Mourinho Digest

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Qua, 25.11.2009

SEMANA DE CONTRASTES:

Mais um capítulo do passeio rumo ao Scudetto

No último fim-de-semana, mais uma vez, a Série A italiana deu um contributo para desfazer alguns estigmas que gravitam em seu redor. A jornada foi pródiga em bons espectáculos e até em golos, não que estes sejam um indicador de bons jogos, mas pelo menos há quem veja as coisas dessa maneira…

Para o Inter estava reservada uma deslocação ao Stadio Renato Dall'Ara, para defrontar o Bolonha. O jogo até prometia algumas dificuldades. A equipa bolonhesa encontra-se na cauda da tabela, mas em Itália isso não quer dizer muita coisa. E o que não falta ao clube de Bolonha são bons jogadores – o que dizer de Marco Di Vaio, Marcelo Zalayeta e Adaílton, que é apenas o trio que ocupa, habitualmente, as zonas mais adiantadas do terreno? Ainda por cima, a equipa até vinha para este jogo debaixo do efeito vitamínico de chicotada psicológica. Franco Colomba – um ex-jogador do clube – assumiu o cargo de treinador há pouco tempo, e antes da recepção ao líder, até viu os seus pupilos vencerem a equipa do Palermo por concludentes 3-1.

Estruturados num sistema de jogo idêntico ao do Inter (4x3x1x2), os rossoblu, até não entraram mal no jogo, dando a iniciativa ao adversário, tentando, especialmente, explorar as costas da defesa nerazzurri através de passes longos para os seus homens mais adiantados.

Apesar de a equipa da casa ainda ter dado a ilusão de que iria discutir o jogo, sobretudo depois da resposta súbita e pronta ao primeiro golo dos visitantes, a verdade é que a equipa de José Mourinho acabou por vencer o jogo com relativa facilidade e nem foi necessário grande brilhantismo. O Inter neste jogo revelou a sua face menos radiosa, sem Wesley Sneijder (lesionado), o processo ofensivo ficou, à semelhança do passado recente, curto de ideias, no entanto, face à estratégia de contenção do adversário, acabou por ser suficiente para a conquista de mais três importantes pontos. Dois lances de bola parada e um ataque rápido no final do jogo quando o Bolonha, assumindo algum risco, já se encontrava mais subido no terreno acabaram por resolver a partida.

A outra face

É na Europa que a equipa de Mourinho tem revelado, de forma mais evidente, as suas debilidades. E agora o oponente era apenas a máquina de futebol ofensivo do Barcelona. As contas no grupo estão complicadas o que até levou Mourinho, na véspera do jogo, a emitir algumas declarações no sentido de aliviar a potencial pressão da sua equipa. E, seguramente, também certo da missão tremendamente complicada que iria ter de enfrentar na Catalunha.

Sem Sneijder novamente, a "posição dez" foi ocupada, como é habitual, por Dejan Stankovic, algo que muda substancialmente o jogar do Inter. Dejan Stankovic não é um organizador de jogo, é antes, um "rompedor", um jogador que procura mais os movimentos de ruptura com bola, normalmente em velocidade, e que também utiliza muito bem o seu remate de meia distância. Procura mais desequilibrar do que organizar. Thiago Motta, Javier Zanetti e Esteban Cambiasso foram os restantes elementos que compuseram o losango do meio campo nerazzurri, e, portanto, é fácil detectar que o futebol da equipa poderá ser tudo menos virtuoso.

É claro que do outro lado está uma equipa que é, actualmente, a perfeição a pisar os relvados. E ao ver Andres Iniesta, Xavi Hernandez, Pedro Rodriguez e outros, também facilmente se verifica que a míngua de uns é a abundância de outros. Virtuosismo é o que não falta em Camp Nou. Sobretudo quando esse virtuosismos todo está ao serviço de uma ordem colectiva que chega a ser vibrante para quem a contempla. Aliás, a ênfase na ordem colectiva torna-se bem evidente se se pensar que Lionel Messi e Zlatan Ibrahimovic, no jogo de ontem, nem chegaram a sair do banco.

O Inter foi completamente "engolido" pela máquina catalã, sem nunca ter conseguido esboçar a mais ténue reacção ao vendaval de futebol ofensivo e criativo que ocorreu no relvado de Camp Nou. José Mourinho ainda tentou e fez tudo o que tinha ao seu alcance. Lançou Mario Balotelli, Sulley Muntari e Ricardo Quaresma, alterou a estrutura da equipa para o 4x4x2 clássico e já na parte final para o 4x3x3, mas nada mudou o rumo dos acontecimentos.

A vida para José Mourinho na Liga dos Campeões não está fácil e sabe-se bem que a cobrança maior que lhe é feita incide precisamente no desempenho que tiver nesta prova.

A verdade é que o treinador português ainda está a pagar a factura das más opções que tomou para reforçar o plantel assim que chegou ao Giuseppe Meazza. Esse factor associado à crise económica mundial, levou a que agora, depois da inversão em termos de abordagem ao plantel e ao mercado, Mourinho tenha à disposição dois jogadores (Quaresma e Mancini) que custaram muito dinheiro e que não cabem nas suas contas, sendo que, em contrapartida, as opções de que dispõe que sirvam o seu actual sistema e modelo de jogo são escassas. Claro que ainda há a janela de mercado em Janeiro. Pode ser que Massimo Moratti se lembre de uma prenda de Natal...

Texto: Paulo Santos.
Imagem: GIUSEPPE CACACE/AFP/Getty Images.

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