Entrevista
Entrevista com Miguel Vítor
Foi no relvado do Torrense que começou a jogar e foi ali também que nos falou sobre a sua até agora curta carreira de futebolista. Dos juniores à chamada à equipa sénior, da estreia na Luz, do jogo em Milão e do empréstimo ao Aves.
Academia de Talentos: Miguel como começaste a jogar futebol?
Miguel Vítor: Foi aos oito anos, eu gostava de jogar à bola e por influência do meu pai. Passava muito tempo a jogar na escola com os amigos e um dia o meu pai perguntou-me se eu não queria vir à experiência ao Torreense. Eu disse que sim e ele trouxe-me cá, fiz alguns treinos e fiquei aqui três anos.
ADT: Começaste logo a jogar a central?
M.V.: Nos dois primeiros anos de escolas joguei a central mas no último joguei mais vezes como médio centro.
ADT: Conta-nos como foste jogar para o Benfica?
M.V.: Eu já vinha a ser observado pelos olheiros do Benfica durante alguns jogos e depois disseram-me para ir a Lisboa fazer treinos de captação. Fui lá, fiz três ou quatro treinos e depois de falarem comigo acabei por assinar.
ADT: Como foi a tua primeira experiência no clube?
M.V.: Logo depois de ter assinado, fui com o Benfica a um torneio em Luxemburgo e logo aí deu para ver a grandeza do clube, sempre com grande entusiasmo dos adeptos à volta da equipa.
ADT: Como lidavas com as deslocações de Torres Vedras para Lisboa?
M.V.: Era o meu pai que me levava e trazia em todos os dias de treino.
ADT: Quando é que sentiste que podias ser jogador?
M.V.: Quando se está no Benfica há sempre o sonho de ser jogador, apesar de sabermos que é difícil, mas quando se chega aos juvenis e depois aos juniores, é que um jogador começa a ter mais noção do seu verdadeiro valor e daquilo que pode atingir.
ADT: Qual foi o treinador que mais te marcou?
M.V.: Foi o Bruno Lage, trabalhei três anos com ele, ensinou-me muito e devo-lhe muito.
ADT: Durante toda a tua formação enquanto jogador tiveste alguma referência ou ídolo?
M.V.: Nunca tive assim uma grande referência no futebol de formação, mas no futebol actual... é o Ricardo carvalho.
ADT: Que títulos conquistaste enquanto jogador do Benfica?
M.V.: Apenas o de campeão distrital de infantis B.
ADT: Conta-nos como foi a tua primeira experiência na equipa sénior e a tua estreia no jogo com o Guimarães?
M.V.: Senti-me muito orgulhoso por ser chamado e quando soube que ia jogar senti algum nervosismo e ansiedade, mas quando se entra em campo esquece-se isso tudo e um jogador faz o seu trabalho.
ADT: Foi difícil jogar no Estádio da Luz perante um público tão exigente?
M.V.: Antes do jogo estava um bocado nervoso, com medo que pudesse correr mal, mas quando entrei em campo e senti o carinho do público, ganhei confiança para poder realizar um bom jogo.
ADT: Notaste muita diferença entre os juniores e os seniores?
M.V.: Sim alguma, nos seniores existem jogadores mais experientes, com muita rodagem e eu era um jovem, mas sempre dei o meu melhor e acho que correu bem.
ADT: Achas que Camacho foi importante na tua primeira chamada à equipa principal?
M.V.: Não só pelo Mister, mas também pelas lesões e acho que foi a oportunidade que esperava para jogar.
ADT: Tiveste de assumir a responsabilidade no eixo da defesa do Benfica devido às lesões que colocaram os habituais titulares de fora. Como encaraste a situação?
M.V.: Felizmente tive essa oportunidade e sabia que tinha de aproveitar e tinha de dar o meu máximo, durante esses jogos não sofremos golos e penso que foi uma boa experiência.
ADT: A tua estreia na Liga dos Campeões foi frente ao Copenhaga, mas o jogo que mais te marcou foi certamente o de Milão. Como te correu esse jogo?
M.V.: É sem duvida um grande palco e todos os jogadores sonham lá jogar. Foi fantástico pisar aquele relvado e jogar num estádio com grande ambiente.
ADT: Como foi defrontar grandes nomes do futebol como Kaká, Inzaghi e Pirlo?
M.V.: Foi engraçado, porque uns meses antes assisti ao jogo deles na televisão na final da Liga dos Campeões e passado pouco tempo, eu estava ali a jogar com eles, foi uma experiência espectacular.
ADT: Sentiste muito apoio dos teus colegas de equipa?
M.V.: Sim, eles estiveram sempre a apoiar-me, a ajudar-me e a dar-me conselhos, acho que devo a eles o facto dos jogos terem-me corrido bem.
ADT: Gostaste de trabalhar com Camacho?
M.V.: Sim, ele é um bom treinador, alguém que implementava seriedade nas coisas e tinha um espírito ganhador.
ADT: Depois de alguns jogos na equipa principal, foste de novo chamado aos juniores, ficaste desiludido?
M.V.: No inicio da época ficou estipulado que fazia a pré época e voltava aos juniores, mas com o aparecimento das lesões, surgiu a oportunidade de continuar entre os seniores, depois custou-me um pouco ir de novo para os juniores mas não senti essa passagem como uma despromoção mas sim como uma forma de voltar a jogar, porque não estava a fazê-lo na equipa A e acho que até foi bom para mim.
ADT: Foste do primeiro ano de júnior para a equipa principal e tiveste logo a oportunidade de ser titular. Foi tudo rápido de mais ou soubeste dar um passo de cada vez?
M.V.: Quando fui chamado ainda era júnior e acabei por ficar nos seniores devido às lesões e tentei aproveitar a oportunidade. Penso que saltei alguns passos que não seria de esperar mas estive sempre com os pés bem assentes no chão.
ADT: Notaste muitas diferenças no regresso aos juniores?
M.V.: O ritmo de jogo é completamente diferente, e a experiência e maturidade que ganhei nos seniores fez com que tudo parecesse mais fácil.
ADT: A chegada de Edcarlos foi decisiva para a tua saída da equipa principal?
M.V.: Sim, ajudou, mas eram todos jogadores mais experientes e quando regressassam os lesionados, eu já sabia que ia perder o meu lugar, mas até lá, dei sempre o meu melhor e tentei complicar as escolhas do treinador.

ADT: Como correu a tua época no Aves?
M.V.: Foi uma boa experiência, o campeonato da II liga é muito competitivo, ganhei experiência e maturidade, tive uma lesão no final de época mas tirando isso, foi muito positiva.
ADT: Que tipo de lesão tiveste?
M.V.: Foi uma lesão muscular na parte posterior da coxa que foi mal curada mas já está tudo bem.
ADT: Os tratamentos eram feitos no Aves ou vinhas a Lisboa?
M.V.: Tratei de tudo no Benfica.
ADT: Foi a melhor solução para ti ser emprestado?
M.V.: Penso que sim, no plantel principal ia jogar pouco ou quase nada e assim ia ser benéfico para mim ser emprestado para poder jogar com mais regularidade.
ADT: Como te correu esta tua primeira experiência fora de Lisboa?
M.V.: Foi uma adaptação fácil, os colegas ajudaram-me muito, tive a sorte de reencontrar o Luís Zambujo, que também passou pelo Benfica e que também me ajudou muito na adaptação.
ADT: A companhia do Ruben Lima e do Romeu Ribeiro também foi importante?
M.V.: Quando se vai para uma cidade nova é sempre bom ter amigos e neste caso ir com eles para a Vila das Aves foi muito bom para facilitar a minha adaptação.
ADT: Sentiste o apoio do Benfica durante esta época?
M.V.: Sim, estiveram lá pessoas do Benfica a falar connosco e a dizer que estavam atentas ao que estávamos a fazer, e isso foi bom para nós sentirmos que estávamos a ser observados e estavam atentos ao nosso trabalho.
ADT: Como é que lidaste com as saudades da família e dos amigos?
M.V.: Eu vim praticamente todos os fins-de-semana a casa, era quase como quando estava no Seixal em que passava lá a semana e depois vinha para casa passar os Sábados e Domingos.
ADT: Sentes que aprendeste muito ao longo da época?
M.V.: Sim, trabalhei com jogadores com muita experiência e alguma ratice e também fui aprendendo com os meus próprios erros.
ADT: Gostaste de trabalhar com o Mister Henrique Nunes no Aves?
M.V.: Gostei, tem um estilo de jogo diferente e tive de me adaptar a ele. Apostou em mim e penso que o Mister fez um excelente trabalho, pois apesar de termos começado mal, julgo que no fim conseguimos recuperar e acabámos a meio da tabela.
ADT: Foi uma época positiva para o clube?
M.V.: No início, de positivo não estava a ter nada, ainda por cima tendo em conta que era um clube que tinha vindo da I Liga, mas depois acabámos em 8º e penso que acabou por ser uma época aceitável.
ADT: Qual é a liga que mais te seduz?
M.V.: Inglesa.
ADT: E o clube onde mais gostarias de jogar?
M.V.: Real Madrid.
ADT: Qual é o treinador que mais gostarias de encontrar?
M.V.: José Mourinho.
ADT: Em que escalões da selecção já jogaste? Conta-nos como foi a tua primeira experiência a nível de Selecção?
M.V.: Nos sub 18 e sub 19. A minha primeira internalização foi num jogo em Montemor, contra a Ucrânia, lembro-me que fiz um golo e realizei um bom jogo.
ADT: A nível de selecção qual é o teu grande objectivo?
M.V.: Tal como qualquer outro jogador de selecção, o objectivo é chegar à selecção A. Sei que é complicado mas vou dar o meu melhor. A curto prazo, os meus objectivos passam por integrar os sub 20 e depois chegar o mais longe possível ao serviço de Portugal.
ADT: Tu és um central que marca muitos golos. Qual é o teu segredo?
M.V.: Julgo que tenho boa impulsão, jogo bem de cabeça, tento sempre aproveitar isso nos lances de bola parada, e as coisas tem-me corrido bem.
ADT: O Benfica já te disse algo sobre a próxima época?
M.V.: Ainda não me comunicaram nada.
ADT: Quais são os teus objectivos para a próxima época?
M.V.: Gostava de ficar no plantel principal do Benfica, mas se não for possível e se me quiserem emprestar de novo, vou encarar isso com naturalidade e vou dar o meu melhor para poder voltar no ano seguinte.
ADT: Se não ficares no Benfica gostavas de jogar na I Liga?
M.V.: Já li algumas notícias no jornal mas ainda não sei de nada, mas claro que ficar na I liga seria o ideal.
ADT: Gostavas de continuar no Aves?
M.V.: Sim, foi um clube onde gostei de trabalhar e onde me senti acarinhado, e no caso de só haver essa solução, vou aceitá-la com agrado.
ADT: Já recebeste contactos de outros clubes?
M.V.: Até ao momento ainda não.
ADT: Qual foi a passagem de escalão onde sentiste maiores dificuldades para além da dos Juniores para os Seniores?
M.V.: De juvenil para júnior porque só há uma equipa e tinha que jogar contra jogadores mais velhos e com outra capacidade e penso que esse foi um desafio maior.
ADT: Como analisas a tua geração?
M.V.: Acho que tem jogadores de muita qualidade e que pouco a pouco vão começar a mostrar o seu valor, temos o exemplo do Adrien Silva no Sporting, o Rabiola no Porto e também o meu, o do Ruben Lima e o do Romeu Ribeiro no Benfica.
ADT: Que palavras gostavas de deixar para os jovens que começam agora a sua carreira?
M.V.: Primeiro, para terem a noção que não é por estarem num grande clube que automaticamente vão ser "jogadores de bola", digo-lhes para continuarem a apostar nos estudos, para assim poderem estar prevenidos para algo que corra mal no futebol. Segundo, digo-lhes para trabalharem sempre ao máximo para poderem evoluir, porque serem os melhores em iniciados ou juvenis não chega para chegarem aos seniores.
ADT: Para além do futebol, continuas a estudar ou deixaste a escola?
M.V.: Terminei o 12º ano e entrei em fisioterapia com o estatuto de alta competição, mas agora deixei.
ADT: Era isso que gostavas de seguir?
M.V.: Sim, é uma profissão que gosto e depois do futebol vou tentar regressar aos estudos.
ADT: Qual foi o jogo que mais te marcou?
M.V.: O da estreia contra o Guimarães na Luz, foi o jogo que mais me marcou, até porque nos primeiros minutos, numa bola disputada com o Mrdakovic, ganhei a bola e todo o público no estádio me aplaudiu e acho que isso me deu confiança para o resto do jogo.
ADT: Qual foi o golo mais importante que já marcaste?
M.V.: O golo na estreia pela selecção contra a Ucrânia que me deu muita confiança para continuar.
ADT: Qual foi o avançado mais difícil de marcar?
M.V.: O Inzaghi em Milão.
ADT: Já passaste por alguma má fase na tua carreira?
M.V.: Na minha curta carreira ainda não tive nenhuma fase má, talvez a pior tenha sido agora esta fase de lesões, mas já está tudo ultrapassado e felizmente não foi nada de muito grave.
ADT: Conseguiste desfrutar de todos os momentos na tua rápida ascensão à equipa sénior?
M.V.: É muito bom trabalhar todos os dias com os jogadores que vimos na televisão e depois temos a oportunidade de treinar e jogar com eles, foi muito bom e tentei desfrutar ao máximo disso e aprender com essa experiência.
ADT: Como te caracterizas como jogador?
M.V.: Julgo que sou um central forte na marcação, sou raçudo, bom no jogo aéreo e forte na antecipação.
ADT: Ainda há espaço para ti no Benfica?
M.V.: Espero que sim, vamos a ver, depende também das apostas do treinador e da direcção mas penso que ainda há espaço para mim.
Nome: Miguel Ângelo Leonardo Vítor.
Posição: Defesa Central.
Pé dominante: Direito.
Data de Nascimento: 30/06/1989.
Peso: 82 Kgs.
Altura: 1,83.
Entrevista realizada no dia 17 de Junho de 2008 no Campo Manuel Marques em Torres Vedras.
Texto: Ricardo Nascimento.
Imagens: Academia de Talentos.
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