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Nani fala sobre a sua vida desportiva no manchester United
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"Durante a última época, Paulo Bento não se cansou de lançar avisos a Nani. "É bom que saiba aprender a conviver com situações de sucesso", ou "Se chegar ao topo é difícil, manter-se lá custa muito mais" - estes foram alguns dos "recados" enviados pelo treinador. Houve também uma série de conversas privadas, onde o técnico alertou o extremo para situações... desviantes. Hoje, ao admitir que viveu uma fase má em Alvalade, Nani agradece as "lições": "Eu nunca tirei a razão ao Paulo Bento, mas ninguém gosta de estar sempre a levar na cabeça [risos]. O mister foi muito importante para mim, gosto muito dele e admiro bastante o seu trabalho. Nunca ninguém me ouviu contestar as suas palavras. Tenho a noção de que, quando falava, fazia-o apenas para o meu bem."
Passam alguns minutos das duas da tarde. Nani chega ao centro da pacata vila de Alderley Edge, a cerca de 20 quilómetros de Manchester, onde vivem as grandes estrelas dos "red devils". Cristiano Ronaldo, Rooney, Giggs, Rio Ferdinand ou Paul Scholes fazem parte da vizinhança do jovem Luís Carlos, um "puto com pinta" que cresceu no humilde bairro de Santa Filomena, na Amadora. Outros tempos. Hoje, Nani está mais adulto, mas, na luxuosa Alderley Edge, mantém a "pinta" e a timidez que cultivou no tempo de infância e adolescência.
Em exclusivo a O JOGO, o rei das assistências de Old Trafford confessa-se encantado... e revela um segredo: nem em sonhos contava ter um ano de estreia tão genial. A fórmula? A ambição, diz, é a base. O resto? Muito trabalho.
"Sinto-me muito feliz com aquilo que estou a viver aqui. É óbvio que tenho consciência do que se passa à minha volta, os resultados têm sido extraordinários, e, a nível pessoal, sei que estou a exceder as expectativas. Aliás, não tenho problemas em reconhecer que estou a superar as minhas próprias expectativas. Mas, atenção, trabalho com o propósito de fazer sempre melhor jogo após jogo. Treino sempre no máximo, pois quero ser melhor todos os dias. É essa filosofia e essa motivação que me têm vindo a ajudar nesta etapa da minha carreira", reconhece.
Sem pruridos nem surpresas, Nani conta que tomou o exemplo do amigo Ronaldo para se adaptar ao colosso inglês.
"A maneira como ele evoluiu é a forma como qualquer treinador gostaria que um jogador seu evoluísse. Aqui em Manchester, é assim. Em alguns jogos da época, fiquei fora das opções, mesmo em alturas nas quais me sentia bem e pensava que iria jogar. Isso também sucedeu com o Ronaldo. Estou aqui há apenas oito meses, mas sinto-me muito mais desenvolvido, a vários níveis. Cresci muito no aspecto mental, algo fundamental para evoluir neste meio, mas também me desenvolvi física e tecnicamente. Tenho a consciência de que, neste momento, sou um jogador fundamental para a equipa. E isso faz-me sentir bem."
É essa evolução, que se nota até na forma de estar, que Nani gosta de enfatizar. Além daquilo que os adeptos vêem nos relvados, o internacional português garante que, em terras de Sua Majestade, ganhou outra dimensão profissional.
"Num ano, aliás, em menos tempo do que isso, evoluí muito como pessoa e como jogador. Hoje, sinto-me mais maduro, evito muito coisa que não conseguia evitar nos tempos do Sporting, e isso permite-me agora estar mais concentrado no meu futebol. Não tenho problemas em admitir que hoje em dia sou mais profissional, tenho a noção de que melhorei em todos os aspectos. Reconheço que, em Portugal, passei por momentos complicados, que me afectaram, sobretudo, devido a alguma falta de maturidade. Mas todo o ser humano que pretende evoluir cresce e aprende com os erros. Fiz duas temporadas na equipa principal do Sporting, e não me parece que alguma delas tenha sido negativa. Contudo, reconheço que tive uma fase má, onde talvez tenha facilitado em alguns aspectos, não vale a pena pormenorizá-los. Mas agora estou diferente", assume.
"Vim para o sítio certo", dispara Nani, sem hesitações, na hora de avaliar a opção pelo Manchester United. "Existiam outras opções, garanto, mas este é um dos maiores clubes do mundo, onde ainda por cima já estão habituados a lidar com portugueses [Carlos Queiroz, Cristiano Ronaldo...]. Além disso, o Manchester United é perfeito na forma como sabe lançar os seus jogadores mais jovens, como aconteceu com o Ronaldo, e agora comigo e com o Anderson."
O camisola 17 tem confirmado, em Old Trafford, todas as potencialidades que o atraíram. Todas, e mais uma: além da grandeza, da forma peculiar de lidar com os portugueses e da experiência em lançar jovens na alta roda, Nani ficou surpreendido pela mentalidade aberta que reina no clube, gerando as inevitáveis comparações com Alvalade.
"A forma como se trabalha aqui é muito diferente daquela a que estava habituado. Mas adaptei-me sem problemas e tenho sabido evoluir bem. Até porque aqui somos mais livres, e, por incrível que pareça, não se sente tanto a pressão. Aquilo que nos é incutido no Manchester United passa por uma responsabilização total pelos nossos actos. Somos livres de fazer aquilo que nos apetecer, ninguém anda em cima de nós a controlar os nossos actos, mas todos temos a consciência de que somos os únicos responsáveis pelas nossas atitudes. Não podemos facilitar. Aqui, joga-se quase de três em três dias, e sabemos que, caso não treinemos no máximo do nosso empenho, isso se vai reflectir nos jogos, e os grandes responsáveis, e prejudicados, seremos nós. Temos de saber gerir a nossa carreira com liberdade e responsabilidade."
O extremo já experimentou o muito popular "hairdryer treatment" ("tratamento secador de cabelo") de Alex Ferguson, que, sempre que o rendimento dos jogadores o enfurece, descarrega num frente-a-frente sem direito de resposta: "Quase todos os jogadores do plantel já sentiram isso. Eu já sofri, admito [risos]. E podem ter a certeza: o treinador vai mesmo para cima dos jogadores, grita-nos na cara.
Na época de estreia em Old Trafford, Nani soma dez assistências, cotando-se como um dos melhores da equipa na arte de criar lances de golo. Entre Premiership, FA Cup, e Liga dos campeões, o camisola 17 já soma a tal dezena de "ofertas" que os companheiros transformaram em golos. Neste particular, esta temporada, o internacional português superou mesmo Cristiano Ronaldo, que se tem dedicado mais aos golos (só fez quatro assistências).
Nani, com três tentos apontados no primeiro ano como diabo vermelho, diz que servir os colegas e ajudar a equipa a vencer é... "fantástico".
"Dá-me um prazer enorme assistir os meus companheiros, pois sinto que sou importante para a equipa, e isso deixa-me radiante. Gosto de ter um papel activo no colectivo, prefiro esse papel a outro mais individual, no qual possa ser destacado pelo meu golo ou pela minha exibição, num jogo onde a equipa não atinja os seus objectivos. Assistir os meus companheiros para golo é uma felicidade enorme.", atira o extremo.
A Imprensa inglesa fartou-se de falar e escrever sobre um lance de Nani com Gallas, em jogo que opôs o Manchester United ao Arsenal (4-0) nos oitavos-de-final da FA Cup. Nani recebeu uma bola e, perante a oposição do gaulês, recreou-se com ela (vários toques de cabeça), motivando reacção intempestiva do camisola 10 dos "gunners". "Não acho que estivesse a dar baile, foi algo que saiu naturalmente e que as pessoas interpretaram de forma errada. Ao tentar dominar a bola, esta bateu mal, subiu, e foi a forma que encontrei para não a perder. Mas não fiz aquilo para gozar. Algumas pessoas do Arsenal estavam furiosas por outras coisas e descarregaram a sua fúria com essa história. Aliás, alguns elementos do Arsenal é que andaram a humilhar-nos, desprezando o nosso valor. Avisos do Ferguson? Mentira. Ninguém me chamou a atenção acerca disso", jura Nani.
Cristiano Ronaldo está a um golo de igualar George Best no papel do extremo que mais golos apontou com a camisola do Manchester United numa época (32). Bater esse recorde é algo que Nani vê como inevitável. Apesar disso, assegura que o amigo Cristiano não anda preocupado com esse registo nem obcecado em ultrapassá-lo. "Ele é fantástico, já leva 31 golos, e nem sequer é um ponta-de-lança. Eu acredito que ele irá bater esse recorde - será uma questão de tempo. Contudo, também sei que não é uma coisa que o preocupe. Nem sequer o oiço a falar muito sobre esse assunto, pois o principal para ele é ajudar o Manchester United a ganhar. Por acaso, há poucos dias falámos sobre isso, mas sem grande alarido." Quanto ao estatuto de Ronaldo no universo do futebol mundial, Nani não hesita: "Só quem não quer ver é que não reconhece o Ronaldo como o melhor jogador do mundo. Está a jogar ao mais alto nível, marca golos de forma espantosa, e não vejo ninguém fazer algo parecido. É lógico que nesta altura ele já é o melhor jogador do mundo."
No mesmo dia em que, no último Verão, contratou Nani ao Sporting, o Manchester United arrebatou também Anderson ao plantel do FC Porto. Duas jóias... a troco de mais de 50 milhões de euros! Agora que defendem interesses comuns, o ex-leão olha de outra maneira para o colega de profissão: "Tenho uma noção mais exacta quanto ao seu valor. Ele é tremendo, está a fazer grandes jogos. Passou por uma fase de adaptação, tal como eu, mas agora está em alta. Nos últimos jogos, esteve ao mais alto nível e assume já um papel importante na equipa."
Embora Nani tivesse uma cláusula de rescisão cifrada em 20 milhões de euros, o Manchester United, sabendo que o jogador estava em processo de renovação com o Sporting, teve a "simpatia" de pagar mais cinco milhões para satisfazer um dos objectivos de Alex Ferguson.
O primeiro jogo oficial de Nani com a camisola do Manchester United foi em 5 de Agosto de 2007, frente ao Chelsea (ainda) de José Mourinho, conquistando aí o seu primeiro troféu em Inglaterra (Community Shield).
O camisola 17 dos "diabos vermelhos" soma três golos pelo campeão inglês em título. O primeiro tento foi apontado aos londrinos do Tottenham - e garantiu três pontos à equipa.
No jogo dos oitavos- de-final da FA Cup, em que o Manchester United derrotou o Arsenal por 4-0, Nani foi terrível. Marcou um golo, o último até ao momento, fez duas assistências, ambas para Fletcher, e ainda iniciou a jogada que resultou no tento de Rooney. E ainda fez outras maldades de requinte (ver peça à parte).
Fonte: www.ojogo.pt
Imagem: John Peters/Manchester United via Getty Images.