Freddy Adu (Sport Lisboa e Benfica)
Os Estados Unidos da América são um país relativamente recente, sem uma História palpável, fundado no século XVIII por colonizadores ingleses, ex-prisioneiros, degenerados, bandidos e fugitivos à procura de uma vida melhor, naquela terra que se abria como uma nova oportunidade, afigurando-se como uma espécie de "Eldorado". Tendo em conta estas particularidades, compreendemos facilmente que os norte-americanos tanto apreciem os seus "american heroes", indivíduos que conseguiram vingar na vida aparte todas as contrariedades que sofreram, abraçando aquilo que eles, orgulhosamente, apelidam de o sonho americano: sucesso, bem-estar, dinheiro, fama e reputação, todos eles construídos a partir do zero.
O ganês naturalizado com a cidadania norte-americana, Freddy Adu (02/06/89), é o exemplo perfeito do herói americano, que a partir do nada conseguiu criar uma história de sucesso, na boa tradição norte-americana. Ora vejamos: nascido na cidade costeira do Gana, Tema, Fredua Koranteg Adu cresceu numa família com grandes dificuldades, enfrentando a fome, a pobreza e a doença num dos mais sub-desenvolvidos países africanos do Terceiro Mundo.
Contudo, a sorte do pequeno Adu começou a alterar-se quando este tinha apenas oito anos de idade. Afortunadamente, a sua mãe venceu um dos chamados Cartões Verdes norte-americanos, uma espécie de lotaria que possibilita, todos os anos, que 50 000 pessoas provenientes aleatoriamente de países do Terceiro Mundo se possam mudar para os Estados Unidos, ao abrigo de uma conduta que apela à "diversidade de emigrantes", ou não fosse aquela a terra das oportunidades. Freddy Adu e a sua família mudaram-se então para os Estados Unidos, escapando assim a uma vida de miséria anunciada.
Já com a naturalidade norte-americana, a estória da ascensão de Freddy Adu inicia-se pouco depois, nos arredores de Washington: entusiasta do futebol, que já praticava no seu país natal, onde jogava junto no meio dos homens, Freddy Adu é descoberto por um olheiro que, reconhecendo as suas potencialidades, o convida a ingressar numa equipa de futebol, onde é integrado junto de rapazes mais velhos. E assim, durante dois anos, Adu tem a possibilidade de fazer a sua formação escolar agraciado com várias bolsas de desporto, destinadas a jovens com grandes aptidões desportivas.
É então que, com todas as condições para mostrar o seu verdadeiro talento, Freddy Adu começa a despontar. Com apenas 10 anos, Adu brilha num torneio sub-14 organizado pelo Comité Olímpico norte-americano, onde conduz a sua equipa à vitória, deixando pelo caminho alguns colossos europeus, como a AS Roma ou a Juventus. Além disso, o jovem Adu foi ainda o rei dos marcadores e considerado o melhor jogador da competição. Pela primeira vez, o mundo do futebol internacional começava a ouvir falar naquele nome. E pela primeira vez, foram veiculadas notícias que revelavam o interesse de grandes emblemas do Velho Continente nos préstimos daquele precoce prodígio.
Foi inclusive noticiado a existência de uma proposta do Inter de Milão para a sua contratação, mas que foi prontamente recusada pela sua própria mãe, mais interessada em resguardar o seu rebento do que no dinheiro.
O futuro de Freddy Adu estava lançado e a partir daí a ascensão foi vertiginosa, ainda que passo a passo. Com apenas 14 anos, Adu já assinara contrato profissional com o DC United, da principal liga norte-americana e já era internacional por todas as selecções jovens dos Estados Unidos. O facto de ser tão precoce, fizeram com que tenha vindo a derrubar vários recordes na sua curta carreira, a saber: o atleta mais novo de sempre a assinar um contrato profissional nos Estados Unidos, o jogador mais novo a actuar numa liga profissional norte-americana, o jogador mais novo a envergar a camisola da selecção principal dos Estados Unidos, o segundo jogador a disputar três Campeonatos do Mundo de Sub-20 e o primeiro a conseguir um hat-trick num Mundial de Sub-17 e de sub-20.
Naturalmente, as atenções de todo o Mundo passaram a estar focadas naquele menino, que apesar da tenra idade, se debatia no campo de igual para igual com homens bem mais velhos. Começaram a surgir também notícias do interesse de vários clubes europeus na sua contratação: o Chelsea, o Real Madrid ou o Manchester United, tendo estado, inclusive, à experiência neste último em 2006. Contudo, não pôde efectuar nenhum jogo pela equipa de reservas do Manchester United devido à falta de uma licença de trabalho.
É certo que Freddy Adu é uma força da natureza, um prodígio do futebol demasiado precoce e a quem o futuro parece sorrir. Contudo, não convém entrar em histeria, porque, como todos sabemos, se o crescimento do jogador não for acompanhado corre-se o risco de este se perder no marasmo do futebol vulgar. Basta relembrar o caso bem famoso de Nii Lamptey...
Mas é indiscutível que Freddy Adu tem tudo para vingar ao mais alto nível: velocidade, técnica superior com ambos os pés, poder de remate, sem medo de partir para cima do adversário e assumir a responsabilidade, exímio cobrador de grandes penalidades e fantasista - características que o tornam num atacante imprevisível e perigoso, quer pelas faixas ofensivas do terreno, quer na posição de segundo avançado, a servir o ponta-de-lança.
No campeonato norte-americano, Freddy Adu actuou em dois clubes: no DC United, onde despontou e mais brilhou, e pelo qual actuou em 87 partidas em três anos, facturando por 11 vezes; e no Real Salt Lake, emblema pelo qual actuou por 11 vezes durante uma época e marcando dois golos. Mas aqui as coisas não correram propriamente bem: Adu, encostado à linha pelo seu treinador numa posição bem menos móvel do que estava habituado, tardava em encontrar-se com as boas exibições a que tinha habituado os adeptos e parecia tardar em afirmar-se em definitivo ao mais alto nível. Além disso, o interesse dos clubes do outro lado do Atlântico parecia ter esfriado, talvez desconfiados pelo facto de disputar uma liga pouco competitiva como a norte-americana.
Contudo, o Mundial de Sub-20 de 2007, no Canadá, veio dar nova reviravolta na carreira de Adu. Depois das boas exibições que assinou, envergando a braçadeira de capitão, Adu destacou-se ainda com dois tentos, um dos quais de belo efeito, sendo unanimamente considerado como um dos melhores da competição. O apetite dos clubes europeus voltou a aguçar-se. E o Benfica não perdeu tempo em avançar para a sua contratação, por 2 milhões de dólares, no início desta época desportiva. Apostado em reforçar-se com jovens de valor inequívoco, o Benfica viu no jovem avançado o jogador ideal para reforçar as suas alas de ataque.
Os primeiros tempos de Adu de águia ao peito foram de adaptação. Depois de uns primeiros momentos de euforia, foi possível confirmar os piores receios: o jogador ainda apresentava lacunas na componente táctica, que o impossibilitou de pegar de estaca na equipa encarnada. Contudo, sempre que foi chamado acabou por cumprir, facturando em jogos decisivos e acabando mesmo por salvar a equipa em duas eliminatórias da Taça da Liga, chegando a esta altura da época como um dos melhores marcadores da equipa, apesar do escasso tempo de utilização: cinco golos em 15 jogos incompletos.
Esta poderá não ter sido a época que muitos esperavam para Freddy Adu, mas talvez tenha sido a melhor: um passo seguro na sua caminhada rumo ao topo do sucesso internacional, integrando uma equipa com visibilidade internacional, que lhe permite aprender, crescer e integrar-se aos poucos no exigente futebol europeu. E a sua humildade, assim como a sua disponibilidade em aprender e a levar ao limite as suas capacidades, que já mostrou por várias vezes, acabam por deixar no ar muitas esperanças no seu futuro.
Pode-se acusar o Benfica de não apostar mais no jovem avançado, talvez não tantas vezes como tem sido o argentino Ángel Di María (14/02/88). Mas para já, nota-se em Freddy Adu um jogador mais crescido, cada vez mais ciente do seu papel em jogo, tacticamente evoluído e com uma consciência mais apurada do jogo de equipa. Se Adu conseguir conjugar todos estes factores com a sua capacidade de explosão e a sua técnica apurada, a próxima época poderá muito bem ser a de afirmação para o norte-americano.
Texto: Pedro Soares.
Imagem: FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images.
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