Afonso Martins
Nos últimos anos, as convocatórias dos escalões de formação da selecção nacional têm surpreendido muita gente com a chamada de jovens luso-descendentes. Anthony Lopes, Amaury Bischoff e Manuel da Costa são apenas alguns exemplos de jogadores cuja chamada causou surpresa aos seguidores das selecções principalmente por pouco se saber sobre a sua carreira futebolística.
Corria a época de 1994/1995, em plena campanha para o Euro Sub21 e qualificação para os Jogos Olímpicos de Atlanta, quando Nelo Vingada - então seleccionador nacional dos Sub21 - surpreendeu tudo e todos com um jovem que jogava em França e nunca tinha jogado em Portugal. O seu nome era Afonso Martins.
Os primeiros passos
Natural da Póvoa de Varzim, onde nasceu em 1973, Afonso Martins imigrou para França com a sua família quando ainda era criança. Nos meados da década de 90, existiam vários jogadores de origem lusa que despontavam em equipas gaulesas tais como Robert Pires (Metz) e Corentim Martins (Auxerre) eram os nomes mais sonantes, mas ao mesmo tempo Afonso Martins ganhava destaque no AS Nancy - o mesmo clube que lançou Manuel da Costa - clube reconhecido em França como uma das equipas com melhor aproveitamento das suas camadas jovens.
As exibições de Afonso Martins no Nancy, treinado por Lazlo Boloni, ao lado da estrela marroquina Moustapha Hadji, não passaram despercebidas a Nelo Vingada que não hesitou em chama-lo para os trabalhos da selecção de esperanças. Em 1995, num jogo contra a Letónia disputado em Viseu, Portugal vence por 4-0 com Afonso Martins a apontar o segundo golo da partida.
O regresso a Portugal
Em Alvalade, Santana Lopes era o presidente e prometera a Carlos Queiroz o reforço do plantel leonino com jogadores de qualidade. Em poucos dias, é anunciada a contratação de José Dominguez (mais um português a jogar num campeonato estrangeiro) enquanto o internacional irlandês Niall Quinn e o jovem Afonso Martins são indicados como próximos reforços. As qualidades do jovem luso não passaram despercebidas ao técnico leonino, conhecido pelas suas apostas em jovens jogadores.
Boa visão de jogo e qualidade de passe eram os predicados de Afonso Martins, um jogador esquerdino que tanto ocupava uma posição no centro do terreno, como podia fazer igualmente a ala esquerda do meio campo. Na época de estreia, e apesar de três trocas de treinador no Sporting, Afonso Martins realiza quase 30 jogos oficiais e aponta 4 golos pelos leões, dois deles apontados na meia-final da Taça de Portugal onde o Sporting eliminou o FC Porto por 2-0.
Na Selecção de Esperanças, Afonso Martins continua a jogar com regularidade nos jogos de qualificação para o Europeu da categoria. Em Outubro de 1995, na partida contra a Áustria, Afonso Martins aproveita a fraca visibilidade do terreno e aponta um golo de grande classe ao rematar da linha de meio campo, surpreendendo o guardião da equipa da casa. O jogo termina 1-0 e Portugal assegura a passagem à fase seguinte da competição onde iria defrontar a poderosa Itália capitaneada por Alessandro Del Piero. Portugal ficaria pelo caminho, mas uma vitória na primeira mão garantiu a qualificação para os Jogos Olímpicos de Atlanta.
No Verão de 1996, Nelo Vingada leva aos Estados Unidos uma equipa equilibrada, com jogadores consagrados como Emílio Peixe, os experientes Paulo Alves, Rui Bento e Nuno Capucho, e ainda promessas como Dani, Nuno Gomes e Beto (medalhados de bronze no Mundial de Sub-20 em 1995). Para Afonso Martins estava reservada a camisola 10 da equipa das quinas.
Pese embora os nomes importantes presentes na selecção nacional, o jogador em destaque na primeira partida, disputada contra a Tunísia, é Afonso Martins. Apontou os dois golos com que a equipa lusa derrotou a congénere da Tunísia e foi também o motor do ataque português. Até ao final do torneio olímpico, Afonso Martins apenas não é utilizado no último jogo da fase de grupos em que Portugal empata com a selecção da casa, sendo uma peça importante na equipa que alcançou o 4º lugar na competição.
Instabilidade no Sporting
Com a camisola nº 21 do Sporting, Afonso Martins foi jogando com regularidade mesmo com a concorrência de jogadores como Roberto Assis, Amunike, Pedro Barbosa e Moustapha Hadji.
Em 1996 além de ajudar o Sporting a atingir a final da Taça de Portugal, vence a Supertaça Cândido Oliveira depois da finalíssima realizada no Parque dos Príncipes em Paris. Em 1997, o Sporting qualifica-se pela primeira vez para a Liga dos Campeões ao assegurar o 2º lugar no campeonato.
Entre 1995 e 1998, o Sporting teve 7 treinadores: Carlos Queiroz, Fernando Mendes, Octávio Machado, Robert Waseige, Francisco Vital, Vicente Cantatore e Carlos Manuel. Apesar das constantes alterações no comando técnico leonino, Afonso Martins realiza uma média de 25 partidas por ano nas suas três primeiras épocas de leão ao peito.
A dispensa
Em 1998, Mirko Jozic é contratado para o comando técnico do Sporting. José Roquette, então presidente do Sporting, anuncia a intenção do Sporting começar a apostar no futebol de formação e que o croata tinha o perfil indicado para a tarefa após funções nas selecções jovens da ex - Jugoslávia.
É anunciada uma renovação no balneário em Alvalade onde jovens como Simão, Duscher, Delfim ou Quiroga surgiam como esperanças ao mesmo tempo que a maioria dos sportinguistas ficam chocados com a dispensa do carismático Oceano, o goleador Paulo Alves, os versáteis Pedro Martins e Pedrosa, tal como Afonso Martins. Perante este cenário, os jogadores vêem-se obrigados a procurar um novo clube para prosseguir a sua carreira, no entanto, Afonso Martins mantém-se intransigente. Crónicas referem que o salário auferido no Sporting era incomportável para outros clubes e o jogador não deixara claro que não abdicaria desse valor. Dispensado e sem encontrar um clube para jogar, Afonso Martins fica uma temporada a treinar à parte do plantel leonino.
Na temporada seguinte, apesar da saída de Mirko Jozic e contratação de Giuseppe Materazzi, Afonso Martins também não faz parte dos planos do técnico italiano. Seria apenas com a entrada de Augusto Inácio que Martins voltaria a ter uma oportunidade na equipa principal do Sporting. Num jogo a contar para a Taça de Portugal contra os Dragões Sandinenses, Afonso Martins contribui para a goleada apontando um dos três golos dos leões. Até ao final da época, Augusto Inácio volta a convocar o jogador sem no entanto o colocar em campo.
Equipa B
Após um curto regresso à equipa principal, Afonso Martins volta a eclipsar-se. Com o arranque da equipa B leonina, esta passa a ser a nova realidade para o jogador. Durante duas épocas, joga quase sempre como titular, sendo o jogador mais experiente e influente na manobra da equipa.
O renascer da carreira
Em 2002, o Moreirense assegura a subida ao principal escalão dos campeonatos nacionais. A equipa comandada por Manuel Machado contrata jogadores experientes como Demétrios, Vitor Pereira e Agostinho. De Alvalade, chega Afonso Martins que após 4 épocas consegue novamente uma oportunidade para mostrar o seu futebol ao mais alto nível. No regresso aos principais palcos nacionais, Afonso Martins revela-se um jogador fundamental na manutenção da equipa no I Liga, alinhando em 26 partidas e apontando sete golos.
As boas exibições em Moreira de Cónegos e a confiança de Manuel Machado fazem com que o treinador peça ao seu novo clube, o Vitória de Guimarães, para contratar o internacional português. Em Guimarães não consegue a mesma preponderância que no Moreirense e acaba por jogar apenas 12 partidas. No ano seguinte, regressa a Moreira de Cónegos e volta a realizar uma boa época, disputando 24 partidas e um golo marcado, curiosamente ao Sporting em Alvalade. No final da época, decide terminar a carreira por não encontrar um projecto aliciante.
Regressa em 2006, desta vez ao serviço do Lixa, clube que militava então na série A da II Divisão nacional. Realiza 16 jogos e marca dois golos. E assim terminava a sua atribulada carreira...
Hoje em dia é cada vez mais comum aproveitar jovens lusos emigrados ou descendentes de emigrantes portugueses. Pode-se dizer que Afonso Martins representou o inicio deste aproveitamento.
Poderia ter sido um jogador mais útil para o Sporting ou seria certamente um excelente reforço para qualquer equipa da I Liga. Um jogador com uma qualidade técnica acima da média mas que passou praticamente quatro anos em relvados demasiado "pequenos" para o seu futebol.
Texto: Hugo Malcato.
15.10.2008 13:08h | Ocultar ou Mostrar Comentários |
Jogadores
Tem que estar logado para poder comentar.
Caso ainda não tenha uma conta registe-se!