Entrevista
Entrevista com Gemma Lewis
Aquando da recente passagem por Portugal da Selecção Galesa sub-19, em futebol feminino, aproveitámos para ir conhecer uma das jogadoras desta equipa, e desvendar os segredos desta modalidade em expansão. Leia a seguir as opiniões da avançada Gemma Lewis.
Inícios
Academia de Talentos: Como te iniciaste no futebol?
Gemma Lewis: Vivi num acampamento militar onde todos os rapazes jogavam futebol. Não havia lá muitas raparigas, por isso comecei a jogar futebol com os rapazes. Desde aí, continuei, tive os meus inícios em clubes pequenos, e continuei em frente.
ADT: Que idade tinhas quando começaste?
GL: Tinha cerca de seis anos.
ADT: E a que idade te estreaste num clube?
GL: Aos sete anos, na equipa mista de Camp Figg.
ADT: Quando começaste a jogar num clube maior?
GL: No ano passado, quando comecei a jogar pelo Bristol, na Premiership inglesa.
As mulheres no futebol
ADT: Quais achas serem as principais dificuldades para as futebolistas femininas?
GL: O panorama é muito pequeno, e não há muitas pessoas dispostas a ajudar-nos e a colocar-nos em clubes. Não existem muitos clubes nos quais jogar, e temos que viajar longas distâncias para chegarmos ao mais próximo.
ADT: Achas que os homens ainda vêem o futebol feminino como algo não muito sério?
GL: Temos algum apoio do David Beckham, que apoia bastante o futebol feminino. Mas acho que muitos rapazes mais jovens pensam que o futebol feminino não é tão bom como o dos homens, e que nunca lá vai chegar.
ADT: Mas o que dizem os homens? Riem-se, acham bem...?
GL: Bom, algumas das minhas amigas não jogam ao mesmo nível que eu, e eles riem-se delas, não mostram grande apoio. Mas quando jogamos ao nível a que as raparigas daqui [Selecção] jogam, eles apoiam bastante, e compreendem o nosso ponto de vista, e que nós gostamos tanto do jogo como eles.
ADT: Quais são os principais clubes ingleses para o futebol feminino?
GL: O Arsenal, o Chelsea, o Bristol...basicamente os mesmos que para o futebol masculino, excepto por exemplo o Manchester United, que não tem equipa feminina. Em Gales, os principais clubes são o Swansea e o Cardiff.
ADT: Achas que o futebol feminino pode chegar ao nível do masculino?
GL: Com o tempo, sim. Mas também precisa de haver o dinheiro necessário para nos ajudar a crescer. Falta bastante tempo, talvez dez anos, mas haveremos de lá chegar com o tempo.
ADT: Pensas que as mulheres se podem tornar futebolistas profissionais?
GL: Sim. No futuro.
ADT: Achas que as mulheres chegarão a fazer mover as mesmas somas de dinheiro que os homens, em transferências, por exemplo?
GL: Penso que não. Não existe ninguém disposto a viabilizar o dinheiro para nos ajudar.
ADT: Existe, em Gales, uma Liga de futebol feminino?
GL: Sim, existem várias. Existe a Premiership, como os homens têm, as Ligas Galesas...basicamente igual aos homens.
ADT: Quantos escalões existem nas selecções nacionais femininas do País de Gales?
GL: Existem os sub-17, sub-19 e os seniores. Eu só fui aos sub-19, esta é a minha primeira internacionalização.
ADT: Gostarias de chegar à equipa olímpica e aos seniores, claro...
GL: Sim, adoraria participar nos Jogos e chegar aos seniores.
ADT: O vosso grupo é todo novo? Digo isto porque a maioria das portuguesas está agora a conseguir a primeira internacionalização...
GL: Existem algumas jogadoras novas, mas não são assim tantas.

Preferências pessoais
ADT: Que futebolista feminina preferes?
GL: Provavelmente, será a Rachel Yankey.
ADT: Qual pensas ser a melhor equipa de futebol feminino do Mundo?
GL: Diria que é o Brasil.
ADT: E a Marta é mesmo a melhor futebolista feminina do Mundo?
GL: Sim, diria que é. É muito boa.
ADT: Quem é o teu futebolista favorito?
GL: É o David Beckham! (risos) Gosto da atitude dele face ao jogo. Está lá para jogar futebol, e não por causa da fama ou do dinheiro. Ele sobe ao relvado e joga futebol porque gosta.
ADT: E o teu treinador preferido?
GL: É o Alex Ferguson.
ADT: E do Mourinho, gostas?
GL: Não, não gosto do Mourinho (risos).
ADT: Do que é que não gostas nele, e do que é que gostas no sir Alex Ferguson?
GL: Não gosto da maneira como ele responde ao andamento do jogo, não gosto da atitude dele para com os seus jogadores, e não gosto da maneira como treina a equipa. O Alex Ferguson faz tudo pela sua equipa! Não pensa nele próprio, mas sim nas vitórias da equipa, e nos sucessos do clube.
"About a Girl"
ADT: Quais pensas serem as tuas principais qualidades? E os pontos fracos?
GL: Sou bastante rápida, e sou determinada, quero sempre ajudar a equipa. Sou menos boa no cabeceamento, não tenho confiança para abordar a bola.
ADT: O que pensa a tua família da tua opção?
GL: No início, quando era mais nova, não me apoiavam muito. Mas quando me começaram a levar a jogos, e viram como eu era apaixonada, começaram a adorar o facto de eu jogar futebol. Pensam que é a melhor coisa para mim.
ADT: Nunca te disseram que "uma menina devia jogar outras coisas", ou algo semelhante?
GL: Sim, a minha mãe! (risos) O meu pai adora a ideia, e pensa que é o melhor para mim.
ADT: Muitas mães têm medo de que "as suas meninas" se magoem num jogo "duro" como é o futebol. A tua mãe opunha-se à ideia de tu jogares, ou achava apropriado?
GL: Não, achava apropriado. Era com o contacto e com as lesões que a minha mãe se preocupava. Penso que o futebol é um jogo de mulheres. Um jogo de homens seria o râguebi. O futebol é decididamente um jogo para raparigas!
ADT: Já tiveste alguma lesão grave?
GL: Tive alguns problemas nos tornozelos. Aparte isso, nunca tive nenhuma lesão de monta. Arranjo alguns "arranhões", e é tudo.
Portugal Vs Gales
ADT: Esta foi a primeira vez que vieste a Portugal? O que achaste?
GL: É um país muito simpático, e faz muito calor. As pessoas são maravilhosas! Os relvados estão em condições semelhantes aos nossos, mas nós temos muita chuva. Foi agradável jogar numa superfície macia, e não foi muito duro para nós.
ADT: Então um piso molhado dificulta as coisas?
GL: Não, penso que se adequa ao nosso jogo, pois treinamos num assim. Com um piso seco, temos que nos adaptar ligeiramente, mas não muito.
ADT: Que pensas da tua Selecção, a equipa feminina de Gales?
GL: Penso que somos muito boas. Somos um grupo forte e muito chegado.
ADT: Achas que no futebol feminino também há mulheres que pensam que são as "grandes estrelas" da equipa?
GL: Há algumas, em outros clubes, mas não na equipa de Gales.
ADT: Tendo já jogado duas vezes com as portuguesas, quais pensas serem as diferenças entre a forma de jogar delas e a vossa?
GL: A nossa é muito mais física! Portugal faz um jogo tecnicista, são rápidas com os pés. Penso que também temos jogadoras capazes de ser tecnicistas, mas que não é necessário sê-lo. Aquilo que se consegue - mais uns dribles - não nos vai levar mais longe no jogo.
ADT: Sendo assim, deduzo que não gostes do Ronaldo nem do Joe Cole...(risos).
GL: (risos) Gosto do Ronaldo! Mas não gosto do Joe Cole...(risos).

Particularidades do futebol feminino
ADT: Que tipo de treino físico fazes?
GL: Treino todos os dias, excepto ao Sábado. Treino sobretudo no relvado. Fazemos cerca de três sessões no ginásio, e grande partes delas consiste na corrida. Trabalhamos muito com a bola, e levantamos pesos, embora não em excesso. Apenas na "dose" certa.
ADT: O futebol feminino é muito físico. Como se preparam as futebolistas para essa vertente física do jogo?
GL: No meu país, levam-nos para o ginásio duas vezes por semana, e temos que utilizar pesos. Muitas mulheres levantam o seu peso corporal máximo, e evoluem a partir daí. Não há musculação a sério, trata-se apenas de nos fortalecermos.
ADT: É difícil para uma mulher jogar contra os rapazes?
GL: Sim, penso que os homens são muito mais fortes que as mulheres, fisicamente, e muito melhores a nível técnico. Penso que seria injusto para uma rapariga de 19 anos jogar com rapazes dessa idade, mas penso que ao nível dos sub-16, não há mal em as raparigas se misturarem com os rapazes. Uma equipa feminina de sub-19 está ao nível de uma equipa masculina de sub-16.
ADT: Gostas do trabalho de ginásio? Muitos jogadores preferem exercícios com bola...
GL: Não gosto muito, mas sei que para me tornar uma boa jogadora tenho que fazer esse tipo de coisa. Isso ajuda-me dentro de campo.
ADT: Achas que, por exemplo, uma avançada tem que saber defender...?
GL: Sim, é necessário compreender todas as posições dentro de campo, para ver onde é que os nossos colegas estão a errar, no que estão a pensar, e como querem que joguemos para os ajudar.
ADT: Crês que um avançado que não goste de defender é prejudicial à sua equipa?
GL: Sim, temos que saber ajudar! Se, por exemplo, um jogador sair lesionado, e um dos avançados tiver que recuar, ele tem que saber qual é o papel de um médio, para ser capaz de contribuir para a equipa, e ajudá-la.
Rigores da vida futebolística
ADT: Em termos nutricionais, tens que fazer alguns sacrifícios? Afastar-te dos doces, dos fritos...
GL: Sim, bastantes. Tenho que ter uma alimentação muito saudável, não posso comer batatas-fritas, nem comida take-away.
ADT: És pesada com regularidade? Informam-te se estás mais pesada, etc?
GL: No meu clube, fazemos isso muitas vezes. Trimestralmente, vamos ao ginásio e somos pesadas. Mantêm isso sob controlo. Não se preocupam muito com o facto de perdermos peso, mas mais com os músculos, com a perda de massa muscular. Não querem que percamos muito peso, porque no meu país o jogo é muito físico.
ADT: Já falaste na nutrição, mas obviamente há outros aspectos em que não podes fazer a vida normal de uma adolescente. Por exemplo, não podes sair até tarde, etc...
GL: Sim, não nos deixam beber, por isso não há grande lógica em irmos sair. Com o volume de treino que fazemos, não tem lógica fazermos noitadas, porque sabemos que temos de nos levantar cedo e esforçar-nos ao máximo no treino. Se quisermos ser seleccionadas para a equipa, é algo de que temos que abdicar. Também não podemos fumar.
ADT: E quanto ao sono? Dizem-te para dormires oito horas por dia, etc...?
GL: Sim, dão-nos muito tempo para descansar, dizem para dormirmos o máximo que conseguirmos. E obviamente não saímos com os amigos, como os adolescentes normais, por isso temos tanto tempo para nós quanto precisarmos.
Estudos
ADT: E quanto à escola? Os clubes aqui em Portugal dão muita atenção à vertente académica. É assim, também, em Gales?
GL: Sim, temos Academias em que vamos às aulas de manhã e, ao final da tarde, treinamos em equipa.
ADT: Vocês podem ser expulsas por não serem boas estudantes, mesmo que sejam jogadoras talentosas?
GL: Na Academia a que me juntei, no ano passado, tínhamos que conseguir certas notas para podermos entrar e tirar um curso. Se não correspondermos às expectativas em termos de notas, somos expulsas. Não importa se somos boas futebolistas ou não. Temos que nos manter a par academicamente.
ADT: Que curso estás a tirar?
GL: Estou a diplomar-me em Desporto.
ADT: Se não conseguires ser bem-sucedida como futebolista, qual é a tua alternativa?
GL: Gostaria de ser professora, treinadora de futebol, qualquer coisa que tivesse a ver com desporto.
ADT: Tens algum código de conduta que devas seguir?
GL: Sim, em qualquer clube tem que se dar um bom exemplo. Temos de nos comportar na aula como nos comportamos na equipa. Não nos podemos portar mal, temos que ter sempre o melhor comportamento.
Mentalidade
ADT: Dirias que os aspectos mentais são tão importantes como os técnicos?
GL: Sim. Diria que são até mais importantes!
ADT: Entre mentalidade, físico e técnica, qual o aspecto mais importante? E o menos importante?
GL: Diria que é necessário ter porções iguais de todos para sermos bem sucedidos...
ADT: Então se um jogador for muito esforçado, mas tecnicamente um pouco pobre, é mau jogador?
GL: Não. É tão bom quanto os outros todos. Trabalha com afinco, aplica-se, e faz o seu trabalho.
ADT: E vice-versa? Um jogador muito bom tecnicamente mas de mentalidade pobre, é mau jogador? Ou continua a ser bom?
GL: Continua a ser bom. Está lá, está na equipa, faz o seu trabalho...Os avançados, por exemplo; a sua função é apenas atacar, não precisam de se preocupar com fazer o trabalho todo. Têm outros jogadores, atrás deles, para os ajudarem com isso.
ADT: Quais pensas serem as principais qualidades de um bom capitão?
GL: Têm que estar dispostos a empenhar-se, ajudar, dizer a todos o que devem fazer. Têm que mostrar apoio, e estar sempre lá para a equipa, basicamente.
ADT: Pensas que darias uma boa capitã de equipa?
GL: Penso que conseguia, mas não é algo que queira fazer.
ADT: Porquê?
GL: É muita responsabilidade! (risos).
Nome: Gemma Lewis.
Data de Nascimento: 08/09/1990 (18 anos).
Altura: 1,70m.
Posição: Avançada.
Clube: Bristol Rovers.
Entrevista realizada no dia 28 de Agosto de 2008, no Amazónia Jamor Hotel.
Texto: Pedro Benoliel.
Imagens: Academia de Talentos.
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