Carlos "O Professor" Queiroz (Parte 2)
Capítulo I
Adeus África Mãe
Os primórdios da história de Queiroz remontam a um período conturbado na sua terra Natal. Em regime colonialista português, viviam-se os últimos disparos de uma década de guerra da libertação e na sequência da revolução dos Cravos, em 25 de Junho de 1975, Moçambique torna-se independente.
Seguindo uma realidade de fluxo migratório, no mesmo ano da proclamação da identidade Moçambicana por Samora Machel, Queiroz deixa para trás a sua amadora carreira como guarda-redes no Ferroviário de Moçambique e parte de África à procura do sonho na Europa, ingressando no Instituto Superior de Educação Física de Lisboa, onde se licencia no curso de Educação Física com especialização em Futebol.
"Carlos Queiroz é um sábio no futebol. Muito organizado, sensato e aprumado, que dá confiança no que faz. De facto, ao nível do planeamento não há melhor."
Prof. Manuel Sérgio (Antigo docente do Instituto Superior de Educação Física).
Capítulo II
As primeiras lições do Professor
Terminada a sua formação académica no Instituto Superior de Educação Física, havia chegado a hora de colocar a teoria ao serviço da prática desportiva. Começando por baixo, inicia funções em jeito de estágio no escalão de infantis do modesto Sport Lisboa e Olivais da zona oriental de Lisboa.
Uma temporada mais tarde, mantém o trabalho com crianças mas com um acréscimo no grau de responsabilidade, ao assumir em 1983 o cargo de treinador dos infantis e iniciados do Belenenses. É através do convite do veteraníssimo Mário Wilson que promove um interregno na orientação das camadas jovens e se torna treinador adjunto do Estoril Praia em 1984.
Mas a Federação Portuguesa de Futebol - que já na altura seguia o trabalho de Queiroz - aborda-o no sentido de lhe propor a sua integração nos quadros da organização, com vista a desempenhar funções na área das camadas jovens nacionais. Assim, de 84 a 87 esteve sobre a asa de José Augusto, trabalhando como seu adjunto e assim cimentando passo a passo a sua influência no universo do futebol jovem nacional. Este percurso de iniciação serviu de base para o que viria.
Capítulo III
O Alquimista da Geração de Ouro
Passado o período de adaptação sobre a orientação de José Augusto, toma definitivamente as rédeas do futebol jovem nacional a partir do ano de 1988. Neste particular, fazendo a retrospectiva dos quatro anos os quais Queiroz esteve como homem forte desse departamento, é notável o trabalho por si realizado. Isto se levarmos em linha de conta que Portugal não tinha tradição nas selecções jovens e que, além de lutar contra o espírito derrotista instalado, nem a Federação Portuguesa de Futebol, nem os clubes, nem o futebol português em geral tinham os recursos financeiros, as infra-estruturas e as mais valias profissionais que possuem hoje em dia.
Falando em resultados concretos, e antes dos míticos títulos mundiais de Riade e Lisboa, em 88 foi finalista vencido do Europeu Sub-19 e Sub-17, este último que posteriormente venceu em 89. O expoente máximo na sua passagem pelo futebol jovem nacional, deu-se primeiramente 1989 no árido terreno Saudita e dois anos depois, ainda com mais calor, no Inferno da Luz ao som de 120 mil vozes lusitanas a celebrarem pela segunda vez a vitória no mundial de Juniores.
Não obstante da importância simbólica da inédita conquista desses troféus, talvez o grande legado que o Professor Queiroz passou a gerações vindouras, tenha sido a operação de mudança de mentalidade e valorização do jogador português num contexto interno e externo, ou seja, em Portugal e na Europa do futebol respectivamente, dando-se neste ponto o nascimento da verdadeira essência da conhecida expressão "Geração de Ouro".

Através da sua formação académica e da vasta pesquisa e investigação sobre os métodos utilizados no estrangeiro, Carlos Queiroz apostou forte na formação de jovens jogadores que tinha a seu cargo, tendo sido responsável pelo despertar do potencial futebolístico de vários talentos, iniciando-os na promissora caminhada futebolística que muitos conseguiram.
Tal como na escola, o Professor deu o primeiro passo na formação dos seus pupilos, sendo que da sua "sala de aula" saíram com distinção máxima "licenciados do Bom Futebol", casos de Luís Figo, Rui Costa, Fernando Couto e João Vieira Pinto, que posteriormente e no decorrer das suas carreiras tiraram os respectivos mestrados em grandes clubes do futebol europeu.
"As capacidades de Carlos Queiroz não se esgotam nas conquistas dos mundiais sub-20 de 89 e 91. Ele conseguiu operar uma revolução de mentalidade naquela geração e que serviu de exemplo para as gerações seguintes, que entenderam que o complexo de inferioridade que vivíamos nos anos anteriores não fazia sentido e a partir daí crescemos com outros princípios e valores. Para mim o verdadeiro significado de uma geração de ouro é aquela que influencia as gerações seguintes, e nenhuma como a de Queiroz conseguiu isso."
Luís Freitas Lobo (Comentador Desportivo).
Texto: Ivo Alves.
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