Nathan Bordignon (Sporting Clube de Portugal) (Parte 1)

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Qui, 25.09.2008

O nome do nosso jogador de hoje pode induzir algumas pessoas em erro, pensando tratar-se de um jogador francês ou argentino. Nada disso, Nathan Bordignon é brasileiro, e joga no Sporting, equipa na qual ingressou há uma época e meia, em Janeiro de 2007. Recentemente, o avançado estreou-se no escalão de Juniores da equipa leonina, conseguindo alguns minutos na vitória frente ao Atlético (0-5). Para conhecer melhor este promissor valor da cantera leonina, falámos com o pai, Fernando Bordignon.

Bordignon sénior começa por explicar os inícios da carreira do filho, os quais estão intimamente ligados à carreira do irmão mais velho, Arghus (hoje futebolista profissional, a militar esta época no Juventude, do campeonato brasileiro). "Ele iniciou-se a jogar com 5 anos, acompanhando o irmão Arghus no futsal, como brincadeira com as categorias maiores", conta. "como tinha jeito, chutava com força e marcava muitos golos, foi convidado para participar de competições ao nível das escolinhas, vindo a destacar-se na nossa cidade, Canoas, uma povoação do Rio Grande do Sul com cerca de 400.000 habitantes". Assim estava lançada, de forma espontânea e involuntária, uma carreira de grande potencial.

Coleccionador de títulos

A partir das boas indicações que dava no futebol de salão, Nathan começou a ser convidado para participar em jogos tanto de futebol de campo como de futebol de praia. Conforme explica Fernando, "lá no Brasil, nós temos muitas opções: futsal, futebol de campo ou futebol de areia, de praia. Existem muitos campeonatos, ao contrário de Portugal, onde só existe um. Como no nosso estado há muitas competições, chegávamos a disputar 4 a 5 ao mesmo tempo, fazendo inclusive, várias vezes, jogos no mesmo dia para competições e equipas diferentes", continua Bordignon sénior. "Passávamos os fins de semana envolvidos nas mais variadas competições e viagens...a mãe dele não gostava muito, mas levávamo-la connosco, e ela acabou por partilhar connosco grandes emoções e aprender a gostar e a ajudar. E isso tudo a dobrar, porque quando se tem dois jogadores na família o que se faz para um tem que fazer igual para o outro. Isto torna-se ainda mais difícil quando eles estão em competições e escalões diferentes", conclui.

Foi nessa época que Nathan começou a "coleccionar troféus e medalhas", das quais tem hoje em casa uma colecção impressionante. Segundo o pai, Nathan possui - entre futsal, futebol de praia e de campo - "trinta e quatro títulos de campeão, trinta e cinco de melhor marcador, quatro destaques individuais em futsal e dois títulos de melhor marcador de todas as categorias do futsal de Canoas, com 75 golos em 2004 e 93 golos em 2005". Números impressionantes para quem conta ainda, apenas, 16 anos, e que indiciam sem dúvida um potencial fora do comum.

Viagem de ida e volta

Esse potencial, aliás, não passou despercebido a Fernando, que, quando Nathan contava nove anos, o levou a fazer testes no Grêmio, um dos principais clubes do panorama brasileiro. O avançado foi "aprovado de imediato, e passou a fazer parte daquele grupo de atletas". No entanto, não sem alguma polémica, derivada de um desentendimento com o treinador. "Na prelecção dentro do campo, o treinador queria que ele jogasse a ala esquerdo, como o irmão, dando-lhe a camisola 6. Mas ele não quis, devolveu-a e disse que iria esperar pela vaga de atacante...isto à frente do grupo todo. Fiquei perplexo, do outro lado da cerca" conta. "O treinador ficou irado e colocou-o no banco, para só o fazer entrar nos minutos finais...Assim que entrou, a atacante, fez um golo, conquistando o seu lugar. Depois do treino falámos sobre isso e sobre as oportunidades que aparecem, mas ele disse-me que o que ele queria mesmo era fazer golos, e que esperaria pela sua vez. Parece que já previa a sua carreira", conclui.

Nathan ingressava assim no mesmo clube de onde já tinham saído, ou viriam a sair, Ronaldinho, Polga e Anderson. Ali ficou dois anos e meio, antes de trocar o clube azul e negro pelo seu maior rival, o Internacional de Porto Alegre, em Maio de 2003.

No Internacional, Nathan Bordignon milita durante uma época e meia, conseguindo um título de campeão estadual na categoria sub-12. Em seguida, e numa jogada que poderá parecer algo surpreendente, o jovem avançado volta a ingressar no Grêmio, que o acolhe de volta de braços abertos, apesar de Nathan ter passado quase duas épocas no maior rival daquele clube.

Ao serviço do Grêmio, Nathan consegue novo título de campeão estadual, tornando-se protagonista de uma curiosa situação: a de ter conquistado o mesmo título ao serviço dos dois maiores rivais da cidade de Porto Alegre! Após este feito, o jovem mantém-se no clube até Março de 2006, altura em que volta a sair para representar o São José, clube de menores dimensões da mesma cidade. Segundo Fernando Bordignon, esta nova saída do Grêmio deveu-se "a umas políticas muito malucas", que levaram a que o pai do jovem avançado decidisse afastar o filho de polémicas potencialmente prejudiciais à sua carreira.

De realçar que, durante todo este percurso, Nathan vinha participando, pontualmente, em competições individuais, nas quais representava outros clubes, quer de futsal e futebol de praia, quer mesmo de futebol de onze. Tal possibilidade deveu-se ao fenómeno já atrás explicado por Fernando, segundo o qual os jovens brasileiros podem transitar livremente, por convite, de uma equipa para outra, para a realização de provas ocasionais.

Destino: Sporting

No São José, Nathan passa apenas seis meses antes de Fernando decidir que é hora de fazer progredir a carreira do filho; os dois empreendem então a viagem para Portugal, a fim de que Nathan se possa mostrar nos principais clubes do nosso país. Segundo refere o pai do jogador, o primeiro destino dos dois foi mesmo o Sporting. "O objectivo era realizar os testes para ingressar no Sporting ou posteriormente no Benfica, mas já tínhamos definido que iríamos tentar o Sporting por já sabermos da sua grande capacidade de formação de jovens jogadores". Aliás, Fernando já tinha tido oportunidade de experienciar essa qualidade em primeira mão, quando trouxera o filho mais velho, Arghus, para fazer testes no clube de Alvalade "O Arghus só não ficou porque não sabíamos que aqui em Portugal a idade para o escalão júnior era quase dois anos menor do que no Brasil", explica o pai dos dois jogadores. "Quando aqui chegámos, o campeonato já tinha começado e ele já estava no segundo ano de júnior". Por isso mesmo, Arghus não ficou. Mas quando chegou a vez de Nathan, não houve dúvidas - Alcochete foi a primeira paragem da dupla, que rapidamente poria de lado a hipótese de visitar a Luz.

"Só fizemos testes aqui no Sporting, onde chegámos em Janeiro de 2007", recorda. "fomos recebidos pelo Mr. Jean Paul e, posteriormente, pelo treinador Luís Gonçalves, que nos ajudaram muito nessa constante adaptação a tudo", frisa. Nathan ficaria, então, cerca de quatro meses à experiência, a fim de ser avaliado nas camadas jovens do clube leonino. Tinha, então, 14 anos, e encontrava-se sozinho num país novo e algo hostil, com apenas o pai para o ajudar.

Adaptação problemática

Segundo conta Fernando, esses foram tempos difíceis. "Estávamos  aqui sozinhos, só eu e ele, sem quaisquer conhecimentos ou ajuda de empresários ou agentes, o que torna tudo ainda mais difícil e duro", relembra. "Literalmente tivemos a ‘cara' e a coragem de enfrentar tudo e todos para seguir o sonho dele", conclui. Os dois instalaram-se então em Cascais, onde Fernando tinha um primo, e procuraram começar uma nova vida no seu país de acolhimento.

No entanto, não foi fácil. Para Nathan e Fernando, a vida em Portugal representou "uma mudança total: país, cultura, língua e tradições". Para além disso, o jovem de 15 anos tinha "a família longe, não tinha amigos, e era visto com total desconfiança pelos novos colegas de equipa dos Iniciados A", segundo conta Fernando. O pai do ponta-de-lança dos Juvenis considera essa frieza inicial "uma coisa natural", mas confessa que "na época foi muito forte superar esse conjunto de adversidades todas". Bordignon sénior lembra ainda que o filho foi obrigado a adaptar-se a "um novo sistema de tácticas, maneira de jogar e a novas palavras usadas aqui, como guarda-redes, baliza, lançamentos, livres, fora-de-jogo, trincos..."

Aprovado!

No entanto, e ao fim de "quatro longos meses a ir de Cascais à Academia de Alcochete, só para treinar, sem realizar jogos", Nathan vê o seu sonho concretizado. Depois de muitas sextas-feiras "em que nos era dada a informação se continuávamos ou não, e em que vimos alguns ser dispensados à nossa frente", o jovem dianteiro é informado da sua permanência no clube verde-e-branco. Estávamos então em Maio de 2007. Até Nathan começar a jogar, passar-se-iam ainda quatro meses, dedicados a conseguir, para o jovem ponta-de-lança, o visto de trabalho que lhe permitiria jogar em Portugal. Durante este tempo, o jovem treina-se com o grupo de que fará parte na época seguinte

Finalmente, em Setembro de 2007, a autorização é outorgada, ainda a tempo de Nathan ser inscrito na equipa que iria disputar o Campeonato Nacional de Juvenis B. Assim, oito meses depois da sua chegada a Portugal, o jovem pode finalmente começar a jogar. "A autorização para jogar veio somente na última semana antes do primeiro jogo do campeonato, contra o Benfica, para o qual foi convocado mas onde acabou por não jogar", relembra Fernando. Só no jogo seguinte se estrearia, e apenas por alguns minutos.


Texto: Pedro Benoliel.

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