Entrevista
Entrevista com Fábio Pereira
O nome Fábio Pereira pode ser desconhecido para a maioria dos adeptos, mas aqueles que acompanham o futebol de formação do nosso país conhecem bem este jovem guarda-redes que começou no Gil Vicente muito cedo, seguiu-se o Benfica e depois de duas épocas a defender a baliza encarnada acabou fazendo parte dum enorme lote de dispensados da equipa campeã nacional de juvenis.
Numa agradável conversa, o guardião que agora abraça uma nova aventura, desta vez no SC Braga contou-nos um pouco da sua carreira e respondeu a algumas perguntas interessantes.
Academia de Talentos: Boa tarde Fábio, nos últimos tempos todos temos ouvido falar de ti em virtude da tua saída do Benfica, mas onde e como é que começaste a jogar futebol?
Fábio Pereira: Comecei no Gil Vicente com oito anos, joguei lá durante sete anos, depois começaram a falar comigo e decidi-me a ir para o Benfica.
ADT: Começaste bem cedo nas escolinhas do Gil Vicente, na altura de quem foi a ideia de entrar para o clube?
F.P.: Foi dos meus pais, eu andava sempre a chateá-los porque queria jogar futebol e surgiu-lhes a ideia de eu entrar para o Gil Vicente.
ADT: Na altura já te vias como um daqueles miúdos «craques»?
F.P.: Não, entrei para lá apenas porque gostava de futebol, nunca tinha sequer pensado em ir para outro clube nem nada, andava lá só pelo passatempo.
ADT: Os teus pais sempre te apoiaram ou diziam para te dedicares mais à escola?
F.P.: As duas coisas, mas desde o inicio sempre me apoiaram.
ADT: Como foram as tuas primeiras épocas, como escolinha?
F.P.: Foram boas, adaptei-me bem, os meus colegas gostaram de mim e correu tudo muito bem.
ADT: A maioria dos miúdos quer ser avançado ou extremo, porquê essa ideia de ser guarda-redes?
F.P.: (risos) Não sei explicar bem, talvez porque quando era miúdo ia com o meu pai jogar futebol e sempre gostei de defender.
ADT: Quando realmente te afirmaste nos «gilistas», quando sentiste que marcavas a diferença?
F.P.: Quando ia a torneios pelos escolinhas e já aí as pessoas já gostavam de mim e fui com nove anos convocado para um torneio com os infantis, nesse torneio fui titular, a partir daí joguei nos infantis (sub-12) com dez anos e depois disso foi sempre a subir.
ADT: Com essa passagem para os infantis sentiste diferenças, já que enfrentaste outro ritmo competitivo e outras dificuldades?
F.P.: Foi natural, porque tive sempre alguém da minha idade, que era o André (André Campos), que andávamos sempre juntos e apoiávamos-nos um ao outro, em todas as situações e assim sendo, não era assim tão complicada a adaptação.
ADT: Como foram essas épocas como infantil?
F.P.: Correram muito bem, o primeiro jogo onde eu senti que realmente estava bem, foi num jogo contra o Braga, em que eu tinha dez anos e fui jogar pelos de onze, os infantis A, o jogo correu-me bem e a partir dessa altura surgiu o interesse do Braga e foi quando eu sinto que tudo me estava a correr bem.
ADT: Quando foste chamado pela primeira vez à selecção de jogadores da Associação de Futebol de Braga?
F.P.: Foi nos infantis, mas aquilo na altura não estava muito bem organizado, não haviam torneios nem nada, eram só treinos.
ADT: Mesmo assim, sentiste que poderia ser um passo importante para ti?
F.P.: Sim, eles disseram-me que eu já podia ter ido no ano anterior, na altura fiquei um bocadinho chateado por isso, mas depois fui e acho que estive bem.
ADT: Sabemos que desde cedo te afirmaste no Gil Vicente, e na Selecção de jogadores da Associação de Futebol de Braga, encaraste isso naturalmente ou foi complicado?
F.P.: Encarei isso como uma coisa natural, as pessoas à minha volta também foram importantes, falavam comigo, sempre me disseram que confiavam no meu valor e isso foi muito importante para mim.
ADT: Saíste do Gil Vicente depois do teu último ano como iniciado, como correram as duas épocas nesse escalão?
F.P.: Foram boas, correram bem, joguei os dois anos no campeonato nacional e foram dois anos muito bons.
ADT: Dos anos que passaste aqui em Barcelos, fala-nos dos teus misters, quais foram os que mais te marcaram?
F.P.: Foram os misters dos iniciados de primeiro ano, o Mister Machado e o Mister Carciolli e os misters de segundo ano, o Mister Lim e o Professor Domingos.
ADT: Depois desses anos no Gil Vicente, rumaste ao Benfica, quando surgiu pela primeira vez o interesse dos encarnados?
F.P.: Foi no último jogo do campeonato, num jogo contra o Vitória de Guimarães. Eles viram-me e depois falaram com os meus pais.
ADT: Como te sentiste com o interesse de um "grande" como o Benfica, em ti?
F.P.: Muito bom, é uma experiencia que não dá para explicar.
ADT: Na época, só o Benfica manifestou interesse?
F.P.: Não, o FC Porto e o Braga também se mostraram interessados.
ADT: Porque razão escolheste os «encarnados»?
F.P.: Sempre foi aquela coisa de jogar no Benfica, na altura eram eles quem dava melhores condições.
ADT: Olhando agora para trás, pensas ter tomado a decisão mais certa?
F.P.: Aconteceu o que aconteceu mas acho que sim, sentia-me bem lá.
ADT: O que achou a tua família dessa tua mudança para o Benfica?
F.P.: Eu andava no futebol e eles pensavam que aquilo era mais uma brincadeira, quando souberam da possibilidade de eu me mudar para Lisboa, eles não encararam lá muito bem (risos), mas depois ficaram contentes e apoiaram-me.
ADT: Como se processou a tua mudança para o Benfica?
F.P.: Foi complicado, eu esperava certas coisas do Benfica e quando cheguei lá vi que não eram bem assim, pensava que a adaptação ia ser complicada mas até não foi difícil. O processo da transferência é que foi mais complicado, andei sempre a correr.
ADT: No que diz respeito ao negócio em si, foi difícil a mudança?
F.P.: Foi, porque o Gil Vicente complicou um bocadinho a transferência, e fiquei alguns jogos de fora no campeonato, só depois é que resolveram isso e comecei a jogar.
ADT: Fizeste captações ou assinaste logo?
F.P.: Não, não fui logo lá para baixo porque estava à espera de quarto, estive mesmo para não ir por causa disso.
ADT: Como reagiu o Gil Vicente a essa mudança?
F.P.: Não sei, nunca cheguei a falar com ninguém sobre isso, sei que o Presidente não queria dar a carta mas depois isso resolveu-se.
ADT: Passaste então do Gil, um clube de média dimensão, para um gigante do futebol nacional, como encaraste essa transição?
F.P.: Foi como o realizar de um sonho, tive um pouco de receio por ir encontrar algo que não conhecia mas foi muito bom.
ADT: Como foram os teus primeiros tempos no Benfica, sentiste muitas dificuldades? O período de adaptação ao Centro de Estágio foi complicado?
F.P.: Um pouquinho, porque no inicio, quando fui para o Benfica treinei com a equipa da minha idade, mas eu não conhecia ninguém, já estava quase a começar o campeonato e tive que me adaptar a toda a gente com o campeonato a começar e foi um bocadinho complicado.
ADT: Nessa fase quem mais te apoiou?
F.P.: O Nélson (Nélson Oliveira) e o André (André Campos).
ADT: Quem foi o teu primeiro «mister» no Benfica?
F.P.: O meu primeiro mister foi o Ricardo Dionísio, como treinador principal.
ADT: Na tua primeira época nos «encarnados» competiste em que equipa?
F.P.: Inicialmente fui para a equipa A porque os guarda-redes estavam lesionados, depois fui para a equipa B.
ADT: Como correu essa primeira época de águia ao peito?
F.P.: Estava lá um guarda-redes que eu achava que era um bom guarda-redes, o Rui Pires, mas correu bem. O mister como era no campeonato distrital, rodou os guarda-redes, fizemos um jogo cada um a titulares e correu bem.
ADT: No final desse primeiro ano como jogador do Benfica sentiste que tinhas evoluído como pessoa e como jogador?
F.P.: Sim, muito mesmo.
ADT: Durante esse teu primeiro ano no Seixal tiveste algum momento que te marcou?
F.P.: Sim, a minha estreia pelo Benfica, foi assim um bocadinho desastrada (risos), a vinte minutos do jogo lesionei-me, levei uma pancada na cabeça.
ADT: Depois dessa época como juvenil B, passaste à equipa A e este ano conseguiste uma boa temporada, já estavas à espera disso?
F.P.: Não, sempre pensei que viriam outros guarda-redes, mas nunca chegou a vir nenhum e eu cumpri.
ADT: Para quem não acompanhou a equipa, conta-nos como correu esta época?
F.P.: Tivemos momentos muito maus e momentos muito bons, não éramos uma equipa assim fantástica, fomos evoluindo ao longo do tempo, com a ajuda do treinador (João Couto) que nos ajudou muito e depois acabámos por ser campeões nacionais. Tivemos bons resultados, na primeira fase tivemos uma derrota (Sporting) e na segunda fase outra derrota (Vitória de Setúbal), de resto estivemos muito bem.
ADT: A nível colectivo a época foi muito boa para o Benfica, com a conquista do título, mas a nível individual como correram as coisas?
F.P.: A segunda e terceira fase acho que não me correram muito bem mas a primeira fase acho que foi boa, gostei bastante.
ADT: Foste guardião da equipa campeã nacional de juvenis, foi para ti uma responsabilidade muito grande?
F.P.: Sim, mas era bom para mim sentir isso, nunca senti muita pressão.
ADT: A quem atribuis o mérito da conquista do título?
F.P.: A todos, porque era um grupo que não estava bem, vieram muitos novos, alguns estrangeiros e tivemos que criar uma união de um momento para o outro. O que foi bom para todos.
ADT: Qual foi para ti o momento mais marcante desta temporada?
F.P.: Talvez, o jogo em que fomos campeões, tivemos uma recuperação muito boa e a perder 0-1 mesmo assim conseguimos ganhar por 2-1 ao Futebol Clube do Porto e assim fomos campeões nacionais.
ADT: Esse ano acabou por ser o teu último com o emblema dos «encarnados», durante o ano, esperavas que isso acontecesse?
F.P.: Não, nem mesmo nos meus piores momentos imaginei isso que isto pudesse acontecer.
ADT: Apesar do título, a equipa foi quase toda desmantelada, no teu caso em particular, quais achas que foram os motivos?
F.P.: Eu acho que mesmo que a equipa não fosse campeã nacional, isso já estava definido, já tinham pensado nisso, principalmente para aqueles que ficaram.
ADT: Quem do Benfica falou contigo sobre a dispensa?
F.P.: O sr Manuel Ribeiro, o Mister Jaime Graça e o Mister Nené.
ADT: Como reagiu o grupo que tinha acabado de ser campeão a essa situação?
F.P.: Mal, havia alguma tensão.
ADT: Sabemos que o Benfica pretendia emprestar-te a outro clube, como encaraste essa situação?
F.P.: Mal, não queria ser emprestado porque tinham-me dito que isso de empréstimos era um bocadinho complicado. Nos clubes acaba por ser difícil, emprestar um jogador júnior não é assim muito fácil.
ADT: Não achas que se tivesses aceitado, no segundo ano de juniores poderias ter uma oportunidade no Benfica?
F.P.: Não sei.
ADT: Porque optaste pela rescisão com o Benfica?
F.P.: Porque falei com algumas pessoas e todas me disseram que era melhor sair.
ADT: Achas que para o teu futuro foi a melhor opção?
F.P.: Penso que sim.
ADT: Ficaste magoado com os responsáveis do Benfica?
F.P.: Fiquei, pelo que fizeram.
ADT: O que é que um jogador sente quando é dispensado?
F.P.: Acho que cada um tem a sua forma de sentir isso, mas é sempre mau, porque depois até nos esquecemos do valor individual que temos e deixamos de acreditar em nós próprios, o que é muito mau mesmo.
ADT: O que foi que os teus pais te disseram?
F.P.: Eles também não estavam à espera, mas apoiaram-me muito.
ADT: Que balanço fazes do tempo que estiveste no Seixal?
F.P.: Foi muito bom, aprendi muitas coisas que no Gil Vicente não tive oportunidade de aprender, porque também não havia condições para isso, lá no Seixal evoluí muito, foi muito bom.
ADT: Quando te sentiste realmente adaptado ao clube?
F.P.: Este ano que passou.
ADT: Fala-nos dos treinadores que tiveste no Benfica?
F.P.: Um dos mais importantes foi o Mister Bento, pois foi ele que me ajudou a integrar no Benfica e outro foi o Mister Rui, este ano, treinador de guarda-redes.
ADT: Quais foram as pessoas que mais te marcaram?
F.P.: As pessoas da escola que eu frequentava, que me custou muito deixar, as pessoas dentro do Benfica também. Havia muitas pessoas que nos ajudavam, até porque eu fui para lá com a ideia de que as pessoas do Benfica iam ser um bocadinho arrogantes, por ser o Benfica e por causa disso ia ser difícil a adaptação, mas não, eram todos boas pessoas.
ADT: A tua mudança para o Braga foi uma surpresa para muitos, como encaraste essa possibilidade?
F.P.: Encarei bem, talvez também por ser perto de casa.
ADT: Como se processou essa mudança?
F.P.: Já tinham falado comigo durante a semana antes da dispensa, algumas pessoas do Braga que já sabiam mais do que eu (risos). Eu disse-lhes que não sabia de nada, eles disseram-me que depois falavam comigo e depois da dispensa tratámos disso.
ADT: O que mais te seduziu na proposta do Braga?
F.P.: O clube em si.
ADT: Quais são os teus objectivos para o futuro?
F.P.: Trabalhar para aquilo que sempre quis, ser jogador de futebol.
ADT: O que esperas desta época como júnior?
F.P.: Espero jogar, apesar de saber que vai ser complicado, há bons guarda-redes no Braga, mas vou trabalhar para isso.
ADT: A nível de métodos de trabalho, achas que vais encarar uma realidade diferente?
F.P.: Sempre ouvi dizer que o Braga tem boas condições de trabalho e penso que não vai ser muito diferente.
ADT: Num futuro próximo esperas chegar à equipa principal do Braga?
F.P.: Agora sim.
ADT: Da parte da estrutura do Sporting de Braga, achas que isso é possível?
F.P.: Sim, penso que o Braga agora atingiu um estatuto muito bom, é um clube que quer subir na formação, e penso que pode apostar nos jovens, tem-se falado muito nisso.
ADT: Esta época marca uma mudança no clube minhoto, quer a nível profissional, quer na formação, achas que isso poderá ser benéfico para ti?
F.P.: Não só para mim, mas como para todos os jogadores que estão lá, ao fazerem isso é porque estão também a pensar na formação de jogadores.

Numa análise à tua carreira, diz-nos.
ADT: Qual foi o momento mais importante?
F.P.: A minha estreia pela selecção nacional.
ADT: A maior alegria?
F.P.: A ida para o Benfica.
ADT: O jogo que mais te marcou?
F.P.: Quando fui campeão nacional.
ADT: Como te analisas como jogador? Quais são os teus pontos mais fortes?
F.P.: É complicado falar disso mas penso que sou ágil e tenho bons reflexos.
ADT: Se te pedissem para te comparares a um guarda-redes de top, quem seria?
F.P.: Talvez o Buffon.
ADT: E quais são os aspectos em que ainda tens de melhorar?
F.P.: As saídas da baliza.
Para além do futebol conta-nos um pouca da tua vida, num contexto mais pessoal.
ADT: Neste momento estudas em que ano?
F.P.: Estou no 10º ano.
ADT: Agora no Braga vais poder estar mais próximo da família, achas que será bom para ti?
F.P.: Sim, o apoio da família é sempre importante.
ADT: Quem são os teus melhores amigos no futebol?
F.P.: O Nélson Oliveira e o André (André Campos).
ADT: Ainda tens o sonho de jogar na equipa principal do Benfica?
F.P.: Sim, claro (risos).
ADT: Para além desse sonho, que outros desejos tens?
F.P.: Jogar no estrangeiro.
ADT: Qual é a tua liga de referência na Europa?
F.P.: Inglaterra.
ADT: E nessas Ligas quais são os clubes de que mais gostas?
F.P.: O Manchester United.
ADT: Quando começaste a tua carreira quais eram as tuas referências?
F.P.: Peter Cech e Iker Casillas.
ADT: Quais foram os lemas que te guiaram até hoje, ou o que te move e que gostarias de transmitir aos mais jovens?
F.P.: A minha família é a minha principal motivação.
ADT: São eles que te ajudam neste momento mais complicado?
F.P.: Sim, sem dúvida.
ADT: Qual a mensagem que gostarias de deixar aos que começam agora a sua carreira?
F.P.: Para nunca terem medo de enfrentar nada, qualquer situação que seja.
B.I. do jogador:
Nome: Fábio Miguel da Costa Pereira.
Idade: 17 Anos.
Peso: 75kg.
Altura: 1,80 cm.
Data de Nascimento: 1991-04-21 (17 anos).
Posição: Guarda-redes.
Clube: SC Braga.
Entrevista realizada no dia 15 de Julho de 2008 na Cidade de Barcelos.
Texto: Dário Pinto.
Imagens: Academia de Talentos.
Dia 28.07.2008, às 09:25, Tobias disse...
"Espero jogar, apesar de saber que vai ser complicado, há bons guarda-redes no Braga, mas vou trabalhar para isso."
Penso que vai ser complicado para o Fábio jogar, pois vai ter a concorrência do Cristiano, um GR de grande futuro, que certamente vai chegar à selecção de sub 19.
Dia 30.07.2008, às 07:08, RebentaABomba disse...
O Fábio Pereira tem 1,80m????? É brincadeira... Grande mentira... Não sei se foi do miúdo ou se foi do jornalista... Será que tem 1,75m?
Boa época deste GR... Só foi pena os 2 frangos em Setúbal, o frango nos Açores, os 3 frangos em Corroios, os 2 frangos no Olival e o frango contra o Porto no Seixal... De resto esteve muito bem... As outras equipas nem lá iam à baliza...
Pode-se dizer que se borrou todo nos jogos importantes...
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