Escolas de Futebol na Nova Realidade

Desde há algum tempo que as crianças deixaram de poder praticar o dito futebol de rua, ou seja, aquele que fez crescer gerações mais antigas. O crescente número de carros em circulação, a redução de espaços para a sua prática e um maior clima de insegurança foram factores decisivos para o aumento da procura, e consequentemente de uma maior oferta, das Escolas de Futebol.
As primeiras escolas surgiram nos princípios dos anos 90 e hoje em dia estão um pouco por todo o lado. A grande maioria dos clubes tem dessas escolas e fazem das mesmas, uma fonte de rendimento importante para os seus orçamentos além de que aproveitam os valores mais talentosos da Escola de Futebol para alimentarem e melhorarem as suas equipas de competição.
Artur Taira ex-jogador de futebol afirmou ao portal Futebol Finance que "Existem 3 meios de formar uma Escola de futebol, ou como profissional independente, formando uma empresa ou criando uma associação sem fins lucrativos, que nesse caso terá que ter estatutos e regulamentos próprios, sendo que todas as decisões sobre a associação terão que ser debatidas em assembleia" . Mais ainda, adiantou que "uma escola a funcionar em pleno e dependendo do número de crianças inscritas, terá um custo total a rondar os 3200€ mensais. Assim e dependendo de vários factores e acrescentado cerca de 200€ em publicidade e 100€ em pequenas burocracias, cerca de 800€ poderão ser suficientes para o arranque duma escola de futebol" acabando por dizer que "dependendo do número de atletas, o projecto poderá auto manter-se através duma gestão cuidada, tanto dos recursos humanos como dos recursos materiais" Podemos encarar estes valores como uma referência da despesa de uma Escola de Futebol.
Como em qualquer negócio neste momento, as Escolas de Futebol vivem o problema da concorrência e a qualidade do serviço prestado, ao mesmo tempo que a sua localização e o preço do produto são determinantes para a escolha dos pais. Para aqueles que têm maiores aspirações e expectativas, o processo de selecção da escola é vital e ponderado, buscando por isso a qualidade no ensino, qualidade nas condições proporcionadas e principalmente. qualidade na formação desta primeira etapa no desenvolvimento do jovem atleta.
João Plantier Coordenador da Escola da A.D. Oeiras refere que "Existem mais escolas do que deveriam haver, pois nem todas têm qualidade ao nível do ensino. Um dos principais objectivos é o rendimento financeiro e não o ensino da prática desportiva."
Escolas de renome, principalmente ligadas aos grandes clubes, lideram este processo sendo a Escola de Futebol do Sport Lisboa e Benfica, a mais antiga. Liderada pelo Prof. Fonte Santa desenvolve um trabalho há mais de uma década com créditos reconhecidos, com vários jogadores a passarem para a competição e em que alguns deles são já internacionais como é o caso do capitão dos sub-16 Pedro Almeida.
Numa das premissas da escola está que "a aprendizagem, os meios, métodos e estratégias utilizadas na nossa escola assentam na premissa que é mais importante ensinar o jovem como jogar do que ensinar-lhe os gestos técnicos da modalidade para depois ele os aplicar em jogo". Neste sentido "os exercícios de treino não se dirigem a um único objectivo, antes pelo contrário, consideram em cada momento que melhorias podem provocar nos domínios técnico, táctico, físico, cognitivo e psicológico numa relação coerente entre estas variáveis (analíticos somente o necessário, globais e integrantes tanto quanto possível)." Esta preocupação com o jovem praticante e com a sua evolução tem por base a continuidade se possível da carreira do jovem atleta, integrando-o na competição.
Carlos Queiroz na apresentação da sua Escola de Futebol em parceria com o Manchester United explicou que este projecto "Não se trata de uma escola de detecção de talentos mas sim de um espaço aberto e complementar, fundamentalmente, com a preocupação de dar também uma oportunidade a todos aqueles que sonham com o futebol mas que podem não vir a ser jogadores profissionais. O importante é que o futebol os possa ajudar a jogar bem a própria vida. Não lhes vamos incutir ilusões de serem grandes profissionais de futebol, mas sim mostrar-lhes que podem aproveitar a identidade própria, para também poderem ser vencedores na vida".Desta forma, "o nosso objectivo é incentivá-los a viver com tenacidade, persistência, dedicação, espírito de equipa, espírito de sacrifício e de solidariedade, que são valores que podem, de alguma forma, ajudar a distinguir os perdedores dos vencedores. Queremos que isto seja para as crianças um motivo de prazer e divertimento e que acordem todos os dias com a alegria de poderem jogar futebol", adiantou.
Dois casos diferentes em que um procura dar continuidade a um projecto desportivo e o outro procura a formação desportiva com suporte a uma vida saudável. Estas duas referências em termos do ensino contrastam com outra realidade, a da falta de condições ou de bons treinadores numa grande maioria das Escolas de Futebol.
Preocupações como as da Escola de Futebol do S.L. Benfica onde "Um bom treinador ou um bom/boa técnico(a) desportivo(a) na área do treino de crianças e jovens, deve ter a clara noção que a sua actividade não se limitará a preparar e transmitir o treino. Ele/Ela desempenhará uma função de grande impacto social, educativo, formativo e desportivo." Já Victor Mesquita, sócio gerente da UALD, empresa que se dedica à gestão de Escolas de Futebol refere que "os recursos humanos vêm de protocolos que temos com universidades e cursos tecnológicos de desporto. São pessoas adequadas às funções que irão desempenhar."
Todas estas preocupações com a qualidade de condições que é dada aos jovens praticantes quer em termos físicos quer em termos humanos trazem mais qualidade a um processo de formação que é vital por ser o inicial, ou seja, o primeiro contacto com o jogo.
Texto: Sandro Medeiros (Treinador de Futebol).
Imagem: Academia de Talentos.
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