Entrevista
Entrevista com Evandro Brandão
Chama-se Evandro Brandão, é luso-angolano e, aos 17 anos, encontra-se a jogar num dos maiores clubes do mundo, o Manchester United. Emigrado aos dez anos para Inglaterra, Evandro é o protagonista de uma história muito semelhante à de Pedro Pauleta: um jogador que atingiu a ribalta do futebol mundial sem nunca ter dado um toque na bola numa equipa da I Liga portuguesa. A ADT foi entrevistar este jovem a quem o desporto corre no sangue.
A vida antes do futebol
Academia de Talentos: Há certos artigos que dizem que emigraste com 11 anos, outros com seis, e alguns dizem que foste directamente de Angola para Inglaterra. Afinal qual é a verdade?
Evandro Brandão: Eu nasci em Luanda, depois vim cá para Portugal com o meu pai, e depois é que fui para Inglaterra, com dez anos.
ADT: O teu pai e o teu tio eram jogadores. O futebol já te está no sangue...
EB: Sim, está-me no sangue, por causa da família. Desde pequeno que já dava uns "toques" na bola.
ADT: Outro dado curioso é que, ainda antes de começares a tua carreira futebolística, ganhaste várias provas de outros desportos. Com 14 anos, ganhaste um triatlo, uma prova de basquetebol e outra de natação, tudo no mesmo dia, não foi?
EB: Foi isso, foi. Foi na altura em que eu fazia competições pela escola, e em dois dias ganhei três provas. No primeiro dia, houve a prova de basquetebol e de triatlo, e no dia seguinte foi o torneio de natação.
ADT: Nessa altura, já jogavas?
EB: Jogava, mas ainda não levava o futebol tão a sério como queria. Fazia vários desportos.

Ascensão de uma jovem estrela
ADT: Quando começou verdadeiramente a tua carreira futebolística?
EB: O futebol "a sério" começou quando eu comecei a jogar pela escola. Criei mais interesse pela modalidade, e apareceu-me um convite para ir à experiência ao Blackburn Rovers. Eu aceitei, e aí já tinha a intenção de jogar futebol mais profissional.
ADT: Quanto tempo estiveste no Blackburn?
EB: Fiquei no Blackburn dois meses, à experiência. Só que depois eles decidiram não me assinar, e eu voltei para a escola. Três meses depois, apareceu o Wallsall, que também me ofereceu um mês de experiência, e acabou por ficar comigo. Eles gostaram, e aceitei ficar lá. Passei lá duas épocas.
ADT: Foi no Wallsall que marcaste 10 golos em 14 jogos...
EB: Sim, foi. Na primeira época, como já iam com alguns jogos, não fiz a época completa. Comecei na segunda parte da mesma, onde fiz 14 jogos e marquei dez golos.
ADT: Essa é uma belíssima marca, mesmo num campeonato jovem...
EB: No futebol inglês, é, porque o futebol inglês é completamente diferente do português, fisicamente, é mais competitivo, e tem um ritmo muito mais rápido.
ADT: Foi nessa altura que deste nas vistas na Nike Cup...
EB: Sim, foi na segunda metade da segunda época em que estive no Wallsall que apareceu o convite do Manchester para actuar na Nike Cup. Eu joguei, eles gostaram da minha prestação, e depois foi tudo rápido. Eu estava na escola, e recebi um telefonema do Gil Gomes [NDR: olheiro do Manchester United em Portugal] a dizer que o Manchester mostrara o seu interesse e que me queria assinar.
ADT: Disseste na altura que o Carlos Queiroz também tinha tido influência nesse interesse...
EB: Sim, teve influência, porque o ‘mister' estava lá a assistir aos jogos e disse ao Gil que via qualidades em mim, e que eu podia ter margem para melhorar ainda muito mais. Foi pelo ‘mister' Carlos Queiroz que eu acabei por ficar.

Preparar uma carreira
ADT: No Manchester, ingressaste com apenas quinze anos. No entanto, já havia algum "falatório" em torno do teu nome. Isso incomodou-te, ficaste perturbado?
EB: Na altura, não, porque quando eu joguei pela primeira vez pelo Manchester, na Nike Cup, os meus colegas ajudaram-me a conhecer mais o clube, as pessoas...Assim, quando me mudei definitivamente, já não houve grande problema. Por outro lado, mexia um pouco comigo, porque eu acordava e dizia: "bom, neste momento assinei pelo maior clube do mundo! Não há melhor coisa!" Mas, por outro lado, mantinha sempre a cabeça firme, e dizia "tenho que continuar a trabalhar, porque ainda não cheguei aos seniores, que é o patamar onde quero chegar".
ADT: Na altura, disseste também que eles te tinham deixado continuar na escola onde estavas antes, para não mudares de escola a meio da época...
EB: Sim. A escola, para os clubes ingleses, é muito importante, e eu estava já numa fase na escola em que estava a fazer exames. Era muito importante que eu acabasse os exames antes de mudar. Então, eu pedi para continuar a escola, e continuar a treinar no Wallsall, mas aos fins-de-semana ia para Manchester, só para jogar. Eles aceitaram, viram o meu lado, o da escola, que eles também acham que é bastante importante. Neste momento, já acabei a escola, mas continuo a fazer um curso de dois dias com o Manchester, o qual é obrigatório. Eles obrigam a estar na escola até aos dezoito anos.
ADT: Foi difícil conciliar o futebol com a escola?
EB: No princípio, foi um bocadinho, porque era escola de manhã e de tarde e treino de noite, e no dia seguinte, para acordar, já era um bocadinho trabalhoso. Mas com esforço e dedicação, consegui.
ADT: Que via pensavas seguir profissionalmente?
EB: Profissionalmente, sempre quis ser jogador de futebol. Sempre foi o meu principal sonho. E chegou a uma altura, quando tinha treze ou catorze anos, em que pensei que tinha que começar já a preparar esta carreira para poder ser bem sucedido. E foi aí que apareceram as primeiras oportunidades.
ADT: Achas que foi importante, para a tua carreira futebolística, o facto de teres praticado outros desportos antes de te tornares futebolista?
EB: Acho que ajudou bastante, porque lá em Inglaterra os treinos são bastante físicos, e fazer outros desportos ajudou-me bastante.
ADT: O que é que se ganha com a prática dos diferentes desportos?
EB: Ganha-se bastante experiência. Porque pensamos que há desportos mais fáceis... há pessoas que dizem que o futebol é fácil, porque é só correr atrás da bola, e há outros desportos em que tem de se correr por três ou quatro horas. Mas fisicamente, também me ajudou bastante.

Ensinamentos familiares
ADT: Sendo o teu pai e o teu tio também jogadores, o que é que eles te ensinaram?
EB: Eles falavam-me na vida de profissional de futebol, diziam que não era fácil, mas que com bastante esforço e dedicação, chegávamos lá e fazíamos o que mais gostávamos, que era jogar futebol.
ADT: E em termos técnicos, o teu pai não te dava conselhos...?
EB: Sim, sempre. Até hoje, quando vamos jogar futebol de salão, ele me dá conselhos. O meu pai era defesa-central, e como eu sou ponta-de-lança, ele dá-me umas "dicas". Às vezes jogamos um contra o outro, e ele dá-me umas opiniões de como é que eu devo virar, etc...
ADT: Achas que o teu pai "revive" a carreira através de ti?
EB: É um pouco difícil de dizer. Eu sei que ele tem muito orgulho de eu estar no Manchester United, mas jogamos em posições diferentes. Mas penso que dá para reviver um bocadinho, também.

Sempre acima de escalão
ADT: Ao chegares a Manchester, puseram-te a jogar nos sub-16...
EB: Sim. Na altura, era sub-15 mas já jogava pelos sub-16.
ADT: Estiveste sempre acima de escalão no Manchester? Porque achas que isso se passou?
EB: Habituei-me facilmente, porque já no Wallsall fazia a mesma coisa. Havia dias em que já treinava com os seniores, mesmo com 14 anos. E acho que me ajudou, pois ganhei experiência. É, também, uma questão de mentalidade dos jogadores. Nos sub-16, os jogadores já sabiam o que tinham de fazer tacticamente, o treinador não tinha de estar sempre a parar o treino...isso ajudou-me bastante, como jogador. Aprendi novas coisas, e continuo a aprender.
ADT: Não tinhas dificuldade? Não ficavas cansado, ou pensavas "isto é muito duro, quero voltar para o meu escalão"...?
EB: Não, nunca pensei nisso. É sempre melhor estar num escalão acima, onde fisicamente é mais duro. Isso ajudava-me, como jogador.
ADT: Já na altura, as pessoas destacavam a tua capacidade física. Achas que é um dos teus pontos fortes?
EB: Acho que sim, porque na Inglaterra é um grande factor para os jogadores estarem bem fisicamente. Acho que desde que comecei a minha carreira destaquei-me fisicamente, porque existem miúdos que com 16 anos já têm 1,90m, e estou a jogar contra pessoas com mais 20cm que eu. E tenho que me aguentar!
ADT: Também na Selecção Nacional, sempre estiveste acima de escalão. Em sub-16, jogaste nos sub-17, e agora estás nos sub-18...
EB: Quando eu comecei, nos sub-17, éramos uma equipa bastante forte, competitiva...Foi bom estar lá, ganhei experiência com os jogadores que lá estavam. Mas depois, ter ido para a Selecção sub-16, acho que foi melhor. Estava a jogar com pessoas da minha idade, com jogadores com quem nunca tinha jogado...Aprendi mais com eles, e com o ‘mister' Paulo Sousa.
ADT: Nunca tendo jogado em Portugal, nunca te sentiste um "estranho", uma "pessoa de fora"?
EB: No início, deu para sentir. Mas os rapazes eram todos como uma família, por isso eu chegava e já não sentia diferenças.
ADT: Achas que por tu jogares em Inglaterra, e eles em Portugal, têm estilos de jogo diferentes?
EB: São um bocadinho diferentes. Dava para perceber mais no início, porque cá jogam mais no 4-5-1, só com um ponta-de-lança, e em Inglaterra é mais com dois. Eu estou mais habituado com dois. No início, era um bocadinho difícil, mas com a ajuda dos ‘misters' e jogadores, fui-me habituando, e agora já não há problemas.
ADT: Entre a Selecção e o teu campeonato, que diferenças encontras no estilo de jogo?
EB: Acho que é um jogo mais aberto, mas não vejo grandes diferenças. A Selecção tem bastante bons jogadores, por isso não há grandes diferenças.
ADT: E em termos de treinos?
EB: É diferente, porque em Inglaterra os treinos são de três horas, três horas e meia, e na Selecção, normalmente, fazemos treinos de uma hora. Mas isso também se deve ao clima, ao calor...
ADT: Quais achas que são os benefícios de um jogador da tua idade já estar no estrangeiro?
EB: Acho que os jogadores que estão a jogar fora ganham maturidade mais cedo. E são experiências de futebol à roda do mundo que vêm para a Selecção, e permitem conhecer como é o futebol à volta do Mundo. E quando vamos jogar contra os países onde esses jogadores jogam, eles já conseguem dizer-nos como é que eles gostam de jogar, e coisas desse género.
ADT: Nas camadas jovens portuguesas, há algum jogador que gostes de ver jogar, com quem te identifiques?
EB: Gosto de ver jogar o Rui Fonte e o Januário [Jesus]. Admiro bastante o Januário, pela forma como joga e pelo pé esquerdo que tem.
ADT: Outro detalhe curioso é seres do FC Porto. Como se deu essa preferência?
EB: Desde pequenino que sempre fui grande fã do Porto. Gostava de ver o Capucho a jogar, pelo estilo dele, e ganhei aquele gosto pelo Porto. Até hoje.

Características
ADT: Li artigos que te comparavam ao Drogba, mas tu próprio dizes que preferes o Van Nistelrooy. Com quem te achas mais parecido?
EB: A jogar, sou mais parecido com o Drogba. Mas aprecio bastante o Van Nistelrooy, porque ele tem aquele pressentimento do golo, quando está à frente da baliza, e aparece sempre no sítio certo. Mas eu digo que as comparações ao Drogba são correctas, porque sou bastante parecido com ele a jogar. Fisicamente, sou forte, por exemplo.
ADT: Consideras-te um jogador tecnicista, ou mais directo?
EB: Sou mais directo. Sou tecnicista, mas quando tenho oportunidade de fazer algo, faço-o logo, não penso duas vezes! Acho que o meu estilo encaixa bem no futebol inglês. Jogo a dois, três toques, virado para a área...
ADT: Descreve-te como jogador. Quais são os teus pontos mais fortes e fracos?
EB: Fisicamente sou bastante forte, seguro bem a bola, tenho um pé direito bastante forte. Também utilizo bem o pé esquerdo, jogo bem de cabeça, e tacticamente cumpro o que o ‘mister' pede. Posso melhorar o meu pé esquerdo, que não é dos melhores, mas pode vir a melhorar, e também posso melhorar bastante a minha finalização.
ADT: Consideras-te um jogador rápido? Fazes a finta mais em movimento, ou páras o jogo para fintar?
EB: Sou rápido, e faço as fintas mais em movimento, porque prefiro ganhar a vantagem ao defesa do que parar a bola e tentar passar por ele.
ADT: Os defesas ingleses são conhecidos por serem sólidos. É difícil ultrapassá-los?
EB: Não é tanto como parece. Tacticamente, eles cumprem bastante a sua função, mas não são tão rápidos nem tão móveis.
ADT: Pensas que é importante para um jogador ter uma mentalidade humilde, mesmo num grande clube?
EB: Acho que sim, que é importante, e acho também que é bom ver um jogador jovem que está no bom caminho e tem uma grande humildade. Há que continuar a trabalhar, com a nossa humildade. Tive que fazer bastantes sacrifícios, há coisas que gostava de fazer e não posso fazer, como por exemplo, em certas alturas, gostava de estar com os amigos até certas horas, e não posso, porque no dia seguinte tenho treino ou jogo, e tenho que descansar. Há que manter a humildade primeiro que tudo, porque os treinadores também reparam bastante nessas coisas, sabem aperceber-se de um jogador humilde e trabalhador, ou daqueles que estão lá e pensam que já chegaram ao topo.
As camadas jovens do United
ADT: Quem é um jogador, do teu escalão ou dos sub-18, em quem apostes para o futuro?
EB: O Danny Welbeck, que já está incluído nos seniores. Acho que tem capacidades, e se mantiver a cabeça firme, vai chegar longe.
ADT: Achas que o facto de ser um clube com muitos e bons nomes é uma desvantagem, por ser mais difícil "chegar lá"?
EB: No Manchester é bastante difícil, mas temos que continuar a trabalhar, para melhorar, e talvez um dia tenhamos a oportunidade de que estamos à espera. E se tivermos, é agarrá-la com as duas mãos!
ADT: Se não conseguires chegar aos seniores, e fores emprestado, ficas magoado ou zangado?
EB: Não diria que ficava zangado, porque quero ter uma carreira profissional, quero jogar. Se chegar a uma certa hora em que quero jogar e não posso, e for emprestado ou cedido, não vou ficar zangado nem chateado, mas fico com um bocadinho de mágoa.
Portugueses em Inglaterra
ADT: Há muitos portugueses a aparecer, agora, em Inglaterra?
EB: Penso que, agora, há mais a aparecer. Os treinadores portugueses que já estiveram em Inglaterra deram oportunidade aos jovens portugueses para também irem para Inglaterra jogar, mostrar o seu verdadeiro talento. E o clube percebe que há realmente talento em Portugal, e vai buscar mais jogadores.
ADT: Então pode-se dizer que os clubes ingleses "despertaram" para o mercado português...?
EB: Sim. Temos o exemplo do Cristiano [Ronaldo], que saiu de cá bastante jovem e agora está onde está. Os clubes vêem que há, de facto, bastante talento em Portugal, e que há um grande mercado cá, e vêm buscar os jogadores.
ADT: Tinhas alguma relação com o ‘mister' Queiroz? Achas que ele foi uma das razões pelas quais foste para Manchester?
EB: Acho que sim, acho que ele foi uma das grandes razões para eu ir, porque ele apostou em mim. Já o Gil me disse que o ‘mister' aposta bastante nos jovens. Ele dava-me sempre uma palavra de apoio, perguntava como iam as coisas, e sempre que precisava de um conselho, dentro ou fora do futebol, estava lá sempre lá para me ajudar. Também ia às vezes ver os meus jogos...estava sempre a apoiar.
ADT: E o Gil Gomes? O filho dele está nas camadas jovens do United. Tens alguma relação com ele, ou com o pai?
EB: O Gil Gomes é um amigo de família, conhece o meu pai já há bastante tempo. E como ele vive lá em Manchester, é como se fosse a minha família lá. É a pessoa que me pode apoiar mais de perto, e apoia-me bastante, também.
ADT: E quanto aos portugueses mais "famosos" do Manchester, Ronaldo e Nani. Já foste a casa deles?
EB: Já estive em casa do Nani, a jogar PlayStation, e pingue-pongue. Ele é um brincalhão, e gosta de jogar...(risos)
ADT: Quando chegaste ao United, chegaste a treinar ao lado do Cristiano Ronaldo. Como foi a sensação?
EB: De início, foi um bocadinho estranho! (risos) Dá sempre aquele nervosismo, quando o mister diz ‘hoje vais treinar com os seniores' e eu penso ‘hoje vou treinar com o Ronaldo, o Nani...' Há sempre aquele nervosismo de chegar e fazer um passe errado...Mas eles dão-se conta de que há aquele nervosismo por se ser jovem, e dão aquele apoio.
ADT: Os diferentes portugueses lá de Inglaterra conhecem-se?
EB: Falo normalmente com o Rui Fonte na Internet. Ao Ricardo Fernandes, não o conhecia, mas agora já tive oportunidade de o conhecer, trocámos números e vamos mandando mensagens uma vez ou outra. É um bocadinho difícil para mim dar-me com os jogadores que estão em Londres, como o Rui Fonte, o Ricardo Fernandes ou o Fábio [Ferreira], mas com aqueles que estão mais perto, como o Vaz Tê, Nani ou Ronaldo, encontro-me às vezes, e vamos almoçar, ou fico em casa deles.
ADT: Quando te apercebes de que és amigo de Nani, Ronaldo, Queirós...não ficas "inchado"?
EB: Não, acho que não há razões para isso. Só porque se tem conhecimentos, não é razão para pensar que já se chegou lá, porque ainda não chegámos.
A vida em Manchester
ADT: Fala-nos um pouco da Academia do Manchester United, em Carringhton.
EB: Na Academia, cada porta tem um código para entrar. Temos por volta de 14 a 16 campos. De um lado, fica a Academia dos seniores, reservas e sub-18, e do outro lado a dos sub-16 até sub-10. Temos um ginásio, vamos à piscina, temos um jacuzzi, bicicletas no ginásio, um campo de basquetebol...
ADT: Como é a relação entre camadas seniores e jovens em Manchester?
EB: É uma relação muito aberta, porque nós vamos ver os seniores, todos os dias, à Academia dos seniores e sub-18. É tudo junto, não há separações nenhumas, e falamos com eles sempre que é necessário. Sempre que precisamos de um apoio, eles estão lá para ajudar.
ADT: Já algum deles te deu um conselho marcante?
EB: No início, quando eu cheguei, o Ronaldo dava-me bastantes conselhos. Dizia para estar tranquilo, não ter receio, que as coisas iam correr bem...
ADT: Conheces o ‘mister' Soljskaer?
EB: Conheço. Ele é o treinador das reservas, e eu já estive envolvido nas reservas este ano, joguei nove vezes pelas reservas. E quando o treino acaba, ele chega sempre ao pé de mim e pergunta se quero fazer um treino de finalização. Neste momento, ele está a ajudar bastante os sub-18, principalmente os pontas-de-lança, porque fazemos com ele treinos de finalização, e ele tem experiência, e tenta dar-nos um bocadinho também.
ADT: Em Manchester, dão-te algumas regras para cumprir, em termos de higiene ou disciplina...?
EB: Há bastantes regras lá na Academia. O ‘mister' é bastante rigoroso com as regras, e está sempre em cima de nós caso não cumpramos uma ou outra. E há multas. Por exemplo, há duas semanas atrás, estava a usar umas botas com os pitons errados num jogo, ele não gostou e multou-me só por eu estar a usar pitons de borracha, e não de alumínio. Em termos de hora de dormir, é da responsabilidade do jogador saber quanto precisa de descansar para estar bem no dia seguinte. Não estão tanto em cima como devem estar, porque é da responsabilidade dos jogadores e eles têm que ter maturidade. Somos pesados de duas em duas semanas, e eles medem a gordura do corpo. Temos lá pessoas que tratam dessas coisas, e que estão sempre em cima de nós com o que podemos e não podemos comer, e com o que devemos fazer se tivermos peso a mais.
ADT: E com o ‘mister' Ferguson, já tiveste oportunidade de privar?
EB: Sim, já tive oportunidade de falar com ele uma vez ou outra, e sempre que me vê também pergunta como vão as coisas. Ele até me diz "olá, tudo bem" em português, o que já é um bom sinal! (risos).
Particularidades do futebol inglês
ADT: Existe, em Inglaterra, alguma equipa que "domine" a nível dos escalões de formação?
EB: É um pouco difícil de dizer em Inglaterra, porque há clubes que, de um ano para o outro, vêm sempre a subir. Por exemplo, o Manchester City ganhou, no ano passado, a FA Youth Cup, e quase ninguém esperava. Existem sempre aqueles favoritos, as equipas grandes, Manchester, Arsenal...e houve a surpresa do Manchester City ter ganho. Mas não direi que é uma surpresa, porque em Inglaterra o futebol é assim, nunca se sabe quem vai ganhar.
ADT: O campeonato inglês é o campeonato das margens mínimas. Concordas?
EB: Concordo, porque o campeonato inglês tem um ritmo bastante diferente, e as equipas, tacticamente, são boas. Mesmo as equipas inferiores a nós.
ADT: O campeonato inglês tem grande mediatismo e tradição. Achas que isso também ajuda os clubes mais pequenos a crescer?
EB: Acho que sim, porque os clubes pequenos, nas camadas jovens, podem não ter a qualidade de jogadores que o Manchester tem, mas em termos de competição, vão competir da mesma maneira que nós competimos, e lutar pela vitória.
ADT: Guardas algum jogo na memória com especial carinho?
EB: Talvez o jogo contra o Birmingham, nesta pré-época. Estávamos a jogar nas reservas com o Soljskaer, e o jogo estava 3-2, connosco a perder. Ele lançou-me a 15 minutos do fim, e disse-me ‘vai lá e marca o golo do empate'. E eu cheguei e marquei, fiz o que ele me pediu. Acho que naquela altura, a jogar no estádio do Birmingham, contra jogadores que já jogaram na Premier League, como o Marcus Bent ou Cameron Jerome, jogadores experientes, entrar e marcar marcou-me bastante.
ADT: O típico jogador português é mais tecnicista que o britânico. Achas que isto se deve à mentalidade dos clubes ingleses, que vão à procura de um tipo de jogador diferente dos nossos?
EB: Acho que em Inglaterra, os clubes procuram os jogadores que, fisicamente, são mais fortes, não tanto tecnicamente. Aqui em Portugal, apoiam-se mais em jogadores que têm talento, não só fisicamente mas tecnicamente. Há casos em Inglaterra, como o dos guarda-redes, em que se não tiverem mais de 1,80m não têm hipótese! E eu tenho amigos guarda redes cá em Portugal, como por exemplo o Ruben [Luís], do Sporting, que não são tão altos mas são bons guarda-redes, e que se fossem para Inglaterra iam ter um pouco de dificuldade, por causa da altura.
ADT: E a nível táctico, achas que os portugueses cuidam mais esse aspecto? Que o futebol inglês é mais rígido?
EB: Acho que sim, é. Lá, tacticamente, o que o ‘mister' diz que temos que fazer é o que temos que fazer. Normalmente, jogamos em 4-4-2, mas agora ele habituou-nos a um sistema de 4-3-3. Foi um bocadinho difícil, porque nós não estamos habituados. Acho que cá em Portugal se joga em 4-3-3, mas se tiverem de jogar em 4-4-2, os jogadores têm mais habilidade para o fazer do que os jogadores ingleses.
ADT: Achas que o facto de os milionários estarem a "comprar" os clubes ingleses vai tornar mais difícil ao Manchester ter os melhores jogadores?
EB: Acho que não vai haver grande diferença. Vai, sim, aumentar a competitividade entre os clubes. Até agora ainda não se sentiu isso, mas vamos ter de esperar por Janeiro para ver se isso ‘mexe' com os clubes.
Nome: Evandro Elmer de Carvalho Brandão.
Data de Nascimento: 07/05/1991 (17 anos).
Altura: 1,68m.
Peso: 74kg.
Posição: Avançado/Ponta-de-lança.
Clube: Manchester United Football Club.
Entrevista realizada no dia 27 de Outubro de 2008, no Hotel Tivoli Oriente.
Texto: Pedro Benoliel.
Imagens: Academia de Talentos.
Dia 12.11.2008, às 19:11, regio disse...
Excelente entrevista.
Este jogador revela imensa maturidade para a sua idade e aparenta ser uma pessoa bastante humilde e trabalhadora.
Continua assim que hás-de chegar longe! Desejo-te toda a sorte do mundo.
Há aqui vários pontos da entrevista que merecem reflexão em relação aos treinos e à mentalidade como as coisas são conduzidas em Inglaterra e em Portugal.
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