: Sim.
ADT: Vai ser uma nova realidade para ti?
AS: Já estou habituado a estar longe da família, e também não é muito longe da minha terra, fica a cerca de 100 km.
ADT: Qual é o teu principal sonho para o futuro?
AS: Quero fazer uma boa época para poder regressar ao Sporting.
ADT: O teu principal sonho é mesmo regressar ao Sporting?
AS: Neste momento é.
ADT: Tens contrato profissional com o Sporting?
AS: Tenho. Até 2012 com mais um de opção. É igual ao do Marco Matias.
ADT: Quando assinaste o contrato profissional?
AS: Foi este ano. Assinei ao mesmo tempo do Marco (Matias). Já tinha assinado contrato de formação quando era juvenil.
ADT: O Sporting falava contigo, elogiavam-te, encorajavam-te para o futuro?
A.S. - Penso que eles têm esperança em mim, querem ver o que eu posso dar, como vou evoluir, como tudo vai correr.
ADT: Alguma vez o mister Paulo Bento falou contigo, fez-te elogios ou deu-te algum incentivo?
AS: Não (risos). A direcção falou comigo, disseram-me que me iam emprestar, que era bom para mim, para rodar. Deram-me os exemplos do Miguel Veloso, do Bruno Pereirinha, do Yannick Djaló, do Daniel Carriço que também foram emprestados e depois voltaram em grande. E afirmaram que não era por eu estar emprestado numa equipa da II divisão que eu não voltava.
ADT: Achas que é positivo para os jogadores serem emprestados durante o seu primeiro ano de sénior?
AS: Sim. É positivo se tivermos a oportunidade e conseguirmos jogar com regularidade. É bom porque assim é possível evoluir, agora, se não jogarmos, penso que já não é assim tão positivo.
ADT: Já te sentias preparado para jogar num clube da I Liga?
AS: É complicado responder a isso, mas temos de nos sentir preparados para tudo. Nos juniores do Sporting o nível já é bastante exigente e temos de estar prontos para qualquer situação.
ADT: Se te dissessem para escolher a divisão em que querias jogar neste primeiro ano de sénior, qual seria?
AS: Se conseguisse jogar sempre, claro que escolhia a I Liga (risos). Mas penso que o importante é mesmo jogar, e se for numa II Liga ou numa II Divisão já é bastante positivo.
ADT: Gostarias de eventualmente ir jogar para o estrangeiro?
AS: Gostaria de um dia ir para fora de Portugal mas primeiro quero afirmar-me no meu país, mostrar o meu valor e se possível chegar ao plantel principal do Sporting.

Época 2007/2008 - Começou mal mas acabou da melhor forma
ADT: Faz-nos um balanço desta época?
AS: Não começou muito bem. Perdemos logo um jogo e empatámos outro nas 3 jornadas iniciais. Um contra o Real Massamá, o outro contra o Estrela da Amadora. Também faltou alguma sorte, porque em ambos os jogos podíamos claramente ter ganho, apesar de não termos jogado muito bem. O nosso objectivo foi sempre chegar ao primeiro lugar, e na altura olhávamos para a classificação e estávamos em quinto e em sexto, e mesmo nas jornadas seguintes começámos a ganhar mas não havia maneira de a gente sair dessas posições (risos). Mas com o passar do tempo fomos subindo e recuperando na classificação e conseguimos chegar ao primeiro lugar. Após este início tremido só perdemos mais um jogo, que foi à décima jornada no Seixal, com o Benfica por 4-2 e empatámos outro com o Marítimo.
ADT: O Sporting foi um justo campeão?
AS: Sim, se formos ver fomos a única equipa que não perdeu na fase final. Não perdemos um jogo desde a primeira semana de Novembro.
ADT: Qual é o jogo que guardas com mais carinho nesta época?
AS: O último porque nos sagrámos campeões (risos). Guardo muitos, houve partidas que me marcaram muito.
ADT: O que pensas das equipas que estavam na fase final?
AS: O Leixões conseguiu surpreender toda a gente. E surpreendeu-nos também a nós no jogo em Alvalade. Podíamos sagrar-nos campeões nessa tarde, mas eles vieram jogar de forma muito defensiva, coisa que nunca fizeram, pois nos outros jogos eles foram sempre uma equipa muito ofensiva. Em Alvalade colocaram cinco defesas, depois tiveram a sorte de ir lá uma vez e conseguiram marcar e após esse golo recuaram ainda mais no terreno, o que nos causou ainda mais dificuldades.
ADT: Achas que jogar no Estádio de Alvalade com milhares de pessoas nas bancadas, dá maior pressão ou pelo contrário, é mais motivante?
AS: No inicio foi complicado, pois era como que um campo novo para nós. Estávamos habituados a jogar na Academia, sempre foi o nosso terreno e nos primeiros jogos a adaptação a Alvalade foi complicada. Mas depois havia a outra face da moeda, aqui em Lisboa tínhamos mais adeptos, o que é bom, porque motiva e queremos sempre dar o nosso melhor aos sócios para ficarem com a imagem de que o Sporting tem uma grande equipa de juniores.
ADT: Qual foi a sensação de entrar no Estádio de Alvalade com 10.000 pessoas nas bancadas e tu a envergares a braçadeira de capitão?
AS: É muito bom, jogar em Alvalade é sempre muito bom e ser capitão do Sporting também.
ADT: Fizeste grande parte da época com a braçadeira de capitão no braço, é uma grande responsabilidade?
AS: Não, foi fácil, porque o grupo era muito bom, sempre fomos muito amigos e nunca existiram problemas.
ADT: Sentias que eras um jogador mais maduro por teres essa responsabilidade?
AS: Não, sentia-me igual aos outros jogadores.
ADT: Já tinhas sido capitão noutro escalão?
AS: Também fui capitão nos infantis, nessa altura o mister optava por rodar a braçadeira por todos os jogadores.
ADT: Em Alcochete os adeptos estão mais habituados à equipa, em Alvalade não acompanham tanto a formação e por isso são mais exigentes e menos compreensivos. É um ambiente menos familiar?
AS: Não é menos familiar, porque em Alvalade tínhamos mais apoio, na Academia há muitas pessoas mas não fazem tanto barulho. Aqui tínhamos as claques, as pessoas batiam palmas, o ruído era muito maior, o que é óptimo para quem está a jogar.
ADT: Mas também és da opinião de que em Alvalade houve muito mais criticas e menos compreensão por parte de adeptos que estão menos identificados e menos familiarizados com vocês?
AS: É normal, porque em Alvalade as pessoas não acompanharam muito a nossa época, viram poucos jogos e só falavam pela fase final em que até nem estivemos tão bem como na primeira fase. Ao longo do campeonato fizemos grandes jogos, mas nem todos tiveram a oportunidade de nos ver e daí algumas criticas.
ADT: Parecias estar mais desgastado nesta fase final, o que aconteceu?
AS: Tive um problema respiratório que afectou o meu rendimento, estava a ficar com asma e isso condicionou-me.
ADT: Não realizaste exibições tão boas como na fase regular?
AS: Não, é verdade que tive uma quebra de rendimento. Também devido à sobrecarga de jogos, realizei muitas partidas tanto na selecção como no Sporting, Por exemplo, na fase final tivemos quatro jogos em dez dias e isso contribuiu para um maior desgaste físico.
ADT: É inevitável fazer-te esta pergunta. Qual é a tua opinião sobre o facto de haver tantos estrangeiros no futebol de formação em Portugal?
AS: Na minha opinião tem de haver um controlo, não podem existir muitos estrangeiros, acho que pode haver um ou outro para colmatar alguma falha no plantel. Mas se existirem muitos estrangeiros acho que é prejudicial para o futebol português e até para a selecção. Uma equipa de juniores se tiver muitos estrangeiros como pode essa equipa levar muitos jogadores à selecção? E depois, penso que um jogador que está num clube há seis, sete anos e depois é dispensado por causa de um estrangeiro, é também muito mau para o moral e não devia acontecer.
ADT: O Benfica renovou contrato recentemente com o Miguel Rosa e com o André Carvalhas, achas que é positivo para o futebol português que outros clubes, que não o Sporting, comecem também a apostar nos seus jovens?
AS: É muito bom para o futebol português. Deve-se apostar nos jovens em vez de se ir ao estrangeiro buscar outros jogadores.
Curiosidades e Opiniões
ADT: É normal os jogadores mais jovens admirarem outros jogadores da formação mas que já são mais velhos. Lembro-me que o Diogo Rosado olhava para ti com alguma admiração apesar de seres apenas um ano mais velho do que ele. Tu tinhas assim algum jogador no Sporting que admirasses particularmente quando eras mais novo?
AS: Sim, quando era juvenil gostava muito do João Moutinho. Ele nessa altura já era júnior. Lembro-me uma vez dele marcar um golo contra o Benfica na Academia, isolou-se e picou a bola sobre o guarda-redes. Foi um bonito golo. Admirava também o Carlos Saleiro, o Silvestre Varela, o Bruno Filipe. E quando ficava aos fins-de-semana na Academia e via jogos da equipa B gostava particularmente do Paulo Sérgio e do Edgar Marcelino.
ADT: Já tiveste alguma lesão grave?
AS: Muito grave não, tive apenas uma rotura.
ADT: E demoraste quanto tempo a debelar a lesão?
AS: Aconteceu no primeiro ano de juvenis, e demorei um mês e meio a recuperar. Fui de férias em Dezembro, e depois recuperei em casa.
ADT: Onde foi a lesão?
AS: Foi na coxa da perna direita.
ADT: Para além do futebol o que fazes? Ainda estudas?
AS: Estou ainda a estudar, não sou mau aluno (risos), sempre passei de ano, só no 12º é que foi mais complicado. O ano passado, no primeiro ano de júnior tinha treinos de manha e só consegui fazer algumas disciplinas. Este ano completei as outras que faltavam, mas não acabei Matemática. Foi um ano cansativo, tive também a selecção o que me obrigou a sair mais e o tempo para estudar foi pouco.
ADT: Mas tencionas acabar o 12º ano ou vais abdicar da escola?
AS: Quero acabar Matemática, para poder terminar o 12º.
ADT: E depois queres ir para a Universidade para um curso relacionado com Desporto?
AS: Não, aliás nem posso porque não estou nessa área. Optei por ir para Economia, quando fui para o 10º ano, os responsáveis do Sporting alertaram-me para o facto de não poder escolher a variante de Desporto porque iria ter uma sobrecarga física muito grande. Ninguém que está na Academia está em Desporto, por essa razão.
ADT: Para estares sempre ao melhor nível já tiveste que fazer alguns sacrifícios na vida?
AS: Sim, nos Infantis ia de táxi para os treinos, e depois chegava sempre tarde a casa e no outro dia tinha de me levantar cedo para ir para as aulas. Era muito cansativo. Foi também complicado quando tive de sair de casa muito cedo com treze anos para ir para a Academia, porque fiquei longe da minha família. Esses foram os momentos mais complicados. Mas são sacrifícios que valem a pena porque depois somos recompensados de outra forma.
ADT: Fala-nos um pouco da tua geração de 89.
AS: Tínhamos uma boa equipa, todos os sectores tinham muita qualidade com jogadores com muito valor. Foi uma pena não termos conseguido o apuramento para o Campeonato da Europa pois tenho a certeza que íamos fazer uma óptima campanha. Temos bons jogadores, que estão habituados ao futebol profissional e a um nível mais exigente, como são os casos do Rabiola, do Adrien, do Stélvio, do Romeu Ribeiro, do Rúben Lima ou do Miguel Vítor. Tornava-se mais fácil para nós, fizemos grandes jogos, o que correu mal foi mesmo o último jogo.
ADT: Qual foi o teu melhor golo até hoje?
AS: Tenho vários. Esta época contra o Estoril tanto fora como em casa, marquei golos bonitos. No jogo na Academia parti da minha área, fintei vários opositores e marquei golo com um pontapé de meia distância. Também gostei de um que apontei em Odivelas, o Vivaldo marcou o primeiro e eu fiz o segundo, a bola parecia que ia para fora e depois entrou. Depois no jogo frente ao Lusitânia estávamos a perder, o Marco (Matias) empatou e eu consegui marcar o golo da vitória. Uma jogada curiosa, pois nasceu de um canto contra nós, eu acompanhei o contra ataque e marquei. O golo contra o Atlético também foi especial pois foi o único de pé esquerdo. Felizmente esta época apontei vários golos, é difícil eleger o melhor.
ADT: Qual foi o adversário mais difícil que já defrontaste?
AS: Talvez o André Carvalhas, é muito bom jogador, e utiliza muito bem os dois pés, e isso torna difícil a missão de quem o está a marcar porque é imprevisível. Nunca sabemos para onde vai levar a bola, com que pé vai cruzar ou rematar.
ADT: A tua família foi importante para ti ao longo da tua carreira?
AS: Foi, acompanharam sempre a minha evolução, estiveram sempre presentes.
ADT: Que conselhos te davam?
AS: Sempre me incentivaram para nunca abandonar a escola, para nunca faltar. E nos jogos quando não jogava e estava mais em baixo, apoiavam-me e diziam-me para treinar sempre bem, para me esforçar e para não desanimar porque viria a ser recompensado mais tarde.
ADT: Há alguma decisão de que te arrependas de ter tomado até hoje?
AS: Não, acho que não. Estou feliz por todos estes anos no Sporting, não me arrependo de nada.
ADT: Quais as regras de ouro que te guiaram até hoje na tua carreira e que gostarias de transmitir aos mais novos?
AS: Que não desanimem, muitos jogadores pensam em desistir ou porque não jogam ou porque estão longe da família. Por vezes isso acontece a jovens que estão na Academia. Mas eu considero que temos de pensar que se estamos ali é porque temos valor e tudo vale a pena porque poderá ser bom para o nosso futuro. Acreditem no valor que têm, trabalhem ao máximo, tanto nos treinos como nos jogos, porque o esforço compensa.
ADT: Quais são os teus principais ídolos no futebol?
AS: Káká, Steven Gerrard e Frank Lampard.
ADT: E quando estavas a despertar para o futebol quais eram os jogadores que gostavas de ver?
AS: Apreciava o Ronaldo, o Ronaldinho também já estava a despontar naquela altura e o Figo.
ADT: Acompanhaste o Euro, quais é que foram as principais desilusões e revelações para ti?
AS: A maior desilusão foi Portugal, apesar de não terem tido muita sorte. Cada vez que os alemães iam com perigo à nossa área marcavam. Foi isso que aconteceu connosco (Sub-19) na Hungria, no jogo que falhámos a qualificação para o Campeonato da Europa. Nós dominámos o jogo, criámos muitas situações de golo e eles na única ocasião que foram à nossa baliza marcaram um golo.
ADT: E quais foram os jogadores que mais gostaste no Europeu?
AS: Gostei do Fernando Torres principalmente na final. Gostei do David Villa. Fiquei impressionado com o Arshavin pelos jogos que fez, e também com o Iker Casillas, o Lahm e o Sneijder.
ADT: Qual é o campeonato que te enche as medidas, onde mais gostavas de jogar?
AS: Há sempre campeonatos onde gostaríamos de jogar, porque há grandes clubes em vários países, em Itália, Espanha e Inglaterra.
ADT: Há algum clube que te fascine particularmente?
AS: Actualmente o clube que mais me fascina são os seniores do Sporting.
ADT: Quantos títulos conquistaste em todos estes anos de Sporting?
A.S.: Foram todos...
ADT: Podias ser mais especifico?
A.S.: Fui campeão pelos Infantis B, Infantis A, Iniciados B, Iniciados A, Juvenis B, Juvenis A e uma vez pelos Juniores, portanto, 7 títulos em 8 épocas.
ADT: Se te pedissem para levar um jogador da tua equipa deste ano para o Fátima, quem levarias?
AS: Levava a equipa toda (risos).
B.I.
Nome: André Filipe Bernardes Santos.
Idade: 19 (02/03/1989).
Peso: 70 kg.
Altura: 1,76.
Posição no terreno: Médio Centro.
Pé Dominante: Direito.
Entrevista realizada no dia 3 de Julho de 2008 no Campo nº3 do Estádio Universitário de Lisboa.
Texto: Miguel Belo.
Imagens: Academia de Talentos.
Dia 07.07.2008, às 04:15, Fonz disse...
O André tem bastantes qualidades. O futuro dirá se pode chegar ao plantel do SCP mas esta experiência no CD Fátima permitir-lhe-á desenvolver a sua cultura técnica e tactica.
A melhor sorte para o capitão dos nossos juniores!
Tem que estar logado para poder comentar.
Caso ainda não tenha uma conta registe-se!