Cícero (Dínamo de Moscovo)
Em Janeiro de 2005 assistiu-se a uma verdadeira diáspora de vários futebolistas do nosso campeonato para o emblema russo do Dínamo de Moscovo, que preparava a sua época desportiva, que na Rússia só se inicia em Março devido ao rigoroso Inverno. O clube acabara de ser comprado pelo oligarca dos fertilizantes Alexey Fedorychev, que, à semelhança do seu compatriota Roman Abramovich, decidia injectar vários milhões de euros no reforço da sua nova equipa.
Como Fedorychev era um confesso e fervoroso entusiasta do futebol português, que, ainda para mais, tinha saído da sua página de maior sucesso internacional com a presença na final do Europeu de Futebol de 2004, os principais alvos do Dínamo de Moscovo acabaram por ser futebolistas a actuar no nosso país. E assim, foram vários os que rumaram para o campeonato do leste, aliciados pelos milhões oferecidos pelo magnata russo.
O FC Porto, que acabara de se sagrar campeão europeu, foi quem mais lucrou com o negócio, uma vez que transferiu várias das suas estrelas para o Dínamo: Derlei, Maniche, Costinha, Seitaridis e Nuno Espírito Santo, para não mencionar o defesa-central brasileiro Thiago Silva, que actuava na formação secundária azul e branca. Mas muitos outros jogadores lusos fizeram o mesmo percurso: Danny, Luís Loureiro, Jorge Ribeiro, Custódio, Frechaut e Cícero.
Contudo, a política desportiva de Alexei Fedorychev viria a revelar-se um fracasso, com a maioria dos jogadores portugueses a alegarem inadaptação com o clima, a cultura e a língua russa e a entrarem em choque com os vários técnicos do Dínamo de Moscovo. A época foi, inclusive, um desastre e o clube só conseguiu garantir a manutenção nas últimas jornadas. Por isso, não foi de admirar que, um a um, os jogadores lusos começassem a abandonar o clube e a regressar na sua maioria a casa.
Agora, três anos volvidos, são apenas três os atletas que por lá permanecem, a saber: Danny, o caso de maior sucesso destes todos, afirmando-se mesmo como uma das estrelas do campeonato russo; Custódio, que foi o último a chegar, mas que também nunca conseguiu vingar; e Cícero, jovem promessa do futebol nacional, que vai alternando momentos bons com outros menos bons e a quem esta prosa é dedicada.
Natural de Seia, onde se revelou para o futebol, Cícero Casimiro Sanches Semedo foi descoberto pela prospecção do Sporting de Braga no final de 2003, altura em que trocou os juniores do Desportivo de Seia pela formação secundária bracarense, entretanto extinta. Na sua primeira época como profissional, Cícero mostrou na Segunda Divisão B todos os predicados que levaram à sua contratação: um ponta-de-lança forte e fisicamente poderoso, capaz de acrescentar peso e força na frente de ataque da sua equipa, mas tecnicamente dotado o suficiente para jogar de costas para a baliza.
Com uma facilidade de remate nata, instinto muito importante nos pontas-de-lança, e bom jogo de cabeça, Cícero demonstrava apenas lacunas na finalização, o que faziam dele um diamante que necessitava ainda de ser trabalhado. Mas dada a sua precoce idade, a sua margem de progressão era, portanto, excepcional.
Numa época em que fez parceria com Edinho, avançado goleador que agora representa as cores do AEK de Atenas, depois de ter relançado com sucesso a sua carreira no Vitória de Setúbal, Cícero foi trabalhado pelo técnico António Caldas nesse sentido, sob o olhar atento de Jesualdo Ferreira que, na temporada seguinte, não teve dúvidas em integrar o avançado nos treinos da equipa principal do Sporting de Braga.
Por essa altura, Cícero era já internacional jovem e começava a ser chamado com alguma regularidade à selecção nacional de esperanças, onde trazia características muito específicas à equipa: acrescentava centímetros ao ataque luso e poder de choque para complementar uma frente de ataque muito técnica, que evoluía sobretudo pelas alas, com Ricardo Quaresma, por exemplo.
Apesar de não ser a primeira escolha de Jesualdo Ferreira, começou a ter uma presença importante no arsenal bracarense na primeira metade da época de 2004/2005. Utilizado sempre como suplente saído do banco em casos de aperto, Cícero destacou-se sobretudo numa partida a contar para o campeonato frente ao Estoril, em que selou a vitória da sua equipa por 2-0 nos últimos minutos do desafio, com um tento que foi um misto de técnica e de força. Foi o único golo oficial com a camisola do Sporting de Braga, mas tornara-se um excelente cartão de visita.
Abriu-se então o mercado de transferências de Inverno e Alexei Fedorychev atacou o campeonato português. Depois de ter estado a treinar à experiência nos ingleses do Newcastle, de uma liga que se adequava às suas características, Cícero mudava-se para o Dínamo de Moscovo com apenas 18 anos. O Sporting de Braga encaixou nos seus cofres pela transferência cerca de 2,5 milhões de euros, depois de ter gasto apenas 250(!) euros na sua contratação ao Desportivo de Seia.
Em apenas dois anos, Cícero havia tido uma valorização meteórica, mas com a mudança para o futebol gelado da Rússia, a carreira do promissor avançado nacional estagnou. Primeiro, foram as dificuldades de adaptação ao clima e o choque cultural; depois, a instabilidade desportiva do Dínamo de Moscovo; e, por fim, as poucas chances dadas pelos vários técnicos, nomeadamente Andrey Kobelev.
O percurso de Cícero no Dínamo de Moscovo tem sido então uma montanha-russa de altos e baixos, com momentos positivos e outros claramente negativos. O problema é que estes são em bem maior número que os positivos. Mesmo assim, Cícero tem-se revelado num avançado importante para o Dínamo de Moscovo, integrando-se bem no futebol mais físico do campeonato russo.
A sua melhor temporada foi, curiosamente, aquela em que chegou à Rússia. Em 11 jogos, o ponta-de-lança português alcançou 3 golos, o que o fez manter-se nas convocatórias da selecção portuguesa de sub-20 durante algum tempo. Contudo, com o apagamento do registo do avançado nas épocas seguintes, o seu nome também começou a deixar de aparecer nas convocatórias nacionais.
Esta última temporada está a ser a menos famosa de Cícero desde que chegou ao Dínamo de Moscovo. Apesar do seu clube liderar o campeonato, o jovem avançado português não tem sido opção do treinador Andrey Kobelev, ao contrário do seu compatriota Danny, que continua a ser o grande líder da equipa dentro das quatro linhas. Esta sua condição actual não é nada propícia para um jovem jogador, ainda para mais quando não confirmou todas as potencialidades que demonstrou nos seus primeiros anos de profissional. O avançado português tem marcado cada vez menos golos e, como são os tentos o principal barómetro de aferição da qualidade de um ponta-de-lança, Cícero tem jogado cada vez menos. E como sem jogar não pode marcar golos, o jovem está preso num autêntico ciclo vicioso.
Com os planteis fechados e o mercado de transferências prestes a encerrar-se, Cícero parece que irá permanecer em Moscovo, pelo menos até Dezembro. Terá aí, quiçá, uma importante oportunidade para relançar a sua carreira, num momento decisivo em que tem todo o seu futuro nas pontas das suas chuteiras.
Nome: Cícero Casimiro Sanches Semedo.
Data de Nascimento: 8 de Maio de 1986 (22 anos).
Naturalidade: Seia, Portugal.
Altura: 1,89m.
Peso: 85kg.
Posição: Ponta-de-lança.
Clubes: Sporting de Braga B, Sporting de Braga, Dínamo de Moscovo.
Texto: Pedro Soares.
10.08.2008 19:06h | Ocultar ou Mostrar Comentários |
Jogadores
Dia 16.08.2008, às 17:41, MSantos disse...
Este texto contém algumas imprecisões.
Cícero foi contratado em 2001 pelo Braga, para a sua equipa satélite de Juvenis B - Bairro da Misericórdia. No ano seguinte transitou para os Juvenis A do Braga alinhando pontualmente pelos Juniores. No ano posterior, já como júnior, alinhava pela equipa júnior e algumas vezes pela equipa B.
Na temporada seguinte, 2004/2005, já como 2o ano de júnior, integrou o plantel A do Braga, sendo vendido em Dezembro.
Dia 05.09.2008, às 21:09, qwerty disse...
O Cícero esteve aleijado desde fevereiro!
Só recuperou agora!
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