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Pedro Mil-Homens no programa "Prós e Contras"
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(Numa altura em que o assunto da educação está em cima da mesa, o programa Pós e Contras, da RTP1, organizou um debate repleto de pessoas distintas, responsáveis pelo ensino em Portugal. Entre elas o Professor Pedro Mil-Homens (Director da Academia do Sporting), fala um pouco sobre os jovens jogadores e a educação que o desporto pode proporcionar.)
Professor Pedro Mil-Homens (Director da Academia do Sporting), falando sobre a educação dos nossos jovens no programa, da RTP1, Prós e Contras exibido no dia 3 de Março de 2008.
O Prof. Pedro Mil-Homens exemplifica como o desporto, neste caso o futebol, é um bom exemplo de educação, fazendo analogias com escolas preparatórias, secundárias, etc.:
" O desporto é um bom exemplo onde a avaliação não se discute. Não há, provavelmente, profissão onde, com mais frequência, os protagonistas sejam tão avaliados. Os treinadores são avaliados diariamente, onde os seus maiores avaliadores são os seus atletas."
" Um treinador de sucesso tem os seus atletas como os seus melhores propagandistas. E os próprios atletas são também avaliados, diariamente."
Falando mais especificamente sobre o processo de ensino na Academia de Alcochete:
"Nós procuramos implementar um sistema de avaliação, de todos, que teve o seu início mais formal quando tivemos alguém na nossa organização, vindo do meio empresarial. Era algo que o desportista, o técnico que trabalha no âmbito do desporto, não estava habituado. E isso aconteceu de 2002 para cá, naturalmente não com a dimensão das convulsões que assistimos hoje mas, com as reticências normais de alguém que não está habituado a um sistema de avaliação onde tem que, apontar ou objectivar num numero a competência dessa pessoa. Mas é algo que passa sempre por um processo de habituação."
Pedro Mil-Homens dá a sua opinião sobre o novo modelo de gestão das escolas, não afastando a realidade da Academia de Alcochete e explicando o próprio sistema da academia:
"Tomei nota de alguns tópicos que, acho que podia trazer ao debate. Mas, não gostava de perder esta oportunidade para dar uma visão, provavelmente contraditória. Com aquilo que nós vivemos, num contexto diferente, numa academia de futebol (que forma, em tese, jovens), futuros candidatos a futebolistas, como é que nós nos relacionamos com os pais? É algo que é contraditório. Se a escola hoje pode dizer (e eu tenho treinadores que são também professores em escolas secundárias, básicas) que os pais estão, hoje, afastados da escola, nós não temos a menor dificuldade em ter os pais interessados na vida desportiva dos seus filhos. Provavelmente muitos deles com alguma «impreparação», como dizia o Prof. Vila Verde Cabral, porque estão excessivamente centrados na pressão que exercem para o êxito desportivo dos seus filhos.
Muito centrados, muitas vezes, projectando naquele jovem aquilo que eles não foram como desportistas; naquele caso futebolistas. Isto leva-me a pensar se este mesmo pai, que tem o seu filho na sua escola, (porque nenhum dos nossos atletas não frequentam uma escola) se ele tem ou não tem a mesma preocupação, o mesmo grau de interesse, a mesma aproximação, aos professores, à outra parte dos professores, que formam (porque os nosso treinadores também são professores) e como formam os seus filhos.
E outro ponto que também acho muito curioso aqui dizer, penso que posso de alguma forma criar uma linha de união entre a posição que eu encontrei quando cheguei à academia entre a forma como, vamos chamar, os nossos educadores viam o papel dos pais, que era exactamente isto que acabou de caracterizar: algum afastamento. Os pais lá fora. Os pais fora da escola. Nós dissemos não! Os pais têm que estar connosco. E nós temos que falar com eles. E nós falamos. «Imputámos» daí, se calhar, aquilo que é, enfim, um critério, uma realidade da escola. Avaliamos, fazemos relatórios, escrevemos, escrevemos aos pais, falamos com eles.
Gostava de dizer que, por exemplo, no sentido de alguma forma os apetrechar no sentido das boas práticas, vamos iniciar um programa de desenvolvimento parental no desporto. Porque normalmente, e infelizmente, esse grande entusiasmo, esta grande participação, por um lado é positivo por outro lado tem o contraponto negativo da excessiva pressão, da excessiva exigência, da excessiva cobrança no desempenho desportivo dos jovens."
"Gostava também de dizer algo em relação à questão que, à bocado, o Prof. Lobo Antunes referia relativamente ao insucesso e ao abandono. Num microcosmos, óbvio que temos uma realidade diferente, não recrutamos na Av. De Roma. Na Av. De Roma não encontramos candidatos a bons futebolistas. Encontramos nos locais difíceis dos jovens desfavorecidos, que o Prof. Vila Verde à pouco mencionava. E portanto só temos um caminho: é não desistir. E quando temos jovens em risco de abandono escolar, jovens que no seu percurso escolar lá fora apenas tiveram insucesso, más notas, mau desempenho, encontramos soluções alternativas! Fomos o primeiro clube a criar um curso técnico Profissional em parceria com a escola local e o lema foi: não desistir."
Seguiu-se um pequeno diálogo com a moderadora do debate:
"O que é mais importante? O talento ou a vontade?"
"São precisas as duas coisas. Porque há aqueles que podem mas não querem. E há os que querendo muito vão sempre poder."
"É mais preciso trabalhar as pernas do jogador ou do pescoço para cima?"
"Diria que é do pescoço para cima."
O Prof. explica porquê:
"Normalmente um desportista, não nos centremos agora num futebolista, de eleição não vive do momento, não vive daquele momento onde sem cabeça mas com pés, mãos, ou qualquer outra parte do corpo conseguiu um dia uma boa performance. O grande desportista é aquele que fica na história e aquele que nós aplaudimos e elogiamos, e temos alguns felizmente em Portugal, são aqueles que conseguiram fazer isso de forma continuada. Que chegaram a um determinado patamar de rendimento e que foram capazes de manter durante mais tempo. O importante não é, talvez, chegar. O importante é ser capaz de se manter o mais tempo possível."
Prof. Pedro Mil-Homens fala sobre como ultrapassar bloqueios e situações de dificuldade:
"Eu gostava, exactamente, de retomar a tónica da intervenção do Prof. Lobo Antunes porque acho que, de uma forma geral, mais coisa menos coisa somos mais ou menos unânimes no diagnóstico. E quando temos um problema, e quando temos essa tendência, não sei se posso também usar essa palavra: a «car pidação» permanente, o caminho é normalmente uma porta que não se abre.
Nas equipas de alto rendimento desportivo, por exemplo, o que é que faz uma equipa num momento de grande bloqueio? Normalmente as soluções mais fáceis, mais imediatistas não resultam. A equipa não pode despedir todos os seus jogadores. Nós não podemos "mudar a sociedade" de uma vez só e normalmente a solução fácil de mudar de líder nem sempre tem os melhores resultados. Então as equipas o que fazem? Em primeiro lugar o que cada um de nós deve perguntar o que podemos fazer para nos superar a nós próprios? E todos nós temos uma actividade profissional! Intervimos em diferentes áreas da sociedade. Olhando agora para a apreciação que à pouco o Prof. António Câmara fazia daquilo que está hoje a acontecer nas Universidades, eu enquanto professor universitário qual a minha obrigação? É também nessa área dar o meu contributo para individualmente superar, como fazem os atletas quando têm que ultrapassar uma situação de dificuldade. E provavelmente aquilo que é o conjunto do nosso esforço, da nossa superação individual, da nossa palavra de optimismo (de que é possível dar um passo em frente), isso ajudara a ter uma palavra de optimismo e contrariar a tendência de assistir e de carpi dar sobre algo que é..."
"Nós cidadãos, que estamos aqui reunidos, acho que se pensarmos um bocadinho o que é que cada um de nós hoje fez melhor que ontem, procurará amanha fazer melhor que hoje."
"Todos temos que fazer. Professores e alunos também."
No meio de tudo isto, até se falou de Scolari:
"Não podemos só acreditar. Porque não se pode resumir, de forma alguma, um problema de fé. Temos que fazer. Temos que dar um passo em frente. Não é com certeza com a N. Senhora de Caravagio! Essa só faz milagres para o nosso amigo Luís Filipe Scolari. Não nos resolve este problema. Este problema é nosso."
"Os líderes desportivos, muitos deles, são muito supersticiosos."
Termina dizendo:
"O trabalho mental do acreditar, que é possível superar a nós próprios. E essa é provavelmente um contributo que a forma de estar dos desportistas, com "D" grande, no desporto pode ser aqui uma palavra de optimismo para o que vamos fazer amanha."
Fonte: RTP.pt
Texto: Pedro Salomão.