Bruno Basto (FC Shinnik Yaroslavl)
Se a posição de defesa-esquerdo é uma das maiores dores de cabeça do futebol português, onde poucos jogadores de qualidade inequívoca têm conseguido sobressair (basta atentar à lista dos convocados que nos representaram no último Europeu de Futebol, onde apenas Jorge Ribeiro, que nem sequer era uma das opções regulares de Luíz Felipe Scolari, era defesa-esquerdo de raiz), o que dizer da equipa do Benfica, onde essa posição tem sido uma verdadeira maldição nos últimos anos, pelo menos até à chegada do veterano Leo, que tomou de estaca a asa defensiva esquerda dos encarnados.
Desde o abandono do carismático capitão, António Veloso, em 1995, até à chegada do internacional brasileiro, Leo, em 2005, passaram-se 10 anos, em que dezenas de jogadores, muitos de qualidade duvidosa, tentaram impôr-se no lado esquerdo da defesa benfiquista, mas sem grande sucesso. A excepção que confirma a regra terá sido Dimas, que em duas épocas fechou o flanco canhoto do Benfica e da Selecção Nacional com grande competência. A partir daí, podemos enumerar os nomes: Escalona, Rojas, Miguelito, El Hadrioui, Steve Harkness, Emanuele Pesaresi, Quim Berto, ou Cristiano.
No meio desta lista de futebolistas, alguns mais outros menos vulgares, há um que se destaca. Não terá tido o sucesso e a unanimidade de outros defesas-esquerdos como Dimas ou Veloso, mas certamente tinha outro nível, bastante mais elevado do que o destes nomes que acabámos de enumerar, que são normalmente apelidados de flops. Falamos de Bruno Basto, jovem formado nas escolas do Benfica e cujo maior problema terá sido o facto de ter coincidido com a pior fase do passado recente dos encarnados.
Bruno Miguel Leite Basto, nascido e criado em Lisboa, é um defesa-esquerdo formado nas escolas do Benfica, do qual é adepto ferrenho confesso. Nos encarnados percorreu todos os escalões de formação, sempre como primeira escolha, assim como todos os escalões jovens internacionais. Era, por isso, encarado como uma das grandes promessas do futebol encarnado, assim como do futebol nacional.
Defesa-esquerdo moderno, com forte propensão atacante, Bruno Basto é um jogador extremamente veloz, com grande disponibilidade física, e bastante tecnicista, principalmente para a posição que ocupa no terreno de jogo. Contudo, sempre demonstrou grande instabilidade, que fazia com que alternasse momentos de verdadeiro génio, com outros de autêntico amadorismo, que faziam desesperar o mais calmo dos adeptos e o mais compreensivo dos treinadores. Mais comum eram, infelizmente, os cruzamentos disparatados, normalmente para lá da linha de fundo. Contudo, como era um jogador bastante raçudo, que colocava em campo tudo o que tinha e que sentia a camisola como poucos, o exigente terceiro anel da Luz acabava por se render ao empenho do jovem jogador. Um pouco como acontecia, recentemente, com o caso de João Pereira.
Bruno Basto começou a sua carreira profissional no Alverca, na altura o clube-satélite do Benfica, que aproveitava para lançar os seus jovens com mais valor e emprestar alguns dos excedentes do seu plantel principal. Foi no clube do Ribatejo que começaram várias promessas benfiquistas, desde Hugo Leal a Maniche, até Deco, Mantorras, ou Bruno Aguiar. Na primeira época na primeira divisão, Bruno Basto contribuiu para uma época tranquila, com 12 jogos efectuados.
Na temporada seguinte, o jovem explodiu de vez. Em meia-época, 25 jogos e 1 golo apontado chamaram a atenção dos responsáveis benquistas, que na reabertura do mercado de Inverno o chamaram de volta, para completar as lacunas da defesa encarnada, onde o inglês Scott Minto teimava em não convencer, numa equipa comandada por Graeme Souness, que chegara ao clube pela mão do recém-eleito João Vale e Azevedo.
Começou então o périplo de Bruno Basto no clube do seu coração. Em duas épocas, foi uma opção regular dos técnicos encarnados, primeiro o irascível Graeme Souness e depois o discreto Jupp Heynckes, num total bem respeitável de 55 partidas. Se por um lado continuava a exibir alguns sinais de imaturidade, em que se atrapalhava com a bola ou se perdia em cavalgadas desnecessárias pelo flanco esquerdo até para lá da linha de fundo, por outro Bruno Basto exaltava o estádio com pormenores de grande requinte técnico, aliados a muita dedicação, como no golo que marcou frente ao FC Porto - o único de águia ao peito -, numa arrancada brutal em que, depois de partir os rins a Secretário, penetrou na área portista e fuzilou Vitor Baia com o pé direito, fixando o marcador em 1-1.
Era visto como um jovem de grande potencial, onde poderia estar o futuro do Benfica e da própria selecção portuguesa, mas os dirigentes encarnados também viram nele uma excelente de oportunidade de negócio. Jupp Heynckes não via nele um defesa suficientemente consistente para lhe dar garantias e o Benfica aproveitou para fazer um importante encaixa financeiro, com uma transferência para o Bordéus, de França, onde iria mais tarde cruzar-se com outro português, Pedro Pauleta. Na altura, o negócio valeu uns impressionáveis 2 milhões de euros.
Bruno Basto passou quatro temporadas no Bordéus, onde exibiu sempre grande regularidade, actuando sempre como primeira escolha de Elie Baup. Sem nunca ter marcado nenhum golo, foi também aí que venceu o único título da sua carreira até há data: a Taça da Liga francesa, em 2002. Contudo, as aspirações modestas do clube nunca permitiram que Bruno Basto desenvolvesse o valor que se adivinhava: adquiriu maturidade e experiência suficiente por jogar num campeonato mais competitivo com regularidade, mas nunca conseguiu dar o passo decisivo na sua evolução futebolística, principalmente tecnicamente, onde fazia a diferença.
Por isso, após a saída do técnico Michel Pavon, Bruno Basto deixou de entrar nas contas do Bordéus e após uma época em que apenas foi utilizado numa partida, o jovem português mudou-se para a Holanda. Paulo Barbosa levou-o para o Feyenoord nesse Inverno, onde Ruud Gullit era um treinador em estado de graça, tentando atingir o título holandês com um plantel claramente desfavorecido no que diz respeito a defesas-esquerdos, onde só havia o dinamarquês Patrick Mtilinga, contratado ao Excelsior, da II Divisão. Bruno Basto conseguiu convencer a antiga glória laranja e até ao fim da temporada actuou em 18 partidas e fez o gosto ao pé por uma vez.
Contudo, na época seguinte, Bruno Basto voltou a conhecer o insucesso. Com um novo técnico, o jovem defesa-esquerdo deixou de entrar nas contas do Feyenoord e, após meia época sem actuar, acabou emprestado ao Saint-Etienne, voltando à liga francesa, onde havia deixado boas indicações Era apenas uma solução provisória para não permanecer inactivo e, no final da temporada, Bruno Basto regressava a Portugal para se juntar ao Nacional da Madeira.
Também não foi o regresso que, certamente, desejava. Duas épocas de escassa utilização, onde nunca atingiu o nível do Bruno Basto intempestuoso que havia deixado o Benfica há seis anos atrás. A meio da primeira temporada no Funchal, chegou inclusive a equacionar a saída, até porque se falava de uma proposta da União de Leiria e outra de Espanha. Bruno Basto pretendia jogar com regularidade, o que era legítimo num jovem de 28 anos, até porque ainda tinha a ambição de ainda conseguir chegar à selecção nacional, onde chegou a estar pré-seleccionado para o Mundial da Alemanha. Mas o destino dá muitas voltas e Bruno Basto acabou por terminar essa temporada no Nacional, uma vez que acabou por ganhar a titularidade numa fase em que Rui Alves deu um safanão na equipa.
A meio da época passada, novamente relegado para segunda escolha, Bruno Basto voltou a experimentar o estrangeiro, desta vez partindo para o gélido campeonato russo, ingressando no modesto Shinnik, orientado pela antiga vedeta do Benfica e do FC Porto, Sergei Yuran. Aproveitando o seu conhecimento pelo campeonato português, Yuran reforçou a sua equipa com a antiga promessa do Benfica e com o experiente defesa-central do Boavista, Ricardo Silva. Ambos foram uma aposta forte para que o clube conseguisse fugir à despromoção, mas apesar de ainda estarem abaixo da linha de água, o Shinnik tem demonstrado uma grande evolução, como demonstrou na recente vitória frente ao líder Dínamo de Moscovo, dos outros portugueses Danny e Custódio, por 3-1.
Aos 30 anos, Bruno Basto muito dificilmente conseguirá cumprir o seu sonho de ser internacional A por Portugal. Contudo, uma carreira muito respeitosa, com passagens por ligas relativamente bem competitivas, como a francesa e a holandesa, dão-lhe um certo estatuto bem superior ao de muitas promessas adiadas que passaram pelos grandes do nosso futebol. E poderá sempre lamentar que esteve no Benfica no seu período mais negro, que não lhe terá permitido ter o acompanhamento necessário no seu crescimento enquanto jogador.
Nome: Bruno Miguel Leite Basto.
Data de Nascimento: 21 de Maio de 1978 (30 anos).
Naturalidade: Lisboa, Portugal.
Altura: 1,75 m.
Peso: 73 kg.
Posição: Defesa-esquerdo.
Clubes: Alverca, Benfica, Bordéus, Feyenoord, Saint-Etienne, Nacional, Shinnik.
Texto: Pedro Soares.
04.09.2008 16:12h | Ocultar ou Mostrar Comentários |
Jogadores
Dia 05.09.2008, às 02:24, superkinas disse...
Mais um jogador fabricado em parte pela imprensa, a juntar a pepa, mawet etc.....
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