Entrevista
Entrevista com Rui Ferreira
O nosso entrevistado desta semana é um jovem já conhecido de quem acompanha a formação. Oriundo do Torreense, e com uma passagem meritória, ainda que fugaz, pelo Benfica, este jogador milita agora no Estrela da Amadora, onde tem tido um excelente início de percurso. Sobre todas estas fases, e ainda sobre o seu percurso nas selecções jovens, falámos com o ponta-de-lança Rui Ferreira.
Inícios
Academia de Talentos: Qual foi, até agora, o teu percurso a nível de clubes?
Rui Ferreira: Estive no Torreense, no Benfica e estou agora no Estrela da Amadora.
ADT: Com que idade entraste no futebol?
RF: Entrei com seis, sete anos, para as escolinhas. Depois comecei a jogar mais a sério, no campeonato de escolas. Foi assim que comecei a jogar.
ADT: Quem te levou a entrar? Foi o teu pai?
RF: Não, por acaso até fui eu, porque gostava de jogar futebol. Depois, claro, o meu pai disse "se quiseres, podemos ir às captações do Torreense". E foi assim que comecei.
ADT: Nessa altura, no futebol de sete, qual era a tua posição?
RF: Era médio-ofensivo. Continuei a sê-lo até aos Iniciados. Depois o meu treinador perguntou-me se não gostava de experimentar outra posição, e pôs-me a ponta de lança. Foi no ano de Iniciado B/Sub14. Experimentei outra posição, nesse jogo marquei, como avançado, e depois continuei sempre ali.
ADT: Tu pareces na minha opinião ser um 'número nove', para um sistema de 4-3-3. És aquele jogador que acompanha a subida dos extremos e finaliza quando eles cruzam. Concordas?
RF: Concordo plenamente. A posição 'nove' e o sistema 4-3-3 são os melhores para mim, sem dúvida.
A chegada ao Benfica
ADT: Em que escalão entraste para o Benfica?
RF: Era juvenil de segundo ano. Estive no Torreense até aos Juvenis B.
ADT: Como se processou essa tua chegada ao Benfica?
RF: Já havia interesse do Benfica há muito tempo, desde Infantis. Só que na altura era muito novo, e o Benfica também ainda não tinha as condições desejadas, tinha que vir sempre uma pessoa pôr-me e buscar-me. Não houve interesse, da minha parte, em ficar no Benfica nessa altura. Depois, quando já ia à Selecção, o Benfica e o Sporting mostraram interesse, só que o Sporting não se chegou à frente, e fiquei no Benfica.
ADT: Portanto, na altura, o Benfica não era o único a mostrar interesse em ti...
RF: Não, também havia o Porto, Sporting, a Académica...
ADT: Chegaste a ir treinar a algum desses clubes, ou só no Benfica?
RF: Fui treinar ao Sporting. Ia lá todas as quartas-feiras, e às vezes às quintas. Mas depois, não foram agressivos o suficiente...Eu até sou do Sporting, mas isso não tem nada a ver. Mais tarde, quando jogava contra o Sporting dava sempre o meu melhor.
ADT: Quando lá ias, quem era o treinador que te observava?
RF: Era o Luís Dias e o João Couto, que naquela altura ainda estava no Sporting?
ADT: E quem falou contigo para ires lá treinar?
RF: Foi o Aurélio [Pereira].
ADT: O que foi que ele te disse?
RF: Disse que gostava de me ver jogar, que gostava que eu fosse lá treinar. Basicamente, foi só isso.
ADT: E o Luís Dias, o João Couto, o Paulo Cardoso...diziam-te alguma coisa?
RF: Não, por acaso não. Quando eu ia lá à quarta-feira, o treino era uma espécie de jogo. Eles cumprimentavam-me, perguntavam se estava tudo bem....nada de mais.
ADT: E do Benfica, quem foi que falou contigo?
RF: Foi o Bruno Maruta.
ADT: E foste treinar ao Benfica?
RF: Não, quando saí do Torreense foi logo para assinar com o Benfica. Mas quando era Iniciado, ia lá treinar, portanto eles já me conheciam.
ADT: Que tipo de influência teve o António Carraça na tua contratação? Foi ele que falou contigo, ou não eras do âmbito dele?
RF: Falaram ele e o Manuel Ribeiro, mas o Manuel Ribeiro é que tratava mais dessas coisas. Mas o Sr. Carraça tratou-me sempre bem. Não tenho nada a dizer dele.
ADT: E o que é que os "chefes" te disseram?
RF: Disseram que eu era um jogador que ia dar mais valor ao plantel, e mostraram interesse, na altura. Disseram que ia ser bom para o Benfica, que eu era um bom jogador, que eu vinha acrescentar algo mais à equipa...essas coisas.

Selecções
ADT: Foste à Selecção sub-16?
RF: Fui, pelo Torreense. Depois, no Benfica, fui à de sub-17, mas não consegui ir aos sub-18 nem sub-19.
ADT: Como chegaste pela primeira vez à Selecção?
RF: Quando estava no Torreense, jogava pelos Juniores, e às vezes ia treinar aos seniores. Estava a fazer um bom campeonato, e veio um senhor dizer-me que me ia convocar para os sub-16. Eu fiquei contente, claro, como qualquer um ficaria.
ADT: Nos sub-16, fizeste parte de uma equipa fabulosa, cheia de excelentes jogadores, mas que não conseguiu chegar muito longe, falhando o apuramento para o Mundial da Coreia. Na tua opinião, o que achas que falhou? Foi azar...?
RF: É verdade, a equipa era boa. Só que não tivemos aquele bocadinho de sorte. Jogámos bem nos três jogos [do Torneio de apuramento, em Óbidos], mas não tivemos a sorte de marcar. Tivemos oportunidades para marcar, mas não tivemos essa sorte. Depois, as outras equipas também jogaram bem, e não conseguimos o apuramento. Estivemos a um passo disso, mas à 'última da hora'...não conseguimos!
ADT: Mas esta equipa, com Diogo Rosado, Diogo Amado, David Simão, André Soares, Diogo Viana...era de facto uma equipa fora do normal!
RF: Claro que era! E continua a ser! Só que, quando há jogos, falta qualquer coisa para dar a vitória à equipa. De resto, há tudo! Depois falta é a vitória!
ADT: Ao todo, quantas internacionalizações tens?
RF: Nove ou dez, acho eu, entre os sub-16 e os sub-17.
ADT: E quantos golos marcaste?
RF: Um, à Alemanha, no Torneio Internacional do Algarve.
ADT: Guardas alguma memória bonita das idas à Selecção?
RF: Uma pessoa fica sempre contente de ir à Selecção! Guardo boas memórias de ir à Selecção. Quando marquei o meu primeiro golo, por exemplo. E fico contente de ter ido.
ADT: Acalentas esperanças de voltares à Selecção?
RF: Sinceramente, não.
ADT: Se tivesses jogado com alguma regularidade no teu primeiro ano de júnior, acreditas que estarias lá?
RF: Talvez não fosse certo, mas havia mais hipóteses.
ADT: Então achas que nos sub-17 não deixaste um 'cartão de visita' suficientemente bom?
RF: Deixar, deixei, só que entretanto apareceram outros jogadores, que não estão nos escalões da idade deles. Por isso é que digo isto.
A equipa de 1990
ADT: Quando chegaste ao Benfica, foste inserido num excelente plantel, orientado pelo Mister Alexandre Silva. No entanto, essa equipa começou mal a época. O que achas que se passou?
RF: O 'mister' Alexandre tinha uma base de treinos diferente da do 'mister' João Couto, talvez por não ter a experiência que o 'mister' João Couto tem, e que o faz avaliar melhor as capacidades dos jogadores. E também começámos a jogar noutro sistema...
ADT: Em que sistema jogavam com o Mister Alexandre Silva?
RF: Na maioria das vezes, começávamos em 4-3-3, mas depois alterávamos para 4-4-2, e aquilo causava alguma confusão. Depois, com o 'mister' João Couto, era sempre o 4-3-3, e começaram a haver mais resultados. A equipa gostava mais de jogar em 4-3-3, porque tínhamos o André Soares na esquerda, que é forte na finta e no cruzamento, o Toumany [Sambou] também era um jogador bom na linha...basicamente por isso, mas também pela experiência do 'mister' João Couto.
ADT: Quando jogavam em 4-4-2, quem eram os dois pontas-de-lança?
RF: Era eu e o André Soares.
ADT: E era um 4-4-2 clássico ou em losango?
RF: Em losango. Tinha o Leandro [Pimenta] a 'seis', Vítor Pacheco como interior direito, [David] Simão como interior-esquerdo, e depois, às vezes, jogava o André Soares a 'dez' e o Toumany comigo na frente. A defesa era sempre a mesma [NDR: Ricardo Caetano, Abel Pereira, João Pereira e Pedro Eugénio].
ADT: Na altura, eras interno no Seixal. Fala-nos um pouco das condições de lá.
RF: Tinha boas condições, um centro de estágio novo, tinha condições espectaculares. Eu tinha vindo de um clube onde as condições não eram por aí além, e de repente vejo aquelas instalações...uma pessoa fica contente!
João Couto
ADT: Por volta da quarta ou quinta jornada, entrou o Mister João Couto, e começou uma série de cerca de 20 vitórias, até perderem em casa com o Belenenses...
RF: Sim, o 'mister' João Couto trouxe experiência à equipa. Estava-nos sempre a contar a vida anterior dele no futebol...é uma pessoa simpática, que está sempre a brincar, e é um treinador espectacular! Mas quando é para falar a sério, fala-se a sério. Tenho muito a agradecer-lhe, porque ele ensinou-me várias coisas, como o que fazer a ponta-de-lança. Tenho a agradecer-lhe isso.
ADT: O João Couto pega em equipas que vêm de derrotas, mas depois consegue uma consistência fantástica de resultados, com 15 a 20 vitórias seguidas. Qual é o segredo desta 'cultura de vitórias'?
RF: Ele torna a equipa mais unida. O 'mister' João Couto é um treinador espectacular, e se tivermos algum problema ele fala connosco...E depois isso junta-se tudo, nós falamos uns com os outros no balneário...é difícil de explicar! (risos).
ADT: Se tivesses que destacar só uma qualidade dele, qual seria? A metodologia de treino, o discurso...?
RF: Seria o discurso.
ADT: O 'mister' João Couto parece uma pessoa muito calma, diria mesmo cavalheiresca. Ele é disciplinador? É capaz de se aborrecer convosco depois de uma má exibição? Por exemplo, depois de perderem com o Belenenses na última jornada, há dois anos?
RF: Ele falou sobre o jogo, disse dentro do balenário que se calhar aquela não foi a melhor atitude, e depois quando viemos cá para fora já nos tratou normalmente, como os seus atletas. Mas dentro do balneário, disse o que tinha a dizer, e acho bem.
Rumo à fase final
ADT: Fala-nos do jogo de Dezembro de 2006 em que ganharam 2-0 ao Sporting, em Alcochete, e que representou a única vitória (NDR: 3 empates nos outros 3 jogos) sobre o Sporting nessa época.
RF: O Sporting e o Benfica eram duas boas equipas, eram muito equilibradas. Tanto o Benfica como o Sporting podiam ganhar o jogo, um 'derby'. E ainda bem que ganhámos nós, naquela altura!
ADT: Como é que vocês estavam antes do jogo? Acreditavam plenamente que iam ganhar, ou pensavam que tudo podia acontecer...?
RF: Temos que acreditar que vamos ganhar, senão não vale a pena jogar! Se formos com mentalidade perdedora, se calhar perdemos mesmo! Mas se formos com mentalidade ganhadora, podemos até perder, mas se calhar damos outra competitividade ao jogo.
ADT: Estavas muito confiante antes desse jogo?
RF: Estava eu e estavam os meus colegas. Queríamos ganhar aquele jogo, porque sabíamos que era importante. E ganhámos! (risos).
ADT: Guardas alguma memória desse jogo? Achas que jogaste bem?
RF: Foi um jogo normal. Acho que joguei mal, as coisas não me estavam a correr bem. E logo num dia de Benfica-Sporting, é preciso ter azar! (risos).
ADT: Vocês perderam com o Belenenses na última jornada, e como já tinham o primeiro lugar assegurado, o Mister João Couto rodou um bocado a equipa, não foi?
RF: Sim, ele rodou a equipa, mas nunca disse para "brincarmos", porque era um jogo e era para ganhar. E acho que nesse jogo tivemos o pensamento de que já estávamos apurados, e queríamos que o jogo passasse para podermos ir para casa.
ADT: Achas que, subconscientemente, facilitaram um bocadinho?
RF: Acho que facilitámos um pouco, porque naquele jogo parecia que não era o Benfica que costumava jogar. Parecia que não eram aqueles jogadores. O Belenenses foi lá e deu uma lição, jogou muito, e nós só andámos 'atrás deles'!
ADT: Os adeptos ficaram aborrecidos depois dessa derrota? As "bancadas" ficaram desagradadas com vocês e com o Mister?
RF: Talvez tenha sido o treinador a pagar a nossa derrota, porque mexeu na equipa, e os jogadores que pôs a jogar não deram correspondência. Se calhar os adeptos pensaram que foi o treinador. Mas se eu não quero jogar, ele não tem culpa que eu não queira jogar!
ADT: O plantel estava com o treinador...?
RF: Sim, e o treinador estava com o plantel. Gostávamos do 'mister',porque ele dizia 'vamos trabalhar todos, e cada um vai ter as suas oportunidades". Depois, uns jogavam mais que outros, mas isso é normal no futebol. Mas ele dava oportunidades a todos, e acho que é por isso que ninguém lhe tem nada a apontar!
'Azares' da fase final
ADT: O jogo da fase final, em que perderam 3-2 com o Guimarães, causou uma certa surpresa, porque tinham ganho por 2-0 no Seixal, e se ganhassem em Guimarães eram campeões, mas perderam. O que achas que se passou nesse jogo? Foi o campo, foram os adeptos...?
RF: Nós tivemos a atitude correcta, mas Guimarães é um campo complicado. Foi um jogo bem disputado, o Guimarães teve a sorte de ganhar, como podíamos ter ganho nós. Estava com os seus adeptos, no seu campo, veio tudo ao de cima, e acabaram por ganhar. Nesse jogo, estavam seis mil pessoas, todas a gritar pelo Guimarães...
ADT: Achas que o Benfica teve azar nesse jogo? Achas que se tivessem marcado primeiro, as coisas podiam ter sido diferentes?
RF: O Benfica jogou bem, mas não tivemos a sorte do jogo. Depois, o Guimarães marcou os dois golos, nós fomos à procura do resultado, e tivemos mérito, porque conseguimos ter uma fase boa no nosso jogo. Depois, os árbitros parecia que estavam contra nós. Parecia não, estavam mesmo! Foi um jogo muito problemático. O André Soares aparece isolado, é puxado, e não há penalty, comigo acontece uma coisa parecida...Se há penalty, e se é golo, o jogo sofre uma reviravolta! Acho que a arbitragem prejudicou bastante a nossa equipa. Foi um jogo muito complicado, e toda a gente sabe que jogar contra o Guimarães é difícil. Não é por termos ganho no Seixal que vamos pensar, como as pessoas pensaram, que é fácil, porque ninguém acha que jogar lá com eles é fácil!
ADT: Nessa equipa do Guimarães, alguém te ficou na retina?
RF: Havia o central, o Vítor Bastos, e o Lucas, o ponta-de-lança.
ADT: Diz-se que o Hugo Figueiredo foi agredido com moedas, e que a dada altura o João Couto dizia à equipa para voltar para o balneário, porque não ia continuar o jogo. Isso é verdade? Conta-nos essa história...
RF: É verdade. Foi numa jogada em que o Hugo vai buscar a bola à rede, e os adeptos juntam-se perto da rede, e começam a mandar-lhe moedas. Depois ele 'embrulhou-se' na rede, e começou a levar uns pontapés, mas conseguiu-se levantar. Depois, o 'mister' João Couto e o Sr. Manuel Ribeiro estavam a dizer que assim não podia continuar, como era normal. Se isto continuasse, se não melhorasse, saíamos do campo.
ADT: Então essa ameaça também era uma estratégia para convencer o árbitro a proteger a equipa...
RF: Claro, porque aquilo estava a ser um bocado moroso. Era o árbitro, eram os fiscais de linha, os adeptos...não ajudava nada!
ADT: No final dessa época, tiveste uma lesão, não foi?
RF: Tive tensão alta! Não fiz a última fase dos jogos, só contra o Boavista e o Guimarães, joguei para aí 20 minutos. Mas foi só no momento, agora já está tudo normal!

As incompatibilidades com João Alves
ADT: Dos treinadores que tiveste no Torreense, destaca um que tenha tido uma influência positiva sobre ti.
RF: O Rui Serra, talvez. Ele acreditava em mim, e desde o princípio que dizia que eu ia para um clube maior. Eu dizia 'não sei, depois logo vemos isso...' e ele respondia 'depois diz-me! Quando fores para um clube maior, fala comigo e vê se eu não tinha razão!' E era uma pessoa que me ajudava bastante, no final dos treinos treinava comigo a finalização, etc...
ADT: Nos Juniores, tiveste o 'mister' João Alves. Assumindo que o sistema era 4-3-3, o ponta-de-lança escolhido era o Wang Gang. E depois chegou o Boti Demel, e acabaste por não ter muitas oportunidades. O 'mister' João Alves chegou-te a explicar porquê?
RF: Ele disse que eu não estava bem para aquele estilo de jogo, e que ia dar mais oportunidade aos jogadores de segundo ano, como era normal. Basicamente foi só isso. Eu disse que concordava plenamente com tudo aquilo, mas que achava que também tinha de ter as minhas oportunidades.
ADT: Então, apesar de saberes que não ias jogar com tanta regularidade, esperavas ter mais minutos...
RF: Claro, esperava sempre muito mais minutos! Eu via os meus colegas de primeiro ano a ter minutos, e eu não tinha porquê? Qual era a diferença deles? Eu quando ia para o treino, treinava sempre com a intenção de ser titular, a dar o meu máximo. E às vezes, quando chegava a sexta-feira, ia à convocatória e não via o meu nome. Ou se via, já sabia que ia para o banco e depois não entrava, Uma pessoa fica triste, é normal! Mas continuei sempre a trabalhar, a dar o meu máximo. Não me ia prejudicar a mim!
ADT: Presumo que, nesta altura, a tua família tenha sido muito importante para te manter motivado...
RF: Claro! O meu pai e a minha mãe sempre me deram o apoio necessário. Diziam que se não tinha sido neste jogo, ia ser o próximo, para eu trabalhar para isso, continuar a trabalhar, porque ia conseguir. Sempre deram o apoio necessário, e desde já o meu obrigado por isso!
ADT: Houve um jogo em que o então treinador José Antonio Camacho chamou três juniores, e a equipa ficou um pouco desfalcada. Então, o Mister João Alves chamou três Juvenis: o Toumany, o Adul [NDR: Domingos Silveiro] e o Paul Keita. E quando estavam a perder 2-0, tinhas ido aquecer, mas não entraste. Quem foi que entrou?
RF: Foi o Paul Keita. O 'mister' tinha feito duas alterações, e só restava uma. E entrou o Paul Keita.
ADT: E a ideia do 'mister' Alves foi fazê-lo entrar para ponta-de-lança?
RF: Não, acho que entrou para médio. Mas depois houve um problema com o nosso jogador, acho que se lesionou, e ele passou para defesa-direito, creio eu.
ADT: Quando percebeste que estavas a aquecer e que não ias entrar, e que ia entrar um jogador dois anos mais novo, dizem que te aborreceste com o 'mister' João Alves. Isso é verdade?
RF: Sim. É verdade. Aconteceu.
ADT: O que estás disposto a dizer-nos sobre essa situação?
RF: Quase nada, porque foi uma situação muito complicada. Foi uma situação muito delicada. Por isso não vamos falar muito disso, não vale a pena...Sinceramente acho que não vale a pena, porque é uma situação muito difícil.
ADT: Sentes que eras compatível com os outros avançados, Hélio Vaz e Nélson Oliveira?
RF: Sim, ele tem um estilo de jogo diferente do meu. Por isso talvez.
ADT: E com o Boti Demel?
RF: Também, porque ele podia jogar na ala. Era um jogador rápido e com bons pormenores técnicos.
A passagem para o Estrela
ADT: O Mister João Alves disse que quase desde o início dessa época (07/08) que te disse que devias ser emprestado, porque achou que ias jogar pouco. A ideia de sair do Benfica foi tua, ou foi alguém do Benfica que te disse que era melhor saíres?
RF: Eu pensei em sair, porque ia ter pouco espaço. Está lá o Nélson [Oliveira], e outros, e eu pensei que ia ser uma época complicada, e que não queria perder dois anos. Eu quero é divertir-me! Mesmo que não seja jogador profissional, quero é jogar à bola! Não me quero chatear com isso! Já me chateei um ano, não me quero chatear mais!
ADT: Quando é que te passou pela cabeça, pela primeira vez, a ideia de sair do Benfica?
RF: A partir da pré-época (08/09). Quase no fim da pré-época desta época que começou.
ADT: Percebeste que ias ter pouco espaço...?
RF: Comecei a treinar, e a fazer jogos amigáveis, e não era aquilo que eu estava a esperar, e tive de tomar uma decisão.
ADT: O que disseram os teus pais?
RF: O meu pai também sempre disse que estava lá o Nélson, agora também o Hélio Vaz...e nos jogos amigáveis via-se mais qualquer coisa deles do que de mim. O Hélio Vaz jogava, o Nélson jogava, e eu não entrava. Eu marcava, os outros jogavam na mesma, etc...
ADT: O Estrela foi ideia tua, ou foi o Benfica que te recomendou?
RF: O Benfica falou-me de qualquer coisa sobre o Estrela, mas depois não falou mais nada, e foi um senhor do Estrela da Amadora que falou comigo, e eu também já o conhecia. A partir daí, foi simples. Agora já sou mesmo do Estrela.
ADT: O Estrela tem tido, nos seus plantéis, muitos ex-jogadores de Sporting e Benfica. Este ano estás tu, o Vítor Pacheco, o Ricardo Caetano e o João Coito, em anos anteriores estiveram também o GR André Marques e o André Cacito, formados no Sporting...fala-nos um pouco do vosso plantel.
RF: É um plantel forte. Tem algumas dificuldades, como todos os outros, mas acho que é um plantel que tem boas qualidades, e acho que se começarmos a treinar com mais condições, temos hipóteses de ir à fase final, porque temos um plantel muito bom, mesmo!
ADT: Achas que o plantel é bom ao ponto de conseguir ficar nos dois primeiros lugares?
RF: Sinceramente, acho que no campeonato deste ano, não há muitas diferenças em relação aos grandes.
ADT: Quando falas de melhores condições, referes-te a uma zona para treinar? Porque sei que o Estrela ia muitas vezes treinar a campos 'emprestados', muitas vezes longe da Amadora. Isso ainda se passa?
RF: Não, agora já não, porque já fizeram o novo sintético ao pé do estádio José Gomes, naquele campo que era pelado. À segunda e quarta-feira treinamos no Monte da Galega, e nos restantes dias é nesse sintético. Agora, já são claramente esses dois campos, já não há campos 'emprestados'!
Estudos
ADT: Como vais de estudos?
RF: Mais ou menos. Estou no 11º ano, a fazer três disciplinas, na área de Desporto.
ADT: O que gostarias de seguir se não fosses futebolista?
RF: Sinceramente, nunca pensei nisso a sério. Talvez professor de Educação Física, para continuar os estudos, porque nunca vou abdicar disso.
ADT: Quem é o melhor aluno do plantel do Estrela? É o Vítor Pacheco?
RF: Não, é o [João] Coito. O Coito já está no segundo ano da universidade. Já quando estava no Benfica, ele só tirava 18 e 19 (risos)!
ADT: É assim estilo... Luís Andrade?
RF: Sim, sim (risos).

Amigos e colegas
ADT: Como ponta-de-lança, quais foram os defesas-centrais que te deram mais dificuldades?
RF: O Pedro Mendes! (risos) E o Abel [Pereira], nos treinos, também é complicado. São ambos muito difíceis de ultrapassar.
ADT: Porquê? O que é que cada um deles tem?
RF: O Pedro Mendes é inteligente, e apesar de ser 'fininho', é muito rijo. O Abel é um jogador forte, e que não tem problemas em ir ao choque...são dois jogadores bastante trabalhosos.
ADT: Quem destacarias como bons jogadores no plantel do Estrela?
RF: O Vítor Pacheco e o Eridson [Mendes], o central guineense. É bom jogador, ninguém passa por ele! (risos) Nem o Amido [Baldé] passou! (risos).
ADT: Fala-nos um pouco dos teus colegas dos Juvenis A...devem haver momentos que te ficaram na memória...
RF: Foi um ano que nunca vou esquecer. Tinha bons colegas na equipa, dava-me bem com toda a gente, e nunca vou esquecer esse ano. Pela época que fiz no futebol e pelas amizades que havia na equipa.
ADT: Quem eram os teus melhores amigos dentro dessa equipa?
RF: O Leandro Pimenta, era um bom amigo, o Abel [Pereira], o João Pereira, o André Soares...e o Pedro Eugénio, quem é que não é amigo dele!? (risos) Depois havia o meu colega de quarto, o Abdel [Vieira], que também era um miúdo espectacular..mas eu falava com todos, dava-me bem com todos!
ADT: De todos os jogadores que conheceste no Benfica e no Estrela, quem destacarias como o melhor jogador com quem já trabalhaste?
RF: Talvez o Leandro [Pimenta], é um bom jogador. É muito calmo, muito humilde, e é um miúdo que trabalha para alcançar um objectivo, que já alcançou, que era ser profissional. E acho que é com todo o mérito que ele tem contrato profissional.
ADT: Para além de treinadores e jogadores, há alguém no Seixal que te tenha deixado saudades?
RF: Os seguranças, que eram sempre espectaculares para nós, estavam sempre a falar, a brincar...Depois havia a dona Lurdes, do refeitório, que tratava bem de nós. Basicamente, era isso!
ADT: Tens amigos no Sporting?
RF: Sim, tenho o [Diogo] Amado, o Pedro Mendes...ficava com ele no quarto, na Selecção, e não tenho nada a apontar-lhe. Conheço várias pessoas, também falo bem com o [Diogo] Rosado, por exemplo.
ADT: Dos jogadores da tua idade, diz-me alguns que aches que vão ser "estrelas" de certeza.
RF: Diogo Rosado, e talvez o Leandro Pimenta.
ADT: E dos escalões abaixo, há alguns miúdos que te chamem a atenção?
RF: Há o Bakary, o Sancidino...o Rui Silva, que também é um bom jogador...e o Zezinho do Sporting! Achei que ele jogou muito bem contra nós, é muito bom jogador! Fez-me lembrar o Saná [NDR: Lassana Camará]. Assim de repente, não me estou a lembrar de mais nenhum!
Um goleador nato
ADT: Fala um bocadinho sobre ti enquanto jogador...
RF: Sou um finalizador. O número nove que surge muitas vezes na área para finalizar. De resto não sei, é difícil descrever! (risos).
ADT: Tens sido titular esta época? Quantos golos levas marcados?
RF: Tenho sido titular, e já marquei seis golos em outras tantas jornadas, porque nas duas primeiras não joguei. Não estava inscrito e não joguei contra o Nacional. Contra o Torreense, fui inscrito, mas só joguei na segunda parte.
ADT: E enquanto estiveste no Benfica, quantos golos marcaste?
RF: Na segunda época,marquei cinco. Na primeira, nos Juvenis A, marquei 30. Fui o melhor marcador, e o segundo foi o André Soares.
ADT: No Torreense, tiveste alguma época em que tivesses marcado muitos golos?
RF: A cada época marcava golos, e os números andavam sempre perto. O campeonato era distrital, e marquei alguns golos. Em média vinte por época.
ADT: Então a tua primeira época no Benfica foi a mais produtiva...
RF: Sim. Também tinha melhores jogadores à minha volta. Quanto melhores jogadores, mais se produz!
ADT: Disseste há pouco uma coisa algo invulgar, que te queres é divertir...alguma vez pensaste em desistir do futebol?
RF: Não! Eu gosto de jogar futebol, sinto-me bem a jogar futebol e quando estou a jogar futebol, estou feliz. Por isso, nunca pensei em desistir do futebol.
ADT: Dentro da tua posição, quem é o jogador que mais admiras? E já agora, tu também és fan do Cristiano Ronaldo tal como 99% dos teus colegas de profissão?
RF: Não, não gosto dele. Admiro o Didier Drogba. Não dá hipótese! Quando está em forma não facilita. O Van Nistelrooy também sabe posicionar-se bem, e é um jogador inteligente.
ADT: Em que clube gostavas de alinhar no estrangeiro? Como todos os outros querer ir passar uns anos em Manchester antes de seguires para Madrid?
RF: Algo em Espanha, um Barcelona...Em Inglaterra não!
Adversários
ADT: Fala-nos do jogo Estrela da Amadora-Benfica (0-3) desta época. O que achaste da equipa do Benfica?
RF: Julgo que o Estrela podia ter marcado. Dominámos o jogo completamente. O Estrela entrou bem no jogo, tive uma oportunidade para marcar e falhei, depois o Estrela continuou a dominar, e fomos para o intervalo com zero-zero. Logo no início da segunda parte, o Diogo Figueiras faz um cruzamento-remate que bate na trave e o Hélio Vaz encosta. Depois nós fomos à procura do empate, e no contra-ataque houve um jogador que ficou no chão. O 'mister' João Alves disse que era para pôr a bola fora, mas de repente esse jogador levanta-se, e o 'mister' João Alves diz que já não quer pôr a bola fora, e é o segundo golo! (risos) E depois, o terceiro golo foi mérito do Benfica. E foi assim o jogo, nós à procura do golo e eles a marcar! (risos).
ADT: O que achas das equipas de Juniores de Sporting e Benfica?
RF: Acho que são boas equipas. Não vi muito a equipa do Sporting a jogar, vi mais a do Benfica. Mas acho que as equipas do Benfica e do Sporting este ano são muito equilibradas, como o ano passado e há dois anos. Acho que vai ser complicado para atingir o primeiro lugar.
ADT: Qual achas ser o ponto forte do Benfica?
RF: Sinceramente, acho que é tudo! (risos) O Benfica tem uma excelente equipa, excelentes jogadores, e acho que tem tudo: ataque, defesa, guarda-redes, meio-campo...
ADT: E a do Sporting, contra a qual jogaste na Liga Intercalar?
RF: Tem um bom meio campo, trocam bem a bola. Diogo Amado, [Diogo] Rosado, são miúdos que sabem jogar...
ADT: Como perspectivas esta época?
RF: Quero fazer uma boa época, marcar mais uns dez golos, e depois logo se verá o que vai acontecer...
Nome completo: Rui Jorge Ferreira.
Data de Nascimento: 02/10/1990 (18 anos).
Posição: Ponta-de-lança.
Altura: 1,79.
Peso: 74 Kgs.
Clube: Clube de Futebol Estrela da Amadora.
Entrevista realizada no dia 19 de Novembro de 2008, Hotel Tivoli Oriente.
Texto: Pedro Benoliel.
Imagens: Academia de Talentos.
Dia 27.11.2008, às 09:26, princesa disse...
Esta entrevista sim.
Mostra a realidade, daquelas que lutam lutam e as coisas afinal não são assim tão faceis como no principio parecia quando se começou.
Afinal era mais uma promessa.
Continua a trabalhar e não desistas, principalmente dos estudos que até estás bem, apesar de ser dificil conciliar.
O teu valor virá ao de cima e não importa o clube em que estiveres.
Olha sempre em frente
Boa sorte.
Tem que estar logado para poder comentar.
Caso ainda não tenha uma conta registe-se!