Entrevista
Entrevista com Diogo Matos (Parte 1)
As Escolas Academia Sporting, também conhecidas por Escolas de Talentos, têm vindo a ganhar cada vez mais relevância no panorama desportivo para crianças e jovens. Assim, afigurava-se oportuno interpelar o principal responsável pelo projecto, Diogo Matos, para que este nos fizesse um balanço da actividade destas Escolas na actualidade.
Génese
Academia de Talentos: Onde se dá a génese deste projecto?
Diogo Matos: A génese deste projecto está na Academia Sporting em si. Quando pensámos este projecto, a Academia já tinha cinco anos de funcionamento, e tínhamos testado todas as técnicas que achávamos correctas para o projecto Sporting. Obtivemos resultados, tivemos certeza do caminho que queríamos seguir, e estavam reunidas todas as condições para irmos mais além e sairmos um pouco das portas físicas da Academia, levando o espírito da Academia para um nível nacional.
ADT: Em que ano se deu essa expansão?
DM: Foi há dois anos, em 2006. Começou em 2006.
ADT: Como se deu a sua passagem a coordenador do projecto?
DM: Uma das funções que eu tenho aqui na SAD é dinamizar novos projectos, novas ideias que sejam possíveis de compatibilizar com a actividade desportiva , que dêem receita, e que levem o nome e a ‘marca' do Sporting mais além. Naturalmente, este projecto começou comigo, porque começou a ser desenvolvido nessa área dos novos projectos.
ADT: Existem rumores de que esta ideia já estava em concepção desde 2002, mas só foi realizada em 2006. Correspondem à verdade?
DM: É normal que o Sporting tenha tido sempre ideia de fazer uma Escola Academia Sporting. Não sei se isto existe desde 2002 ou desde 2000, mas deve existir há muitos anos! É normal, desde que começaram a aparecer escolas de futebol. Porque é que os clubes grandes não teriam escolas de futebol? Este modelo, entre nós, demorou também algum tempo a solidificar. Houve vários contributos que foram sendo dados, mas eu acho que cresceu sobretudo das necessidades que foram aparecendo internamente. Foi assim que nós conseguimos ‘moldar' o modelo, e fazê-lo útil, não só na parte da expansão, mas também para aquilo que é o nosso recrutamento e o nosso futebol jovem de competição.
ADT: Quais as razões da escolha de João Moutinho como ‘cara' deste projecto?
DM: O João Moutinho é, neste momento, a cara do projecto. Obviamente que estas coisas têm que se actualizar, já tem dois anos e este ano vamos actualizar, mas neste momento o João Moutinho é a imagem do projecto. É um jogador da formação, como outros que temos, e na altura, há dois anos atrás, tinha acabado de vir da formação, portanto era uma imagem facilmente identificável pelos participantes.
"Objectivos nobres"
ADT: Quais são os principais objectivos deste projecto?
DM: Este projecto tem quatro objectivos. O primeiro é fomentar a formação desportiva. Neste momento temos perto de 4000 jovens a treinar segundo o modelo desportivo do Sporting, proporcionando a esses 4000 jovens um modelo de treino adequado à sua idade, à sua qualidade, e desenvolvido perto de casa. O segundo tem a ver com detecção e recrutamento de talentos. É uma realidade, também. Já recrutámos perto de 23 jogadores do projecto Escolas Academia Sporting para as nossas equipas de competição. O terceiro tem a ver com expansão e fidelização do Sporting. Também fomentamos a inscrição como associado do Sporting Clube de Portugal aos nossos participantes, que tem desconto na inscrição. Tem sido uma realidade, também, e a presença junto da massa adepta é mais real. Temos uma escola, este ano, em Viana do Castelo, a quase 400 quilómetros de distância da nossa sede, e queremos que seja uma âncora da representatividade do Sporting naquela zona do país. È importante, porque as pessoas sentem que o Sporting está perto. E é verdade - nós vamos lá, eles vêm cá, existe essa inter-comunicação. E o quarto objectivo, para nós menos importante, é o projecto ser auto-suficiente. Felizmente, é. Portanto, cumprimos todos os nobres objectivos do projecto, e este ainda é auto-suficiente, temos alguma receita para reinvestir na qualidade do projecto, que é só o que nos interessa. Os quatro objectivos são estes, e neste momento, posso dizer que estão plenamente atingidos.
ADT: Os 23 jovens que referiu já estão inseridos nas equipas, ou estão ainda à experiência?
DM: Não, já treinam normalmente, com os jogadores das nossas equipas de competição.
ADT: A que escalões pertencem?
DM: Estão inseridos no intervalo entre os oito e os doze anos.
ADT: Então, é possível a um jovem das EAS vir ao Sporting fazer testes?
DM: Sim, acontece de uma forma muito regular.
Um negócio como outro qualquer
ADT: Em relação aos parceiros económicos das EAS, quais os critérios para haver, ou não, parceria?
DM: O principal critério que temos e o qual fomentamos é o da parceria com pessoas individuais. Uma pessoa que tenha carácter dinâmico, esteja dentro da área desportiva e seja empreendedor. Porque o que eles vão gerir, mais do que uma escola de futebol, é um negócio como outro qualquer. Só que, depois, tem de se ter uma área técnica relacionada com o futebol. E, aí, é dado todo o apoio da nossa parte. Aliás, na área de gestão também. Mas o nosso know-how na parte técnica complementa o conhecimento que esperamos que os nossos parceiros tenham na área da gestão de uma empresa. Se isto acontecer, estão reunidas as condições para que o projecto tenha pouco risco de falhar.
ADT: Quais são os benefícios de que usufruem os parceiros económicos de uma EAS?
DM: Recebem know-how técnico ligado à área da formação dos 4 aos 15 anos de idade, formações técnicas regulares, certificação dos treinadores, um computador, uma impressora, software...tudo o que é necessário para começar um pequeno negócio. Recebem também, da nossa parte, autorização para utilizar o nosso nome e materiais de imagem e comunicação, para angariação de novos praticantes, e um acompanhamento regular em matéria de gestão e de formação.
ADT: Quais os benefícios de ter ex-jogadores como José Américo Taira e Carlos Xavier associados às escolas?
DM: Acho que há alguns benefícios. Sobretudo a nível de imagem, visto que as pessoas reconhecem neles um background, a nível futebolístico, suficiente para terem uma escola de futebol. Quando se fala de pais colocarem os filhos à disposição de um treinador, isso também conta, haver uma relação de confiança. E são também pessoas que estão na área das escolas de futebol há muitos anos, e têm grandes conhecimentos. São pessoas que nos podem ajudar a fazer com que o projecto cresça. Por isso, somos sensíveis a esses casos.
ADT: Acha que esta transmissão de know-how técnico por parte do Sporting pode levar a uma situação perigosa, em que terceiros se tentem "apoderar" da metodologia de treino do clube?
DM: É uma ameaça real, com que convivemos todos os dias. O Sporting é reconhecido por ter algum protagonismo e algum avanço na área da formação de futebol em Portugal. Eu confesso que sentimos muitas vezes que os nossos passos são imitados, são copiados. Isto é uma realidade que vai acontecer, porque de facto estamos um bocadinho à frente. E este é o nosso objectivo. Nós temos é que nos manter sempre um bocadinho à frente a nível de organização. Sabemos que os bons exemplos são copiados, e enquanto nos copiarem, quer dizer que os bons exemplos existem. Nós tentamos combater um bocadinho, pelo menos atrasar! Não é dar as coisas de mão-beijada e deixar tudo à vista. Tentamos combater um bocadinho isso. Mas é uma realidade à qual não podemos fugir, e que acontece.
ADT: E já houve pessoas que se aproveitaram disto...
DM: Houve casos concretos, que não vou abordar, mas sabemos que há sempre alguns "furos" à "rede" que tentamos ter, e infelizmente pode acontecer. É um risco que temos que assumir, sendo que em vez de olharmos para como prevenir isto a cem por cento, e ficarmos muito fechados, temos que continuar a inovar. Continuar a crescer, a ir para a frente. Assim vamos manter a liderança.
Expansão nacional
ADT: Quantas escolas existem neste momento, e quantos alunos têm no total?
DM: Existem vinte escolas, com perto de 4000 alunos.
ADT: E o que está previsto para o próximo ano?
DM: Nós temos sempre algumas ideias em termos de crescimento. Mas o mais taxativo é que só abramos escolas que reúnam as condições que achemos apropriadas para terem sucesso. Por isso, este ano, estávamos a prever abrir dez, mas só abrimos seis ou sete. Se calhar vamos abrir mais durante o ano, é um processo contínuo. Recebemos muitos projectos, tivemos mais de cem interessados, mas só abrimos sete escolas, se não estou em erro. Continuamos com outras em curso, que podem dar ou não, podemos chegar a bom termo ou não. Mas só abrimos projectos que consideramos reunirem todas as condições. Não vamos "abrir por abrir", só abrimos mesmo projectos que achamos que vão ter sucesso.
ADT: As EAS já estão espalhadas de Norte a Sul do País, mas as Ilhas também são um alvo de mercado?
DM: Claro que as ilhas também são um alvo, sem dúvida nenhuma. Estamos em conversações com escolas nesse sentido.
ADT: E porque não abriu nenhuma até hoje? Ainda não tinha surgido nenhuma proposta viável?
DM: Sim. É como digo, enquanto não surgir um projecto que nos garanta, nós não avançamos! Mas podemos ajudar as pessoas que nos contactaram a crescer, e tentar montar nas Ilhas um projecto que faça todo o sentido.
Pessoal qualificado
ADT: Em relação ao staff de cada escola, quais são os critérios que presidem à sua eleição?
DM: Por contrato, nós temos uma participação grande no que toca à área técnica, que é a área que nos diz mais respeito, porque os treinadores das Escolas vão ser pessoas que vão dar treinos a jovens equipados "à Sporting". Isto, como deve imaginar, preocupa-nos, é preciso ter um grande controlo. Tudo o que tem a ver com recursos humanos da área técnica é supervisionado por nós, mas são sempre pessoas ligadas à empresa que tem ligação contratual com a escola.
ADT: Teve lugar, no passado mês de Setembro, a I Certificação de Treinadores das Escolas Academia Sporting. Qual a importância deste tipo de eventos?
DM: Um passo, para mim, muito importante para a sustentabilidade do projecto. Permitiu-nos uniformizar ainda mais a linguagem no modelo de treino das Escolas. Nós tínhamos feito formações, nos anos anteriores, muito direccionadas aos colaboradores técnicos, e este ano, com o aumento dos mesmos, fizemos uma Certificação de Treinadores Escolas Academia Sporting, onde eles têm que passar por uma disciplina, digamos assim. A formação teórica e prática faz com que haja um patamar para um treinador das EAS. Sabemos que, quem quiser obter esta certificação, só passa se estiver em condições de passar. Quem não for aprovado, tem que repetir o exame, e se não for aprovado na segunda tentativa, não pode ser um treinador das Escolas Academia Sporting. Isto é o que nós queremos dar às pessoas: uma garantia de que quem vai trabalhar com os seus filhos são pessoas certificadas e habilitadas para fazer o trabalho da melhor maneira.
ADT: Quais as características que acha que deve ter um bom treinador de formação?
DM: Eu, como secretário técnico, não sou a pessoa cem por cento indicada para responder a essa questão. O que posso dizer é que nós privilegiamos pessoas com formação pedagógica, que tenham uma boa comunicação com o jogador, e que consiga transmitir bem os objectivos do treino, sempre na óptica da formação social do indivíduo.
Competição inter-escolas.
ADT: Em relação à competição, existem Ligas inter-escolas?
DM: Existem muitas ligas inter-escolas. Existem vários encontros, vários torneios. Estamos, neste momento, a preparar uma liga de maior abrangência. Já somos vinte escolas, e estamos a tentar criar uma liga de maior abrangência a nível nacional. Esperamos, apenas, a inclusão de um patrocinador, um main sponsor.
ADT: Quantas Ligas existem, ao todo?
DM: São muitas, porque eles fazem, por vezes, consoante os escalões. Sub-7, sub-9, sub-11, sub-13...e depois fazem Inter-Escolas regionais...nós deixamos também que as escolas em si dinamizem um bocadinho, porque os jovens gostam de competir, e assim há muitas competições informais. Formal, tivemos o ano passado, e vamos ter este ano também, uma Liga nossa, das Academias, mas na qual damos pouca importância ao resultado. É só mesmo para promover a competição sã.
ADT: Quais os moldes dessa Liga? Existe uma tabela classificativa?
DM: Como digo, nós desvalorizamos a classificação. No ano passado, fizemos por jornadas: duas aqui na Academia, duas no Estádio Universitário, e a final no Estádio de Alvalade, que foi a jornada das finais. Este ano, ainda estamos a ver qual será o modelo, porque irá incluir o nome do main sponsor.
O futebol como veículo social
ADT: Pensa que o futebol pode ser um veículo social, ou de inserção?
DM: Não tenho dúvida nenhuma. Se juntarmos onze pessoas que não se conhecem para jogar numa equipa, no segundo seguinte já estão a dizer ‘passa!', ‘porque é que não passaste a bola!?', ‘olha, estou aqui!' ‘quando eu for aí, tu fechas o outro lado, ok?'...Portanto, estabelecem-se laços de comunicação. Não há dúvida nenhuma de que o futebol, e os outros desportos colectivos, são meios de interacção e integração social.
ADT: Nesse âmbito, qual a importância das Escolas nos meios onde se inserem?
DM: Posso destacar uma postura que temos: cada escola tem três vagas para crianças que não tenham capacidade para pagar a mensalidade. As escolas têm abertura para incluir três vagas cada uma para crianças desse género. Se multiplicarmos por vinte, são 60 vagas. Existem sessenta vagas para crianças que não estão ao nível das outras, que não podem pagar como as outras, mas que querem continuar a praticar desporto com qualidade.
ADT: E qual a importância dessas vagas?
DM: São muito importantes, porque apesar de nós sabermos que os projectos se pagam, e que os parceiros têm de ter dinheiro para pagar os custos que têm, conseguir ter 60 vagas para os casos mais carenciados é, para nós, muito importante. Vamos tentar crescer neste número, para tentar ao máximo não limitar a prática desportiva. Se bem que todas as pessoas têm muitas opções: onde se paga, onde não se paga, onde se paga mais ou onde se paga menos. Todas querem, obviamente, vir para um Sporting, para terem uma formação melhor e com mais qualidade. Isso tem o seu custo. Se nós conseguirmos abrir algumas vagas e, dentro da lógica do projecto e do negócio com os parceiros, conseguirmos que isso seja uma realidade, é uma grande vitória. Mas é uma situação que tem que se ir fazendo passo a passo. Neste momento, acho que estamos num bom patamar.
ADT: Qual o impacto dessas vagas no projecto, a nível financeiro?
DM: Tem algum. São 60 vagas pelas quais não recebemos nada, nem nós, nem as escolas. Para nós é óptimo, para as escolas é mais prejudicial. Isto é normal. As escolas, mesmo inseridas numa localidade, têm que ter um papel social dentro dessa localidade.
ADT: Qual pensa ser a importância do desporto no desenvolvimento das crianças e jovens?
DM: Eu sempre fui muito desportista, e tenho a minha ideia bem clara em relação a este tema. Acho que é fundamental qualquer jovem ter um desporto, colectivo ou não. Mas acho que o colectivo também tem grandes benefícios a nível da integração social. Mas acho que é fundamental, quer a nível de disciplina, quer a nível de método, quer a nível de atingir objectivos e ter interesse por uma prática desportiva. Acho que é fundamental na formação.
ADT: Nestas escolas, não pode haver uma grande vertente competitiva, pois muitos destes jovens não chegarão ao Sporting. No entanto, pode haver a vertente dos cuidados com a alimentação, horas de sono...Isto é, mesmo que não seja o futuro deles, podem ensinar estes miúdos a manterem-se fora de outras coisas, a não ficarem em casa a jogar computador...Podem dar aos miúdos não só a oportunidade de jogar futebol, como também uma certa estrutura na sua vida, uma vida mais saudável...Este projecto está direccionado para tentar disciplinar os jovens?
DM: Claramente. Este projecto está inserido numa lógica extra-curricular. É quase uma ocupação de tempos livres. Está dentro desse âmbito, e mesmo as escolas têm indicações, e fazem pontualmente, acções de formação sobre a higiene, a alimentação, o anti-sedentarismo...O futebol de rua obviamente que está condenado ao desaparecimento, porque nós jogávamos no meio da rua, e hoje em dia passam lá carros. Além disso, não há as condições que havia, a escola é até mais tarde, temos as PlayStation, temos a Internet...Há falta de espaço para isso, há carros por todo o sítio, os carros passam por tudo o que é sítio, e os miúdos não têm acesso ao futebol de rua. Isto é um futebol de rua mais organizado. O passo de crescimento que foi dado nestes últimos vinte anos foi neste sentido. Mas este é claramente um projecto para dinamizar a actividade dos mais novos.
Entrevista realizada no dia 1 de Outubro de 2008, na Academia Sporting/Puma em Alcochete.
Texto: Pedro Benoliel.
Imagem: Academia de Talentos.
Dia 24.10.2008, às 18:00, Fonz disse...
Aproveito esta entrevista para fazer um comentário em relação ao Diogo Matos. Trata-se de um elemento que deve ser uma referência para muita gente.
Teve uma carreira "curta" e pouco visível enquanto jogador, apesar das internacionalizações de esperanças - teve no Mundial de Qatar em 1995 - e a vitória no campeonato em 2001/2002 pelo Sporting.
No entanto, torna-se uma referência (assim como muitos outros) por ter continuado os seus estudos. Não tenho a certeza se já concluiu a Licenciatura, mas sei que estava a tirar um curso de Gestão numa prestigiada escola de ciências económicas de Portugal. A experiência futebolística e o percurso académico permitem-lhe conhecimentos e capacidades para liderar de forma competente este projecto levado a cabo pelo Sporting.
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