Entrevista
Entrevista com João Alves (Parte 3)
Abordando esta época, o Mister João Alves disponibilizou-se para falar da inclusão do Mister Bastos Lopes na equipa técnica dos juniores, na aposta clara de contratação de jogadores portugueses, na sua experiência no mundo do futebol como treinador e na apreciação das maiores referências da sua equipa e da amizade que tem para com Paulo Bento.
ADT: No seguimento do que já falámos sobre o acompanhamento da equipa técnica dos seniores à equipa júnior, também existe o mesmo tipo de acompanhamento da equipa técnica dos juniores à equipa dos juvenis?
JA: Claro que sim. E agora mais do que nunca, tendo em conta que temos um plantel curto e precisamos do apoio deles. Quase todos os jogos temos tido três ou quatro jogadores dos juvenis no banco.
ADT: Como caracteriza a inclusão do Mister Bastos Lopes na equipa técnica dos juniores?
JA: Excelente. Volto a repetir que há situações que fazem parte do foro interno e há coisas que não podem ser reveladas, porque é que foi e porque é que não foi. O Benfica tem de ser um clube fechado, e são coisas que têm de ser mantidas cá dentro.
Aquilo que aconteceu com o Bastos Lopes foi o seguinte: foi meu colega como jogador do Benfica e somos amigos há muitos anos, acho que a simbiose dele comigo é excelente, em termos do seu temperamento, e da forma de nós trabalharmos e pormos as coisas a funcionar. Ele tem alguma experiência da formação e conhece alguns destes miúdos desde pequeninos, é uma pessoa que vem mesmo da formação. O Bastos Lopes nasceu nisto, eu não nasci nisto, quer dizer nasci como jogador mas em termos de técnico eu sou um treinador que veio muito mais do futebol profissional. E este acasalar de características é muito importante. O Bastos Lopes tem um relacionamento muito bom com os jogadores, é um homem do futebol, consegue uma empatia muito boa com os jogadores, gosta muito do Benfica, e tem coisas interessantes. Por exemplo, o Bastos Lopes ainda trata os juniores como trata os infantis. Essas coisas são positivas para se trazer para o grupo.
Por exemplo nós temos aqui uma caixinha das multas que fazemos para partilhar o ambiente, e o Bastos Lopes às vezes parece um polícia, de bloco na mão, a ver quem é que deve, e já me apanhou muitas vezes a mim. São pequenas situações que fazem com que se crie um ambiente fundamental. O papel dos treinadores colaboradores, como gosto de lhes chamar, também visa criar um bom ambiente no grupo de trabalho, em que tem de se fazer uma gestão das emoções dos jogadores e fazer perceber que para o treinador principal os jogadores são todos iguais. No futebol só podem jogar 11 e há sempre jogadores que ficam tristes e descontentes, e volto a repetir que um dos papéis dos trabalhadores colaboradores é estar atento e saber actuar para criar um bom ambiente de trabalho. É fundamental haver um jogo de características entre a equipa técnica e é isso que está a acontecer connosco.
ADT: Ao contrário do ano passado, este ano o Benfica apostou claramente na contratação de jogadores portugueses. Há pouco indicou que já o ano passado tinha referido que esse deveria ter sido o caminho. Porque é que acha que este ano isso aconteceu?
JA: Eu acho que é de bom senso toda a gente entender isso, e aliás as selecções estão já a sofrer o efeito disso mesmo. Em Portugal há grandes jogadores com uma qualidade acima da média, agora é preciso é estar em cima deles. No futebol sénior, seja do Benfica, do Sporting ou do Porto, é importante que a base seja feita de jogadores portugueses. E se vierem da sua formação melhor ainda. E isto por causa do chamado espírito de equipa, da mística do Benfica, a tão falada mística. Muita gente fala de mística e não sabe o que é a mística, nem sabe explicar o que é a mística. A mística, essa palavra tão complexa, é exactamente construída através de jogadores que tenham as raízes do clube, porque é fundamental haver um núcleo forte de jogadores dentro de qualquer clube que tenha a ver com esta mística, com este nascimento do clube, e logicamente se forem portugueses melhor ainda. Não estou dizer que um miúdo brasileiro que chegue aqui aos juvenis ou juniores e que jogue bem não seria bem recebido, claro que é recebido e é envolvido no próprio clube, como outros que têm aparecido e que até vão à selecção. Mas a aposta no futebol português vai ajudar a criar as bases do futebol que vem a seguir.
ADT: Têm havido também muitas críticas na forma como direcciona os treinos. Alegam que apenas consistem de corrida e peladinha. Relativamente à sua metodologia de treino pode-nos adiantar alguma coisa?
JA: Vamos lá ver, eu até hoje tenho 24 anos de carreira, já trabalhei provavelmente com os melhores preparadores físicos deste país todo, com Carlos Azenha, Mário Monteiro entre outros. O que eu quero dizer com isto é que eu tenho de ser muito burro, tinha de ser muito distraído para não ter aprendido nada com estas pessoas na parte física.
Na parte táctica, eu devo dizer que sempre que há acções de formação, acções que visam o enriquecimento dos meus conhecimentos, todos devemos estar presentes. Sou muitas vezes convidado para determinadas acções desse género, todos os anos vou gastar muito dinheiro em livrarias, vou a Espanha e França comprar as últimas coisas, desde vídeos a DVD's e livros, todas as publicações, etc. Eu estou em cima da situação. Primeiro que tudo, pela nossa base de trabalho, onde eu gosto de envolver as pessoas que trabalham comigo e deixá-las trabalhar. Portanto, têm toda a liberdade de acção, tanto o meu preparador físico como o treinador colaborador. Há todo um trabalho de equipa que é feito pelos técnicos, onde todos os treinos são planificados e preparados com bastante tempo de antecedência.
ADT: Quais são os pontos fortes da equipa de Juniores do Benfica deste ano?
JA: Há jogadores muito habilidosos, muito criativos. A equipa do Benfica é uma equipa muito mas muito criativa, os jogadores são muito talentosos, muito bons no um contra um, talvez um pouco individualistas, mas é importante que haja jogadores individualistas, porque são jogadores que desequilibram e esse tipo de jogadores são cada vez mais difíceis de aparecer no futebol moderno, porque são jogadores muito motivados no treino. Eu sou apologista e gosto, e acho que qualquer treinador deve privilegiar, deve apostar no jogador criativo, no jogador individualista no bom sentido, que é capaz de ser individualista a trabalhar para a equipa e não a fazer espectáculo. Cada vez mais estes jogadores vão sendo raros no mundo do futebol, e a função dos treinadores é digamos optimizar estes talentos dentro de determinadas linhas de orientação e dando liberdade de criação nos lances dentro do campo.
ADT: É importante haver todo este tipo de infra-estruturas no desenvolvimento do atleta?
JA: Claro que é muito importante. Como sabe, antigamente, o jogador jogava na rua, havia espaços verdes, mas os jogadores, fazendo uma comparação com os do meu tempo, tinham muito mais talento, eram mais criativos, porque eram jogadores de rua. Hoje em dia, o jogador passou a ser jogador de escola, por isso é que há as escolas de futebol, pelas coisas boas e pelas coisas más que existem.
No mundo actual, onde é difícil jogar na rua, uma equipa como o Benfica ao ter esta quantidade de campos, logicamente que pode rentabilizar o trabalho dos seus jogadores. Há aqui miúdos que estão e vivem aqui de manhã à noite, que estudam e jogam à bola, portanto estão a ser preparados, ou pelo menos direccionados para virem a ser jogadores de futebol, sem esquecer a vertente dos estudos. Este numero de miúdos é realmente enorme, desde escolas e infantis, é realmente um número infinito de miúdos, e acho que logicamente quanto maior número de miúdos houver maior a probabilidade de em mil se descobrirem dez talentos. Quanto às condições de trabalho, logicamente que é fundamental, eles sabem que têm aqui tudo para sonhar e para poderem trabalhar objectivamente com o fundamento que é virem a ser jogadores profissionais.
ADT: Falando agora um pouco dos jogadores que chegaram este ano à equipa, poderá falar-nos um pouco de cada um e o que cada um trouxe à equipa? Começando pelo Pedro Miranda...
JA: O Benfica precisava de mais um guarda-redes, e o Pedro Miranda, dentro da nossa análise e da nossa perspectiva, tem condições para fazer parte do plantel dos juniores, tem qualidades.
ADT: Relativamente ao Danilo Pereira que veio do Estoril...
JA: O Danilo Pereira foi recrutado pela prospecção do Benfica, não teve nada a ver comigo a sua vinda para o Benfica, mas sim com o departamento de prospecção, que observa jogadores. Depois alguns integram logo o plantel e outros vêm cá à experiência, e depois aí já tem mais a ver com a minha opinião sobre eles. O Danilo é um miúdo que vem de uma realidade diferente, mas que tem coisas muito importantes para poder ser alguém. É que ele quer ser alguém e isso é uma condição muito importante para o ser, tem humildade, quer aprender, tem qualidades físicas e técnicas, tem qualidades morais, e é um miúdo que em dois meses que está a trabalhar connosco evoluiu enormemente. Ao princípio se calhar torci um bocadinho o nariz e tive algumas reticências, mas neste momento cada vez estou mais convencido de que ele é capaz de lá chegar. À parte das qualidades que tem, que são dele, há coisas que são importantes também, que é o querer aprender, o querer ser alguém, o querer triunfar, e isso tem sido demonstrativo nele porque teve uma grande evolução de à dois meses para aqui.
ADT: Quanto ao Hélio Vaz que veio para cá no seu último ano de júnior e que só agora deu nas vistas. Como é possível que ele aos 18 anos tivesse escapado à prospecção dos grandes clubes?
JA: É normal que haja jogadores que passem ao lado da observação, as pessoas não são infalíveis. Esse miúdo, o Hélio, é também um bom jogador, tem determinadas qualidades. Eu não gosto muito de me referir individualmente aos jogadores, agora o que eu posso dizer é que nós temos neste momento dezoito jogadores no plantel em condições de jogar e que todos eles têm qualidade. Agora, há uns melhores que outros, mas há aqui "malta" com muita qualidade.
ADT: No que diz respeito ao Pedro Eugénio que foi emprestado em Dezembro ao Farense e que este ano regressa à equipa...
JA: O Pedro Eugénio foi emprestado, tal como mais um ou outro também deveriam ter sido emprestados, porque nestas idades é fundamental jogar. Pode ser muito bonito para o ego dos pais, ou para o ego do próprio atleta e para os amigos, usar um fato-de-treino do Benfica e uma camisola do Benfica. Mas depois não evolui, não tem possibilidades de jogar, ou tem poucas possibilidades de jogar, porque o futebol quer nós queiramos quer não é controlado por várias regras e vão sempre haver onze miúdos a jogar mais que os outros.
E no que toca ao Pedro Eugénio, na altura, chegou-se à conclusão de que, até em termos da própria formação para ele como pessoa, era muito importante ir outra vez ter dificuldades. No Benfica isto aqui é só facilidades, é uma maravilha, parece um hotel de cinco estrelas. Às vezes faz bem às pessoas irem outra vez ao encontro da realidade, ganhar a humildade de que precisam.
O Pedro Eugénio é filho de um ex-jogador meu, o Eugénio, e por norma ao longo da minha carreira fico com uma grande relação com os meus ex-jogadores. Há uma coisa que eu não faço e não gosto que é favores a ninguém, mas ajudo sempre as pessoas. E às vezes ajudar uma pessoa não é tomar a decisão mais fácil e a mais simpática, às vezes é preciso tomar a decisão mais antipática e a mais difícil, que foi o meu caso em decidir que este jogador vai para ali, vai jogar e se quiser voltar ao Benfica vai ter de pedalar e mostrar outra vez que tem valor.
O Pedro Eugénio foi fazer a digressão (NDR: Torneio Dallas Cup) aos Estados Unidos contra adversários fortes porque quis vê-lo, perspectivando o regresso dele este ano. E cá está ele outra vez e a jogar muito bem! Foi uma pena ter acontecido o que aconteceu, até fiquei muito admirado por ele não ter sido convocado para a selecção recentemente. É claro que respeito as decisões de quem manda, mas na verdade ele teve um crescimento, mesmo num clube da II Divisão. Jogou todos os Domingos, e foi entendendo que para ser alguém é preciso sacrificar-se e foi o caso. Portanto voltou a treinar possivelmente com as meias rotas, voltou a tomar banho de água fria, voltou a bater com o traseiro nos pelados e isso é muito bom.
ADT: No seu entender o Nélson Oliveira é para jogar a 11 ou a 9?
JA: O Nélson Oliveira, para mim, é um avançado puro, que pode jogar a ponta-de-lança, posição que para mim é o lugar dele. É um jogador do meio, isso não há dúvida. Nós temos que respeitar as opiniões dos outros treinadores e eu tenho que respeitar essa opinião.
Eu acho que cada vez mais os jogadores que jogam naquele lugar estão caríssimos, tanto a nível nacional como europeu. Há uma falta imensa de jogadores naquela posição, e o Nélson logicamente que tem ainda defeitos, tem de melhorar o seu jogo de cabeça. Já falei com ele, e já estamos a tentar melhorar esse aspecto muito marcante, pela especificidade do lugar de um avançado centro. Agora, ele tem tudo para vir a ser um grande jogador, melhorando determinados aspectos, querendo aprender, não tendo a mania que já sabe tudo...por acaso é um miúdo bastante humilde e com vontade de aprender, a quem eu auguro um grande futuro.
Já lhe fiz ver que ele foi convocado para a selecção de sub-19 ainda como juvenil, e foi para avançado porque há falta de jogadores nessa posição e as pessoas não andam a dormir. Já houve contactos com o Benfica de grandes clubes internacionais que já o têm debaixo de mira, e isto porque ele joga numa posição onde vão rareando os jogadores com qualidade técnica como ele tem. Há é que melhorá-lo naquilo que ele é menos forte, mas tentando fazer-lhe ver e tentando levá-lo para aquele lugar, porque aquele é que é o lugar onde ele pode vir a ter um grande futuro, e vir o Benfica também a lucrar com isso mesmo.
ADT: Quanto ao André Soares que é esquerdino, ele este ano vai jogar na esquerda ou na direita?
JA: Na esquerda e na direita que era onde jogava. Numa equipa com alguns esquerdinos não podem jogar os dois do mesmo lado, logo um vai ter de ir para o lado contrário. O André Soares, em Setúbal por exemplo, começou no lado esquerdo e o Figueiras no lado direito e passados cinco minutos sem eu dizer nada ele apareceu-me no lado direito e o Figueiras no lado esquerdo. Naturalmente que ele é um jogador inteligente e que sabe ver qual o defesa que mais fácilmente consegue ludibriar. São coisas que não se aprendem, que nascem com o jogador, e nesse aspecto há os jogadores mais espertos que os outros e por isso é que são melhores. Aquele que é mais esperto, aquele que vê onde está o defesa de que pode tirar partido. E ele tem essa faculdade de jogar muito bem do lado direito, até porque consegue romper para dentro e porque gosta de chutar. Quando se consegue jogar bem em ambos os lados é muito positivo para o jogador e para o clube.
ADT: O Coelho, que teve algumas complicações com o Porto antes de ingressar no Benfica, foi um jogador pedido pelo Mister ou imposto pela Direcção?
JA: Eu não peço o jogador A, B, C ou D, eu peço em função das lacunas ou das carências que existem na equipa, como já fiz ver quais são em relação ao mercado de Janeiro. Até porque vamos chegar a essa altura com muitos jogos nas pernas, e o Benfica tem de ter mais dois ou três jogadores. Eu já disse para posições é que são precisos. Logicamente que a partir daí, ou as pessoas confiam nas pessoas com quem trabalham e chegam jogadores já contratados, acreditando em alguém que tem conhecimento sobre o jogador, ou então normalmente o que acontece são jogadores que vêm à experiência e que se agradam ficam e se não agradam vão-se embora. O Coelho é um dos jogadores que o ano passado suscitou a ideia de o contratar, e com o desenrolar dos acontecimentos isso acabou por só acontecer no início desta época.
ADT: Ele é um jogador que pode ocupar várias posições, mas na sua equipa qual é a posição que ele deve ocupar? Ele próprio diz preferir actuar como 2º avançado ou como organizador de jogo.
JA: Eu acho que um jogador na minha equipa tem de estar preparado para jogar nas posições que eu lhes peço. Tenho dezasseis jogadores, é um plantel pequeno, e uma das coisas que é importante para poder chegar a bom porto, é haver polivalência nesses dezasseis jogadores, porque se houver especialidades num lugar torna-se mais complicado. Até porque o jogador polivalente torna-se melhor jogador, porque é mais completo. Portanto o Coelho está aqui para jogar onde for preciso. É importante deixar claro que apesar de só termos dezasseis jogadores de campo, ainda vão haver seis que vão ficar de fora (no banco de suplentes). E isto é um alerta para todos eles! Agora, logicamente que é importante, se for possível, que joguem todos, porque esta é uma fase decisiva na carreira deles e eu gosto de dar oportunidades a todos eles. Qualquer individualidade tem de entrar aqui e saber estar ao serviço de uma equipa, se a equipa joga desta maneira o jogador tem de saber adaptar-se, e depois estamos cá nós para vermos onde o jogador tem mais rendimento. Logicamente que estamos a falar de um jogador que jogou sempre nas alas, mas que também pode jogar, como já jogou comigo, como segundo avançado.
ADT: Uma das surpresas do ano passado foi a utilização do David Simão como médio de contenção, quando todos julgavam que ele fosse continuar a jogar como médio interior esquerdo, actuando como organizador de jogo. Essa opção de o recuar no terreno e dar-lhe tarefas mais defensivas foi para o tornar um jogador mais completo?
JA: Exacto, também. Mas na minha opinião, cada vez mais, aquele conceito que se tem do trinco, do médio defensivo, é um conceito errado das pessoas. Há o médio defensivo do pequeno clube, que é um destruidor de jogo, e há o médio defensivo do grande clube. O médio defensivo do grande clube tem de ser o primeiro organizador de jogo, como é o caso do Miguel Veloso.
Indo para o Miguel Veloso, e talvez seja um bom exemplo, o Miguel Veloso tecnicamente é um jogador evoluidíssimo, mas é um jogador que não tem velocidade para fazer desequilíbrios no meio campo ofensivo. Então a melhor forma que arranjaram para aproveitar a sua capacidade técnica, a sua leitura de jogo, a sua inteligência, foi recuá-lo para uma posição onde ele tenha bola e onde ele organize jogo.
Concretamente no que respeita ao David Simão, é um pouco isso também que acontece. O Simão é um organizador de jogo moderno, que tem de melhorar alguns aspectos, porque não é um trinco defensivo que está ali para partir pernas. Logicamente que se eu quiser num jogo ou outro jogar com um médio que destrua, como se diz na gíria futebolística, não será o Simão. Agora, o que eu posso dizer é que acho que ele fez uma excelente época o ano passado e penso que por ter jogado ali conseguiu melhorar como jogador.
ADT: Em relação ao João Pereira que era central de raiz e o ano passado começou a jogar como lateral esquerdo, e este ano parece ter perdido o lugar no eixo da defesa para o Roderick Miranda. Na sua mente o João Pereira é para jogar a lateral esquerdo ao longo da época?
JA: Vamos lá ver, o que nunca pode acontecer é colocar em causa o futuro de um jogador paralelamente ao do clube. Se eu tiver um juvenil que eu sinta que pode fazer a diferença no plantel, se ele tiver que saltar dos juvenis para os seniores, eu acho que deve saltar, e isso é que é formação. Não poderemos querer ganhar campeonatos de qualquer maneira e devemos privilegiar esse tipo de situação.
No que respeita ao João Pereira, ele começou a jogar no Benfica como defesa esquerdo durante muitos anos, mas neste momento está a jogar nessa posição porque não há mais nenhum defesa esquerdo, e o João Pereira é o único jogador que naturalmente pode jogar naquele lugar e bem. E mais, é que as vezes os jogadores prejudicam-se porque existem pessoas que lhes metem na cabeça que ele só pode ser central ou que só podem jogar numa determinada posição. Neste momento, não há muitos laterais em Portugal com a estampa física e a facilidade de defender bem, a poder jogar como o João Pereira, porque o João não é daqueles jogadores rotativos que sobe muito.
Em Portugal existe muito o conceito de que o lateral tem de fazer o corredor todo, mas as equipas têm de ser equilibradas, e eu pelo menos gosto muito de jogar com um lateral que ataca melhor e outro que defenda melhor. Concretamente, qualquer equipa deve ser feita de equilíbrios, seja na defesa, seja no meio campo, seja no ataque, por isso é que as características dos jogadores podem acasalar umas com as outras. Por exemplo, se eu tiver dois centrais muito bons na marcação, mas que um seja melhor organizador que o outro, esse tem de recuar e isso é muito importante, porque se forem os dois maus na organização vai haver falhas no desdobramento da equipa quando fizerem a transição defesa-ataque. As equipas devem por isso ser equilibradas em termos físicos, em termos técnicos e em termos psicológicos. A busca dessa perfeição é o que faz as grandes equipas.
ADT: Outro jogador que tem chamado a atenção dos adeptos é o Lassana Camará. Em que posições julga que ele pode jogar?
JA: Do meio campo para a frente, julgo que pode jogar em qualquer lugar do lado direito ao lado esquerdo.
ADT: Isso quer dizer que na sua óptica ele pode jogar como extremo?
JA: O Saná é um grande talento do Benfica, mas é evidente que é um jogador mais de dentro do que de fora, o que não significa que se nós quisermos jogar de determinada maneira, ele não possa jogar como extremo direito, com liberdade de movimento, pisar outros terrenos. Mas é óbvio que ele é mais um interior, um médio ofensivo. É um excelente jogador!
ADT: ... mas acredita que ele pode jogar como avançado centro?
JA: Ele jogou como avançado centro contra o Estrela da Amadora e jogou muito bem. Ele é um portento, é um grande talento.
ADT: Relativamente ao Rui Ferreira, falou-se muito sobre um possível episódio de indisciplina no jogo com o Sporting na Academia. A sua dispensa prendeu-se com esse facto?
JA: Não, isso não corresponde à verdade. O Rui Ferreira, que eu saiba, fez parte de um negócio que o Benfica fez com o Estrela da Amadora, entrou cá um guarda-redes da selecção de sub-17 e o Rui foi para o Estrela da Amadora. O ano passado, foi um dos jogadores que eu penso que deveria, e quis até que ele fosse emprestado. Quando se empresta alguém não quer dizer que a gente se queira ver livre dele. Foi o que aconteceu com o Pedro Eugénio em que foi emprestado, evoluiu e conseguiu regressar.
Mas o Rui Ferreira não quis ser emprestado porque tinha contrato, mesmo depois de ter sido altamente aconselhado por mim, que devia e seria o melhor para ele ser emprestado para poder jogar. Se calhar devia ter havido mais alguém a aconselhá-lo. E realmente ele acabou por jogar pouco ao longo da época e acabou por ser negativo para ele.
Só que às vezes os jogadores pensam que tudo o que dizem os treinadores é com maldade, e é preciso fazê-los ver que não é bem assim. Eu por norma não guardo rancor a ninguém, e como sou pai sei que eles estão na idade de cometer erros. Para além de ser disciplinador, há que saber o porquê das coisas e perceber que eles estão na idade de cometer erros. No ano passado eu falei com o Rui e disse-lhe que achava que era o melhor para ele ser emprestado, porque é importante jogar. Hoje temos o exemplo do Pedro Eugénio que saiu e voltou, e o caso do Rui Ferreira que ficou e agora saiu. Ninguém manda embora ninguém por que lhe apetece, e realmente o Rui foi incluído num negócio com o Estrela, que a direcção julgou ser o melhor para o Benfica.
ADT: Para terminar, o Paulo Bento fala muitas vezes no João Alves como um treinador que o marcou bastante no futebol. Será o Mister João Alves um dos "pais" do Paulo Bento no mundo do futebol?
JA: Logicamente que me sinto muito orgulhoso quando o Paulo Bento diz isso. É lógico que ele foi marcado bastante por mim, da mesma forma que eu fui marcado pelo Pedroto e pelo Eriksson.
Normalmente, a sequência de uma carreira de jogador é ser treinador, e é natural que os treinadores passem coisas para os treinadores, a sua maneira de ser, o seu tratamento especifico do futebol, toda uma linguagem que tem a ver com os conhecimentos, experiências e ligações que houve entre jogadores e treinadores. Quando olho para o Paulo Bento, revejo-me com toda a sinceridade em muitas coisas, embora estejamos a falar de uma pessoa que tem o seu temperamento. Mas sinto que houve algo que passou para lá, o que é normal, porque um dos papéis dos treinadores é marcar os jogadores.
Entrevista realizada no dia 24 de Setembro de 2008, na Sala de Imprensa do Caixa Futebol Campus, no Seixal.
Texto: Ricardo Nascimento.
Imagem: Academia de Talentos.
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