Mourinho Digest: A diversidade táctica.
MOURINHO DIGEST:
A diversidade táctica do calcio
Apesar de permanentemente desvalorizado pela esmagadora maioria da crítica, o futebol italiano é dos mais ricos sob o ponto de vista táctico-técnico. Nos antípodas do calcio está o, tão aclamado pela mesma crítica, futebol inglês que sob esse mesmo ponto de vista é bastante débil. José Mourinho, naturalmente, sabe disso como ninguém, daí as suas declarações no final da época anterior assumindo que vencer o Scudetto foi a sua mais complicada conquista. Daí também as recentes declarações dando a entender que deseja regressar ao futebol inglês para nele desenvolver um projecto consistente, algo que ele apenas crê ser possível na Premier League.
De facto, apenas falando de sistemas de jogo, em Itália há de tudo – O Génova joga em 3x4x3, a Sampdoria joga em 4x4x2 clássico, o Nápoles joga em 3x5x2, a Fiorentina em 4x2x3x1, e por aí fora…
Naturalmente que este quadro é substancialmente diferente daquele que o treinador português encontrou em Inglaterra, onde 90% das equipas joga em 4x4x2 clássico. Natural também, acabou por ser o choque com esta realidade, e não foi apenas em termos de sistemas, mas também em termos de modelos de jogo, estes muito mais rígidos, nos quais o forte sentido posicional e a sólida organização defensiva são predicados da grande maioria das equipas.
Consolidação do 4x4x2
Quem anda minimamente atento à “aventura italiana” de José Mourinho, com certeza terá reparado que a agitação permanente vivida nos bancos do calcio durante a época passada deu lugar – "mind games" à parte – a uma maior serenidade esta época.
No fundo, essa serenidade do treinador português acaba por ser o reflexo natural de uma maior solidez no futebol da sua equipa em comparação com a época passada.
Para José Mourinho esta estará a ser a verdadeira primeira época em Itália. A anterior terá sido assim uma espécie de “época zero” em função, sobretudo, do rotundo falhanço nas contratações, algo que acabou por condicionar toda a estruturação do futebol nerazzurri.
Esta época foi preparada com mais convicções, começando pela consolidação de um sistema de jogo que tem sido estável até ao momento (4x4x2 losango). A perda de Ibrahimovic tem sido satisfatoriamente colmatada com a aquisição da dupla Eto'o/Milito, que até vai mais ao encontro do modelo de jogo do treinador português, desde logo pela maior capacidade de pressão, em zonas adiantadas do terreno, que esta dupla oferece em comparação com o sueco que é um avançado pouco dado a essas tarefas. Mas a grande aquisição desta temporada, aquela que mais fez revolucionar o modo de jogar do Inter, foi inquestionavelmente o holandês Wesley Sneijder. Na época anterior, após a quimera do 4x3x3, Mourinho começou a ensaiar o actual sistema, no entanto, porventura mais do que em qualquer outro, esta estrutura táctica pede um médio criativo que funcione como enganche com os avançados, ora o losango interista esteve sempre carecido desse jogador ao longo de toda a época, o que, não raras vezes, potenciou um futebol estéril de ideias e consequentemente muito previsível.
O que dizem as exibições e resultados até ao momento
Após um embaraçoso empate inaugural, em casa, frente ao modesto e recém-promovido Bari, o Inter levantou a cabeça através de uma tremenda humilhação imposta ao eterno rival A.C Milan. A partir daí, com excepção de uma derrota em Génova frente à Sampdoria onde Mourinho regressou ao malogrado 4x3x3, e de um empate na última jornada frente à A.S Roma, os nerazzurri apenas souberam vencer, com particular destaque para mais uma goleada, desta feita frente ao Génova, e em casa destes. Esta vitória teve também a particularidade de ter sido realizada com algumas limitações no plantel, o que fez Mourinho estruturar a sua equipa num novo sistema, o 4x3x2x1, com a segunda linha do meio campo a ser composta por Sneijder e Stankovic no apoio a Balotelli. Este jogo, aliás, teve particularidades tácticas interessantes, designadamente através das movimentações de Balotelli que descaindo para os corredores laterais arrastava consigo um dos três centrais genoveses, desobstruindo, assim, o espaço interior central para as entradas dos médios. Aliás, em Itália, Mourinho, não mudando a estrutura ou a identidade da sua equipa (não o fazer é um dos traços distintivos das suas equipas), não deixa de adoptar diferentes nuances estratégicas no seu modelo de jogo em função do adversário que enfrenta, na medida em que é difícil existirem dois adversários com formas de jogar idênticas, tal como acontece na Premiership.
Para o Calcio, o Inter tem chegado e sobrado. Ganhou mais mobilidade na frente com a já referida – pelo menos em teoria - melhor capacidade de pressionar alto, mas ganhou sobretudo criatividade, algo que foi, inquestionavelmente, a sua maior lacuna durante a época transacta. No entanto, a equipa está ainda longe daquilo que José Mourinho decerto pretenderá, e há alguns aspectos em que este Inter ainda não revela ser uma equipa consistente, algo que tem sido corroborado pela sua titubeante prestação na Liga dos Campeões.
Em termos de organização ofensiva, este Inter encontra-se excessivamente dependente da já referida influência de Sneijder, da profundidade de Maicon no corredor direito e da mobilidade de Eto'o e Milito – dupla que ainda não estará absolutamente entrosada, também devido a algumas lesões. A equipa revela também alguma dificuldade em jogar um futebol apoiado, caindo muitas vezes na tentação do jogo directo. Em termos de organização defensiva, a equipa, por vezes, baixa em demasia as suas linhas, mostrando dificuldades a defender em bloco alto (vícios antigos, porventura) e revela-se pouco agressiva no momento da perda da bola. Após estar em vantagem, também parecem baixar a intensidade do seu jogo, algo que também ficou bem patente no jogo em casa frente ao Palermo em que os nerazurri estando a ganhar por 4-0, viram o adversário reduzir, em pouco tempo, o resultado para 4-3. Apesar disto, a equipa de Mourinho segue isolada no primeiro lugar, e Juventus e Milan – os principais concorrentes – têm revelado também inúmeras inconsistências, pelo que, neste momento, não será exagerado dizer que o Inter é o mais forte e consistente candidato a reconquistar o scudetto. Já no que respeita ao grande sonho do seu presidente – a Champions – a coisa afigura-se um pouco mais complicada. No entanto, Mourinho já provou em ocasiões anteriores, que para as suas equipas não há missões impossíveis.
OBSERVATÓRIO VILLAS-BOAS:
André Villas-Boas – um novo Mourinho?
Nos últimos tempos aquele que um dia José Mourinho chegou a considerar como os seus “olhos e ouvidos”, decide dar o seu primeiro passo numa carreira que, seguramente, muito deseja. Fala-se de André Villas-Boas, o rapazinho que, segundo consta, um dia perdeu a vergonha e abordou o seu vizinho Bobby Robson dando a conhecer a este o seu enorme gosto pelo jogo – consta também, que desde muito cedo, o jovem Villas-Boas coleccionava cadernetas de futebol, devorava jornais desportivos e fazia compilações sobre os vários campeonatos de futebol. A partir desse momento e com o patrocínio do carismático treinador inglês, André Villas-Boas nunca mais parou de evoluir ao nível do estudo e conhecimento do jogo. Nos últimos anos andou sempre lado a lado com Mourinho, sendo o responsável pela observação e análise dos adversários de F.C. Porto, Chelsea e Inter. Agora apareceu a oportunidade na popular Académica de Coimbra, algo que o debutante treinador não enjeitou para dar início a uma almejada carreira de treinador principal. Para já, a inflexão exibicional dos estudantes já lhe valeu variados elogios e até o assédio do Sporting Clube de Portugal.
O jovem treinador acabou por resistir ao turbilhão de Alvalade (consta que Pinto da Costa também anda atento) e lá continuará em Coimbra onde o seu trabalho já se nota.
Tal como é referido no livro Mourinho – Porquê tantas vitórias?, há treinadores que precisam de mais tempo que outros para imporem o seu modelo de jogo, isto tendo em conta as respectivas metodologias de treino. O que é um facto, é a substantiva melhoria do futebol da equipa de Coimbra, com traços já bem perceptíveis daquilo que Villas-Boas pretenderá, designadamente uma maior valorização da posse de bola e um melhor jogo posicional – grandes axiomas do modelo de jogo preferencial de quem com ele tem trabalhado nos últimos anos.
André Villas-Boas saberá que terá de conviver com a pressão de ter uma extensa legião de jornalistas e críticos ávida há muito de um novo Mourinho, sobretudo depois dos fracassos de outros que também foram objecto de grandes expectativas, no entanto, a avaliar pela sua postura serena e descomplexada, parece que o jovem treinador tem tudo para continuar o seu prometedor percurso alheado desses factores de perturbação.
Texto: Paulo Santos.
Imagem: Valerio Pennicino/Getty Images.
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