Entrevista
Entrevista com Rui Fonte
É um dos "estrangeiros" da Selecção de sub-19, e um dos jovens portugueses que mais cedo deu o "salto" para um grande clube. Trata-se de Rui Fonte, avançado do Sporting emprestado ao Arsenal, e nosso interlocutor nesta entrevista.
Inícios
ADT: Conta-nos como começaste a tua carreira.
RF: Comecei no Sacavenense, durante um ano. Depois desse ano que fiz lá, vim logo para o Sporting. Ainda fiz mais três anos de Escola no Sporting - fui até aos juvenis de 1º ano - e a partir daí estive no Arsenal. Já lá estou há dois anos, este vai ser o terceiro.
ADT: Como se processou a tua passagem do Sacavenense para o Sporting?
RF: Eu estava no Sacavenense, e o Sr. Aurélio [Pereira] conhecia o meu pai, porque tinha sido treinador dele. Encontraram-se um dia, ele perguntou como é que andavam os filhos. Ele disse que o mais pequeno (eu) estava no Sacavenense, e o Sr. Aurélio perguntou se eu queria ir lá treinar ao Sporting. Eu fui, fiquei lá uma semana, e como correu tudo bem, fiquei.
ADT: E o teu irmão [José Fonte, agora no Crystal Palace] já estava no Sporting, ou só foi depois?
RF: Nessa altura ele tinha sido dispensado do Sporting e ido para o Sacavenense. Depois, passados um ou dois anos, quando era júnior de primeiro ano, voltou ao Sporting.
ADT: Quantos anos estiveste no Sporting?
RF: Sete anos, três de escolas e depois todos até juvenis de 1º ano.
ADT: E que títulos ganhaste?
RF: Ganhei um de escolinhas, um de infantil, um campeonato nacional e outro distrital de juvenis.
ADT: Dos treinadores que tiveste no Sporting, qual te marcou mais?
RF: O Luís Dias, sem dúvida. Foi meu treinador nas escolinhas e nos juvenis de 1º ano.
ADT: Sempre jogaste a ponta-de-lança?
RF: Quando era mais novo, cheguei a jogar a médio ofensivo e médio-centro. Mas onde eu sempre quis jogar foi a ponta-de-lança.
ADT: Curiosamente, o teu irmão é central e tu ponta-de-lança. Como surgiu essa diferença de posições?
RF: Ele a princípio também era avançado, mas como era grande e forte eles puseram-no à defesa, e passou a central.
Arsenal
ADT: Como surgiu essa oportunidade de ires para o Arsenal, e porquê o Arsenal?
RF: Desde o primeiro torneio da Selecção de sub-16 que surgiu algum interesse, mas eles decidiram não avançar com nada porque ainda era muito cedo na época. Decidiram observar-me mais. Depois tivemos três jogos com a Itália, e aí, como o meu pai e o meu empresário estavam lá, eles decidiram fazer uma pequena abordagem, nada de especial. A coisa foi ficando mais séria à medida que eu fui jogando pela Selecção, e a partir daí surgiu interesse. E como o Arsenal é um grande clube, decidi ir logo para lá.
ADT: Foste por empréstimo. Continuas emprestado?
RF: Sim, este é o último ano de empréstimo. Depois, no fim deste ano, vamos ver o que acontece...
ADT: Já falaram contigo, já te disseram alguma coisa?
RF: Não. Mas também não estou preocupado com isso, visto que se não ficar lá, volto para o Sporting, que é um grande clube. Tenho é que fazer o meu trabalho, e a seguir veremos.
ADT: Afinal qual é a tua situação? És jogador do Arsenal, do Sporting? Estás emprestado ou, se não vingares este ano, voltas ao Sporting? Como é?
RF: Sou jogador do Sporting. Eles acordaram que o empréstimo seria de três anos e o Arsenal tem a opção de compra no fim deste ano. Se o Arsenal não accionar a opção, volto para o Sporting.
ADT: Mas vieste a Lisboa recentemente prolongar contrato com o Sporting...
RF: Isso foi só uma formalidade, visto que eu tinha que assinar os contratos para as próximas duas épocas se não ficasse no Arsenal. Se eu ficar, esses contratos não valem de nada.
ADT: Diz-se que o Arsenal tem que pagar uma cifra de 7 milhões de libras. Sabes se é esse o valor?
RF: Não fiquei a par disso, os clubes e o meu agente, Artur Fernandes, é que sabem desses valores.
Carreira em ascensão
ADT: No Arsenal, já jogaste pela equipa principal, correcto?
RF: Sim, já fiz dois jogos.
ADT: E marcaste um golo, não foi?
RF: Isso foi pelas Reservas. Nos jogos que fiz pela equipa principal, num joguei a segunda parte e no outro joguei 25 minutos. Portanto, nesses, não marquei, só nos outros.
ADT: Como é treinar ao lado dos grandes nomes do Arsenal?
RF: Das primeiras vezes, fiquei algo nervoso, visto que eles eram grandes jogadores, e eu estava habituado a jogar com colegas que eram da minha idade. Quando comecei a jogar com grandes nomes como os do Arsenal, foi algo difícil. Mas agora, penso que já estou habituado a isso, e é uma coisa normal.
ADT: Algum deles te deu algum conselho?
RF: O [Gaël] Clichy dá muitos conselhos, não só a mim como a todos os jovens que estão lá. Diz para continuarmos a trabalhar, que quando conseguirmos, ele está lá para nos ajudar! [risos]
ADT: Já jogaste na equipa principal, de reservas e de sub-18. Quais são as principais diferenças que notas entre os escalões?
RF: Na equipa principal, trabalha-se mais, e o nível é mais exigente. Mas dos juniores para as reservas é onde se vê a maior diferença. É mais físico. Mesmo sendo físico nos sub-18, para as reservas, é um grande salto, visto que jogamos contra jogadores seniores, e alguns já "trintões", com grande porte físico. É muito diferente.
ADT: Em termos de treino, que diferença notaste entre o Sporting e o Arsenal? Em Inglaterra privilegia-se mais a condição física, o tecnicismo...?
RF: Eles privilegiam muito a técnica do passe e mesmo a técnica individual dos jogadores. E exigem sempre 100%, em todos os treinos. Essa foi a principal diferença. Os treinos são mais duros.
ADT: Diz-se que a tua época de revelação foi a época passada, em que jogaste mais vezes pelas Reservas, e marcaste dois golos. Como avalias essa temporada?
RF: Aquela época correu-me muito bem. Só não joguei dois jogos pelas reservas, porque estive lesionado, parti o nariz. Mas penso que correu muito bem, joguei os jogos todos com qualidade, e eles gostaram. Mas penso que esta época ainda vai ser melhor!
ADT: O Arsène Wenger elogiou-te bastante. O que é que pensas disso?
RF: Penso que é o fruto do trabalho que tenho vindo a realizar nestes dois anos. Espero que esses elogios sirvam para que eu possa ficar lá.
ADT: Também és um jogador muito querido dos adeptos. Que emoções te suscita esse facto?
RF: Penso que é igualmente devido ao trabalho que tenho vindo a fazer ao longo destes dois anos. Mas fico muito contente por saber que eles estão a gostar do meu trabalho, e espero continuar a ajudar o Arsenal a conquistar títulos.
ADT: Curiosamente, foste o segundo português a assinar pelo Arsenal em toda a história do clube [o primeiro foi Luís Boa Morte]. E dos dois, foste o mais novo. Achas que fizeste história?
RF: Não, penso que isso deve ser encarado de uma forma normal. Também não tinha havido muitos portugueses a tentar entrar lá, por isso acho que não fiz história em nada.
ADT: Entretanto o Yago Fernández também já assinou...
RF: Sim, era suposto ele ir para lá, mas ainda não chegou.
ADT: Aponta um nome, entre os teus colegas de equipa, que aches que tem futuro?
RF: Posso apontar dois. O Fran Merida e o Nacer Barazite. São dois grandes valores.
ADT: Fala-se muito no Barazite. Ele é, de facto, um bom jogador?
RF: É. Muito bom jogador. Tem boa técnica, boa capacidade finalizadora...penso que vai ser um grande valor do futebol holandês, e também da Premier League.
ADT: Já há algum tempo que vens sendo apontado como uma das promessas de futuro, quer do Sporting, quer do Arsenal. Que pensas disso?
RF: Tenho vindo a trabalhar para, um dia, poder ser um grande jogador. Por agora, penso só em não "queimar" etapas, para poder no futuro ser um jogador consistente e com boas capacidades. Só isso.
ADT: Achas que histórias como as de Fabregas ou Cristiano Ronaldo, isto é, jogadores que chegaram muito novos à equipa sénior, são raridades, ou vêm-se tornando comuns?
RF: Acho que vem sendo mais comum, visto que há mais desenvolvimento nos jogadores, e mesmo na aprendizagem que fazem desde pequeninos. Por isso acho que, agora, isso vai ser cada vez mais normal.
ADT: Muita gente diz que a contratação de estrangeiros vem tirar lugar aos jovens portugueses. Pensas que isso tem lógica?
RF: Penso que, em alguns casos, tem lógica. Mas em outros casos, é mesmo pelo valor dos jogadores. Não só porque eles vieram do estrangeiro e têm que jogar, mas mesmo pelo valor deles.
Mudar de vida
ADT: Saíste de casa com 16 anos, o que disseram os teus pais na altura?
RF: Ficaram um bocadinho receosos, visto que eu não só ia viver sozinho como para outro país. Ia ser difícil devido ao país que é, muito frio, com comida diferente...Mas no fim da transferência estavam muito contentes, e felicitaram-me.
ADT: Quando chegaste a Londres, que diferenças encontraste em relação a Portugal, e mesmo entre o Arsenal e o Sporting?
RF: Em relação aos clubes, não há muita diferença, visto que o Sporting aqui é um grande clube, e o Arsenal também. Em relação aos países, lá faz mais frio, e a comida é muito diferente.
ADT: E tiveste alguns problemas com o inglês?
RF: Eu sabia falar um bocadinho de inglês. Nos primeiros tempos ainda tinha a ajuda de um senhor que trabalha no Arsenal, que também é português. Mas no primeiro ano tive sempre aulas de inglês três vezes por semana, e isso ajudou-me muito.
ADT: Sei que estiveste a viver com uma família de acolhimento inglesa, com mais dois colegas de equipa. Ainda continuas a viver com eles?
RF: Sim, ainda continuo nessa família, mas agora com outros três colegas.
ADT: E como tem sido a tua vida com eles?
RF: Tem sido muito boa, eles ajudam-me muito. Ainda agora, foram de férias e deixaram a casa para mim, porque confiam em mim. Estou muito feliz a viver com eles.
Família de futebolistas
ADT: Recentemente, o teu irmão também foi para Londres, vocês vêem-se?
RF: Sim. Todos os fins-de-semana vou para lá. Tento ir lá de vez em quando durante a semana, para ver os jogos dele ou só para estar com ele, e vejo-o regularmente.
ADT: Falando no teu irmão, ele é considerado aquilo que se chama "promessa adiada". Tens medo que te aconteça o mesmo?
RF: Não. A ele, não lhe deram a oportunidade que ele merecia, mas ele está a trabalhar para um dia poder chegar à Premier League, e mostrar o seu valor. E penso que isso acontecerá. Em relação a mim, só tenho 18 anos, e tenho é que continuar a trabalhar, para poder chegar alto.
ADT: O futebol está cheio de duplas de irmãos talentosas, como os Laudrup e os De Boer. Achas que tu e ele podem constituir mais uma?
RF: (risos) Sim, eu sonho com isso! Mas só o tempo o dirá, se seremos assim ou não.
ADT: Gostavas de jogar com ele na mesma equipa?
RF: Na mesma equipa, sonharia com isso. Contra ele, seria difícil, visto que para eu ganhar, ele teria que sofrer golos, e eu não quero isso para ele.
ADT: O vosso pai também está ligado ao futebol. Ele deu-vos algum conselho, a ti e ao José?
RF: Ele dá sempre muitos conselhos, quando vê os nossos jogos, e depois dos mesmos. Por isso, é uma grande ajuda para mim e para o meu irmão.
ADT: O que é que aprendeste dele que tenha sido marcante?
RF: Nos primeiros tempos, quando nós éramos mais pequenos, ele era mais crítico, para podermos aprender mais rápido e ter consciência do que ia ser o futebol. Mas disse-nos sempre para continuarmos a trabalhar e nunca desistirmos dos nossos objectivos. São os principais conselhos que ele nos dá.

Selecções
ADT: Quais as selecções que já representaste?
RF: Todas desde os sub-16 até agora, aos sub-19.
ADT: Foste capitão recentemente. Já tinhas experiência anterior?
RF: Como o Diogo Amado tem sido sempre capitão, eu tenho sido sub-capitão, e desde aí tenho assumido algumas vezes a braçadeira.
ADT: Quantas internacionalizações e golos já tens?
RF: Tenho 30 internacionalizações, e golos são nove ou dez, penso eu.
ADT: Achas que o futuro da Selecção, e dos próprios clubes, está na formação de jovens?
RF: Sem dúvida alguma. Mesmo na nossa Selecção, se começarmos a investir nos estrangeiros, quem vai sair a perder é a própria Selecção, porque não tem jogadores para poder aproveitar. Por isso, penso que o futuro está nos jovens.
ADT: E esses jovens poderão afirmar-se em Portugal, ou a saída para o estrangeiro é inevitável?
RF: Penso que eles se podem afirmar em Portugal, como aconteceu com o Moutinho e o Veloso. Depois, talvez, um dia mais tarde, possam sair para um clube maior, como o Cristiano Ronaldo. Mas penso que se podem formar em Portugal.
ADT: Como antevês esta saída da Selecção para o Torneio na Irlanda do Norte?
RF: Penso que temos boas hipóteses de ganhar, visto que o ano passado só perdemos dois jogos em nove que realizámos. Por isso acho que temos boas hipóteses de ganhar este torneio.
Ídolos e preferências
ADT: Qual é o jogador jovem que mais te entusiasma neste momento?
RF: Há muitos. Aqui mesmo, na minha equipa [selecção sub-19], há grandes jogadores, que penso que vão ter um grande futuro. Gosto muito do Diogo Rosado, acho que o Pedro Mendes também vai ser um grande central, e por isso estou muito confiante.
ADT: Há algum clube que sonhes representar?
RF: O Arsenal (risos), visto que estou lá e é um grande clube.
ADT: Quem é o jogador que tentas "imitar", o teu ídolo?
RF: Fernando Torres.
ADT: Quem é o melhor jogador do Mundo?
RF: São dois: o Cristiano Ronaldo e o Fernando Torres.
ADT: E que treinador te inspira mais?
RF: Arsène Wenger (risos).
ADT: O que é que "faz" um jovem jogador? Quais são os factores importantes do desenvolvimento de um "craque"?
RF: Penso que passa por não "queimar" etapas, trabalhar sempre sério. Se não "queimarmos" essas importantes etapas, conseguimos chegar longe.
ADT: Muita gente diz que os empresários são maus para os jovens jogadores. Tu, já tendo um empresário, concordas?
RF: Depende do empresário que tivermos. O meu empresário ainda hoje me liga, quase todos os dias, para saber como estou, se está tudo a correr bem...preocupa-se mesmo comigo. Só depende do empresário que se tem.
ADT: O que é que gostas de fazer fora de campo?
RF: Gosto muito de ir ao cinema, de estar no computador, e jogo muita Playstation. E gosto de estar com o meu irmão, também.
ADT: Que clube português tem os melhores jovens?
RF: [sorriso] O Sporting.
ADT: E no estrangeiro?
RF: É o Arsenal [risos].
Futuro
ADT: Equacionas um regresso a Portugal?
RF: Se as coisas não correrem da melhor maneira em Inglaterra, quero voltar ao Sporting, porque é o clube do meu coração.
ADT: Se porventura surgisse interesse de um clube mais pequeno, em Inglaterra ou em Portugal, tu pensarias nessa hipótese?
RF: Um jogador tem sempre que pensar em grande. Não vamos estar a pensar nos clubes pequenos, mesmo tendo muito respeito por eles. Mas penso que posso ficar no Arsenal.
ADT: Queres deixar alguma mensagem aos jovens futebolistas que estão agora na formação?
RF: Penso que têm que continuar a trabalhar pelos seus objectivos, nunca desistirem, apesar das dificuldades que encontrem, e continuar a dar o máximo em todos os treinos e jogos.
Nome: Rui Pedro da Costa Fonte.
Data de Nascimento: 23/04/1990 (18 anos).
Nacionalidade: Portuguesa.
Altura: 1,81m.
Peso: 73kg.
Posição: Ponta-de-Lança.
Clube: Arsenal Football Club.
Entrevista realizada no dia 17 de Agosto de 2008 no Hotel Altis Park Olaias.
Texto: Pedro Benoliel.
Imagens: Academia de Talentos.
Dia 25.08.2008, às 10:31, sargento disse...
Parabéns pela entrevista. Demonstra ser um miúdo humilde e com os pés acentes no chão.
Viver num país estrangeiro, tão diferente do nosso, não deve ser fácil.
Continua Rui a trabalhar para conseguires atingires os teus sonhos, pois talento não te falta.
Um abraço para ti e para o teu irmão.
Dia 26.08.2008, às 09:23, ricardoribeiro disse...
Quando é que a academia de talentos entrevista o João Beirão?
Dia 27.08.2008, às 06:01, Administração disse...
"Quando é que a academia de talentos entrevista o João Beirão?"
Eventualmente, desde que continue a trabalhar bem tanto no clube como na selecção. O mesmo se pode dizer em relação a vários outros jogadores.
"Parabéns pela entrevista. Demonstra ser um miúdo humilde e com os pés acentes no chão."
Muito humilde, sem dúvida é o aspecto mais marcante da sua personalidade. É um jovem discreto, educado e muito humilde.
Rui Fonte, Diogo Amado e Ruben Pinto (para mencionar apenas 3) seriam todos sérios candidatos à medalha de ouro na categoria de humildade.
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