Entrevista
Entrevista com João Gonçalves
O Olivais e Moscavide fez uma época quase perfeita no Campeonato da II Divisão, e teve no seu bloco defensivo a sua grande arma. Um dos esteios da defesa foi João Gonçalves, jovem lateral direito emprestado pelo Sporting. A Academia de Talentos foi falar com ele.
Academia de Talentos - Faz-nos um balanço da época?
João Gonçalves - Foi muito positiva. Para o primeiro ano de sénior não podia correr melhor, joguei em quase todos os jogos e consegui evoluir bastante em termos defensivos. Isto, porque na formação do Sporting passamos quase 90% do tempo a atacar e para um defesa, como é o meu caso, penso que foi bastante benéfico, porque aqui estamos mais em foco a defender.
ADT - Então foram só pontos positivos?
J.G. - Sim, penso que sim.
ADT - E a equipa? Como evoluiu?
J.G. - Penso que evoluiu bem, no início poucos se conheciam, foram chegando muitos jogadores a conta gotas, mas as coisas foram evoluindo cada vez melhor, e agora na parte final da época parece que já jogamos juntos há muito tempo.
ADT - O que pensas do plantel do Olivais e Moscavide? Achas que a mescla de jogadores jovens e mais experientes resultou bem?
J.G. - Penso que os jogadores mais velhos ajudaram bastante os mais jovens, e eles encararam isso muito bem, o que lhes permitiu evoluir muito.
ADT - Fala-nos um pouco do teu treinador durante este teu primeiro ano de sénior, o Filipe Moreira.
J.G. - Para mim foi muito bom, joguei sempre. Não teve medo de apostar nos jovens, deu-nos sempre muita confiança e o sucesso da equipa deveu-se principalmente a ele.
ADT - Já te consideras um defesa direito puro?
J.G. - Não é bem assim. Joguei muitos anos no meio campo, gosto muito de jogar lá, mas sinto que também posso desempenhar bem as funções de lateral direito. E o facto de poder ser utilizado nas duas posições, é uma mais valia para mim e dá maiores opções ao treinador.
ADT - Esta época jogaste mais na lateral direita do que no meio campo?
J.G. - Joguei mais como lateral direito, mas em algumas partidas o treinador passou-me para o meio campo já no decorrer do jogo.
ADT - Sentes-te melhor em que posição?
J.G. - Não tenho preferência. Jogo no lugar que o treinador entender.
ADT - Quem te adaptou a defesa direito?
J.G. - Eu comecei a jogar a defesa direito nos juvenis, com o mister Luís Martins. Houve lesões, e num jogo em Alverca entrei, cumpri e fiquei a jogar lá. Depois nos juniores com o mister José Lima, eu vinha de uma lesão, os jogadores que estavam a jogar na direita não estavam bem, e no jogo com o "Pescadores" o Mister entendeu colocar-me naquela posição, desempenhei bem as minhas funções, depois na semana seguinte fomos ao Seixal defrontar o Benfica, continuei a jogar como lateral e fiquei nessa posição até ao final da época.
ADT - Consideras que foi uma adaptação feliz para a tua carreira, e que se adequa às tuas características?
J.G. - Penso que foi bastante positivo para a minha carreira pois fiquei habilitado para fazer as duas posições e isso foi bom para a minha evolução.
ADT- Fala-nos um pouco da tua formação no Real Massamá, antes de ires para o Sporting.
J.G. - No Real foi onde tudo começou para mim, era o clube mais perto da minha casa e eu sempre quis jogar futebol. Houve um dia em que fui lá treinar às escolinhas, o mister aceitou-me, e fiz lá dois anos. No último ano de escola surgiu a possibilidade de ir para Alvalade.
ADT- Como se deu o processo de transferência para o Sporting?
J.G. - O primeiro clube interessado em mim foi o Estrela da Amadora. O meu pai disse-me que era melhor não ir e o mister Luís Dias também me influenciou para não ir. Depois, ele (Luís Dias) foi para o Sporting, surgiu a proposta e eu aceitei. De seguida apareceu uma proposta do Benfica mas eu já me tinha comprometido com o mister e não ia mudar de opinião.
ADT - O mister Luís Dias foi muito importante para ti?
J.G. - Foi fundamental para a minha adaptação nos primeiros anos no Sporting.
ADT - Fala-nos um pouco dos teus treinadores na formação?
J.G. - Nas escolas tive o Luís Dias, depois quando fui para o Sporting, nos infantis tive o Mister Nuno Naré e o adjunto era o Leonel Pontes, nos Iniciados tive o mister Palhais e o Luís Gonçalves no segundo ano. Nos juvenis foi de novo o Luís Martins e o João Couto e nos juniores o Paulo Bento, o Luís Martins e o José Lima.
ADT - Qual foi o que te marcou mais?
J.G. - O que me marcou mais foi o Luís Dias, mas depois, cada um marcou-me à sua maneira, aprendi com todos e ajudaram-me em tudo.
ADT - Como está a tua situação com o Sporting?
J.G. - Tenho ainda contrato por mais uma época.
ADT - Como vai ser o futuro?
J.G. - Ainda não sei, ninguém me contactou.
ADT - Pensas voltar ao Sporting?
J.G. - É esse o meu grande sonho.
ADT- Já fizeste a pré-época com os seniores do Sporting. Qual foi a sensação de treinares ao lado de grandes nomes do futebol português?
J.G. - Foi uma grande experiência. Dificultou-se um pouco porque fui para o Campeonato da Europa e por causa disso estive pouco tempo com eles. Mas foi óptimo, aprendi muito e treinar com a equipa principal é o sonho de qualquer jogador que está na Academia.
ADT- Como era o ambiente entre os jogadores?
J.G. - Era muito bom. Foram todos muito simpáticos e solidários. Os jogadores que estavam há mais tempo no clube ajudavam e apoiavam sempre os mais novos e os reforços que acabavam de chegar.
ADT- Qual é a tua opinião sobre o facto do Sporting exportar tantos jogadores jovens para o plantel principal e depois para o estrangeiro?
J.G. - O Sporting tem o mérito de ter na formação e prospecção pessoas muito competentes, que sabem ir buscar os jogadores certos, sabem trabalhá-los e depois apostam neles. Nos outros clubes vê-se jogadores com muita qualidade mas depois chegam ao plantel sénior e ficam para trás.
ADT - Quais foram os escalões da selecção que já representaste?
J.G. - Sub 16, 17, 19 e 20.
ADT - Costumavas ser o capitão?
J.G. - Eu era o sub-capitão e o Daniel Carriço era o capitão, pois éramos os jogadores que tinham marcado sempre presença nas selecções. Cheguei a ser capitão por duas ocasiões, a primeira foi quando o Daniel se lesionou, e a segunda foi quando ele foi expulso.
ADT- Tens sido chamado para os sub-20. E agora quais são os teus objectivos na selecção?
J.G. - O meu primeiro objectivo é ser chamado aos sub-21. Quero jogar num clube do escalão principal, quero estar bem para ser chamado aos sub - 21 e quero continuar o meu percurso na selecção.
ADT- Como é a tua rotina diária?
J.G. - Acordo bem cedo, sou sempre o primeiro a chegar aqui, gosto de fazer as coisas com calma, às vezes ainda vou ao café, noutras vezes fico logo aqui. Converso com o roupeiro e com o enfermeiro que também chegam sempre cedo. Vou um pouco ao ginásio e depois treino. Sou sempre dos últimos a sair do balneário, e depois almoço com o pessoal daqui, ou com amigos, ou com colegas da faculdade. À tarde vou ter com amigos ou vou para casa descansar.
ADT- Estás na faculdade?
J.G. - Estou matriculado em Gestão Hoteleira mas devido aos treinos não tenho comparecido muito às aulas.
ADT- Os teus projectos passam por acabar o curso ou preferes dedicar-te por inteiro ao futebol?
J.G. - Em primeiro lugar está o futebol, mas se não der aquilo que eu espero, vou-me dedicar ao curso.
ADT- O Real Massamá é um clube famoso na formação. Já exportou jogadores que agora estão em grandes clubes como foi o caso do Nani ou do Ricardo Vaz Tê. Também têm uma boa política na formação?
J.G. - Quando eu passei por lá, tinha pessoas que tratavam os atletas da melhor maneira, lembro-me que ajudavam muito os jogadores, como foi o caso do Nani que estava com problemas. E isso reflecte-se também na evolução dos jogadores. Penso também que têm um pouco de sorte, porque não têm uma política de observação e contratação como por exemplo o Sporting tem, mas os jogadores que vão para lá têm muito valor.
ADT - Foste colega do Nani nas escolinhas, já na altura era um craque?
J.G. - Era muito bom jogador, já se previa que ele ia ter muito sucesso.
ADT- O Olivais e Moscavide dominou por completou a série D deste campeonato, que tinha equipas muito boas e com grandes aspirações. A que é que achas que se deveu esse domínio?
J.G. - Quem acompanhou este campeonato viu que fomos muito superiores. Era uma série muito competitiva, à partida, o Louletano era um forte candidato a subir mas acabou por descer. O Madalena ganhou os seus primeiros 7 jogos mas também eles acabaram por descer. Ai pode ver-se a competitividade desta série.
ADT- A equipa tinha uma defesa muito sólida, sofreu poucos golos, e tu foste um dos responsáveis...
J.G. - Penso que o mérito foi de todos. Quando se marca muitos golos é injusto dar mérito só aos avançados, e penso que quando se sofre poucos golos também é injusto premiar só os defesas. Toda a equipa defendeu muito bem, os avançados têm um papel fundamental no processo defensivo da nossa equipa e por isso é que fomos felizes nesse capítulo.

ADT - O facto de estarem aqui alguns jogadores que foram teus colegas no Sporting, também ajudou à tua adaptação?
J.G. - Foi muito importante, já conhecia o João Martins e o Tiago Pinto, também já tinha jogado com o Hugo Pina e o Jorge Tavares, e todos eles me ajudaram a ambientar ao clube.
ADT- Relativamente a esses teus colegas que vieram contigo do Sporting para Moscavide, achas que a época também foi positiva para eles?
J.G. - Penso que sim, o João Martins não foi muitas vezes titular, mas sempre que entrou, cumpriu bem as suas funções. O Tiago jogou sempre e desempenhou muito bem o seu lugar.
ADT- Qual é o momento que guardas com mais carinho na tua carreira?
J.G. - Foi fazer a pré-época com a equipa principal e jogar no Campeonato da Europa pela selecção.
ADT - Já tiveste uma lesão grave há algum tempo. Como é que um jogador tão jovem lida com esses momentos?
J.G. - É muito complicado. Eu estava a fazer a transição dos juvenis para os juniores e é uma altura complicada, pois passamos a jogar com jogadores mais velhos e eu estava numa fase de afirmação. Era o sub-capitão da selecção e vi tudo ir por água abaixo numa fracção de segundo em que as coisas não correram bem. A família foi muito importante, os amigos também e o Sporting apoiou-me em tudo. Hoje felizmente já está tudo bem.
ADT- Como é que se deu a lesão?
J.G. - Foi no segundo treino da época, estávamos a fazer o aquecimento e num exercício de 1x1, coloquei mal o pé e torci-o.
ADT- Para além dos treinadores que outras pessoas te ajudaram e foram importantes na tua formação?
J.G. - Destaco principalmente a minha família que me apoiou em tudo, nomeadamente nos momentos mais difíceis.
ADT- Tu estás emprestado, os jornais falam muitas vezes de empréstimos, mas muitas pessoas não sabe como se dá esse processo. Descreve-nos o teu caso?
J.G. - A equipa técnica principal do Sporting considerou que ainda era cedo para eu ficar no plantel principal, mas acharam que eu tinha potencial e resolveram emprestar-me. Para mim, foi a melhor solução vir para aqui, e durante a época vi muitas pessoas ligadas ao Sporting a ver os nossos jogos, e perguntavam-me sempre se estava tudo bem e acompanharam a minha evolução.
ADT- Durante esta época, quando te lesionaste, onde foi feita a recuperação da lesão?
J.G. - Foi na Academia, o Dr. Gomes Pereira foi quem me tratou.
ADT- Tinhas outras propostas quando vieste para o Olivais e Moscavide?
J.G. - Tinha outras hipóteses, só que eu decidi vir para aqui, porque me aconselharam este clube e hoje estou muito contente pela escolha que fiz.
ADT- O Euro está a decorrer, diz-nos quais são os jogadores jovens que mais admiras nas selecções que estão presentes?
J.G. - Gosto muito do Sérgio Ramos da Espanha, e gostei muito do Benzema e Gomis da França.
ADT- Quais são os teus ídolos?
J.G. - Quando jogava no meio campo admirava muito o Zidane, e gostava também do Figo e do Rui Costa. Aprecio também o Steven Gerrard. Na posição de defesa direito gosto de ver o Sérgio Ramos e o Maicon.
ADT- Em relação ao Campeonato da II Divisão que o Olivais disputou, também partilhas da opinião que foi mal organizado pela Federação?
J.G. - Claro que sim. Quem está dentro do assunto sabe que as coisas podiam ser melhores. Uma equipa que fez o que nós fizemos tem de subir sempre de divisão. E depois há uma grande discrepância, pois descem 20 equipas e sobem apenas duas.
ADT- Costumamos fazer sempre esta pergunta aos jogadores. Quais são os teus conselhos para os jovens que querem ser futebolistas?
J.G. - Que acreditem muito neles próprios. Tentem levar o futebol no dia a dia com muita alegria, desfrutar de todos os momentos e ter consciência de que não é fácil. Há muita ilusão, só porque na formação são bons jogadores, isso não significa que consigam chegar à equipa principal. É preciso sorte, é preciso mostrar serviço para que possam apostar em nós.
ADT- Que lemas é que te guiaram na tua formação?
J.G. - Não tenho nenhum em especial, apenas ter alegria naquilo que faço. Trabalhar sempre muito para poder evoluir e acreditar que os sonhos se podem tornar realidade.
ADT- Fala-se que o Daniel Carriço poderá vir a integrar o plantel principal do Sporting na próxima época, tu que jogaste com ele, o que pensas dessa ascensão?
J.G. - Ficarei muito feliz se isso acontecer. Foi sem dúvida o melhor jogador que vi na formação quando eu lá estava e foi ele o que mais cedo mostrou que merecia uma oportunidade. Acho que é justíssimo que apostem nele porque tem muito valor.
Nome completo - João Pedro Espírito Santo Gonçalves.
Idade - 20 anos (18/01/1988).
Peso - 80 kgs.
Altura - 1,81 m.
Pé dominante - Direito.
Posição no terreno - Defesa direito / Médio centro.
Entrevista realizada no dia 7 de Junho de 2008 no Campo Alfredo Marques Augusto em Moscavide.
Texto: Miguel Belo.
Imagens: Academia de Talentos.
Dia 24.06.2008, às 10:48, regio disse...
Parabéns pela entrevista !
Queria também aproveitar para desejar boa sorte ao João Gonçalves que além de bom jogador parece ser um miúdo impecável e com a cabeça no sítio.
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