Entrevista
Entrevista com Mário Rui
Foi um dos jovens portugueses que, à semelhança de Rui Fonte, "saltou" para outras paragens no estrangeiro. Do Sporting, rumou a Espanha, e agora diz não equacionar um regresso a Portugal. A Academia de Talentos conversou com o lateral-esquerdo do Valência, Mário Rui.
Primeiros passos
ADT: Como e onde se iniciou a tua carreira?
MR: Comecei por volta dos sete, oito anos, no Vasco da Gama de Sines. É um clube pequeno e humilde, onde dei os meus primeiros passos a jogar futebol. Passado algum tempo surgiu o interesse do Sporting. Depois começou a Selecção, e agora estou no Valência.
ADT: Em que escalão foste para o Sporting?
MR: Era infantil de segundo ano.
ADT: Como é que eles te descobriram? Viram-te a jogar?
MR: Foi num torneio desses pequenos, inter-associações. Eu pertencia à Associação de Setúbal, mas fui por um clube, que era o Vasco da Gama. E creio que foi aí que eles me viram.
ADT: Quantos anos passaste no Sporting?
MR: Passei lá quatro ou cinco anos.
ADT: E que títulos conquistaste?
MR: Conquistei três títulos de campeão distrital e dois de campeão nacional. Nos iniciados de primeiro ano fui campeão distrital, nos de segundo ano fui campeão nacional e quando era juvenil de primeiro ano, novamente distrital e como nessa época fiz alguns jogos pelos sub17, também fui campeão nacional.
ADT: Essa equipa de Iniciados que foi campeã nacional incluía nomes como Nuno Reis, Januário Jesus, Ruben Luís, Filipe Paiva...achas que era uma "super-equipa"?
MR: Acho que era uma equipa bastante forte, em que praticamente todos os elementos eram jogadores com muita qualidade. E foi isso que nos fez ganhar, sermos uma equipa muito equilibrada. Porque podiam não estar a jogar esses nomes que referiu, o Nuno Reis ou o Januário, mas estavam outros também muito bons. Era isso que equilibrava a equipa.
ADT: Dos treinadores que tiveste no Sporting, qual foi o que te marcou mais?
MR: Um treinador com quem eu me dava bastante bem, e que até agora foi um dos melhores para mim, era o Mister Nuno Lourenço. Foi meu treinador nos iniciados de primeiro ano e também quando eu fui sub16. E queria também acrescentar um nome, do ‘mister' com que fomos campeões nacionais de iniciados, Luís Gonçalves. Para mim são os dois treinadores, até ao momento, que mais me marcaram.
ADT: Como se deu a transferência para o Valência?
MR: Eu saí do Sporting, e creio que o Valência já me tinha visto em alguns torneios. Depois, com a ajuda do meu empresário, que trabalhou com o Valência, chegámos a um acordo.
ADT: Então foste primeiro dispensado do Sporting? Porque te dispensaram?
MR: Sim, foi mais ou menos isso. Quanto à dispensa, foi a opção deles...
Viva España!
ADT: Quando chegaste a Espanha, quais foram os principais problemas que tiveste?
MR: Sobretudo de adaptação ao jogo. O jogo era mais rápido, mais físico, com muita pressão, e foi um bocadinho complicado durante algum tempo.
ADT: Como é para um jogador da tua idade ir morar para fora, longe de casa?
MR: A princípio é um pouco complicado, porque mudamos de cultura, de país, e estamos sozinhos. Mas eu tive uma adaptação muito rápida, que me ajudou bastante. As pessoas foram "cinco estrelas" comigo, ajudaram na minha adaptação, e neste momento está tudo bem.
ADT: Foste viver sozinho, ou moravas com alguém?
MR: Estava numa Academia, semelhante à do Sporting.
ADT: Como eram as condições de treino lá?
MR: Temos uma Academia bastante parecida com a do Sporting, em termos de campos para treinar e disponibilidade de materiais. Mas em termos de quartos e alojamento, o Sporting é muito superior.
ADT: Vocês residem mesmo dentro da Academia, ou numa casa perto?
MR: Neste momento, estamos cerca de 60 pessoas a viver numa residência do Valência. Mas quando chegamos aos 18, 19 anos, eles dão-nos um apartamento.
ADT: Estiveste no clube ao mesmo tempo que o João Moreira, certo?
MR: Agora, neste momento, estava a treinar com ele na equipa B.
ADT: O facto de serem três portugueses - tu, ele e o Yago Fernández, que entrou depois - ajudava-te a ambientares-te melhor?
MR: Sim, ajudava bastante, porque era uma maneira de estar quase como em Portugal. Podíamos falar a nossa língua, ajudarmo-nos uns aos outros, era mais fácil.
(NDR: Yago Fernandez entratanto transferiu-se para o Espanyol de Barcelona e João Moreira para o Beira-Mar)
ADT: A nível da língua, como aprendeste? Tiveste aulas ou aprendeste sozinho?
MR: Nós estávamos numa escola normal, onde eu tinha um curso mais intensivo de castelhano. Era capaz de ter três ou quatro horas de castelhano por dia, por exemplo.
ADT: Estás na equipa de sub-18, certo?
MR: Sim, neste momento sou sub-18. Mas quando comecei no Valência era da equipa B. Agora, estou com os sub-18 e sub-19, os juniores.
ADT: O Valência é uma equipa que tem revelado alguns jovens talentos. Indica-nos um nome que aches que tem um futuro particularmente brilhante.
MR: Neste momento, o David Silva. É o único da formação que está na primeira equipa, e é um jogador muito desejado pelos outros clubes. Para mim, é um dos melhores ali no Valência.
ADT: Chegaste a trabalhar com Quique Flores?
MR: Não, nunca trabalhei com ele.
ADT: Como é a relação entre os juniores e os seniores no Valência? Existe alguma?
MR: Existe, porque nós temos uma sala de refeições onde todas as equipas comem juntas, e a primeira equipa, de seniores, entra em diálogo com as pessoas. É bastante agradável.
ADT: Já recebeste algum conselho marcante de algum jogador sénior?
MR: Não, nunca tive oportunidade de ter essas conversas, de me darem conselhos. Mas tenho conversas normais com eles.
ADT: Que diferenças encontraste, a nível de treino, entre Espanha e Portugal?
MR: Físico! O treino é muito físico. E é mais exigente. Corremos muito mais, e trabalha-se muito mais na posse da bola, em ginásio...É muito mais físico que aqui em Portugal, corre-se muito mais e joga-se de maneira muito diferente, um jogo muito mais rápido e agressivo. E depois faz muito calor. Perdi muito peso devido ao calor e à intensidade dos treinos.
ADT: Como é o campeonato de juniores? Há equipas melhores que outras, ou são equilibradas?
MR: É muito mais difícil de ver essa superioridade entre equipas, porque as equipas são muito equilibradas, independentemente dos nomes que tenham.
ADT: Então um Barcelona, que tinha o Bojan e o Giovanni dos Santos, por exemplo, não é muito melhor que os adversários?
MR: A qualidade dos jogadores era superior à dos outros, mas em termos colectivos as equipas são muito fortes. O Barcelona não tinha assim tantas facilidades em ganhar aos outros.
ADT: Quem ganhou o último campeonato?
MR: Foi o Sevilha.
ADT: Eles têm uma boa equipa?
MR: Tinham. Mas já este ano jogámos contra o Sevilha, num torneio, e fomos muito superiores a eles. Jogam de uma maneira muito directa, só baseada no jogo aéreo.
ADT: Chegaste a jogar contra o Real Madrid e Barcelona?
MR: Não joguei com o Real Madrid. Mas joguei contra o Barcelona.

Preferências
ADT: Quem é o jogador da tua geração que, na tua opinião, vai ser "grande"?
MR: Eu apostava no Januário Jesus.
ADT: E um jogador que aprecies, em geral?
MR: Neste momento, Cristiano Ronaldo e Messi.
ADT: Na tua opinião, qual deles é o melhor?
MR: Para mim, é o Cristiano Ronaldo. Trata-se de um jogador mais completo. Joga bem à esquerda, à direita, de cabeça, é rápido, forte...
ADT: Em que clube gostarias de terminar a tua carreira?
MR: Talvez gostasse de voltar ao Sporting, um dia, para acabar a carreira.
ADT: E o teu clube de sonho?
MR: O meu clube de sonho? Manchester United ou Real Madrid.
ADT: Treinador que admiras mais?
MR: Alex Ferguson e Arsène Wenger.
ADT: Quais consideras serem os teus pontos fortes como jogador, e aqueles que ainda falta trabalhar?
MR: Pontos fortes, talvez a velocidade e a persistência, a técnica e até alguma maturidade, já. Em termos de pontos fracos, tenho que melhorar muito o meu pé direito, e o jogo aéreo.
Jovens promessas
ADT: Muitas pessoas dizem que o futuro da Selecção portuguesa está aqui, nas camadas jovens. Concordas?
MR: Concordo. Creio que há muito potencial nestas camadas jovens, e se estes jogadores continuarem com o mesmo objectivo de chegar à ribalta do futebol, creio que o podem conseguir, muitos deles.
ADT: E achas que essa chegada à ribalta se pode dar sem os jogadores saírem para o estrangeiro?
MR: Neste momento, vejo isso mais difícil, dado que o Sporting, o Benfica e o Porto têm muitos estrangeiros. E esses estrangeiros vêm para cá para jogar no lugar de muitos desses jogadores. Não que eu tenha algo contra isso, porque eu sou parecido, também fui para fora para jogar. Mas talvez os portugueses, agora, tenham que ir para fora para se afirmar.
ADT: Achas que histórias como a do Cristiano Ronaldo, de jovens que chegam muito cedo à equipa principal, são raras, ou já se vão tornando comuns?
MR: Penso que cada vez são mais frequentes, porque aparecem bons jogadores muito jovens, com mais maturidade. E penso que vão aparecer muito mais nestes próximos anos.
ADT: Quais os factores importantes que "fazem" um jovem jogador?
MR: Penso que passa por seguir com humildade. Se somos mais novos e estamos a jogar numa equipa mais velha, temos que aprender com os mais velhos. Temos que estar sempre a aprender. Creio que tem que se continuar com humildade e concentração, e querer melhorar.
ADT: O que interessa mais: mentalidade, técnica ou físico?
MR: Mentalidade. A mentalidade, num jogador, é muito mais importante que o resto.
ADT: Portugal tem muitos jogadores de baixa estatura. Achas que isso é um problema?
MR: Em certos campeonatos, talvez seja. Mas como estava a dizer em relação à maturidade: se o jogador, apesar de ser baixo, tiver boa mentalidade e qualidade, creio que pode vingar no futebol.

Selecção
ADT: Que selecções já representaste?
MR: Já representei a de sub-16, sub-17 e agora sub-19. Neste momento, ainda não conquistei nem um título com a selecção, infelizmente.
ADT: Com que ‘mister' gostaste mais de trabalhar, a nível de Selecção?
MR: O ‘mister' Paulo Sousa, se calhar, foi o que ensinou mais.
ADT: Competiste no Torneio Lopes da Silva, em sub-15. Na final, ganharam 6-1 à AF Porto. Como era a equipa da AF Lisboa? Era quase toda do Sporting, não era?
MR: Eram todos menos um central, o Pedro, que era do Benfica e na altura jogava no Odivelas, e o Edgar, que jogava no Real Massamá.
Futuro
ADT: Equacionavas regressar a Portugal num futuro próximo?
MR: Num futuro próximo, não creio, e acho que nem deveria. Fui para o Valência há pouco tempo, e quero aproveitar e retirar o máximo possível desta oportunidade.
ADT: E jogar num clube mais pequeno em Espanha?
MR: Nunca se sabe. É claro que preferia estar sempre num grande, mas se tiver de ir para um mais pequeno, vou continuar igual, trabalhar e ver o que pode acontecer.
Nome: Mário Rui Silva Duarte.
Data de Nascimento: 27/05/1991 (17 anos).
Altura: 1,68m.
Peso: 63kg.
Posição: Lateral-esquerdo.
Clube: Valencia Clúb de Fútbol.
Entrevista realizada no dia 17 de Agosto de 2008 no Hotel Altis Park Olaias.
Texto: Pedro Benoliel.
Imagens: Academia de Talentos.
Dia 11.09.2008, às 01:26, forever disse...
grande marinho (papa tudo) vais tar para sempre nos nossos corações!!!! és uma estrela com um coração de ouro... já mais esqueçeremos os momentos que vivemos todos juntos! e terás sempre em alcochete o cantinho da boa disposição e da amizade pura. um grande beijinho e um grande abraço.
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