Entrevista
Entrevista com Borja Tomas
Borja Tomas é um jogador espanhol que, para muitos, ainda será maioritariamente desconhecido. Mas se dissermos que este jovem avançado marcou nada menos do que cinco golos à selecção portuguesa, num recente derby ibérico em sub-16, encontramos uma razão mais que suficiente para dar a conhecer mais este promissor nome do futebol internacional. Aqui fica a entrevista com o jovem "craque" do Atlético de Madrid.
Inícios
Academia de Talentos: Conta-nos onde e quando começaste a tua carreira?
Borja Tomas: Comecei aos doze ou treze anos, no Atlético de Madrid. Sempre fui do Atlético, toda a vida. Ingressei neste clube há quatro anos e meio, e fui subindo de categoria. Comecei como guarda-redes, por causa do meu pai, mas agora sou avançado.
ADT: Houve um adepto/leitor português que escreveu para o nosso jornal e disse "tomem atenção ao Borja Tomas, porque é bom jogador". Que pensas disso?
BT: É sempre bonito que as pessoas me prestem atenção, que reparem em mim. É positivo.
Selecções
ADT: Que idade tinhas quando te chamaram pela primeira vez à Selecção?
BT: Foi em idade sub-16 que me convocaram pela primeira vez. Chamaram-me para fazer o jogo contra Portugal, e estreei-me.
ADT: Nesse jogo marcaste cinco golos. Que se passou? Foi uma noite inspirada?
BT: Foi o dia mais bonito que tive na minha vida. Marcar aqueles cinco golos a Portugal foi o mais bonito de tudo o que já me aconteceu como jogador.
ADT: Em que competições participaste pela Selecção espanhola?
BT: Nos sub-16, que foi onde participei, não há Mundial, nem nada...é apenas formação para o ano seguinte. Este ano, nos sub-17, já há Mundial e Europeu. Este ano é importante. O ano passado foi de formação, de construir uma equipa, testar jogadores...
Auto-avaliação
ADT: És avançado. Jogas apenas na frente de ataque, ou também nas alas?
BT: Não, jogo só na frente.
ADT: Como "número nove", então, correcto?
BT: Sim, como "nove".
ADT: Quais consideras serem os pontos fortes do teu jogo?
BT: Isso, deixo que sejam as pessoas a dizer. Prefiro que as pessoas me descrevam como jogador do que fazê-lo eu.
ADT: Consideras, por exemplo, ser bom de cabeça...? Pergunto isto visto que és bastante alto...
BT: Bem, depende...quando era pequeno custava-me um pouco mais, mas agora estou a melhorar.
ADT: O que é que gostas mais de fazer no terreno de jogo? Desmarcar-te...?
BT: Marcar golos! (risos) Mas se não os marco, também não me incomoda muito...
Atlético: uma cantera para o futuro
ADT: Quais consideras serem as principais diferenças entre o futebol português e o espanhol?
BT: Não existem assim tantas diferenças. São equipas grandes, o futebol é muito forte, com muita pressão...a única coisa que notei é que a arbitragem é um pouco favorável às equipas portuguesas! (risos).
ADT: Como é o campeonato de Juvenis em Espanha?
BT: Bem, não sei, porque vim dos Iniciados. Este é o meu primeiro ano de Juvenil. Mas disseram-me que é muito difícil, que se baseia muito na força...Será algo novo para mim, por isso vamos ver como corre.
ADT: Estive a falar com um rapaz que joga no Valência, o Mário Rui, e ele disse-me que em Espanha os campeonatos da formação são muito equilibrados. Ou seja, que apesar de, por exemplo, o Barcelona ter o Bojan, ou outro qualquer, é ainda assim muito equilibrado...
BT: Sim, é verdade. Em Espanha existe o Barcelona, o Espanyol, o Real Madrid, o Atlético...todos com canteras muito boas. Quando se jogam os campeonatos, ficam sempre entre os primeiros.
ADT: Mas, por exemplo, o facto de o Barça ter jogadores mais caros não faz com que sejam mais fortes?
BT: Não...o que se passa com os jogadores do Barça é que são muito bem cuidados. Mas eu não me queixo do plantel do Atlético, e sei que somos uma das melhores equipas, ou mesmo a melhor, do nosso campeonato.
ADT: Conheces o Saddick Adams? É um jogador que está na equipa júnior e do qual se fala muito...
BT: Ainda não tive oportunidade de o ver a jogar. Chegou este ano.
ADT: O Atlético tem uma equipa forte para o futuro?
BT: Sim, temos uma cantera muito boa. Neste momento estão a apostar nos jovens, e vejo a equipa muito bem preparada.
ADT: Como são as condições no Atlético de Madrid? Têm alguma Academia ou Centro de Estágio?
BT: Sim, temos uma residência. Quanto às condições de treino, são bastante boas. Temos uma SAD bastante boa, também.
ADT: Neste momento, há também muitos portugueses no plantel principal do Atlético de Madrid, como o Simão. Gostas dele?
BT: Sim, gosto muito do Simão, e do Maniche também. É um bom jogador. Teve algumas discussões com o clube, mas é um bom jogador.
ADT: No Atlético, os jovens costumam falar com a primeira equipa?
BT: Não, não costumamos falar muito com eles. Os horários também não ajudam, porque por exemplo, ao Sábado entramos à tarde, e eles entram de manhã. Não há contacto, não porque eles não queiram falar connosco, mas porque não conseguimos.
Os jovens e a primeira equipa
ADT: Achas que, não só em Espanha como também no resto do Mundo, há espaço para os jovens nas grandes equipas?
BT: Creio que sim. É certo que é muito difícil conseguir estrear-se na equipa principal do clube onde sempre se esteve, porque preferem contratar gente de fora. Mas já tive colegas que se estrearam pela primeira equipa, e espero que me toque a oportunidade a mim também.
ADT: Não sei se é assim em Espanha, mas em Portugal, quando um jovem chega a sénior, enviam-no para um clube mais pequeno, para rodar. Se isso te vier a acontecer, ficas aborrecido?
BT: Em Espanha, o que fazemos é ir subindo de categoria, e tentar chegar ao objectivo máximo - a primeira equipa. Todos queremos chegar à primeira equipa, o que por sinal é muito difícil.
ADT: Mas existem, em Espanha, empréstimos a clubes mais pequenos?
BT: Sim, há empréstimos. Enviam-nos para um sítio mais pequeno e depois, com o tempo, logo nos contratam.
ADT: E se acontecesse contigo, ficavas "zangado" com o Atlético?
BT: (pensativo) Depende...Porque, se eu não tenho lugar no Atlético de Madrid, então terei que jogar em outro sítio. Mas o meu sonho, desde pequeno, é representar o Atlético.
ADT: Referiste que os clubes estão sempre mais interessados em contratar jogadores estrangeiros. Achas que esses jogadores estão a tirar o lugar aos jovens espanhóis, ou portugueses...?
BT: (hesita) Bom...no futebol, dão sempre mais atenção a ir buscar jogadores ao exterior. Mas neste momento...não sei se em Portugal também é assim, mas em Espanha, com o Mundial de sub-17, estão a aparecer mais jovens a jogar, como o Camacho, e muitos outros jogadores. Acho que, neste momento, se o jogador conseguir despontar, consegue subir à primeira equipa.
ADT: Que pensas do Bojan? É um "sobredotado"?
BT: Concerteza que é um exemplo, um rapaz do Barcelona que actua na primeira equipa de momento, apesar de ainda ser jovem. É um exemplo para toda a gente.
ADT: Tens algum jogador do teu ano (1992) de que gostes, ou que aches que poderá vir a ser grande?
BT: Não sei dizer um em especial. Tenho vários que me agradam, inclusivamente tenho bastantes amigos que sei que jogam bem, como por exemplo o Muniesa do Barcelona.
ADT: E do Atlético?
BT: Do Atlético temos o Cedric, que não está aqui [NDR: na Guarda], mas que é bom jogador. Temos também o Asensio...temos uma cantera muito boa!
ADT: Quem é a equipa com os melhores jovens em Espanha?
BT: (de imediato) Para mim é o Atlético de Madrid.

Aproveitar as oportunidades
ADT: Achas que situações como a do Alexandre Pato ou Cesc Fabregas - jogadores que, aos 16 anos, já estavam na equipa principal - são raridades, ou achas que situações dessas ocorrem frequentemente?
BT: Se um jogador é muito bom, e tem essa oportunidade, há que aproveitá-la. Se ainda para mais estiver numa equipa grande, tanto melhor!
ADT: Mas é frequente isso acontecer...?
BT: Não, não...são muito poucos casos. Se repararmos, há milhares e milhares de pessoas, de jogadores, e apenas uns poucos nessa situação. Eles têm a sorte de chegar mais longe, que é o melhor que pode acontecer a um jogador.
ADT: Imagina que a conjuntura do Atlético de Madrid, a nível de lesões, por exemplo, faz com que te chamem à equipa principal, e que te lancem por um ou dois minutos no fim de um jogo. Achas que o público vai reparar em ti, mesmo só durante esse tempo?
BT: Eu tentaria dar tudo por tudo, deixar a pele em campo, e ainda que fosse apenas um minuto, dar a minha vida. Tentaria também trabalhar para tentar repetir. O meu sonho é chegar a esse patamar. Estou há quatro anos a trabalhar para isso, e se me derem um minuto, desfrutarei dele como nunca.
ADT: Há muitos jogadores que fazem, por exemplo, dois jogos, e depois voltam às camadas jovens. Achas que esses jogadores já deixaram o seu nome "gravado" na cabeça das pessoas?
BT: Sim. Mas eu, pelo menos, baseio o meu trabalho não só em chegar, mas também em manter-me nesse nível. O importante não é chegar logo lá, e fazer dois jogos, e pensar "já está, sou o melhor". Nada disso! O importante é conseguir manter-se, trabalhar para se mostrar ao treinador e conseguir a sua confiança.
"Preparar a época"
ADT: Como te correu este torneio [NDR: Torneio de Juniores da Guarda]? Marcaste algum golo?
BT: Infelizmente, não. Mas o importante é ir somando minutos, para depois poder jogar a temporada. O importante é jogar a temporada.
ADT: Porque achas que no último jogo [NDR: contra o Benfica] não jogaste de início?
BT: Bem, no primeiro jogo só não joguei os últimos cinco minutos. O segundo, joguei-o todo. Agora, foram os meus colegas que jogaram. Há que ir rodando. Além disso não depende de mim, mas sim do ‘mister'. Há que dar a vez a todos. Além disso, sou de primeiro ano. Há bastantes jogadores, e há que fazer os possíveis para que todos joguem.
Ídolos e preferências
ADT: Qual o jogador que mais te agrada na tua posição?
BT: Para mim, é o Fernando Torres.
ADT: E tentas jogar como ele...?
BT: Sim, inspiro-me nele.
ADT: Quem é que achas que é o melhor do Mundo? Porque é um assunto muito debatido...
BT: Para mim, é o Messi.
ADT: Jogando em 4-3-3, quem é o "trio de ataque" perfeito?
BT: Eu jogaria com Messi, Cristiano Ronaldo e Torres.
ADT: E o Ronaldinho, não?
BT: O Ronaldinho já não. Também gosto muito dele, mas penso que está num momento da sua carreira em que tem que voltar a ser o jogador que era antes.
Falhar consigo mesmo
ADT: Há certos jogadores muito bons tecnicamente, mas cuja mentalidade é muito pobre. Achas que isso é negativo?
BT: Sim, acho extremamente negativo, porque o mais importante é a cabeça!
ADT: Recentemente estive a falar com um jogador que me disse que, quando vai para o banco, tem uma "quebra" de confiança...
BT: (interrompendo) Então não é bom jogador! Porque um bom jogador tem que ser completo em tudo. Tem que ser bom tecnicamente, tacticamente, e ter boa cabeça, porque se não souber ver as coisas, prejudica-se. Fica para trás, e não progride.
ADT: Então crês que a mentalidade correcta, uma atitude mental positiva é vital num jogador?
BT: Sim, porque senão falham consigo mesmos. Eu posso falhar um golo, e é mau. Mas pior seria falhar-me a mim mesmo, não fazendo nada para tentar melhorar.
ADT: Então, para ti, o que é mais importante: ter técnica, ter cabeça, ou ser fisicamente forte?
BT: O ideal é tentar compartilhar todas essas características. Tentar ter cabeça, tentar ser forte...bem, a força é mais importante para um central, por exemplo, do que para um avançado. A força é uma virtude, se a tivermos, mas não é imprescindível. Porque o Messi, por exemplo, não é forte, e vejam como joga! Mas no fundo, há que equilibrar todos esses elementos.
Estudos vs Futebol
ADT: Em Portugal há muitos clubes que, na sua formação, dão grande importância à escola. Em Espanha também é assim?
BT: Sim. Neste momento, em Espanha, estão a sair mais jogadores jovens que nunca, e isso é muito importante, para que possam subir. [NDR: O jogador não entendeu, de início, o âmbito da pergunta, daí o desfasamento da resposta].
ADT: Mas por exemplo, esses clubes, quando um jogador vai mal na escola, mandam-no embora...
BT: Se ele não está à altura, se não cumpre com as expectativas do clube, há que rescindir.
ADT: O tal jogador com quem falei anteriormente disse-me que, no seu anterior clube, eles punham a escola em primeiro lugar e o futebol em segundo, e que isso era mau. Concordas com ele?
BT: Acho que os estudos são muito importantes, mas mais importante é conseguir um equilíbrio entre os estudos e o futebol. É importante estudar, porque sem estudos, não sou nada. Mas se quero ser futebolista, tenho que lutar para isso. No entanto, há que ter sempre os estudos em conta, porque podemos ter uma lesão grave, e depois ficamos sem nada. É preciso ter estudos, é importante.
ADT: Que gostarias de fazer se o futebol não resultar?
BT: Caso não seja futebolista, gostaria de ser preparador físico, ou treinador...algo assim.
ADT: Para terminar, queres deixar alguma mensagem aos jovens de outros escalões?
BT: Que continuem a trabalhar, para conseguirem algo. O futebol é algo muito bonito, e vale a pena lutar!
B.I. do Jogador:
Nome: Borja González Tomas.
Data de Nascimento: 25/08/1992 (16 anos).
Altura: 1,85m.
Peso: 79kg.
Posição: Ponta-de-lança.
Clube: Club Atlético de Madrid.
Entrevista realizada no dia 24 de Agosto de 2008, no Hotel Turismo, na Guarda.
Texto: Pedro Benoliel.
Imagens: Academia de Talentos.
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